Corona
8 Filhote de Sangue Frio
Notas iniciais
Rúbeo Hagrid era o ser mais doce e bondoso que eu já havia conhecido.
Tinha o tamanho de um gigante e o rosto quase desaparecia no cabelo e na barba, mas seu sorriso era fácil e os olhos brilhavam. Serviu chá e biscoitos para todos e foi um acordo mutuo fingir comê-los para não o magoar, pois eles quase quebraram nossos dentes. O chá, por outro lado, estava excelente.
Em pouco tempo eu soube de toda a história entre ele e Harry, de que havia sido ele a tirá-lo da casa Potter em ruinas, e ele outra vez a tirá-lo dos tios cretinos. Até mesmo lhe comprou uma coruja de aniversario e fiz Potter prometer que me mostraria Edwiges.
— Tem algum animal de estimação, Mal? Você parece gostar — Hagrid perguntou, me fazendo balançar a cabeça.
— Animais são melhores do que gente, é verdade, mas não tive dinheiro para comprar nenhum no Beco. E, mesmo que tivesse, não acho que teria escolhido qualquer um permitido.
— E qual escolheria? Eu entendo de... bom, animais não comuns. Acredito que são apenas mal compreendidos — Hagrid tinha aquele sorriso que fazia suas bochechas ficarem rosadas e eu ri, segurando no brasão da Sonserina em minha veste.
— Uma cobra, com certeza. São criaturas fantásticas! Inteligentes, elegantes, versáteis...
— Frias, venenosas, podem decidir te devorar a qualquer minuto — Ronald me interrompeu, mas dei meu melhor sorriso para ele.
— Melhor tomar cuidado comigo, Weasley, talvez eu decida que você não precisa de alguns dedos.
— E logo agora que eu estava começando a te achar gente decente — o menino revirou os olhos ao soltar uma risadinha.
— Meu caro, eu não era gente decente nem antes de entrar em Hogwarts, não é ser da Sonserina que vai mudar muita coisa — devolvi para ele, mas Harry balançou a cabeça.
— Eu te acho gente decente, Mal — me defendeu. — Qualquer um que quebre o nariz de Draco Malfoy é decente o suficiente para mim.
— Você o que?! — Rúbeo tinha a boca aberta. — Fez isso mesmo? Com o filho de Lúcio Malfoy, aquele nariz em pé?
— Ficou bem para baixo quando o achatei na parede do trem — meu sorriso era maldoso, mas Rony tinha os olhos brilhando.
— Foi lindo, Hagrid, lindo — o menino Weasley tinha um sorriso sonhador. — Nem mesmo foi a primeira vez. Também o acertou com um livro no Beco Diagonal, certo?
— Certo — e sorri de forma um pouco mais gentil para Hagrid. — Não se preocupe, Ruby. Ele mereceu nas duas ocasiões e eu estou ilesa.
— Não duvido que tenha merecido, Mal, mas é gente poderosa esses Malfoy — balançou a cabeça. — Ruins, todos eles, e tão influentes quanto podres. É melhor ficar afastada do garoto para evitar problemas e aborrecimentos para si mesma.
— Ele dorme no dormitório ao lado e fica que nem um pavão na sala comunal — dei de ombros. — Não conseguiria ignorar a presença dele nem se quisesse... mas vou tentar — disse sem jeito ao ver a preocupação genuína em seus olhos negros. Hagrid então balançou a cabeça de forma enfática.
— Isso, isso, faz bem, entende? Eu sei o que acontece quando é palavra de um contra outro... — sua voz morreu baixa e pesada, seu rosto sombrio. Mas no mesmo momento em que olhamos uns para os outros, cada um com uma interrogação na testa, ele sacudiu os ombros e tomou um grande gole de chá de seu caneco. — Mas chega disso. Como foram as aulas, hem? Tudo bem para você, Harry?
