Coroas e destinos

22 O Fiado da Verdade e a Ceia nas Sombras



​No Palácio do Sol Nascente, em La Push, o ambiente era de uma tensão sufocante. Com o Rei Jacob prisioneiro em Forks e a ameaça de guerra pairando como uma lâmina sobre o litoral, o Príncipe Taylor assumira interinamente a regência da coroa. Mas Taylor não se conformava com a narrativa oficial. Ele conhecia o irmão melhor do que ninguém e sabia que Jacob jamais colocaria em risco a vida de Renesmee nem a segurança do reino por uma conspiração mesquinha.

​Determinado a encontrar a ponta do novelo, Taylor começou uma investigação discreta pelos corredores do palácio. Acompanhado apenas por Sir Seth Clearwaters, o príncipe passou a questionar guardas, cocheiros e a criadagem que servira durante a noite do Baile da Maré Alta.

​Foi no final da tarde que a oportunidade surgiu. Nos corredores da ala oeste, Seth conduziu uma jovem serva de mãos trêmulas até o gabinete de Taylor.

​— Esta é a Martha, Vossa Alteza — disse Seth suavemente. — Ela cuida da limpeza dos aposentos reais e da troca dos castiçais.

​Taylor aproximou-se da jovem com um tom calmo e encorajador:

​— Martha, não precisa de ter medo. Ninguém aqui a vai punir. Mas o destino do nosso Rei e da paz entre os dois reinos depende do que você viu ou ouviu. Você percebeu algo estranho na noite do baile ou na manhã seguinte?

​A serva olhou para os lados, hesitante, e baixou a voz até quase um sussurro:

​— Vossa Alteza... eu não disse nada antes porque fiquei com medo de retaliação. Mas na noite do baile, pouco antes da meia-noite, eu estava a recolher as tochas apagadas no corredor dos aposentos do Rei Jacob. Vi a Duquesa Genevieve a andar de forma muito discreta... Ela entrou no escritório privado do Rei quando todos estavam no grande salão a dançar.

​Taylor deu um passo à frente, os olhos brilhando de atenção.

​— A Duquesa Genevieve? Tem certeza? O que ela fez lá dentro?

​— Ela ficou apenas alguns minutos, Alteza — respondeu Martha. — Quando saiu, trazia as mãos sob o manto e parecia apressada. Na manhã seguinte, o tal pergaminho apareceu sobre a escrivaninha. Eu juro pelo meu nome, Príncipe Taylor, a duquesa não tinha permissão para estar naquela ala!

​Taylor trocou um olhar carregado de significado com Seth.

​— A cobra do sul... — rosnou Seth, levando a mão ao punho da espada. — Foi ela! Ela plantou o pergaminho falso enquanto o casal estava a dançar!

​— Precisamos de provas concretas para convencer a coroa de Forks — declarou Taylor, a voz firme e resoluta. — Seth, mande vigiar a comitiva de Genevieve e do Lorde Silas. Eles não podem sair de La Push até que esta conspiração seja desmascarada por completo!

​Nas Masmorras de Forks: A Ceia das Sombras

​Enquanto a verdade começava a emergir em La Push, nas frias masmorras sob a Grande Catedral de Forks a atmosfera mudava sutilmente.

​A porta de ferro da galeria rangera devagar. Renesmee desceu os degraus de pedra vestindo uma capa simples sobre as roupas escuros. Nas mãos, carregava uma cesta de vime coberta por um pano limpo, que emanava o cheiro quente de pão fresco, assado de cervo e caldo de legumes.

​Ao ouvir os passos, Jacob ergueu a cabeça da encochada de madeira. A surpresa estampou-se no seu rosto ao ver a esposa ali novamente, mas sem o olhar de ódio cego do dia anterior.

​Renesmee parou diante das grades, chamando o guarda de prontidão:

​— Abra a cela — ordenou ela com tom calmo, mas firme.

​— Vossa Majestade... o Rei Edward ordenou que... — hesitou o guarda.

​— Eu sou a sua Rainha, soldado. Abra a porta imediatamente e deixe-nos a sós — cortou Renesmee com indiscutível autoridade.

​O guarda obedeceu, girando a chave pesada e retirando-se para o topo das escadas.

​Renesmee entrou na cela gelada. O ambiente cheirava a pedra úmida e mofo, e ver Jacob — o rei alto e orgulhoso de La Push — acorrentado num canto fez o coração dela dar um aperto involuntário. Ela aproximou-se e colocou a cesta sobre o banco de madeira.

​— Você não come nada desde que chegou — disse ela suavemente, mantendo uma certa distância. — Trouxe comida quente.

​Jacob olhou para a cesta e depois para ela, a emoção transbordando nos seus olhos castanhos.

​— Você veio... — sussurrou ele, a voz embargada. — Obrigado, Nessie.

​Jacob aproximou-se do banco. O som das correntes nas suas mãos e pés cortava o silêncio. Sem cerimónias, movido por uma fome de mais de um dia inteiro de jejum e cansaço, ele pegou num pedaço de pão e na carne, comendo com avidez. Renesmee sentou-se na extremidade oposta do banco de madeira, observando-o em silêncio por longos minutos.

