Corona

25 Certeza de Liderança


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Não tem muito o que dizer aqui, é a outra parte da atualização dupla ♥ Espero que gostem ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

A semana não parecia passar com rapidez o bastante. Além de Norberto ficar cada vez mais impossível (não demoraria para Draco ser o menor dos problemas, pois a escola inteira iria perceber), ainda tinha que lidar com a pacificadora Granger. Claro que ela descobriu que eu e Potter havíamos nós desentendido e nos afastado e agora fazia de sua missão nos unir outra vez, mas a culpa disso era a minha. Não fiz qualquer esforço para esconder meu desprazer com a simples presença do garoto atreves dos dias, levantando da biblioteca quando ele sentava e me despedindo de Hermione quando se aproximava.

Talvez eu estivesse sendo muito dura com ele. Não posso mentir e dizer que não percebi como o rosto dele caia toda vez que lhe dava as costas, como a voz dele era quase doía ao me chamar e eu sequer virar o rosto. Depois de dois dias ele desistiu e se recolheu no silêncio enquanto seus olhos viviam me acompanhando, quase implorando para que eu lhe desse uma chance de se explicar melhor. O único problema era que eu não precisava ouvir nenhuma explicação. Eu já tinha a visto – a coisa era que eu não dava a mínima.

Toda vez que pensava em reconhecer o sincero arrependimento e as desculpas de Harry, a lembrança do que lhe confiei me fazia queimar. Achei que tínhamos algum grau de entendimento, que possuíamos alguma confiança diferenciada e o peso do engano me fazia querer arrancar a cara dele no chute. Talvez eu devesse lhe dar uma surra e desfigurar seu rosto magro, fazê-lo comer as lentes dos óculos – isso com certeza me faria sentir melhor. Para a sorte de Potter, ainda havia uma pequena parte de mim que se recusava a machuca-lo de forma física, então eu fazia de tudo para feri-lo por dentro.

Mas a pior parte foi Pansy.

Como um cão ela farejou o problema logo no café da manhã do dia seguinte, muito diferente de Daphne que percebeu que algo estava errado assim que passei pela passagem da sala comunal depois de deixar Hagrid para trás. Parkinson tinha um sensor muito mais afiado para confusão e discórdia do que para sentimentos e tive que suportar o sorriso cruel, pensando em quais seriam as consequências de perder duas amizades de uma vez – ela com certeza não me perdoaria por arrancar seus dentes.

— Problemas no paraíso, Lewis?— Cantou para mim. Greengrass, que finalmente teve a resposta para sua preocupação da noite anterior, apertou os lábios para ela enquanto seus olhos me espiavam, certificando que eu não iria atravessar a mesa em um pulo na direção do pescoço de Pam.

— Não é assunto seu, Parkinson, ou é? — Retruquei com a voz mais entediada que conseguia, o rosto uma mascará de tédio. Isso apenas a fez soltar uma risadinha curta e meio aguda, forçando em si mesma algo que deva ser inocência, mas ela apenas não conhecia o significado dessa palavra.

— Só acho muito satisfatório ver as coisas tomando seu rumo natural, só isso — ronronou. — Não achou mesmo, Mal, que fosse amiga deles, ou achou? No final, você é Sonserina e isso é tudo que eles enxergam.

O jeito que olhei para ela foi o bastante para calar as pessoas mais próximas, tensas e atentas a qualquer outra explosão da minha parte. Calou a própria Pansy, mesmo que ainda sorrisse de forma maldosa. Sem apetite, deixei a mesa depois disso e abandonei meu café quase intocado, carregando minha mochila em direção ao Corujal. A chegada da primavera também me permitiu voltar a escrever para meus amigos do lado de fora sem me sentir um monstro por arriscar a vida das corujas no meio de nevascas. O dinheiro da aposta (devidamente repassado por Blás) foi mais que o bastante para pagar minha divida por todas as moedas emprestadas que peguei de Mione e Daphne e ainda por cima sobrar um bom monte – crianças ricas não apostavam baixo.

