Coroas e destinos

32 Chá, Veneno e Fagulhas do Passado



​O sol de fim de tarde dourava a varanda dos jardins reais, onde uma brisa suave vinda do oceano balançava as cortinas de linho branco. A mesa redonda de ferro trabalhado estava posta com requinte: travessas de porcelana com geleia de amoras, pães doces recém-assados, biscoitos de amêndoas e um bule de prata fumegante exalando o aroma de chá de jasmim.

​A Rainha Carlie e a Grã-Duquesa Renesmee desfrutavam de um momento de paz. O pequeno Bernardo adormecera no berço de vime ao lado da mãe, embalado pelo som distante das ondas.

​— Devo admitir, Nessie — disse Carlie, servindo uma xícara para a irmã com um sorriso radiante —, ter você aqui mudou a cor deste palácio. Bernardo está radiante e eu finalmente consigo respirar entre uma reunião do conselho e outra.

​— Ele é um anjo, Carlie — respondeu Renesmee, ajeitando a xícara com elegância —, e cuidar dele é um alívio para mim. É bom estar num lugar onde as pessoas realmente cumprem o que prometem e honram a palavra dada.

​Antes que Carlie pudesse responder à alfinetada sutil, passos pesados ressoaram no piso de madeira da varanda.

​O Rei Taylor e o Príncipe Jacob aproximavam-se. Taylor trazia uma expressão descontraída, enquanto Jacob, impecável em sua túnica escura de conselheiro, exalava uma aura de contenção.

​— Senhores da corte... que honra nos concederem a graça da sua presença — provocou Carlie, inclinando a cabeça para o marido.

​— Não poderíamos recusar o aroma deste chá, minha rainha — brincou Taylor, aproximando-se de Carlie e depositando um beijo carinhoso em sua testa antes de se sentar ao seu lado. — E o meu primeiro-conselheiro aqui precisava desesperadamente de uma pausa. Ele passa tanto tempo trancado na sala de mapas que já está a começar a parecer uma estátua de pedra.

​Jacob não disse uma palavra. Apenas puxou a cadeira de ferro à frente de Renesmee e sentou-se devagar. O seu olhar cruzou-se com o dela por um breve milésimo de segundo antes de se fixar na xícara vazia à sua frente. O silêncio dele era denso, quase palpável, preenchendo a mesa como uma nuvem de tempestade.

​— Chá, Jacob? — ofereceu Carlie, pegando no bule de prata.

​— Apenas água, por favor, Vossa Majestade — respondeu Jacob, a voz grave, seca e perfeitamente polida, sem erguer os olhos.

​A conversa continuou a fluir levemente entre Taylor e Carlie. Falaram sobre o clima, as colheitas do outono e os preparativos para a festa do solstício. Jacob permanecia uma figura silenciosa e imponente, bebendo pequenos goles de água e mantendo a postura de uma estátua de mármore.

​Foi então que Carlie, passando a geleia de amoras para o marido, suspirou com uma cumplicidade brincalhona:

​— Sabe, Taylor... há coisas que só o tempo e a maturidade ensinam. Um homem de verdade reconhece quando erra, pede desculpas e faz de tudo para consertar o que quebrou, sem se esconder atrás do próprio orgulho. Não é maravilhoso como a coragem é uma virtude tão nobre?

​A frase caiu sobre a mesa como uma pedra num lago cristalino.

​Renesmee, que levava a xícara de chá de jasmim aos lábios, deu um pequeno sorriso de canto, pousou a xícara na pires com um estalido suave e soltou, sem desviar o olhar do mar:

​— Uma pena que nem todos os homens em La Push tenham sido abençoados com essa nobreza, minha irmã. Alguns preferem a comodidade de se fingirem de vítimas e fugirem para a escuridão do que encarar a própria covardia. É muito mais fácil ser um guerreiro de papéis do que um homem de palavra.

​A indireta foi direta e certeira como uma flecha envenenada.

​Taylor engasgou-se sutilmente com o biscoito de amêndoas e Carlie escondeu o sorriso atrás da sua xícara.

​Jacob congelou. A rigidez do seu travessão muscular foi visível. Ele pousou o copo de água sobre a mesa com uma força calculada, fazendo o vidro ressoar, e ergueu os olhos negros, encarando Renesmee de frente pela primeira vez naquela tarde. As chamas do passado, adormecidas por dois anos, acenderam-se instantaneamente no seu olhar.