Harry então contou como havia sido sua semana, que havia sido quase a mesma semana de Ronald. Imaginei que devia ter sido horrível ser o ponto de referencia para O Menino Que Sobreviveu, mas acredito que fosse ainda pior ser encarado e apontado como uma atração de circo. Não precisei de mais de cinco segundos para perceber que o famoso Harry Potter odiava toda aquela perseguição e atenção exageradas. A cicatriz na sua testa apareceu quando mexeu em sua franja, uma coisa fininha em formato de raio, e tive vontade de azarar qualquer um que ficasse encarando. Mantive minha boca fechada ao menos uma vez, mas será que não ligavam os fatos?
O garoto havia ficado famoso depois que o maior bruxo das trevas tentou mata-lo e acabou se explodindo no processo. Mas Lorde Voldemort havia conseguido fazer vítimas àquela noite, e eram ambos os seus pais. Que fama macabra essa, acompanhada da sombra da morte de toda sua família. Era claro que Potter tinha muita consciência de que era órfão e não tinha qualquer grande desejo de se vangloriar por isso, como qualquer pessoa sensata.
Depois de tantos anos e tantas bocas contando a história, era surpreendente como o massacre quase total da família Potter havia se transformado em um ato heroico, onde Harry (que frequentemente esqueciam que tinha apenas um ano na época) vestia uma armadura branca e irradiava luz e poder ao travar uma batalha épica contra Voldemort, o derrotando afinal.
— Não me lembro de muito coisa — ele disse encolhendo os ombros. — Só uma luz verde, às vezes uma risada horrível... nada mais.
Todos concordamos que não era coisa para se lembrar com mais detalhes e Ronald rapidamente começou a falar sobre Quadribol. Ficou ofendidíssmo quando soube que eu também não sabia do que se tratava direito (o que ensinam no mundo trouxa, afinal?!) e me ministrou uma aula intensiva sobre o esporte. A parte em que mais gostei, foi o fato de jogarem em vassouras a tantos e tantos metros do chão, pois me parecia pateticamente perigoso e gloriosamente divertido.
— E Filch? — torci o nariz. — Vive aparecendo nos cantos, gritando e pondo o dedo na nossa cara. Mais de uma vez Daphne já teve que me tirar de perto dele, ou juro que iria lhe dar um pontapé. Nele ou naquela gata, o que viesse primeiro.
— Ele é uma guitarra velha — Hagrid concordou. — Quanto àquela gata, Madame Nor-r-ra, as vezes eu mesmo tenho vontade de apresentar Canino a ela. Sabe que todas as vezes que vou até a escola ela me segue por toda parte? Não consigo me livrar da gata. É Filch que manda ela fazer isso.
Então, ao falar de homens adultos intragáveis de Hogwarts, Harry se lembrou do digníssimo professor Snape e contou toda a aula que tivemos. O gigante deu boas gargalhadas ao ouvir a forma como eu e Potter havíamos o respondido, mas deu de ombros sobre a suposição (mais do que certa, para mim) de que o Capitão Gancho não gostava do Cicatriz, alegando que ele não gosta de realmente nenhum aluno.
— Mas ele parecia que realmente me odiava.
— Bobagem! Por que o odiaria?
Mas Hagrid não olhou nos olhos de Harry quando disse isso, e ao olhar para ele com a sobrancelha arqueada, vi que também havia notado.
— Como vai seu irmão Carlinhos? — Rúbeo continuou depressa, se voltando para Weasley. — Eu gostava muito dele. Tinha muito jeito com os animais.
Os olhos verdes e estreitos de Harry mostraram que ele não era idiota e, ao menos, desconfiava que o assunto não havia sido mudado de forma leviana. Enquanto Ronald se debruçava no assunto de pesquisador de dragões, a profissão de seu irmão, eu estava tão interessada que, se não vivesse com uma cobra que gostava de me dar botes aleatórios (para manter seus reflexos e instintos alertas, Mal) não teria percebido quando Potter pegou um pedaço de papel recortado da mesa, e virei o rosto para tentar ler também.
O Caso Gringotes
Prosseguem as investigações sobre o arrombamento de Gringotes, ocorrido 31 de Julho, que se acredita ser trabalho de bruxos e bruxas das Trevas desconhecidos.
Os duendes do Gringotes insistiam hoje que nada foi roubado. O cofre aberto na realidade fora esvaziado mais cedo naquele dia.
