Coroas e destinos
27 O Estilhaçar do Vidro e a Sentença de Gelo
A paciência de Renesmee havia se esgotado. Duas semanas de silêncio denso e olhares desviados nos corredores haviam transformado o Palácio do Sol Nascente em uma tumba de gelo. Ela era uma rainha, uma guerreira que havia ajudado a desarticular uma conspiração de guerra, mas estava sendo derrotada pelo fantasma do orgulho ferido do próprio marido.
Em uma noite de tempestade, onde os trovões abafavam o som das ondas de La Push, Renesmee dispensou as suas aias, envolveu-se num roupão de veludo escuro e marchou com passos firmes em direção à ala oeste. Os guardas hesitaram à porta dos aposentos de Jacob, mas o olhar flamejante da rainha foi o suficiente para que recuassem.
Sem bater, Renesmee abriu as pesadas portas de carvalho com um estrondo.
O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pelas chamas inquietas da lareira. Jacob estava sentado numa poltrona de couro, o olhar perdido no fogo, segurando um copo de bebida intocado. Ele sobressaltou-se com a invasão, levantando-se imediatamente.
— Nessie? O que faz aqui? Eu disse que precisava de...
— Espaço?! — interrompeu Renesmee, a voz carregada de uma fúria dolorosa, fechando a porta com força atrás de si. — Você já teve o seu espaço, Jacob! Você teve o seu tempo para lamber as feridas do seu orgulho! Mas eu não vou passar mais uma noite olhando para o teto daquele quarto imenso, sentindo-me viúva de um marido que está vivo no corredor ao lado!
O maxilar de Jacob contraiu-se. Ele deu um passo para trás, instintivamente erguendo um muro entre eles.
— Volte para os seus aposentos, Renesmee. Nós não deveríamos estar a ter esta conversa agora. Eu não estou bem.
— E eu estou?! — gritou ela, as lágrimas de frustração finalmente rompendo a barragem dos seus olhos. Ela avançou, parando a centímetros dele. — Eu perdi o homem que amo para uma mulher que já está morta! Você está a deixar que Genevieve vença do túmulo!
A menção do nome da duquesa foi como uma faísca num barril de pólvora. A dor e a vergonha de Jacob transformaram-se em pura fúria defensiva.
— Não ouse falar o nome dela! — rosnou Jacob, a voz tremendo de raiva e rancor. — Você não entende, não é?! Você fala como se fosse fácil, porque não foi a sua pele que foi tocada por aquela víbora!
— Foi um plano que decidimos juntos! — rebateu Renesmee, batendo com a mão no próprio peito. — Para salvar o seu povo, para provar a sua inocência!
— Um plano que você arquitetou! — disparou Jacob, as palavras saindo antes que ele pudesse filtrá-las, afiadas como lâminas. — Você, a rainha impecável, que não hesitou em mandar o próprio marido para a cama de outra mulher como se eu fosse um peão de xadrez nas suas estratégias de guerra!
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pelo uivo do vento lá fora.
Renesmee recuou, como se tivesse levado um soco físico no estômago. O seu rosto empalideceu brutalmente. Jacob arregalou os olhos, percebendo no mesmo milissegundo a atrocidade injusta que acabara de dizer.
— Nessie... não... eu não quis dizer isso... — murmurou ele, a voz quebrando, levantando a mão na direção dela.
— Não me toque — sussurrou Renesmee, a voz subitamente fria, vazia de qualquer emoção. Ela olhou-o com uma decepção tão profunda que fez o coração de Jacob parar. — Se é assim que você vê o meu amor e o nosso sacrifício... então não temos mais nada a dizer.
Ela virou as costas e saiu, deixando Jacob sozinho com o eco terrível das próprias palavras e um remorso que o fez cair de joelhos diante da lareira, soluçando contra as próprias mãos.
A Lenta Agonia dos Dias
Após aquela noite, a rachadura no casamento transformou-se num desfiladeiro intransponível.
Os dias arrastaram-se como uma tortura silenciosa. Nos eventos da corte, eles comportavam-se como duas estátuas de gelo. Renesmee já não o procurava, já não o olhava com a ternura de antes. A sua postura era puramente diplomática. Jacob sentia a alma sangrar a cada vez que a via sorrir cordialmente para um embaixador, apenas para o seu rosto se fechar quando ele se aproximava.
O contraste tornava-se ainda mais cruel com a presença de Carlie e Taylor. A princesa e o príncipe irradiavam uma luz e um amor que preenchiam o castelo, alheios à tragédia que consumia os reis do litoral. Cada sorriso apaixonado de Carlie era um lembrete para Renesmee daquilo que ela havia perdido.