Olá, Garrick

Como vão as coisas? Vendeu muito no inverno ou ninguém gosta muito de comprar varinhas congeladas? Brincadeira, ou não, mas acredito que qualquer negocio melhore na primavera. No mundo trouxa, ela é conhecida como a estação mais romântica e inspiradora, chamamos as pessoas que se apaixonam por outra logo quando a estação muda de "febre da primavera" e muitos estabelecimentos possuem promoções para casais, já pensou em adotar alguma? Algo como "traga seu amor e ganhe um desconto de 10%", seria interessante, não acha? Por aqui está tudo bem, mas adoraria que me respondesse uma pergunta, na verdade, é mais uma teoria: a maioria, se não todos os professores de Hogwarts, já foram alunos, certo? Garrick, eu tenho CERTEZA de que eles fazem de proposito como uma forma de se vingar dos seus próprios anos de estudo, que outra razão existiria para tantos deveres? Só posso agradecer por adorar aprender e me divertir estudando – tenho pena das pobres almas que choram ao abrir um livro.

Mal.

Para Tom, o dono do Caldeirão Furado, agradeci principalmente a bebida gasosa que havia me mandando, muito similar ao refrigerante, mas que fazia minha boca soltar estalinhos por horas. Aceitei de prontidão ir visita-lo quando pudesse, já que havia me convidado para testar alguns pratos novos – até sua esposa queria me conhecer. Também reclamei da quantidade de deveres e me diverti imaginando a divergência de respostas que provavelmente ouviria: Olivaras, um corvino e Tom, um lufano, iriam cada um achar um jeito de me consolar.

Pulando os dias, eu me mantive muito quieta no sábado a noite, jogada em uma poltrona na sala comunal. Não podia evitar de encarar um relógio na parede enquanto tinha um livro no meu colo e minhas pernas penduradas no encosto da poltrona. Já eram onze e quarenta, logo Potter e Mione iriam arriscar o pescoço e a posição alta de sua casa para ajudar Hagrid a sair da enrascada que havia se metido. Weasley ainda estava enfurnado na enfermaria, mesmo que já aparentasse estar ainda mais saudável do que antes da mordida, pois Pomfrey não queria arriscar nada sobre o "cachorro".

— Algum lugar que queira ir, Mal?— Eu teria me irritado se fosse Pansy a perguntar, mas era apenas Greengrass. E ela não tinha o veneno nos lábios como Parkinson, mas tinha um brilho nos olhos muito esperto e malicioso.

— De forma alguma — refutei, arqueando uma sobrancelha. — Qual o motivo da pergunta?

— Algo que Draco comentou. Aliás, lá vai ele— me respondeu sem me olhar, já que seus olhos estavam muito focados na figura pálida e muito loira de Malfoy se esgueirando, sozinho, até a saída da masmorra. Não pude evitar que meus dentes se apertassem, mas tampouco tive qualquer ímpeto de o impedir. Na minha opinião, Potter e Granger estavam muito bem servidos um com o outro e sua incrível capa da invisibilidade. Eles conseguiriam se entender com um intrometido sem precisar que eu corresse para os proteger.

— Ele pode voltar triunfante ou com um nariz quebrado— comentei. — Metaforicamente ou não.

— Então sabe para onde ele vai, não sabe?

— Nunca disse o contrário, Greengrass — devolvi antes de pousar meus olhos nela de novo, que agora tinha sua atenção em mim.— Mas não é hora nem lugar para essa conversa.

— Não seja por isso, Lewis — uma sobrancelha clara sua se arqueou enquanto dava impulso e se afastava da minha poltrona, seus passos a levando em direção ao dormitório das meninas. Observei sua silhueta magra e elegante (como era a maioria dos meus colegas) e respirei fundo ao bater com as unhas disformes na lombada do meu livro. Eu sempre tinha a opção de ignora-la completamente, mas não queria fazer isso. Lagrum era ótimo amigo e conselheiro e, até agora, tudo isso em tempo integral. Porém alguns assuntos lhe tiravam a paciência e eu conseguia admitir para mim que, talvez, fosse melhor conversar sobre isso com alguém de sangue quente.