"Mas não vamos dizer o que havia dentro, para que ninguém se meta, se tiver juízo", disse um porta-voz esta tarde.
— Rúbeo! — Harry exclamou ao erguer o rosto e interromper a conversa sobre dragões. — Aquele arrombamento de Gringotes aconteceu no dia do meu aniversário! Talvez estivesse acontecendo enquanto a gente estava lá!
Dessa vez ele nem tentou disfarçar: definitivamente não olhou nos olhos de Harry. Na verdade, sequer olhou em sua direção enquanto resmungava qualquer coisa e enfiava mais biscoitos nas nossas mãos. Quando saímos da casa dele quase uma hora mais tarde, Potter ainda parecia ter voltado até o tal dia em que esteve no banco dos bruxos.
— Você não acreditou, não é? Hagrid é excelente pessoa, mas é um péssimo mentiroso — comentei, ganhando sua atenção. Rony andava ao nosso lado, prestando atenção, pois Harry começou a falar baixo para mim.
— Estávamos lá naquele dia, eu e Rúbeo. Quando fomos pegar dinheiro para comprar meu material, passamos em um outro cofre. Nele estava apenas um pequeno pacotinho, Hagrid o pegou e enfiou no bolso. A noticia diz que o cofre que foi arrombado já havia sido esvaziado bem naquele dia, mais cedo. Não é muita coincidência? Seria isso que os ladrões estavam procurando?
— Eu não acredito em coincidências, Harry — respondi, apertando os lábios. — Para mim, Hagrid apanhou o pacotinho bem na hora e sabe muito mais do que quis contar em muita coisa — pelos seus olhos vi que ele havia entendido exatamente o que eu falei. — Agora, a questão é como ele sabia que o cofre seria invadido? E mais importante, quem invadiu?
Os meninos subiram para a sua torre com a cabeça bastante cheia, enquanto eu ia para minha masmorra sabendo que sempre tive certeza de que, apesar do que a maioria ali comentava, não era o cofre de nenhum deles que havia sido invadido. O que eles fazem por atenção...
— Mal — eu não ouvia essa voz sendo dirigida diretamente a mim a alguns dias, então me dei o luxo de não olhar. — Mal, por favor, escute.
— Parkinson, juro por aquela barba ridícula de Salazar que se vier falar da Grifinória outra vez... — fechei minhas mãos em punhos, decidida a arrancar nossa amizade pela raiz da mesma forma que faria com seus dentes da frente. Mas quando me virei, ela não me parecia alguém pronta para dar um discurso não solicitado. Na verdade, com os braços cruzados e o bico no rosto, parecia uma criança contrariada.
— Eu ainda acho que você é louca, Lewis — devolveu para mim, os olhos pequenos se estreitando. — E ainda acho que deveria ficar apenas entre os seus.
— Mas? Você não faria tanto esforço se não houvesse um "mas" — arqueei uma sobrancelha para ela, não tendo pena alguma de sua posição: sozinha no corredor que levava a nossa masmorra, comigo. Não era um lugar muito seguro.
— Mas eu conversei com Draco e ele me contou... me contou o que você fez — apesar de seus ombros terem se encolhido, um sorriso perverso surgiu em seu rosto ao tocar a ponta do próprio nariz. — Sabe, com ele. E eu fiquei pensando em como você não se vangloriou disso no primeiro momento que teve... você, minha cara, obviamente precisa de aulas sobre como ser Sonserina.
— E acredito que esteja se oferecendo? — Isso não me parecia bem um pedido de desculpas, mas eu sabia que nunca ouviria um de Pansy Parkinson. Assim como ela nunca iria poder esperar um perdão vindo de mim.
— Quem mais iria ser? — O nariz dela foi para cima. — Greengrass? Aquela ali falta ter borboletas envolta dela.
— Mais respeito, Parkinson — eu sorri enquanto saia da frente da voz, revelando Daphne atrás de mim. Daphy, com os olhos verdes azulados e o cabelo bastante loiro amarrado para trás. Era certo que ela era uma das sonserinas mais amistosas que havia conhecido, mas definitivamente não havia nada de borboletas nela. — Ou faço seu cabelo virar pelo de rato enquanto dorme.
