Corona
10 Malorie
Notas iniciais
Perguntei aos Weasley, depois de um apressado e farto banquete, como eles iriam até o sétimo andar passando despercebidos. Quero dizer, havia sido uma baita sorte nenhum professor ou até mesmo Filch ter vindo dar uma checada rápida na cozinha, então eu estava bastante feliz da minha Sala Comunal ser tão perto. Eles apenas sorriram um para o outro e apertaram minhas mãos daquele jeito sarcástico, mas Fred (com certeza era ele, pois tinha um sorriso ainda pior do que o dor irmão) ainda me fez uma última pergunta.
— De desordeira para desordeiro, o que fez na Floresta Proibida? Já nos enfiamos lá varias vezes, mas nunca fomos capazes de passar uma noite.
— Meu caro e precioso ruivo sardento — eu lhe fiz a mesma reverencia irônica que ele me fez. — Uma garota precisa de seus segredos.
Isso fez ele rir enquanto se juntava ao irmão e me fez ir com passos leves em direção a masmorra. Conhecer os gêmeos havia sido a melhor coisa no meu dia extraordinariamente longo e desagradável desde que deixei a Floresta, e eu conseguia até mesmo criar esperanças de o terminar dessa forma. Já eram quase meia noite, afinal. Não podia haver tantas pessoas na Sala Comunal à essa hora, certo?
— Mal! Merlin, é você!
Yep. Nada discreta, Greengrass. Acho que ela ia me segurar ou algo assim, mas deve ter se lembrado de como quase levei seu braço embora da ultima vez. Invés disso, tocou meu pulso com uma calma que não estava em seus olhos. Pela primeira vez na vida experimentei a sensação de culpa. Era claro que Daphne havia se preocupado comigo, isso estava em toda sua cara e era algo que com certeza não estava acostumada, então franzi as sobrancelhas.
— Em carne, osso e magia — respondi arqueando uma sobrancelha. — Para que tudo isso?
— Para que...?! — Os lábios dela se apertaram antes que ela respirasse fundo. — Vem, por favor, vamos para o dormitório. Temos que conversar. Todas nós.
Segui o olhar dela até a extremidade do Salão, encontrando Parkinson, Bulstrode e Hopkins meio paradas e meio em movimento perto da escada que dava para o dormitório. Por um momento, cogitei fugir da clara reunião e me acomodar em alguma poltrona ou sofá perto da lareira, mas então vi Draco Malfoy. Ele estava com Nott e Zabini, além de Crabbe e Goyle. Theodoro tinha a fala dessa vez, mas o loiro sequer fingia que estava prestando atenção enquanto tinha os olhos gelados em mim. Cogitei minhas opções e entre mais um embate com Draco e uma emboscada feminina, me encaminhei até o dormitório.
— Se têm algum discurso decorado, já vou dizendo que sou muito boa em dormir com alguém falando comigo.
— Cale a boca e escute, Lewis — Parkinson disparou para mim, mas tinha os cantos dos lábios torcidos para cima. — Eu devia te azarar aqui e agora por todo stress que fez Greengrass passar.
— Eu me preocuparia se você fosse capaz de algo além de rosnar, Pansy — cantei para ela enquanto me jogava na minha própria cama. Estava tudo exatamente do jeito que deixei e isso fez algo dentro de mim se desarmar um pouco. Vamos apenas dizer que eu estaria muito mais inclinada a uma briga se houvessem mexido nas minhas coisas. — Mas para quê tudo isso? Eu estou bem.
— Mas não sabíamos que estava bem, Mal — Sue me respondeu sentada na sua cama, com Bulstrode encaixada no canto dela. Colocou uma perna embaixo de si enquanto Pam estava encostada no dossel da cama dela e Daphne... se sentou na minha cama. — Você apenas foi embora e não voltou mais. Ficamos preocupadas.
— Eu disse que você sabia se cuidar — Parkinson protestou, os braços cruzados e os olhos puxados estreitos. — Alguém que lança um feitiço daquela intensidade pode muito bem vigiar as próprias costas. Aliás, qual foi? Não foi... normal.
— Não pensei em nada — devolvi para ela. — Só queria jogar Malfoy longe e não estava perto o suficiente para fazer isso com as mãos, então desejei que acontecesse.
