Corona

27 Floresta Proibida


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Não tem muito o que dizer aqui, é a outra parte da atualização dupla ♥ Espero que gostem ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Para os facilmente impressionáveis de plantão eu devo servir de choque de realidade: em nenhum momento cheguei a crer que Snape iria pegar na minha mão e desabafar com detalhes toda a situação da Pedra Filosofal e de Quirrell. E não aconteceu mesmo. O homem carrancudo me botou para fora sem pensar duas vezes, repetindo para eu não me meter onde não era chamada. Mesmo assim, parei na porta de sua sala e analisei sua postura curvada sobre o caldeirão, falando antes que ele decidisse por me arremessar para fora.

— Lembra quando eu te pedi autorização para entrar na Seção Reservada?

— Eu disse que não daria autorização nenhuma já que você não tinha nenhum motivo para ir até lá — me respondeu com impaciência, a varinha em punho movimentando a poção abaixo de si. Flexionei os ombros e respirei fundo, era minha última chance antes do ano letivo terminar.

— Eu tenho motivos, mas não vou dizer — encontrei os olhos dele e sustentei toda aquela escuridão, uma que se assemelhava a minha própria, e talvez essa fosse a razão de nos darmos tão bem, eu e ele, na medida do possível. — Seria uma boa hora de mostrar um pouco de confiança em mim, já que eu fiz com você.

Isso havia sido baixo e descarado, mas eu já não tinha mais tempo para sutilezas. Se não conseguisse o livro rápido eu teria que adiar tudo para o próximo ano, e minhas pesquisas já haviam alcançado o ponto de estancar, eu precisava ser mais especifica. Eu já estava com tão pouco tempo que, provavelmente, eu teria apenas tempo de achar o livro e copiar as partes mais importantes para algum rolo de pergaminho para estudar no orfanato, com calma, do jeito certo, eu havia perdido tanto tempo...

No fim, entendi o silêncio de Snape como "talvez" e dei as costas, fechando a porta de sua sala atrás de mim. Tinha coisas demais para pensar e, para meu próprio bem, ignorei a grande maioria, pelo menos até o dia seguinte quando Malfoy passou a reclamar alto após ler um bilhete que havia aparecido na sua frente: o pequeno lorde havia ganhado uma detenção pela sua peripécia na noite da libertação de Norberto e senti uma vontade quase incontrolável de beijar as bochechas ossudas de Minerva com isso.

— Vinte e três horas! Em que momento eles esperam que eu vá dormir?!

— Levando em consideração que está sendo punido por andar por aí fora do horário, as altas horas da noite, mostrando claro desprezo pelo toque de recolher e tudo o mais... não acha realmente que eles se importariam com isso por você, ou acha?

O olhar de Blásio encontrou o meu ao dizer isso, um olho seu piscando em minha direção enquanto eu fazia força para não cuspir todo meu café para fora. A bebida trouxa era um ritual de toda manhã e, por muito pouco, não o joguei todo na cara de Parkinson. Zabinimerecia um prêmio pela expressão ofendida e indignada no rosto de Malfoy e garantia mim mesma que estava o devendo essa.

Foi maravilhoso observar a cara emburrada de Draco durante o resto do dia, indignado e ignorado por todos menos Crabbe e Goyle. Ficou tudo ainda melhor quando, na hora do almoço, um pergaminho apareceu na minha frente bem quando eu colocar mais um pouco de purê no meu prato. O conteúdo nele me fez rir alto antes de guardar no bolso das minhas vestes: Eu, Professor Severo Snape, Mestre de Poções de Hogwarts e diretor da Casa de Sonserina, concedo autorização para que a aluna Malorie Lewis, Sonserina — Primeiro Ano, entre na Sessão Reservada.

Um pouco pomposo, talvez, eu havia ouvido falar que apenas uma assinatura era necessária. Mas talvez Snape tenha decidido não dar qualquer chance de Pince considerar a autorização falsa. Ignorei completamente os olhares curiosos e os pescoços esticados a minha volta e busquei a mente escura que já conhecia bem, dando pequenas batidas em seu forte e tendo o mesmo acontecido comigo, em reconhecimento. Considerei aquilo uma versão particular de um aperto de mão.