Jacob definhava. A culpa pelas palavras ditas naquela discussão unira-se à vergonha enraizada pelo toque de Genevieve. Ele sentia-se indigno de pedir perdão, sentia-se sujo demais para sequer ousar tentar reconquistá-la. O seu silêncio tornou-se a sua própria masmorra.
A Decisão Final
Um mês exato após o julgamento, Renesmee mandou chamar Jacob ao seu escritório privado.
Quando Jacob entrou, o coração disparou. Havia uma esperança tola no seu peito de que ela quisesse consertar as coisas. Mas, ao ver a postura rígida de Renesmee atrás da mesa de carvalho, iluminada pela pálida luz da manhã, o seu sangue gelou.
Sobre a mesa, havia um pergaminho oficial, selado com a cera real de Forks e La Push.
— Sente-se, Jacob — pediu ela. O tom não era de uma esposa, mas de uma monarca.
Jacob permaneceu de pé, os músculos tensos.
— O que é isso, Nessie?
Renesmee ergueu os olhos acobreados. Estavam secos, marcados pela exaustão de quem chorara todas as lágrimas possíveis nas semanas anteriores.
— É uma petição oficial endereçada ao Sumo Conselho de La Push e ao Rei Edward de Forks — respondeu ela, a voz firme, embora as mãos tremessem levemente sob a mesa. — Eu estou a pedir a anulação do nosso casamento.
O mundo de Jacob desmoronou. As paredes pareceram encolher, roubando-lhe o ar.
— O quê?! — exclamou ele, avançando até bater com as mãos sobre a mesa. — Não! Nessie, não! Você não pode fazer isso! Eu sou o seu marido, nós fomos unidos pelos deuses antigos, nós amamo-nos!
— Nós amávamo-nos, Jacob — corrigiu ela, a voz cortante. — O que quer que sejamos agora, não é um casamento. Eu não serei a rainha fantasma de um homem que tem nojo de mim, que tem nojo de si mesmo, e que prefere abraçar os próprios traumas a lutar por nós.
— Eu não tenho nojo de você! Nunca de você! — desesperou-se Jacob, os olhos marejados. — Eu amo você mais do que a minha própria vida, Renesmee! Esta anulação é um erro! Eu sou contra isto, eu não vou assinar!
Renesmee levantou-se, mantendo a postura altiva e inabalável.
— Então diga-me, Jacob... — desafiou ela, sustentando o olhar dilacerado dele. — Se eu rasgar este papel agora... se eu caminhar até você neste exato segundo e desabotoar o meu vestido... você seria capaz de me tocar? Sem fechar os olhos? Sem que a sombra da Genevieve passasse pela sua mente? Você seria capaz de fazer amor comigo sem sentir que precisa arrancar a própria pele depois?
A pergunta pairou no ar, brutal e honesta.
Jacob abriu a boca para responder, mas a voz morreu na garganta. Ele tentou dar um passo na direção dela, tentou erguer a mão, mas o bloqueio na sua mente foi físico. A lembrança do cheiro da duquesa, do ato repugnante na cama, da humilhação, da culpa... Tudo isso subiu como bile, paralisando os seus músculos.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Jacob enquanto os seus ombros caíam em completa derrota. Ele baixou a cabeça, incapaz de mentir para a mulher que amava.
— Eu... eu não sei — sussurrou Jacob, a voz esmagada pela mais pura agonia. — Eu não sei se algum dia vou conseguir encostar em você de novo sem que essa maldita vergonha me consuma. Eu sinto que estou manchado para sempre.
Renesmee assentiu lentamente. A confirmação doía mais do que qualquer mentira que ele pudesse ter contado, mas era a verdade que ambos precisavam encarar.
— Eu te perdoo pelo que me disse naquela noite, Jake — murmurou Renesmee, a voz finalmente amolecendo numa tristeza resignada. — E eu sempre vou amar a memória do homem que você foi para mim. Mas eu não posso curar um homem que não quer ser salvo.
Jacob olhou para o pergaminho sobre a mesa. A dor no seu peito era tão intensa que ele mal conseguia respirar. Ele queria rasgar o documento, queria gritar e implorar, mas o amor verdadeiro também exigia sacrifício. Se o seu trauma a estava a prender a uma vida de infelicidade, deixá-la ir era o último ato de amor que ele poderia oferecer.
Com a mão trémula, Jacob puxou a pena de prata, mergulhou-a no tinteiro e, contendo um soluço que lhe rasgava a garganta, assinou a concordância com a anulação.
A tinta preta selou o fim de uma era, enquanto a distância entre eles, antes feita apenas de silêncio, tornava-se agora a lei implacável do litoral.
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