— É uma magia selvagem a sua — Daphne encolheu os ombros, mas ainda me parecia tensa o bastante para servir de sustentação para o castelo. — Mesmo assim, a Floresta é perigosa demais e você só tem onze anos, igual todo mundo, por mais talentosa que seja. É ótimo que tenha dado tudo certo, mas poderia ter dado muito errado.
Não havia como contestar isso e nem como continuar a me defender sem entregar Lagrum para elas. Era verdade que, sem a companhia dele, eu talvez não tivesse passado a noite tão tranquila, então tentei ser compreensiva. Era uma sensação estranha e agradável ver a preocupação genuína nos olhos claros de Greengrass e não apenas nos dela. Pansy não tirava os olhos de mim e Sue não parava de mexer os pés. Até Bulstrode estava ali, na pequena intervenção.
— Escute, Daphy — me inclinei o bastante para segurar seu ombro e o apertar da forma mais reconfortante que consegui. Meu contato mais intimo era com uma cobra, peguem leve. — Não me arrependo de ter feito o que fiz, nenhuma parte, mas sinto muito que tenha preocupado a vocês. Eu sou órfã e no orfanato sou apenas mais uma entre dezenas, então me explicar e me preocupar com os sentimentos alheios não são coisas que eu esteja acostumada. Mas saibam que eu sei me cuidar, okay? Eu sobrevivi até hoje, não sobrevivi?
Consegui que ela esquecesse a Floresta, claro que consegui. Ninguém mais iria me importunar com esse assunto, preocupadas em dizer o quanto eu devia estar assustada e em quanto eu tive sorte. O assunto havia sido encerrado e habilmente trocado, pois agora todas elas estavam olhando para minhas mãos. A única parte realmente exposta do meu corpo, visto que Greta evitava mirar no rosto e meu pescoço era camuflado pelo cabelo. Greengrass precisou apenas virar o pescoço para encarar minha pele mutilada e maltratada, as cicatrizes finas, rasas, curtas e fundas, uma mistura de todas se sobressaindo uma a outra. Não era algo bonito e nem mesmo algo que passava despercebido.
Lagrum dizia que eram minhas escamas e era sua forma de me fazer alegre. Ele me contou uma história uma vez, sobre uma antiga cobra-rei e a forma como salvou a quem lhe era querido ao se sacrificar, perdendo sua visão para sempre e tendo o corpo eternamente marcado. Eu gostava muito dessa história, mesmo que fosse uma para cobras. Ele havia me contato ela quase no mesmo dia em que nos conhecemos, o que só me mostrava como ele já havia crescido o bastante mesmo filhote, assim como eu.
— Mal... — Daphy começou, mas eu dei um sorriso para elas, piscando um olho.
— Certas coisas não merecem mais atenção do que já receberem. — Encerrei o assunto antes que ele começasse. Se eu fosse discursar sobre minha miserável e dolorida infância... Salazar me ajude, não sairíamos daqui e eu as mataria se me olhassem com algo sequer parecido com compaixão. — Como foi na minha ausência? Alguma coisa interessante?
— Draco Malfoy, ele... — Emily começou antes de levar um cutucão de Sue. Estreitei os olhos.
— O que aquele quadrupede fez agora? — Ele obviamente havia feito alguma coisa. A cara emburrada de Daphne e as bochechas coradas de Bulstrode me mostravam que havia acontecido um acordo para o nome dele não ser mencionado. Tive que fazer um esforço quase titânico para não ouvir nenhum sussurro, mas deixaria de tentar se não me contassem.
— Ela vai saber de qualquer jeito — Pansy resmungou. Não poderia concordar mais. Já conseguia ver o rosto dele, iluminado pelas luzes na sala comunal, discursando sobre alguma coisa... — Ele inventou uma história quando você desapareceu. Disse que tinha dado um jeito em você e que você não apareceria tão cedo, te usou de exemplo sobre o que acontece quando alguém mexe com um Malfoy.
— Draco fez parecer que o pai fez a bolsa de ouro tilintar, conseguindo que você fosse mandada para Azkaban — Sue não estava feliz em falar. — Deve estar lá embaixo agora mesmo, dizendo como você nem ousou falar com ele quando chegou.