Segui Daphne até nosso dormitório, encontrando-a sentada no chão. A cena me fez vincar a testa pois, apesar de ser um dos melhores chãos que já havia visto, todo impecável de limpo e macio por seu carpete e tapetes, a cena ainda era um pouco absurda e imaginei o que o senhor e senhora Greengrass diriam se vissem sua pequena dama sentada onde se era apenas para pisar. Em defesa de minha amiga, ela ainda mantinha as penas sobradas em baixo de si e a postura reta, então não havia se corrompido por completo.

— Me diz, Daphy, pois sou bastante nova nisso: o que configura traição em uma amizade?

Vi seus lábios apertarem, pensando na resposta, enquanto eu mesma me sentava na frente dela com muito menos pose. Deixei uma perna esticada e outra dobrada para apoiar o queixo, minhas costas descansando na madeira da cama. No fim, balançou a cabeça.

— Seja mais especifica. Uma situação hipotética, talvez?

Menina esperta. Daphne sempre me pareceu (e realmente era) uma das serpentes menos peçonhentas que conhecia, perdendo apenas para a pequena Hopkins. Talvez por isso não sentisse qualquer necessidade de revirar minhas palavras em busca de fofoca ou maldade, talvez por isso eu a tinha em mais consideração do que a maioria. Ela não estava nem minimamente interessada em que, de fato, estava acontecendo – não se isso fosse além de mim.

— Muito bem, Greengrass, hipoteticamente falando— umedeci os lábios. — Depois de compartilhar um segredo, é viável que a outra pessoa continue mantendo outro? Levando em conta que ambos os segredos são de cunho pessoal, claro.

— Depende. Há vários tipos de segredos e vários tipos de pessoas, coisas que você conta para um e não para outro — seus dedos se mexeram ao brincar com a barra da saia escura que usava, uma roupa de bruxa moderna e cara. — Quando se é totalmente honesto com alguém, sim, é esperado que a outra pessoa retribua o favor. Mas devo perguntar, ainda de forma hipotética, existem outros segredos além do que foi confidenciado?

Sim. Franzi minhas sobrancelhas ao enumerar, em menos de cinco segundos, pelo menos outros vinte segredos que Potter não tinha conhecimento – e por mim continuaria dessa forma. Além disso, a maioria deles eram muitos graus acima (ou abaixo) de onde o deixei ir, sabendo que poderia brincar com sua mente a qualquer momento. Havia Lagrum, havia minhas pesquisas, havia os Lewis, havia o acidente, havia Greta e havia os últimos cinco anos da minha vida, apenas para começar. Vendo a expressão em meu rosto, Daphy me deu um sorriso gentil ao se esticar e apertar meu pulso com cuidado, prestando atenção para não fazer nenhum movimento brusco.

— Regra número um dessa "tal coisa" que é a amizade, Lewis, não se pode exigir a alma de alguém se não entregar a sua. E se quiser dar apenas pedaços, é só isso que vai receber.

— Você é diabólica, Daphne — resmunguei, mas estava sorrindo e isso a deu confiança o bastante para se aproximar de mim, se sentando ao meu lado. Seu perfume caro de menina rica era doce, mas suave o bastante para não me fazer espirrar. Ela correu os olhos pela caminha cama, pela moldura de madeira na parede e meus livros pessoais em meu criado mudo, junto com a cobra exorbitantemente cara que havia se atrevido a me dar de Natal.

— Já leu algum dos livros que ganhou?

— Não— e isso era uma vergonha, mas tinha motivos. — Quando voltar para o orfanato não vou ter muita coisa para fazer ou me distrair, sequer vou poder continuar fazendo alguma magia sendo a única bruxa em quilômetros... estou guardando para as férias.

— Como você disse que era o orfanato mesmo, Mal?— Arriscou em uma expressão suave, que lhe devolvi com uma sobrancelha arqueada e um canto da boca torcido.