​Ver a vulnerabilidade dele — um rei desarmado, faminto e disposto a passar por tudo aquilo sem esboçar uma única ameaça — desarmou ainda mais as defesas de Renesmee.

​Quando Jacob terminou de comer e bebeu um pouco de água da jarra, ele suspirou, reclinando-se contra a parede de pedra congelada.

​— A comida estava excelente... — murmurou ele, olhando para as próprias mãos acorrentadas. — Obrigado por não me deixar morrer de fome nas masmorras do seu pai.

​— Eu não vim aqui por caridade, Jacob — disse Renesmee, a voz serena, embora pontuada pela dúvida que a consumia por dentro. — Vim porque as suas palavras de ontem não saíram da minha cabeça. Se você realmente quer que eu acredite que não é um traidor, preciso que me conte exatamente tudo o que aconteceu. Ponto por ponto. Sem omitir nada.

​Jacob virou-se para ela, sustentando o olhar acobreado com absoluta sinceridade.

​— Eu conto tudo, Nessie. Do início ao fim.

​Jacob começou a recapitular cada detalhe dos dias anteriores. Contou sobre a pressão que sofria dos lordes do sul antes do casamento, sobre a chegada surpresa de Genevieve e a tentativa da duquesa de se reaproximar na biblioteca.

​— Na biblioteca... — continuou Jacob, a voz cheia de remorso —, quando ela se aproximou e começou a falar do passado, eu estava exausto e pego de surpresa. Ela inclinou-se e beijou-me. Eu hesitei por dois segundos idiotas... um erro pelo qual me culparei para sempre. Mas quando percebi o que estava a acontecer, eu a afastei! A Carlie entrou logo em seguida e viu. Eu nunca desejei aquela mulher, Nessie. Desde que você entrou na minha vida, nenhuma outra mulher existe para mim.

​Renesmee ouvia com atenção absoluta, notando que a versão dele batia exatamente com o tom que Carlie usara ao descrever o flagrante, embora a raiva de Carlie tivesse feito a cena parecer ainda pior.

​— E o pergaminho? — perguntou Renesmee, estreitando os olhos. — Estava nos seus aposentos privados, Jacob. Selado com a sua cera real.

​— Isso é o que mais me intriga — respondeu Jacob, inclinando-se para a frente, as correntes tinindo. — Aquela carta falava em nomes de clãs do sul que eu nem sequer consultei. Trazia detalhes sobre o meu governo que apenas alguém próximo do palácio saberia. Além disso, a cera do meu selo fica guardada na escrivaninha do meu escritório privado... um lugar onde só a família real e os servos mais antigos têm acesso.

​Renesmee franziu o cenho, o raciocínio lógico da sua mente treinada em Forks começando a juntar as peças do quebra-cabeça.

​— Espere... — disse ela, os olhos arregalando-se devagar. — No dia do baile, o escritório privado esteve vazio durante quase toda a noite, enquanto estávamos no salão principal...

​— Exatamente — confirmou Jacob. — Alguém aproveitou a festa, entrou no meu gabinete, usou o meu selo e plantou o pergaminho nos nossos aposentos para que você o encontrasse na manhã seguinte.

​— E quem ganharia com a destruição do nosso casamento e com uma guerra entre Forks e La Push? — questionou Renesmee, a voz subindo num tom de revelação.

​— Quem ganharia seriam os lordes do sul — respondeu Jacob com firmeza, os olhos queimando com a clareza da conspiração. — Se o nosso casamento ruísse e Forks atacasse La Push, o meu trono cairia. E com o trono vago, o Lorde Silas e a Casa de Beauvoir assumiriam o controlo de todo o litoral.

​Um silêncio sepulcral tomou conta da cela.

​Renesmee levou a mão à boca, tomada por um choque frio. A trama era perfeita. Era cruel, diabólica e quase destruíra tudo o que eles tinham construído. Eles haviam sido peças num jogo de xadrez arquitetado pelas sombras do sul.

​— Meu Deus... — sussurrou Renesmee, olhando para Jacob. A fúria que sentia por ele fora substituída por uma terrível sensação de culpa e urgência. — Alguém trabalhou nas sombras para destruir a nossa confiança... e nós caímos como patos na armadilha.

​Jacob estendeu a mão acorrentada devagar. Desta vez, Renesmee não recuou. Ela permitiu que os dedos quentes dele tocassem suavemente os seus nós dos dedos sob a mesa de madeira.

​— Nós fomos enganados, minha rainha — disse Jacob, a voz trêmula de emoção. — Mas se você ainda tiver um resto de fé em mim... nós podemos deter esta loucura antes que seja tarde demais.

​Renesmee olhou para as mãos unidas sobre o banco, sentindo o calor e a verdade que emanavam dele. O amor que ela julgara morto no dia anterior renasceu no seu peito com uma força avassaladora.

​— Eu vou falar com o meu pai — declarou Renesmee, levantando-se com o olhar repleto de uma determinação real. — Nós vamos desmascarar esses traidores.