— Malorie Lewis, sente-se agora! — Daphne Greengrass tinha uma voz muito dura e muito senhoril quando queria. Ela não segurou em mim, mas também se levantou e se colocou na minha frente. — Você acabou de se livrar parcialmente de uma grande enrascada! Você não vai procurar briga com o Malfoy tão cedo!
— Mas é ele que está procurando comigo! — Me defendi. Era apenas demais que aquele babaca estivesse contanto mentiras sobre mim por aí, me chamando de covarde e inventando histórias mirabolantes. Eu iria até lá em cima e o enfiaria dentro da lareira ligada para mostrar para todos o quanto eu estava apavorada com a ideia de enfrentar um Malfoy. Isso, é claro, se Daphne saísse da minha frente. Coisa que ela não parecia muito inclinada a fazer. — Vamos, Greengrass, você não pode estar pensando que eu vou deixar...
— Só hoje, Mal — seus ombros se abaixaram um pouco e o rosto perdeu alguns dos traços duros. — Já está tarde. Vamos apenas ficar aqui, pode ser?
Não. Era o que eu queria responder. Nem em mil anos eu deixaria Draco Malfoy ficar falando asneiras sobre mim, mas eu não precisava enfrentar Daphy agora. Havia sido um dia logo e estava tarde, então deixei aquele pavão albino ridículo para depois. Em um sinal de aparente derrota, voltei a me sentar na cama e isso fez com que ela sorrisse. Gostei de ela sorrir e deixei ser embalada sobre a fofoca rotineira que um grupo de garotas podia proporcionar.
Quando finalmente decidimos apagar as luzes e nos deitamos para dormir, Daphne Greengrass estava me esperando sentada na minha cama quando sai do banheiro. Todas as outras estavam deitadas em suas camas, a maioria com as cortinas de seda fechadas, mas ela estava ali com seu pijama exorbitantemente macio e caro de menina rica. O cabelo muito loiro e os olhos muito claros eram bonitos no reflexo das águas do quarto, mas isso não me impediu de franzir as sobrancelhas para ela.
— Posso...?
— Não suma assim outra vez, okay? — Era um pedido muito mais sincero do que o de antes, chegava a ser brutal. Quando ela se levantou e andou com pés macios até mim, permaneci bastante parada. Eu era muito alta para minha idade e Daphne não conseguia me superar, mas era, sim, quase tanto quanto eu, o que fez um pequeno desnível quando passou os braços ao redor de mim. Cobras não abraçavam, não tinham braços para isso, então posso ter sido um pouco dura ao não retribuir, mas acho que ela já tinha alguma noção de como tudo funcionava em mim, pois sorria quando se afastou. — Agora tem quem se preocupe com você. Não está mais sozinha, Mal, não se esqueça disso.
Queria dizer para ela que nunca estive sozinha, eu tinha Lagrum. Mas minha língua me desapontou ao menos uma vez na vida. Daphy foi bastante esperta para não ficar esperando uma resposta oficial – me deu as costas e foi para sua cama. Eu segui seu exemplo, mas fiquei um bom tempo encarando as profundezas do lago pela janela. A escuridão me lembrava as escamas do meu amigo e em nada Daphne Greengrass, que era clara em tudo que existia nela e consegui dormir imaginando se ela poderia se manchar com algo como eu.
O domingo começou tarde para a garota que dormiu depois de meia noite em um dia cheio de corrida na floresta e limpeza de poções. A luz do lago estava de um verde azulado reluzente e não tinha mais ninguém no dormitório, o que me fez ter liberdade de tomar banho e trocar de roupa fora do banheiro. O outono ainda não havia chegado com força, então praticamente repeti a roupa do dia anterior.
A sala comunal estava praticamente vazia, tanta pela hora quanto pelo dia. Era pleno domingo, quase a hora do almoço e estava sol, pelo visto. O lado ótimo era que Malfoy não estava em lugar nenhum, então tive a liberdade de não sentir meu sangue ferver logo pela manhã. Sai das masmorras e passei direto pelo Grande Salão, onde já havia certo grupo de alunos reunido esperando o almoço. Ignorei os olhares, os cochichos e os dedos apontados da melhor forma que pude enquanto fazia meu caminho para a biblioteca.
