Coroas e destinos

31 A Semente da Esperança e o Jogo dos Reis



​O sol matinal entrava pelas altas janelas dos aposentos do pequeno Príncipe Bernardo, banhando o berço de carvalho esculpido com uma luz dourada e acolhedora. O perfume de lavanda e o suave murmúrio do oceano criavam uma atmosfera de profunda paz.

​Renesmee estava sentada na poltrona de amamentação, balançando suavemente o sobrinho nos braços. O pequeno Bernardo adormecera tranquilamente contra o seu peito, e a destreza, o carinho e a paciência com que a Grã-Duquesa cuidava do bebê transformavam a cena em algo quase divino. Renesmee sempre tivera um dom natural com crianças; os seus gestos eram de uma delicadeza ímpar.

​A Rainha Carlie observava a irmã a partir da porta, com o coração apertado pela saudade e pela cumplicidade. A jovem rainha aproximou-se devagar, ajoelhando-se ao lado da poltrona de Renesmee e acariciando a mãozinha do filho.

​— Você nasceu para ser mãe, Nessie... — disse Carlie num tom suave, com os olhos brilhando. — Veja como ele se acalma no seu colo. Ele não chorou uma única vez desde que você o pegou.

​Renesmee sorriu fraco, mantendo os olhos fixos no rosto angelical do bebê.

​— Ele é tão puro, Carlie. Ficar com ele faz o barulho do mundo lá fora desaparecer por alguns instantes.

​Carlie trocou um olhar significativo com o marido, Taylor, que observava a cena em silêncio da soleira da porta. A jovem rainha segurou a mão da irmã e assumiu uma expressão de súplica perfeitamente calculada.

​— Nessie... eu preciso te pedir um favor. Um favor de irmã, mas também de rainha — começou Carlie, a voz carregada de uma falsa preocupação diplomática. — Com o nascimento do Bernardo, os meus deveres no trono não param. O Taylor e eu teremos de nos ausentar do palácio nas próximas semanas para visitar as tribos do sul e ratificar novos acordos comerciais. Eu não confio em nenhuma aia para cuidar do meu filho por tanto tempo... Fique aqui em La Push por alguns meses, por favor. Fique e cuide do Bernardo enquanto precisamos nos ausentar.

​Renesmee estancou os movimentos do balanço, o seu corpo tensionando-se imediatamente.

​— Ficar em La Push? Por alguns meses? — repetiu Renesmee, a voz vacilando. ela olhou para a irmã, buscando um sinal de brincadeira. — Carlie, você sabe que eu não posso. Respira-se a memória da minha ruína neste palácio. Cruzar com o Jacob todos os dias pelos corredores é uma tortura que eu não sei se consigo suportar.

​— Você não estará aqui por ele, Nessie! Estará por mim! Pelo seu sobrinho! — insistiu Carlie, apertando-lhe os dedos com paixão. — O Bernardo precisa da tia dele. E eu preciso da única pessoa em quem confio a vida do meu bem mais precioso. Por favor... apenas alguns meses.

​Renesmee olhou para o pequeno Bernardo nos seus braços, que deu um pequeno suspiro feliz no sono. A resistência da Grã-Duquesa começou a ruir diante do amor pelo sobrinho e do apelo sincero da irmã.

​— Está bem... — cedeu Renesmee, num suspiro derrotado. — Eu fico por alguns meses para cuidar dele. Mas apenas pelo Bernardo e por você, Carlie.

​O que Renesmee não percebeu foi a faísca de triunfo que brilhou no olhar de Carlie. Todo aquele apelo fora meticulosamente orquestrado na noite anterior. O plano da Rainha Carlie e do Rei Taylor era simples e audacioso: confinar a ex-rainha no palácio, sob o pretexto maternal, forçando o inevitável convívio diário entre ela e Jacob. Eles sabiam que a chama do amor dos dois não se apagara — apenas precisava do sopro certo para incendiar novamente.

​A Despedida e o Olhar dos Reis

​À tarde, a praça de armas do Palácio do Sol Nascente estava preparada para a partida da comitiva de Forks. Os cavalos relinchavam suavemente e os guardas ajustavam as bagagens.

​A Rainha Isabella e o Rei Edward caminhavam em direção à grande carruagem, seguidos por Renesmee, que trajava um vestido mais simples e confortável de lã azul.

​Diante da carruagem, a família real de Forks e os soberanos de La Push reuniram-se para as despedidas oficiais.

​— Minha filha... — disse Bella, abraçando Renesmee demoradamente. — Tem certeza de que deseja permanecer? O palácio de Forks ficará vazio sem você.

​— Eu preciso ficar, mãe. O Bernardo precisa de mim e a Carlie pediu o meu auxílio — respondeu Renesmee, mantendo a voz serena e decidida.

​Enquanto as duas se abraçavam, a Rainha Bella olhou por cima do ombro da filha e trocou um olhar longo, cúmplice e carregado de entendimento com a sua filha caçula, Carlie. A mãe compreendera perfeitamente o plano sutil que a nova rainha do litoral estava a orquestrar. Bella assentiu quase imperceptivelmente com a cabeça, abençoando em silêncio a conspiração de amor das filhas.

​Ao mesmo tempo, o Rei Taylor aproximou-se de Edward para o aperto de mãos de despedida.

​— Agradeço a sua visita e a honra da sua presença no batismo do meu filho, Rei Edward — disse Taylor com solenidade.

​Edward, cujos dons telepáticos lhe permitiam ler cada camada do plano desenhado na mente do jovem rei de La Push, segurou a mão de Taylor com firmeza. Um sorriso de canto de boca desenhou-se no rosto de Edward, revelando que ele não apenas aprovava a estratégia, mas torcia pelo sucesso da mesma. Taylor respondeu com um piscar de olhos discreto e um sorriso vitorioso.

​Afastado na primeira fileira de guardas, o Príncipe e Conselheiro Jacob observava a cena. Quando Renesmee anunciou formalmente que não embarcaria na carruagem e que permaneceria em La Push pelos próximos meses para cuidar do herdeiro, o sangue de Jacob congelou nas veias.

​Ele olhou para o irmão, depois para Carlie, e finalmente para Renesmee, percebendo a teia em que acabara de ser enredado.

​A carruagem de Forks partiu, levantando uma leve poeira na estrada da floresta.

​Renesmee virou-se para subir as escadarias do palácio, os seus olhos cruzando-se por um breve e intenso segundo com os de Jacob. O olhar do ex-rei queimava. Ele sabia que o silêncio e a distância contida que mantivera nos últimos dois anos haviam chegado ao fim. Com Renesmee morando sob o mesmo teto, respirando o mesmo ar e caminhando pelos mesmos corredores todos os dias, as noites em La Push tornar-se-iam infinitamente mais intensas, perigosas e ineludíveis.