Esperei o dia todo para contar a Lagrum sobre o avanço que teríamos, que eu teria. Deixaria para ir até a Sessão em um fim de semana, quando teria todo o tempo do mundo para a revirar atrás do livro que precisava. Porém, a ansiedade se tornou receio à medida que eu tinha apenas o silêncio do outro lado de nossa ligação. Era comum meu amigo não me responder durante o dia, quando por costume devia estar ferrado em seu sono de cobra, mas era comum eu sentir sua presença quando a buscava. Era como se ele estivesse a abafando, me mantendo longe, e isso me fez olhar em direção a floresta várias vezes durante o dia.

Escapei da sala comunal com uma sensação muito diferente da que achei que teria. Invés de empolgação e energia, tinha uma sensação de algo terrivelmente errado, um gosto horrível na boca enquanto meu coração batia com força, meus sentidos ficando em alerta enquanto me esgueirava para fora de Hogwarts. Eram pouco mais de onze e vinte quando sai e, dessa vez, sequer esperei que todos se retirassem para os dormitórios. Tenho certeza que Rivers me viu, mas não perderia meu tempo me preocupando com ele se não se preocupasse comigo.

Não era para você estar aqui.

— Lagrum! — Chiei para a forma negra que era sua figura escondida no mato raso da orla da floresta. Ele estava bem, estava inteiro, minha preocupação havia sido desnecessária. A percepção desse fato apenas fez com que eu avançasse a passos duros em sua direção, decidida a acertar sua cabeça com toda força que eu tinha. — Quem é você para dizer uma coisa dessas?! Estúpido! Não ouvi nada de você o dia todo! Tem ideia...

Silêncio e me siga.

Uma pessoa normal, ao estar conversando com seu melhor amigo, poderia ficar mais do magoada com a secura e, talvez, falta de consideração demonstrada. Mas Lagrum era uma cobra, ele não dava a mínima para preocupações e estardalhaços em seus dias bons. E esse não era, nem de longe, um dia bom. O silêncio que me atormentou durante o dia foi retirado e, com ele, eu e minha patética crendice de que uma cobra de quase quatro metros não sabia se cuidar tivemos que suportar as consequências.

Lagrum estava nervoso. Havia alguma coisa na floresta, alguma coisa errada. Não era uma nova criatura, como um dia ele foi, mas sim algo mais terrível, uma ameaça a qualquer coisa que tenha um coração batendo. Havia acontecido pela primeira vez no início da semana, algo que fez os centauros dispararem flechas no céu. Ontem se repetiu e era o motivo de meu amigo não me querer por perto, não me querer aqui. Lagrum costumava dizer que eu estaria segura em todo o mundo contanto que estivesse com ele – se essa já não era uma verdade sólida, se a escuridão infiltrada na floresta o fazia querer me manter longe de lá, mesmo que em sua companhia, era o suficiente para meus sentidos explodirem, prontos para correr e lutar a qualquer momento a medida que avançávamos para o coração da floresta.

Lembra-se do que eu disse sobre os unicórnios?

— Criaturas tão puras que o ato de as matar por si só já uma maldição.

Tem alguém, alguma coisa, derramando-as o sangue.

Senti frio, mas já havia estado com medo o bastante na minha vida para acreditar nessa mentira. Era apenas meu corpo se hipersensibilizando, tomando consciência até mesmo do toque do ar da noite em minha pele. Lagrum não fazia barulho enquanto deslizava e meus pés já conheciam aquele lugar bem o bastante. Puxei o ar, prendi, soltei, clareei minha mente. O grande erro da maioria era não saber direcionar todo seu instinto; eu sabia. Precisava me concentrar em ouvir, em sentir, em cheirar – o que me permitisse perceber uma aproximação estranha.

— O que faria algo assim?

Algo, ou alguém, a beira do desespero. Eles estão sendo feridos e, de seus ferimentos, seu sangue é tomado. Sangue de unicórnio é capaz de salvar até o mais condenado da morte certa, mas o preço é pior. A partir do momento em que o sangue tocar os lábios a possuir apenas semi existir, como um fantasma, talvez menos do que isso.