Não fiquei nem um pouco surpresa (ou decepcionada) ao encontrar Hermione Granger ali.
Desde que ela havia me mostrado o lugar, na segunda-feira, eu sempre a via ali. Mione era uma companhia agradável e silenciosa, me fazendo uma parceria estável na hora de revirar todos aqueles livros para fazer meus deveres de casa. Trocávamos algumas palavras de atualização diária como "dormiu bem?" e "como foi seu dia?" antes de ficarmos em silêncio e era completamente agradável. Eu me sentia bem com ela, ainda mais pelo fato de que, apesar de não falar, era claro que Granger não tinha mais ninguém – seja para lhe fazer companhia na biblioteca seja para outra qualquer coisa.
Porém, justo hoje, ela não me parecia inclinada a seguir o roteiro. Levantou a cabeça logo quando eu entrei e juntou apressada seus pergaminhos e penas antes de disparar em minha direção, seu cabelo armado a fazendo parecer maior do que realmente era. Segurou, então, no meu pulso e eu me irritei apenas um pouco menos do que com Pansy e Daphne, mas ela não demorou a me soltar – segurou apenas o bastante para nos tirar de perto de Madame Pince, a bibliotecária, que iria costurar nossos lábios se perturbássemos a paz de seu santuário.
— Mal! Malorie! Eu... argh! — Hermione não parecia saber exatamente como me chamar para expressar melhor sua indignação. Fiquei particularmente honrada em ter conseguido dar um nó em seu cérebro super potente. — Não acredito que fez isso! Como teve coragem?! Você poderia ter sido expulsa!
— Os boatos realmente correm rápido em Hogwarts, hem? — Forcei um sorriso para ela, que não me retribuiu em nada. Mione era uma criança séria, assim como eu, mas ela não havia aprendido a sorrir na cara da dor e do medo. — Escute, joguei Draco Malfoy na parede e por isso você não vai conseguir me fazer sentir mal.
— E por ter se enfiado na Floresta Proibida? — A ênfase na ultima palavra entregou de uma vez por todas que sua raiva era preocupação. Ela tinha um temperamento mais explosivo que Greengrass, mesmo que racional, e imaginei que isso se dava ao fato de sua Casa ser a dos corações indômitos. — Tem ideia dos riscos que correu? Expulsão!
— Não sei, Mione, estou quase repetindo o ato, imagine! — Sorri para seus olhos arregalados enquanto soltava o suspiro mais falso e dramático que conseguia. — Eu, sendo escoltada para fora de Hogwarts naquele barquinho e você lá, ajoelhada entre pedras e seixos, falhando de forma miserável em secar as lágrimas com um lenço! Seria magnifico, minha cara!
Soube que havia ganhado quando consegui fazer que ela risse. Daphne reagia a vozes calmas e promessas, Hermione à piadas e descontração. Era uma questão de conhecimento, mesmo que no fundo eu soubesse que era apenas uma distração. A pequena parte de mim que se doía com a preocupação deles nunca seria maior do que a indolência de fazer o que eu quisesse.
Não foi difícil fazê-la voltar para a biblioteca depois disso. Lá ficamos em meio a pergaminhos e pilhas de livros até a hora do almoço, quando nos separamos para ir cada uma para um canto do Grande Salão. Descobri que foi um acordo mutuo (liderado por, incrivelmente, Pansy) entre minhas companheiras de dormitório de me deixarem dormir quando acordaram de manhã. Considerando o fato de ter apagado até quase meio dia, agradeci a elas pelo sentimentalismo.
Todas nós gostávamos do clima sombrio e sem luz de verdade da nossa sala comunal, mas ninguém iria se negar um domingo ao sol, ainda mais um tão brilhante e nem tão quente quanto o de inicio de outono. Nós sentamos em um arvore com sombras longas perto do lago e recebi de bom grado uma aula sobre o mundo mágico e as leis que regiam principalmente a vida de minhas, quem sabe, amigas.