— Se conseguir lançar tal magia, Daphy, talvez eu comece a te respeitar.
— Quando seu respeito valer de algo, Pam... — Daphne cantou ao piscar os olhos em direção a ela de modo lento e teatralmente encantador. Isso fez Pansy rir junto comigo. — Agora vamos, estamos perdendo a melhor parte da história de Draco sobre perseguir um helicóptero trouxa.
— E desde quando esse energúmeno sabe o que é um...? Ah, que adorável — enganchei o braço das duas, tendo certeza que estava na casa certa quando entramos na masmorra cada uma com os sorrisos diferenciando no grau de maldade. — Ei, Malfoy! Pode repetir? Eu estava ocupada vivendo o desejo de todo mundo nessa sala ficando longe do alcance da sua voz.
— Ah, Lewis — os cantos da boca dele não sabiam se iam para cima ou para baixo, divididos em um sorriso de desdém ou uma careta de desagrado. O resultado era mais cômico do humilhante, sequer chegava a ser irritante. — O que está fazendo aqui? Eu te vi saindo do almoço e indo se encontrar com o queridinho Potter e aquele amigo pobretão. Vai trair sua própria casa, é isso? Se envolvendo com eles...
Bem, era isso.
Pansy Parkinson era, tecnicamente e na falta de palavra melhor, minha amiga. Então ela teve o privilegio de receber apenas um sermão quando começou a falar mal dos meus, tecnicamente e na falta de palavra melhor, outros amigos. Draco Malfoy, por outro lado, não era nada para mim além de um menininho irritante e mimado, um desperdício de dinheiro e tempo de seus pais que esperava que estivessem tentando consertar. Ele não ganhou aviso nenhum ao ter minha varinha apontada para seu coração, meus olhos muito focados nos azuis dele por um microssegundo antes da magia disparar de mim em um pensamento. Sequer pensei em palavras. Eu apenas estava longe demais para acertá-lo com a mão, então pedi que fizesse isso por mim.
— Vou dizer apenas uma vez, Malfoy, então escute com atenção — mantive minha voz calma e minha varinha em punho, muito concentrada nele e nos nossos espectadores. Sue Hopkins havia se encolhido e Blásio Zabini tinha a boca aberta. Crabbe e Goyle, os dois inúteis, já estavam correndo em direção ao seu dono espatifado no chão após bater na parede mais de três metros atrás dele. — É a terceira vez que se comporta como o perfeito babaca que é comigo e é a terceira vez que lhe mostro a quão má ideia isso é. Na próxima vez, vou dar você como um masoquista e atenderei o seu desejo de dor da melhor forma que eu puder, é uma promessa.
Que eu iria cumprir cedo ou tarde. Vi que havia cruzado uma ultima linha com Draco Malfoy enquanto ele se levantava: o cabelo desarrumado e com muita raiva e muito humilhado para revidar de imediato. Ele iria dar um jeito que me ferir, de me cortar tão fundo quanto eu o cortei quando o humilhei na frente da maior parte do nosso ano (ele deu sorte dos outros anos estarem aproveitando o fim da tarde livre). Eu sabia, e ele sabia, que agora as coisas haviam ficado sérias e agradeci por minha criação ter sido terminada por uma cobra: era a lei do mais forte, do maior, do mais rápido, do mais ágil. Com isso em mente, só desviei o olhar quando ele o fez e apenas dei as costas quando ele sumiu para seu dormitório.
— Lewis... seus olhos... — Zabini havia ficado, provavelmente confuso demais para ir correndo atrás do amigo e ver se ele estava bem. O menino olhava para mim com os lábios apertados e Sue, reparei, estava pálida como um morto. Senti meu pulso ser agarrado e fui virada para trás por Daphne Greengrass, que também queria apreciar o show.
— Santo Merlin, Malorie, o que...? — A calorosa Daphy não tinha palavras em seus lábios meio trêmulos, nem Pansy, em seus olhos mais abertos do que o normal. Soltei uma risada muito fria e muito aguda, tirando meu pulso dos dedos dela com um puxão. Detestava que me segurassem.