Não valia a pena. Em nenhuma circunstância, em nenhuma vida, de nenhum jeito. Sequer fazia sentido. Manter a mente consciente e o coração batendo em troca... em troca de que? O que havia de tão importante nisso para condenar todo o resto? Não era racional e entendi o que ele quis dizer com "a beira do desespero", mas para mim, aquilo ia além. Era loucura pura, insanidade em sua forma mais cruel, pois fere a si mesmo crendo que pensa se salvar.

Um grito chegou fraco até nós, mas devia ter sido alto de sua origem. Enquanto minhas pernas se flexionavam e eu agarrava minha varinha, Lagrum se enroscou em mim, o bote armado, a língua frenética para fora, captando cheiros e calor. Ele não viu, mas pude enxergar um brilho distinto de vermelho no céu, não tão longe de onde estávamos. Minha cobra soltou um longo e irritado sibilar antes de se desenrolar de mim, as presas ainda amostra e prontas para enterrarem no que aparecer.

Seus colegas estão aqui hoje. Malfoy, Longbottom, Granger e Potter, todos na companhia de Hagrid e Canino. Detenção, pelo visto, passei perto deles ao ir te buscar.

— Acha que estão com problemas? — O brilho das fagulhas de localização já havia sumido, mas eu poderia...

Não era nem para você estar aqui, agora ande logo. O homem gigante vai cuidar deles, conhece essa floresta melhor do que qualquer um, vamos.

Me calei e fui, pois ele devia ter razão. Hagrid estava com eles e considerando que Neville era um integrante do grupo, as faíscas podem ter acontecido por ele ter tropeçado em uma pedra. Continuamos a entrar na floresta, mas Lagrum não me levou até a árvore onde ficava. Diferente da área mais próxima ao castelo, aqui já não havia mais trilha alguma – as árvores cresciam muito próximas para isso e eu precisava me esquivar delas o tempo inteiro, saltando raízes aqui e ali.

Eu já sabia para onde estávamos indo. Sabia desde a primeira vez que enxerguei algo prata-azulado no chão, nos troncos – uma trilha horrível feita por algo que sofreu muito, que perdeu a vida devagar e com agonia. O sangue do unicórnio brilhava e parecia mais espesso do que sangue humano, como uma espécie de tinta, e a cada passo que dava meu coração se apertava um pouco mais. Eu sabia o que estava no fim do caminho e era consequência minha lidar com isso.

O corpo do unicórnio brilhava no chão da clareira em que estava, mesmo depois de morto. Seu sangue, que nos guiou até aqui, finalmente havia se concentrado em uma poça embaixo dele, vindo de um terrível corte em seu pescoço forte. A cena inteira era tão triste que partiu o que eu ainda tinha de coração – a criatura fora ferida a sangue frio e depois deixada por aí, para que sofresse e morresse apenas um pouquinho a cada hora e nem mesmo isso havia sido acaso. Talvez o desgraçado capaz de algo assim não fosse capaz de drenar todo o sangue de uma vez, talvez tenha ferido o bicho e voltado várias vezes desde ontem para beber um pouco, pois o sangue devia ser fresco, eu acho.

Lagrum estava atrás de mim, escondido um pouco antes de entrarmos na clareira, desconfortável com tanto espaço aberto, mas não resisti a dar um passo para frente, meus olhos ardendo como de uma criança. Monstro. Mesmo ferido e sem vida, o unicórnio ainda era a coisa mais linda que eu já tinha visto: tão branco que brilhava, com seu longo chifre único saindo do meio de sua testa e cascos dourados, de ouro puro, quem sabe? Agora, suas pernas estavam esticadas em ângulos antinaturais e a crina pura se espalhou sobre o chão sujo. Quem causou isso era um monstro.