Daphne tinha uma irmã mais nova, Astoria, que viria para Hogwarts no próximo ano. Pansy já era filha única e disse isso com gosto: detestava dividir seja o que fosse e tinha certeza que uma eterna outra parte seria uma verdadeira punição, diferente de Daphy que aparentava gostar bastante da pequena Asty. Emily não tinha irmãos, mas tinha primos. Muitos, e a maioria de que não gostava. Mas tinha um gato, sim, e quando perguntamos porque não o trouxe ela disse que o deixou para a mãe ter algo dela por perto. Sue, por outro lado, não tinha irmãos, primos ou bichos: era muito feliz acompanhando os pais em suas pesquisas, uma vez que os dois eram escritores e precisavam viajar muito para escrever com conhecimento de causa.
Fiquei surpresa quando descobri também que todas elas eram versadas nas habilidades que uma mulher era obrigada a ter alguns séculos atrás. Pelo visto, as famílias puro-sangue consideravam de extrema importância que suas mulheres soubessem cantar, dançar e tocar algum instrumento. Pam cantava muito bem, coisa que provou quando a provoquei para soltar algumas melodias. Sue, nem tanto, mas sabia tocar violino e prometeu nos mostrar um dia – queria ser música, mesmo que fosse algo distante. Bulstrode adora dançar e contou que quando seu pai a ensinou os passos teve que passar a se esconder da filha, que não parava de querer repetir. Daphy, sem surpresa alguma, era afinada o bastante para que competisse com Parkinson e, pelo visto, tocava harpa e um pouco de piano.
Agradável não era o bastante para descrever a tarde preguiçosa que passamos ali, na beira do lago. Com Pansy e Daphne disputando quem tinha a melhor voz, as beneficiadas da competição apenas tinham que fechar os olhos e deixar os ouvidos atentos. Ninguém me perguntou sobre as cicatrizes, ou sobre a floresta ou sobre Malfoy e eu me permiti fechar os olhos. Nem mesmo a ideia de ter aquele nariz enorme de Snape perto de mim foi o bastante para nublar a tranquilidade raríssima em mim.
Mesmo que ele tenha se esforçado.
Sai para sua sala ainda no inicio do jantar depois de comer quase nada. Me desejaram boa sorte e de longe vi Draco com um sorriso lento no rosto o que me lembrou, finalmente, de que eu estava devendo mais um acerto de contas. Será que conseguiria repor os dentes com a mesma facilidade com que consertou o nariz? O pensamento me fez sorrir ao entrar na sala escura de Snape que, infelizmente, não havia tido uma indigestão no jantar.
— É excelente que esteja tão disposta — era sua forma de me cumprimentar, a voz seca e os olhos frios. Apontou a varinha para uma mesa, onde uma pilha de ingredientes estava posta sem aparente ordem alguma, o que me fez ter uma ideia de qual era meu trabalho da vez. — Comece. Terei uma aula amanhã e quero todos eles pilhados e separados.
— Boa noite, professor Snape — respondi com a voz suave enquanto me encaminhava para a mesa e me sentava no banco alto. Seus olhos estavam focados nos meus e eu nos dele e eu sabia que esse já era meu primeiro exercício sobre os sussurros. Sabia que o homem não estava realmente tentando, suas investidas eram fracas demais para isso, porém eram constantes. Uma constante mão gelada no meu muro de ferro negro. — Eu cresci em um orfanato e mesmo assim tenho educação. Qual a sua desculpa?
— Não a desperdiço com delinquentes irresponsáveis, Lewis — não entendi direito qual era o patamar da nossa relação, mas podia jurar que o homem estava profundamente dividido entre querer quebrar meu pescoço e sorrir para mim. Mais do que desinteressada em sua decisão, me concentrei em fazer meu trabalho.
Várias vezes durante as próximas duas horas senti sua presença gelada na minha mente. Na maior parte das vezes era apenas desagradável sentir seu toque: era muito frio e muito afiado, mesmo que não demorasse muito. Outras, ele decidia ver até onde ia meu muro de guarda e atacava com força, como um pontapé bem dado vindo do nada. Essas vezes eram o bastante para quase partir minha cabeça em dois, mas não o bastante para me fazer recuar. Meu muro continuava ali, mesmo que sua manutenção me custasse alguns pedaços de dente pela força com que os apertava.