— São uma beleza, não são? Ficam assim quando eu fico particularmente raivosa. As freiras nunca gostaram muito, se querem saber, mas eu... ah, eu sempre gostei — ronronei passando os dedos pelo meu cabelo, o bagunçando ainda mais antes de lhes dar um sorriso selvagem. — Vamos, me diga que não combinam comigo.
— Estão vermelhos, Malorie — Hopkins pareceu ter recuperado a voz, me fazendo olhar por cima do ombro para sua figura pequena. — E o jeito que olhou para Draco era apenas... apenas...
— Mal — Blásio finalmente havia se levantado, os olhos me avaliando. — Eu vou ver se ele não fez nenhuma besteira... até a morte auto imposta é melhor do que as coisas que aquele olhar prometia.
Saiu, então, me deixando sozinha com minhas companheiras. Eu sempre soube da curiosidade da minha aparência, mas geralmente não demorava tanto tempo a voltar ao normal. Eu apenas podia raciocinar que era porque estava sendo olhada e temida como um animal selvagem e exótico. Isso fez meu sorriso se alargar pois não estavam muito errados. Mesmo assim, senti pena de Potter se era isso que ele tinha que aguentar. Tive cinco minutos de fama e já estava com vontade de repetir a dose de Draco. Então fiz provavelmente a única que me restava na área de "lógica". Passei por elas e sai da Sala Comunal.
Sim, eu admito. Não era lógico coisa nenhuma. Logo o horário de recolher tocaria e eu estaria em maiores problemas se fosse pega andando pelo castelo, mas eu não tinha muitas opções. Subi as escadas e sai do castelo pela porta da frente, dessa vez sem me preocupar em não ser vista. Até mesmo o caminho para a borda da floresta foi mais tranquilo, agora que todos estavam ocupados para garantir o final da tarde livre, ou apenas o final do sol.
Venha, Mal, por aqui.
Ouvi a voz dele na minha cabeça e segui aquele fio que sempre nos ligava. Deixei meus pés irem para o fundo da floresta, desviando de galhos e agradecendo por viver na mata nos arredores do orfanato. Cheguei tão fundo que eram poucos raios de sol que ainda conseguiam atravessar a folhagem das árvores, o que me mostrava que não demoraria muito e logo estaria um completo breu. Mas não liguei nada para isso enquanto me sentava na grama úmida, me escorando no tronco largo de uma árvore e fechei os olhos, pensando se eles estariam vermelhos ainda.
Sabe, eu gosto deles assim. Ficam parecidos com os meus.
— Você não tem olhos vermelhos, Lagrum — respondi cansada. Senti seu corpo enorme se enrolando em mim com calma, dando umas boas três voltas antes de ainda sobras na cabeça e na calda. Mas ele bateu com ponta da boca no topo da minha cabeça do jeito que fazia quando eu me distraia do que ele ensinava quando era criança.
Não digo na cor. Digo na essência. São olhos de cobra, olhos de predador. Para mim, são olhos de quem aprendeu a sobreviver custe o que custar.
— A maioria das pessoas não acharia isso uma descrição convidativa — resmunguei enquanto acariciava a cabeça dele. Lagrum nunca iria segurar minha mão e me deixar chorar. Lagrum era uma cobra e cobras são frias e práticas, mas eram cruelmente honestas.
Não sou uma pessoa, Malorie, sou uma cobra. E você também é. E cobras não têm tempo para ligar para opiniões de ratinhos.
— Eu apenas detesto quando você está certo — mostrei a língua para ele, ganhando a dele se mexendo na minha bochecha, me fazendo rir pelas cosquinhas.
Então você me odeia sempre. Agora levante-se daí, filhote. Vamos caçar.
Quando se tratava de Lagrum, eu não tinha muita escolha. Quando se tratava do meu melhor amigo, eu sequer queria ter. Eu tirei minha capa e meus coturnos e meias, além da gravata. Os pendurei em um galho alto da arvore e pulei de novo no chão, sentindo a grama e a terra entre os dedos. Fechei os olhos, aproveitando aquela sensação. Era bruta e selvagem e nada poderia me atrapalhar. Eu não precisava enxergar, pois cobras são cegas.
Eu tinha minha audição, meu olfato, meu tato e minha liberdade.