— Olhe... — a voz me fez voltar para as sombras e para Lagrum com todo o silêncio que consegui, girando o pescoço para buscar a fonte. Era Potter, uns seis ou sete metros à minha esquerda, na companhia de Malfoy. Tinha o braço esticado para impedir que o sonserino continuasse andando e os olhos tão tristes como os meus deviam estar ao ver aquela cena horrível. Draco, por sua vez, me pareceu muito indignado que tivesse sido barrado por Harry, mas o despeito em seu rosto durou apenas o tempo de levantar os olhos: toda sua arrogância caiu e deu lugar ao choque puro, a incompreensão de algo desse tipo acontecer, o luto involuntário que todos estávamos sentindo. Nem mesmo ele era imune a algo assim.

Potter, assim como eu, deu um passo à frente em direção a criatura. Nenhum deles havia me visto e observei o exato momento em que Draco olhou para o outro lado da clareira e Harry paralisou no mesmo lugar. Uma moita na orla havia estremecido e houve um momento de pura letargia onde eu, Lagrum, Draco e Harry ficamos olhando para lá, esperando que não fosse nada, que não fosse a coisa. Mas preces de crianças, como eu já havia aprendido, raramente são atendidas. De lá, do meio das sombras, um vulto encapuzado se arrastava como um animal à caça em direção ao unicórnio antes de se abaixar em direção ao ferimento e beber o sangue.

Lagrum me tirou de lá, ou ao menos me afastou o quanto podia sem fazer barulho – minhas pernas não se mexiam, eu não queria me mexer. Ele conseguiu apenas me puxar uns dois metros para trás antes que eu me desvencilhasse dele, o coração batendo. Meu amigo então se enrolou em mim, irritado e cansado da minha insistência, antes de nivelar seus olhos nos meus.

Não seja estúpida, Malorie! Sinto o cheiro de centauro, o garoto vai ficar bem! Tenho que te tirar daqui agora!

Eu não iria sair. O grito de pânico de Malfoy quando a criatura bebeu do unicórnio ainda estralava em meus ouvidos, a visão de Potter sozinho com ele também. Eu confiava em Lagrum, e, se não confiasse, podia eu mesma saber: era fácil acessar suas memorias e seus sentidos, confirmando que ele havia sim, sentido a presença de um centauro (cheiro de cavalo e calor de homem). A espécie era racional o suficiente para não machucar Harry, para o proteger, até, mas e Draco? O imbecil disparou pela floresta sem olhar para trás, levando canino com ele, em absoluto pânico. Se ele se perdesse havia muitas outras coisas por aqui que ficariam muito felizes de o encontrar.

Olhei para o rosto do meu amigo e esperei que entendesse que aquilo não era um pedido. Fui dura e ele me soltou com tanta raiva que eu teria caído se não esperasse por algo assim. Ambos detestávamos quando nossas opiniões divergiam, pois nunca passamos por muitas situações assim. Ele queria me tirar daquela floresta e colocar o máximo de distância possível entre mim e o monstro. Eu não poderia ir embora sabendo que aquele idiota estava por aí, arriscando a própria vida ao deixar o medo comandar suas ações.

Foi de muita má vontade que Lagrum passou a colocar a língua para fora, de novo e de novo antes de disparar para frente, sem nenhum tipo de consideração se eu conseguiria o acompanhar. Era sua própria vingança me fazer passar por apertos e era minha própria satisfação passar por ele sem sequer perder o compasso da respiração. Ele parou de andar quando eu mesma já pude ouvir o ganido assustado de Canino e a respiração entrecortada de Malfoy. Meu amigo se escondeu, ainda guardando a nos dois nas sombras, enquanto eu abandonava a moita e lançava minha mão até sua boca, impedindo que o garoto berrasse outra vez – a boca se abriu o suficiente para dar outro espetáculo.

— Sim, Malfoy, chame mesmo atenção, é tudo que aquela coisa, ou qualquer outra por aqui, quer — chiei ao observar seus olhos mais azuis do que pratas agora, injetados pelo medo e pela sobrevivência. Canino latiu ao nosso lado, pulando em cima de mim, e mandei Lagrum ficar longe do cachorro, não era comida mesmo que estivesse tentando me derrubar no chão. Soltei o ar devagar e tirei a mão de sua boca, observando seus lábios sem cor, tremendo.

— Como você sabe daquela... daquela coisa?! — Muito diferente de prudência, sua voz estava baixa por não conseguir fazer ela passar de um soprano. — Você estava lá, não estava? Eu sabia... você vem mesmo para cá.