No entanto, fico muito feliz ao admitir que na mesma medida que minha cabeça doía, seu orgulho era ferido por não conseguir ver nada. Sim, eu tinha plena consciência de que um homem adulto com anos de experiência e pratica conseguiria rachar em dois os muros iniciais de uma criança de onze anos se realmente tentasse. Mas durante toda a semana que se iniciou ele manteve a tática de investidas aleatórias, variando de força e insistência, ficando cada vez mais tempo me puxando até o limite e com cada vez mais vontade a medida que os dias se passavam.
Hermione havia sido minha salvação, aparecendo com uma poção para curar dor de cabeça antes que eu mesma houvesse me rendido a tanto. Eu tomava um pouco toda noite depois da detenção e isso fazia minha cabeça parar de latejar como uma bomba prestes a explodir. E eu precisava disso. Precisava muito. Todas as faculdades mentais eram necessárias para suportar Draco Malfoy se pavoneando na sala comunal.
— Inacreditável! Finalmente as aulas de voo vão começar e eles nos grudam justamente com a Grifinória — ele reclamava para Crabbe e Zabini, sem sinais de Goyle. Eu havia considerado uma vitória quando aprendi a diferencia-los, aliás. — Pelo menos vou ter o prazer de ver Potter caindo da vassoura.
— Eu tenho medo dessa sua fixação pelo Harry, Malfoy — disparei do sofá onde estava, sentada em uma poltrona enquanto deixava Sue brincar com meu cabelo, fazendo e desfazendo penteados aleatórios com as mãos. — Juro que chego a achar que eu for olhar no fundo do seu malão, vão ter fotos dele e cartas de amor.
De forma orgulhosa, o pavão se dignou apenas a me lançar um olhar de desdém mal disfarçado. Colado no quadro de avisos na sala comunal, lá estava pedaço de pergaminho que anunciava o inicio de nossas aulas de voo. Claro que ninguém teve tempo para ficar feliz ou pensar direito sobre o assunto, já que a voz Draco não parou de ser ouvida desde então, a sua maior parte do tempo sobre a escolha de nossas companhias.
— Você nunca voou em uma vassoura, certo, Mal? — Sue perguntou distraída e, mesmo que suas intenções não fossem maldosas, desejei que ela não tivesse lembrando o projeto de lorde desse fato. Na mesma hora o vi se virar para mim, os olhos brilhando de uma diversão cruel e sedenta ao ter os lábios se alargando em um sorriso frio.
— Nunca, Hopkins — respondi para ela, apesar de estar olhando para Malfoy. Os olhos dele estavam nos meus e eu tinha que admirar a coragem. E burrice. — Mas já joguei beisebol, algumas vezes, conhece? É um esporte trouxa, um dos muitos — respondi sem esperar que ela me respondesse, coisa que não ficou incomodada. Sue sabia que não estava falando com ela. — Se consiste em um bastão e uma bola, e se tem que rebater a bola com o bastão quando ela é atirada para você com toda força que conseguir.
— Parece a parte dos batedores do Quadribol — Nott entrou na conversa. Era mais esperto que Crabbe, mas não mais que Blás, que passou a mão no rosto. Zabini sabia onde isso iria dar e Draco também, mas Theodoro era lerdo o suficiente, então sorri cheia de doçura para ele.
— Exatamente, Nott — pisquei meus cílios devagar, deixando que minha língua deslizasse com o veneno de Lagrum. — Talvez eu lhe mostre nas aulas de voo. A vassoura pode servir de bastão e a bola branca... — suspirei devagar, sofrida, antes de olhar para Draco. — Pode me ajudar nisso, Draquinho?
Malfoy não me respondeu, mas também não tirou os olhos dos meus. Se recusou a recuar, como a cobra que havia sido criada para ser e fracassava tão esplendidamente na maior parte do tempo. Mas não agora. Manteve aquele azul prateado frio tão focado que me perguntei o que ele via. Seus olhos eram tão claros que era fácil ver aquela criança estragada e desgostosa com a própria vida. Mas e ele? Seja o que for, o fez desviar os olhos primeiro. Não o culpei. Qualquer coisa era escura demais neles.
Dentro e fora.
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