E Lagrum. Sempre Lagrum.
Caçar com ele era apenas uma desculpa para ser selvagem. Eu adorava passar entre as arvores e deixar que meus pés deslizassem pela terra e pela grama. Era libertador de tantas formas e em tantos níveis que talvez eu sequer fosse capaz de explicar. Fazíamos silencio na maior parte tempo, meu amigo se preocupando em achar sua refeição e eu me preocupando em não atrapalhar. Quando era mais nova, constantemente era repreendida por qualquer coisa: não pise aí, faça silencio, se camufle melhor. Lagrum tinha um orgulho próprio, mesmo que não admitisse, de me ter feito uma boa caçadora.
Já era noite fechada quando voltamos para a árvore. Lagrum tinha uma grande coruja em seu estômago agora, talvez até conseguisse ficar dois dias sem comer. Ele havia me mostrado os testrálios ao longe, mas claro que não pude chegar muito perto – eles sentiram um predador e se afastaram. Mas eu consegui ver seus corpos esqueléticos e suas asas enormes, então estava bom para mim.
Subi na arvore e me enfiei no meio de Lagrum, que havia se enrolado todo. Ele era macio e frio, além de um pouco gosmento, mas decididamente sabia dar um abraço. Seu corpo enorme facilmente serviu como cama, travesseiro e coberta para mim enquanto ele mesmo repousava o grande cabeça no meu ombro. Ele estava sonolento e de barriga cheia, e eu olhava para cima imaginando as estrelas que existiam entre as folhas e nos problemas que eu estava metida.
Será que deram falta de mim? Imaginei Severo Snape muito desgostoso ao ter que interromper a escrita raivosa em seu diário para lidar com uma estudante desaparecida. Eu seria expulsa? Era uma regra bem clara da escola não entrar na floresta. Caramba, ela não se chamava Floresta Proibida apenas por licença poética. Também era uma regra não estar fora da cama durante o toque de recolher. Imaginei se existia alguma punição já estabelecida para alguém que passou a noite fora da cama na floresta proibida. Achei que não e me senti muito orgulhosa. Se fosse expulsa, seria como uma lenda.
Então me lembrei de Hermione e de Harry, até de Ronald, que me fez lembrar de Daphne e Sue, Parkinson também. Seus rostos se confundiram nas minhas pálpebras fechadas e eu não sabia mais quem era quem que estava me olhando com tanto medo. Imaginei se o acontecimento havia saído de lá e se havia subido tantos andares até a torre da Grifinória, o que era provável. Os quadros de Hogwarts eram enxeridos e fofoqueiros, apesar de guardar os segredos de cada casa muito bem. Mas não acho que eu chegava a esse nível e não queria ser expulsa. Voltar para o Orfanato Santa Maria agora me parecia mais depressivo do que nunca.
Suspirei ao puxar mais uma camada do corpo de Lagrum para me cobrir. Não valia a pena pensar em nada disso, pois como na maioria das vezes eu estava de consciência limpa. Atirei e atiraria de novo Draco Malfoy pela parede e quebrei e quebraria de novo duas grandes regras da escola. No dia seguinte, encararia Severo Snape. E Hermione Granger. E Parkinson, Greengrass, Hopkins, Weasley... Potter. O nome me fez sorrir ao imaginar o quanto falariam de mim ao invés dele por um tempo, apenas um pouco, mas o suficiente para o Menino Que Sobreviveu perder os holofotes por alguns momentos.
O pensamento me fez dormir rápido e tranquila, talvez até sorrindo. Oh, sim. Eu estava em uma floresta selvagem cheia de criaturas mágicas perigosas das quais eu sequer tinha conhecimento da maioria. Também estava mais que encrencada na escola. E provavelmente me tornaria alguma espécie de pária, uma aberração esquisita – se ficasse por lá tempo o bastante para saber disso. Mas eu estava com Lagrum e estava livre e sabia que nem hoje e nem nunca algo poderia me machucar de verdade, nem mesmo Draco Malfoy e toda sua ira envergonhada. Afinal, ele poderia ter sido criado para ser um príncipe, mas eu fui criada para ser uma cobra.
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