Talvez eu perguntasse o que ele queria dizer com "você estava lá", se o garoto não tivesse mudado de assunto tão de repente. O medo então recuou com facilidade sendo substituído pela insistente curiosidade enquanto Draco virava o rosto e olhava em volta, como se procurasse o motivo de eu passar tanto tempo na floresta nos arredores. Lagrum permaneceu imóvel, então era meu trabalho fazê-lo parar.

— Draco — chamei seu nome da forma mais dura que podia sem soar rude, pois nunca era bom atiçar alguém já a beira de um ataque. Minha mão foi até seu pulso, meus dedos tocando a pele quente pela corrida e então a palma gelada pelas emoções. — Se meter esse narizinho um pouquinho mais fundo, eu não me responsabilizo se você deixar de ter ele, entendido? Agora vamos achar o Hagrid e dar o fora daqui, tudo bem?

Eu queria não ter essa habilidade, queria não ser tão boa em acalmar ânimos alheios. Mas eu já havia abafado choros histéricos e controlado convulsões de raiva o bastante para não saber lidar quando a situação se repetia. Não era por falta de pratica que conseguia, com tanta facilidade, contornar os humores de Daphne ou de Mione, e nem coincidência ter conseguido fazer o mesmo com Malfoy.

O segredo era distração, tirar a mente da prisão de medo e dor. O vazio que ficava depois devia ser preenchido com cuidado e muito rápido se não quisesse que a pessoa voltasse ao estado anterior. Infelizmente, o garoto preencheu por si mesmo e colocou minha presença inusitada como foco de seus pensamentos. Seguindo sua linha de raciocínio que me posicionava acima dos perigos imediatos, o toque de nossas mãos foi o bastante para fazer sua respiração se acalmar outra vez, ou, ao menos, iniciar o processo.

— Isso foi vergonhoso — ele murmurou, baixinho, enquanto os dedos entrelaçavam nos meus com rapidez e força, sua mente se agarrando em mim para se manter inteira. — Eu deixei Potter lá atrás...

— Tudo bem-estar assustado, Malfoy — desenhei um sorriso para ele, fechando sua palma em meus dedos também. — Estamos juntos.

E as implicações do fato de isso ser reconfortante eu pensaria apenas depois. Draco não largou minha mão quando começamos a andar, mas eu também não a puxei. Muito depois de sua respiração ter normalizado e seu coração acalmado, ainda sentia sua palma contra a minha. Malfoy tinha a mão macia, bem cuidada, mão de lorde. Não havia calos, aspereza ou qualquer imperfeição – representando sua vida, aquelas mãos tiveram apenas o melhor que o mundo poderia oferecer. Quase puxei a minha quando imaginei como devia ser a sensação terrível que ele estava tendo ao segurar na carne mutilada e áspera que tinha. Ele devia estar nervoso o suficiente para pegar em algo nojento assim por tanto tempo sem reclamar.

Lagrum deslizava perto de nós, a mente acusatória me lembrando a todo momento que eu não sabia o que ele estava sentindo, já que muito convenientemente eu estava o mais longe que conseguia de sua mente. Ignorei meu amigo até que ele deslizou para longe, se afastando um pouco mais quando finalmente enxergamos a movimentação que era Hagrid e Hermione. Canino disparou em direção ao dono e apenas quando chegamos perto (e eu deslizei minha mão da de Malfoy o melhor que pude) consegui enxergar que Neville e Potter também estavam lá.

— Graças a Deus! — Rúbeo soltou ao ver Draco inteiro, me parecendo aliviado de forma genuína. Então olhou para mim, a boca aberta e os olhos perplexos. — Mal?! O que você...?

— Outra hora — cortei o homem ao observar Harry com mais atenção. Eu reconhecia aquele olhar vidrado, aquele tremor nos ombros involuntário e a expressão neutra no rosto. Já havia visto várias garotas assim, encolhidas e sangrando depois de um dia ruim de Greta e, por pura preocupação com sua sanidade mental, tomei posse de seus pensamentos recentes, de tudo que havia acontecido desde que avistara a coisa na clareira até o momento em que o centauro Firenze o entregou a Hagrid.

