Coroas e destinos

26 A Sombra da Corda e o Abismo do Silêncio



​A manhã nasceu fria, coberta por uma névoa cinzenta e espessa que parecia sufocar a praça central de La Push. No centro do patíbulo de madeira recém-construído, duas cordas grossas balançavam ao sabor do vento marinho. Uma multidão silenciosa assistia ao desfecho da traição.

​Ao som do tambor funeral, Silas Beauvoir e Genevieve foram conduzidos pelos guardas. Silas mal conseguia parar em pé, sendo arrastado; Genevieve, por sua vez, trazia o olhar perdido, a vaidade destruída pelas verdades que ouvira no tribunal. No alto da sacada real, Jacob e Renesmee observavam lado a lado, cobertos por pesados mantos escuros.

​Com um sinal seco do Lorde Sam Uley, os alçapões abriram-se de golpe. O som seco da madeira e a tensão das cordas selaram o fim dos conspiradores. A traição que quase destruíra dois reinos fora finalmente lavada no patíbulo. Mas, para Jacob, a morte dos traidores não apagava o veneno que ainda queimava sob a sua pele.

​Nas Penumbras dos Aposentos Reais

​Após a execução, o silêncio instalou-se no Palácio do Sol Nascente. Mas, longe do alívio esperado, uma barreira invisível e dolorosa ergueu-se no próprio coração do palácio.

​Nos aposentos do rei, Renesmee aguardava à janela. Ao ouvir a porta abrir-se, virou-se com o coração solícito, querendo acolher o marido depois de dias de pesadelo. Jacob entrou devagar, com o olhar fixo no chão de madeira. Ele parecia carregar o peso de uma montanha sobre os ombros.

​— Jake... — murmurou Renesmee, aproximando-se com os braços abertos para abraçá-lo. — Acabou. O mal foi destruído. Podemos finalmente ter paz.

​Mas, quando as mãos dela se aproximaram da sua cintura, Jacob deu dois passos apressados para trás, esquivando-se do toque como se a pele dela queimasse.

​Renesmee estancou, a mão pairando no ar, o rosto franzindo-se numa mistura de choque e incompreensão.

​— Jake? O que foi? — perguntou ela, a voz fraquejando.

​— Não me toque, Nessie... por favor — pediu Jacob, a voz rouca e sufocada pela angústia. Ele nem sequer conseguia sustentá-la no olhar. — Eu... eu preciso de espaço.

​— Espaço? — repetiu ela, o peito apertando-se numa dor súbita. — Nós provámos a sua inocência! Pegámos os traidores! Por que você está a afastar-me?!

​Jacob virou-se de costas, segurando a borda da mesa de madeira com tanta força que os seus nós dos dedos ficaram brancos. O remorso e a vergonha devoravam-no por dentro.

​— Porque eu tenho nojo de mim mesmo! — desabafou ele, a voz num sussurro doloroso. — Toda vez que olho para você, lembro-me de que estive na cama com aquela mulher. Lembro-me do toque dela, da boca dela... Eu me sinto imundo, Nessie! Sinto que a minha pele está contaminada por aquela víbora. Como posso deitar-me na mesma cama que você? Como posso tocar na minha esposa sentindo-me tão podre?!

​— Eu sei por que você fez aquilo! — gritou Renesmee, com as lágrimas a transbordarem dos olhos acobreados. — Fui eu que pedi! Foi um sacrifício pelo nosso povo! Eu não me importo com isso, Jacob! Eu só quero o meu marido de volta!

​— Mas eu me importo! — esbravejou Jacob, os olhos vermelhos pela dor represada. — Para mim, não foi apenas uma encenação... foi um ato que destruiu a pouca honra que me restava! Eu não consigo olhar para você sem sentir vergonha do que me tornei para resolver esta guerra.

​Sem dar margem para mais respostas, Jacob pegou na sua capa escura e caminhou em direção à porta.

​— Aonde você vai? — perguntou Renesmee, o tom de voz trêmulo e desesperado.

​— Vou ocupar os aposentos da ala oeste por alguns dias — declarou ele, de costas para ela. — Não posso ficar no mesmo quarto que você. Não até que essa vergonha saia do meu peito.

​A porta fechou-se com um baque surdo, deixando Renesmee sozinha no quarto imenso e frio. A jovem rainha deixou-se cair na borda da grande cama de casal, cobrindo o rosto com as mãos e chorando amargamente. Eles haviam vencido os inimigos externos, mas a sombra do sacrifício abrira um abismo de solidão entre os dois.

​O Verão do Amor na Ala Sul

​Enquanto o quarto do rei e da rainha era dominado pela melancolia e pelo distanciamento, na ala oposta do palácio a atmosfera era diametralmente oposta.

​Nos aposentos do Príncipe Taylor, o fogo da lareira crepitava suavemente, aquecendo o ambiente iluminado por velas. A tempestade que quase destruíra a família real servira apenas para unir Taylor e a Princesa Carlie de forma inseparável.

​A jovem princesa de Forks, irmã caçula de Renesmee, e o príncipe de La Push viviam dias de uma paixão avassaladora e sem reservas. Desde a resolução do conflito, os dois praticamente não saíam do quarto. Riso solto, sussurros apaixonados e beijos ardentes preenchiam as horas.

​Carlie estava deitada sobre o peito largo de Taylor, os seus cabelos loiros espalhados sobre os lençóis de seda, enquanto os dedos dele traçavam contornos suaves nas suas costas.

​— Acha que a minha irmã e o Jacob vão ficar bem? — perguntou a Princesa Carlie suavemente, olhando nos olhos negros do príncipe. — A Nessie parece tão triste... e o Jacob nem sequer aparece para as refeições.

​Taylor suspirou, acariciando os cabelos dela e beijando-lhe a testa com carinho:

​— O meu irmão é um homem de honra extrema, Carlie. O orgulho dele foi ferido da pior forma possível. Ele acha que perdeu o direito de ser feliz ao se sujeitar àquela armadilha... Mas o tempo e o amor da sua irmã vão curar essa ferida.

​Carlie inclinou-se e selou os lábios de Taylor num beijo profundo e demorado, fazendo-o esquecer o mundo lá fora.

​— Então vamos torcer por eles — murmurou Carlie contra a boca dele —, porque eu não quero perder um único segundo do que temos aqui.

​A Distância que Queima

​Os dias passaram lentamente. Pelos corredores do palácio, o contraste era doloroso. A Princesa Carlie e o Príncipe Taylor caminhavam de mãos dadas, exalando cumplicidade e paixão, enquanto Renesmee e Jacob pareciam dois estranhos a cruzarem-se nos salões reais.

​Jacob mantinha-se focado nos deveres do reino, mas o seu olhar trazia uma tristeza profunda. Toda vez que via Renesmee de longe, o seu coração acelerava de saudades, mas a vergonha falava mais alto, fazendo-o desviar o caminho.

​Renesmee, por sua vez, sentia a mágoa e a rejeição transformarem-se numa dor silenciosa. Ela sabia que a batalha contra os traidores terminara, mas a luta para salvar a alma e o casamento do Rei de La Push apenas começara.