— Não disse, Greengrass— soltei um riso baixo ao ver a os lábios dela se apertarem, contrariados.— Não é nada que seja bonito ou interessante para garotinhas luxuosas como você, acredite. É só um lugar muito grande e razoavelmente bem cuidado, nenhuma maçaneta de prata ou privada de ouro, te garanto.

— Nós não temos privadas de ouro — reclamou, as sobrancelhas claras se franzindo. Sua cara fez com que uma risada subisse pela minha garganta e escapasse, junto ao ar, das minhas narinas.

— Isso é um grande, grande consolo, Daphy.

— Você gosta de lá?— O assunto voltou, seus olhos exigentes ignorando minha despretensão. — Do orfanato, digo. Você nunca fala dele, foi lá que...

— Hogwarts é a minha casa — cortei a frase dela, pois sabia exatamente aonde iria terminar. As cicatrizes da minha mão se repuxaram e latejaram como novas, me obrigando a flexionar os dedos para ganhar algum alivio. — E nada que venha antes disso vale mais tempo do que conseguiu, entendido?

Ela recuou. Daphne era esperta, ela sempre recuava. Preferia ir para trás e tentar de novo outro dia do que escolher a agressividade e colocar tudo a perder – eu não era alguém que respondia bem a agressividade, a invasão, e ela sabia disso. Sabia que se pressionasse muito eu agiria como um animal encurralado, ferindo qualquer coisa e qualquer um que se aproximasse de mim.

Satisfeita com o pouco que havia conseguido do meu passado, Greengrass pediu para arrumar meu cabelo. Ele era muito bonito, de acordo com minhas colegas de quarto, mesmo que eu mesma nunca tivesse dado qualquer atenção a ele além de uma escovada rápida e sem cuidado após o banho. Sue e Daphne gostava de se sentar por trás de mim e o fazer todos os penteados difíceis que se lembravam de suas mães, as mulheres mais ricas e bem vestidas da Grã-Bretanha bruxa, suponho.

— Sabia que você não ajuda em nada na brincadeira "qual o sangue da Mal"?— Perguntou enquanto separava as mexas, seus dedos ágeis dando nós e as dividindo as ondulações marcadas da melhor forma que podia. Franzi as sobrancelhas, puxando alguma consciência para prestar atenção na conversa.

— Ah, é?

— É. Mais da metade das famílias de sangue puro tem cabelo e olhos pretos, além da pele pálida –- agora ela fazia esforço para desembaraçar com cuidado, a escova macia de marfim dela muito diferente da barata de plástico que eu tinha. — O que sobra, são loiros ou alguma outra cor, muito menor. São muito poucas as famílias que são facilmente reconhecíveis, tipo os Malfoy.

— Loiros? — Debochei em um ronronar involuntários.

— Loiros daquele nível — retrucou, mas havia uma risada na voz dela. — Sabe, platinados. Todos os Malfoy são assim, não importa com quem se casem o filho sempre segue a genética deles e mais um garoto de cabelo branco e olhos cinzas aparece por ai.

— São sempre meninos?— Contive a vontade de virar o rosto para encara-la. Se estregasse qualquer que fosse sua obra de arte, Daphne me mataria.

— São. Apenas um filho, sempre um rapaz— sua voz morreu aos poucos e, posso jurar, deve ter mordido os lábios.— Não faço ideia de como fazem isso. Deve ser magia negra, algum feitiço ou poção, mas eles nunca falaram e ninguém nunca teve real coragem de perguntar.

— Festa do pijama e não nos chamaram? — Pansy entrou no quarto, sendo seguida de Hopkins, um sorriso bem torto nos lábios. — Eu pensei que eramos melhores do que isso.

— Era só uma conversa, Pam — Greengrass rebateu sem parar de trabalhar, achando um exagero o termo usado pela amiga. Eu apenas sorri, deixando minha voz suave.

— Mas não mais — cantarolei. — A diversão chegou, então se junte a nós, Parkinson.