​— Covardia, Grã-Duquesa? — rebatou Jacob, a voz num tom baixo, pausado e perigosamente afiado. — Acredito que confunde covardia com prudência. Alguns homens preferem o recolhimento a ter de lidar com pessoas que julgam o mundo a partir do seu pedestal de perfeição, sem nunca terem pisado no chão da realidade.

​Renesmee inclinou o rosto para o lado, um brilho de puro desafio acendendo-se nos seus olhos acobreados. A postura fria e distante de duquesa ruiu, dando lugar à garota geniosa e impetuosa do passado.

​— Ah, a famosa 'prudência'! — debochou Renesmee, cruzando os braços e recostando-se na cadeira. — Que nome bonito para o medo! É impressionante como a sua 'prudência' sempre coincide com o momento em que você precisa assumir a responsabilidade pelas suas próprias escolhas, Príncipe Jacob.

​— As minhas escolhas foram feitas para proteger este reino e as pessoas nele! — devolveu Jacob, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa, a voz subindo uma oitava, a polidez oficial caindo por terra. — Inclusive de certas decisões impulsivas que nos foram impostas sob o disfarce de 'sacrifício'!

​— Impostas?! — exclamou Renesmee, soltando uma risada irônica e indignada. — Ninguém o arrastou acorrentado, Jacob! Você concordou! Mas é claro, é muito mais conveniente para o seu ego ferido culpar-me a mim do que admitir que o seu orgulho é maior do que qualquer sentimento que você alegava ter!

​— O meu sentimento nunca foi a questão aqui, e você sabe disso! — vociferou Jacob, os nós dos seus dedos ficando brancos ao segurar a borda da mesa. — O problema é que a senhora exige perfeição de um homem feito de carne e osso, enquanto se comporta como uma deusa imaculada que nunca erra!

​— Pelo menos eu não fujo quando a tempestade chega! — disparou ela, os olhos faiscando de raiva. — Eu enfrentei cada segundo daquela tragédia de cabeça erguida, enquanto você se trancou numa torre para chorar o seu orgulho ferido!

​— Eu não me tranquei para chorar, Renesmee, eu me tranquei para não ter de olhar para o desprezo que via nos seus olhos! — rebateu Jacob, a voz vibrando com uma paixão e uma dor cruas que fizeram os pássaros do jardim se calarem.

​Na outra ponta da mesa, Taylor e Carlie trocavam olhares radiantes por trás das xícaras de chá. O silêncio sepulcral de dois anos fora finalmente quebrado. A polidez gelada desmoronara. Ali não estavam mais o Primeiro-Conselheiro e a Grã-Duquesa de Forks; ali estavam Jacob e Renesmee, gritando a sua dor, o seu orgulho e a sua paixão indiscutível como nos velhos tempos.

​Renesmee levantou-se num baque, fazendo a sua cadeira arrastar-se ruidosamente na madeira.

​— A conversa estava excelente, minha irmã — disse ela, a respiração acelerada, ajustando o xale sobre os ombros sem tirar os olhos furiosos de Jacob —, mas o ar desta varanda tornou-se repentinamente insuportável. Se me dão licença.

​Ela virou as costas e caminhou com passos firmes e altivos em direção aos aposentos do palácio.

​Jacob levantou-se em seguida, o peito subindo e descendo desordenadamente, os olhos acompanhando a figura dela até que desaparecesse pelo corredor.

​— Bem... — comentou Taylor com a maior calma do mundo, pegando noutro biscoito —, devo dizer que o chá de hoje foi extraordinariamente animado. Não achas, amor?

​— Sem dúvida, meu rei — respondeu Carlie, dando um gole no seu chá com um sorriso vitorioso. — Acho que o aroma de jasmim fez milagres pela comunicação do nosso conselheiro.

​Jacob virou-se para o casal, percebendo finalmente a armadilha em que fora colocado, mas a raiva no seu peito fora substituída por uma descarga violenta de adrenalina. Pela primeira vez em dois anos, ele sentia-se vivo. O sangue corria quente nas suas veias e a chama que julgara morta queimava mais forte do que nunca.