Pela primeira vez na minha vida me arrependi de meu poder. Queria que ele não existisse, que fosse um truque, que fosse um sonho. Só aí a imagem da coisa se levantando, a dor que cortou a cabeça de Potter, tão forte que chegou até mim como facas em cada um dos meus nervos, as conjecturas do centauro... só aí tudo seria mentira. Eu poderia ignorar e dizer que não sabia. Era isso que eu queria, queria não saber. Porém, eu sempre sabia demais.

Os olhos de Harry me acharam – ele sabia. Talvez sua mente já reconhecesse minha presença agora, pois olhou para mim enquanto o gelo se espalhava desde meu coração até a ponta dos meus dedos. Anestesia. Era a mesma sensação de quando me deram anestesia no hospital para me examinarem depois daquela noite. E, assim como lá, apenas fiquei parada e quieta, sentindo meus membros congelarem e minha consciência recuar para um lugar muito, muito fundo dentro de si mesma.

Fomos todos levados de volta para o castelo. Dando um passo depois do outro, ainda senti a presença de Lagrum recuar para dentro da floresta, preocupado e aliviado em similares proporções. Filch não estava em lugar nenhum e enquanto Mione e Neville acompanharam Potter para a Torre da Grifinória, Malfoy andou ao meu lado em direção a Masmorra da Sonserina.

— Lewis, o que foi? — Já não havia mais ninguém na sala comunal quando atravessamos a parede, quando Draco segurou na minha mão outra vez. Devagar, virei o rosto para ele, encarando suas feições bonitas e, era isso? Preocupadas, até. Havia uma ansiedade ali que não lhe era comum. Desci, então, o olhar até nossas mãos juntas outra vez e franzi as sobrancelhas.

— Não precisa suportar isso de novo.

— Do que está falando? — As sobrancelhas claras dele se juntaram na testa, criando várias linhas ali. Seu olhar também desceu e sua boca se torceu antes dele soltar minha mão... girando a palma para cima para que ambos pudéssemos enxergar com clareza cada pedaço de carne rasgada e reconstruída. — Isto? É disto que está falando? Francamente, Lewis, se acha que me importo com uma porcaria dessas...

— O que você faria se Voldemort voltasse? — A pergunta, o nome, quem o diga, o tirou o equilíbrio. Sua boca se abriu e fechou várias vezes, os olhos mostrando toda a confusão que eu me recusava a atestar em sua mente.

— Eu... eu não teria nada para fazer, sou muito jovem...

Todos nós temos algo a fazer se isso acontecer, Malfoy — disparei, sem piedade alguma do garoto que segurava minha mão com tanta delicadeza. — Ouvi que seus pais eram Comensais da Morte...

— Só o meu pai — corrigiu, os olhos esfriando enquanto seus dedos se enroscavam em meu pulso. — Mamãe... minha mãe nunca se envolveu com isso.

— E então, o que faria? — Arqueei uma sobrancelha para ele, guardando cada pedaço de seu rosto pálido e confuso. Era uma boa combinação. — Dependendo de sua resposta, Draco, é melhor não respirar o ar que eu poluo. Eu sou uma nascida trouxa até que provem o contrário, uma sangue-ruim. E está em todos livros de história o que ele fazia com gente como eu, e com gente que discordasse.

Os olhos de Draco não eram azuis, não eram cinzas. Eram prata. Muito mais claros que o azul, muito mais brilhantes do que o cinza. Esses mesmos olhos esquadrinharam meu rosto, fizeram o caminho pelo meu braço e pararam em nossas mãos. Ele ainda segurava a palma da minha mão e a encarou por dois segundos antes de seus dedos se firmarem em meu pulso e, assim como eu fiz, descerem para os meus dedos, se encaixando ali outra vez. O menino solitário pareceu tomar um grande folego para o que falou a seguir, mas sua voz estava bem mais firme do que na Floresta Proibida.

— Tudo bem estar assustada, Lewis, estamos juntos.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 25, 26 ♥ Malfeito, feito! ♥