Ela fez, junto com Sue. Todas sentaram no chão, esquecendo as confortáveis camas que tínhamos disponíveis, e soube que qualquer conversa sobre mim ou sobre os Malfoy estava encerrada, por hora. Até que todas fossem dormir ouvi mais do que falei e resisti ao olhar irritado de Daphne quando desfiz sua arte quando me troquei para dormir. Cheguei a rir do bico inconformado que ela fez antes de puxar os panos do meu dossel e me acomodar para dormir. Por hoje, havia decidido, não visitaria Lagrum. E, como nas maiorias das vezes em que decidia faltar aos nossos encontros rotineiros, me arrependi amargamente.

Começou logo pela manhã, na mesa do café. Havia uma confusão geral no Grande Salão e uma satisfação selvagem entre meus colegas de casa, mesmo que eles também não entendessem o porquê. Logo descobri a razão: o contador de pontos da Grifinória havia despencado. Havia, no mínimo, quase duzentas granadas a menos em seu tubo, fazendo a casa dos leões perderem a dianteira sofrida ganha tão recentemente com o Quadribol e dando passe livre para que Sonserina liderasse a Taça das Casas outra vez – e com folga.

Busquei, na mesma hora, o rosto de Potter e Granger na mesa deles: pálidos, abatidos, a cabeça tão baixa que logo iriam comer seu desjejum pelo nariz. Se bem que o desanimo dos dois chegava ao nível de não mexerem na comida, não de forma decente. Uma sensação gelada começou no meu estomago ao pensar que algo dera estrondosamente errado – os colegas de Carlinhos não apareceram? Hagrid se recusou a entregar Norberto? Foram pegos? Sempre detestei a sensação de ansiedade que vinha junto com o desconhecido. Não estava nada acostumada a me submeter a esse tipo de sentimento e foi decidida a dar fim a ele que andei à passos rápidos em direção aos dois.

A primeira a me ver foi Mione e, Salazar me ajude, meu coração quase quebrou. Seus olhos estavam inchados e seus olhos, tão espertos, apagados. Ela fungou quando me viu e soltou um barulhinho baixo quando a envolvi nos braços sem dizer nada, apertando seus ombros frágeis e enterrando os dedos em seus cabelos volumosos, buscando sua nuca para pressionar o ponto tenso ali. Olhei para Harry enquanto isso, que me parecia tão abatido quanto, mas pelo menos sem traços de choro.

— Explique-se, Potter.

Permaneci sentada e com os braços envolta de Granger enquanto escutava a narrativa objetiva e até curta dos acontecimentos da noite passada. Se eu não conseguisse ver de forma mais completa em sua mente, teria me incomodado com a falta de detalhes. Felizmente a mente de Harry estava aberta para mim, então passei por cima de sua voz tão abatida e de seus ombros caídos e me concentrei no que era importante.

Eles haviam conseguido, sim, se livrar de Norberto. Toda primeira parte do plano, na verdade, havia sido perfeita. Os dois saíram da Torre da Grifinória debaixo da capa de invisibilidade e chegaram à cabana do gigante sem complicações. Hagrid estava arrasado e chorando, mas ainda não era louco e entregou o dragão com a dor de quem se separava de um filho. Ambos, Potter e Hermione, então voltaram para o castelo, subindo com o dragão em um caixote até chegar ao corredor que levava à torre de Astronomia – sempre proibida aos alunos fora do horário das aulas.

A noite angustiante teve seu ponto alto quando chegaram a este corredor e viram um movimento nas sombras, dois contornos que se debatiam. Quando uma lâmpada se acendeu, relevou Minerva McGonagall segurando Draco Malfoy pela orelha, a torcendo de um jeito que fazia o rosto do garoto ficar vermelho. Não consegui (e nem quis) evitar de correr meus olhos até onde estava Malfoy na mesa, prestando atenção em suas orelhas: realmente, uma delas ainda estava mais vermelha que a outra.

O parvo, como eu havia imaginado, se esgueirou até os arredores da torre com a intenção de pegar Potter no flagra, mas acabou ele mesmo se dando mal. Pegou uma detenção da diretora dos leões e perdeu vinte pontos para a Sonserina (de fato, havíamos mesmo perdido, mas comparando ao disparate da Grifinória, nem dava para notar). Draco, petulante e meio ofegante, ainda tentou argumentar que ele tinha motivos "nobres", mencionou Norberto e mencionou a infração de Harry (deixando Mione de fora), mas Minerva chamou tudo de mentira, muito irritada e indignada com tamanha falta de consideração e respeito as regras da escola, e o arrastou em direção as masmorras, onde seria entregado aos cuidados de um Snape de pijamas, assim como ela mesma estava (quem diria que usava rede no cabelo, hem, Minny vaidosa?).

Empurrando minhas conjecturas pessoais sobre como Severo dormia (será que mergulhava o cabelo em óleo de cozinha toda noite?), prestei atenção quando me disse que, depois disso, chegaram ao topo da torre e esperaram. Não deixei de ver, em sua mente, a dancinha engraçada de Hermione ao finalmente estarem livres, o êxtase de ver Malfoy se ferrando a fazendo passar esse tipo de vergonha. Os dois ainda riram, baixo e sufocado, mas iram, até avistarem quatro vassouras. Os amigos de Carlinhos eram tão animados que senti vontade de conhecer o ultimo e prenderam o dragão em arreios para levar no meio deles. Os dois leões transgressores, Potter e Granger, ainda ficaram observando o grupo sumir na noite com sua dor de cabeça até terem certeza de que não era um sonho.

Poderia ter sido uma noite exuberante, mas a burrice de Potter não permitiu.

Tive ganas de esgana-lo ao observar como deu as costas e deixou a capa lá, para trás, sem proteger nenhum dos dois no caminho de volta. Foi algo tão ridículo, tão imbecil e tão inocente... Granger, ela não tinha culpa. A capa não era dela. Não era ela que, supostamente, já estava acostumada a andar com ela para lá e para cá. Além de uma burrice sem tamanho, Harry mostrou um desleixo tão grande e insensível a algo que, ele mesmo disse, era "pessoal" e "importante", que ele merecia que a capa fosse rasgada e queimada na sua frente. Idiota.

Filch estava lá para receber os dois, logo aos pés da escada. Eles haviam sido, então, imediatamente levados até McGonagall, em sua sala no primeiro andar. Mione tremia, eu vi em sua memória, e Potter queria correr. A situação apenas não poderia ficar pior, até ficar. Quando finalmente Minerva apareceu, trazia consigo Neville Longbottom. O trapalhão de boa índole havia escutado Malfoy dizer que iria pega-los e decidiu se corajoso justo naquela noite, se embrenhando na escola às altas horas atrás dos dois.

A diretora da casa dos três estava quase tendo um ataque de raiva e queria respostas. Hermione ainda estava em estado catatônico e nenhum dos seus valentes companheiros teve bolas para encarar a mulher nos olhos e assumir os erros. O silêncio estimulou a professora de transfiguração a criar uma teoria mirabolante sobre Potter e Mione quererem tirar uma com a cara de Draco e de Neville, os fazendo se meter em apuros. Não perdeu oportunidade para passar um sermão, também, em cada um deles: Mione passava em sua mente, em uma tortura continua, a imagem gravada de Minerva e seu desgosto lhe dizendo como estava decepcionada, e até mesmo Harry se sentia um lixo ao lhe ter jogado na cara que não se importava com a casa e sua reputação, aparentemente.

Finalmente, a razão dos olhares ao contador de pontos: além de detenções, os três perderam cinquenta pontos. Cada um. Eles haviam perdido a mesma quantidade que eu mesma havia perdido, há algum tempo quando "invadi" a sala comunal da Grifinória e fiz Malfoy se certificar que o teto era de boa qualidade. Talvez, apenas talvez, não tivessem perdido tanto que Harry não houvesse contestado a decisão da diretora – Minerva não era do tipo que gostava que a rebatessem.

Quando o relato acabou, ainda fui capaz de enxergar uma última lembrança: Potter sem fechar os olhos a noite inteira, ouvindo Longbottom chorar. Corri meus olhos até encontrar o menino, encolhido e mais cabisbaixo do que o normal, olhando para seus ovos como se fossem miolos de trasgo. Era questão de tempo até que o motivo da Grifinória ter descido tanto se espalhasse e todos eles estavam apavorados com o que viria a seguir. Suspirei devagar, me lembrando de como eu mesma havia ficado ansiosa quando foi minha vez e apertei os braços em volta de Mione.

— Vamos, vocês não precisam ficar aqui.

Fiz Granger se levantar e mantive um braço em volta de seu ombro, observando Harry fazer o mesmo. Mandei que chamasse Neville na sua mente e esperei os dois no saguão de entrada antes de descer as escadas em direção ao porão de Hogwarts, parando em frente a grande pintura de cesta. Fiz cosquinhas na pera e observei o quadro se abrir, dando um pequeno beijo na têmpora de minha amiga para acalmá-la.

— Entre, eu já vou — e a entreguei para Neville. Havia uma incerteza clara em quebrar mais uma regra, mas não havia ninguém no corredor e nenhum professor lá dentro, apenas os elfos domésticos nos olhando, amigáveis e ansiosos, então ela entrou junto a Longbottom. Observei o quadro se fechar e, então, me virei para o menino com a testa rachada.

— Mal, eu...

Não deixei que terminasse, não queria que continuasse. Não era mais tempo para desculpas ou justificativas, a merda estava feita. Eu controlei meu péssimo temperamento de forma exemplar, me orgulhava, quando a ofensa era minha, quando a magoa e a raiva eram problemas meus. Não eram mais e isso já era muito para a limitada paciência que possuía. Na natureza, os problemas são resolvidos com a força. Na minha vida também. Senti a pele dos meus dedos rasgarem e meus ossos protestarem com o impacto, mas não era nada do que eu não estivesse acostumada. Minha mão fechada em punho havia acertado o canto da boca de Potter, fazendo ele ir para trás e quase cair – quase. Magrelo do jeito que era, o leão era mais resistente do que Malfoy, e eu não pensaria nas razões do garoto lidar com murros tão bem.

Olhei para minha mão, dolorida e com a pele dos dedos arranhada. Então olhei para Potter, com a boca cortada e um hematoma se formando no maxilar. Seus óculos, pelo menos, não haviam quebrado, e havia um misto de sentimentos em seus olhos que eu não precisaria de habilidade nenhuma para ler: choque, tristeza, indignação. Dor. Não apenas a física natural do momento, uma mais profunda e aguda. Flexionei os dedos da minha mão, respirando fundo ao sentir o monstro dentro de mim se remexer, alimentado e satisfeito. Ignorei.

— Quando estamos com alguém sob a nossa proteção, Potter, não existe a menor possibilidade de falha. Por si mesmo, pode ser tão burro e inconsequente quanto desejar, mas não era apenas você ali, não era. Era Hermione que, por sua causa, teve que suportar a situação de ser desprezada pela mulher que ela mais admira no mundo bruxo. O que você sentiria se Dumbledore te olhasse daquele jeito, dissesse, olhando nos seus olhos, que o havia decepcionado? — Sibilei, meu monstro ainda se contorcendo. –- Se quer agir como um líder, ótimo, aja. Monte seu círculo, tome a frente nas situações, delegue funções e administre habilidades. Mas, mais importante, lidere e esteja preparado para as consequências, tais como assumir a responsabilidade pelos erros cometidos. Principalmente quando tudo foi ideia sua.

Os olhos verdes de Potter estavam focados nos meus, mas não queria ver nada ali. Olhei uma última vez para seu rosto – aquele rosto bonito, de queixo quadrado e nariz reto – machucado, o lábio ferido sangrando na manga das vestes, e então lhe dei as costas para coçar a pera outra vez. Quando entrei dentro da cozinha, não olhei para trás.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 23 ♥ Malfeito, feito! ♥