Coroas e destinos

21 A Ponte dos Suspiros e as Sombras das Masmorras



​A névoa matinal sobre o rio Quillayute era tão densa que quase ocultava os dois lados da margem. A fronteira natural entre La Push e Forks, marcada pela velha ponte de madeira e pedra, transformara-se no cenário de um impasse tenso.

​De um lado da ponte, o exército de Forks alinhava-se numa demonstração avassaladora de poder militar. Centenas de cavaleiros de armadura brilhante, arqueiros com flechas engatadas e o Duque Emmett a cavalo, empunhando o seu machado de batalha. No centro da linha de frente, o Rei Edward Cullen mantinha-se imóvel sobre o seu sela-negro, trajando a sua armadura prateada, com a lâmina valiriana desembainhada e apoiada sobre a sela.

​Do outro lado da ponte, contudo, não havia exércitos.

​Apenas uma figura caminhava devagar sob o nevoeiro.

​Jacob Black avançava a passos firmes e solitários pelo tabuleiro da ponte. Não trajava armadura, manto ou espada. Estava apenas com uma túnica simples de couro e linho escuro. Ao fundo, nas margens de La Push, o Príncipe Taylor e Lorde Sam Uley observavam em silêncio absoluto, prontos para intervir se o pior acontecesse, mas cumprindo a ordem expressa do seu rei.

​Jacob parou a poucos metros da ponta da espada de Edward. O silêncio entre os dois soberanos era sufocante; podia-se ouvir apenas o marulhar da água abaixo de seus pés.

​Edward estreitou os olhos azuis, a voz ressoando fria e cortante como o vento das montanhas:

​— Você tem muita audácia ou uma tolice sem limites para vir até aqui sozinho, Jacob Black. Cadê os seus exércitos? Cadê a guarda do litoral? Ou achou que a sua simples presença impediria as minhas tropas de reduzirem La Push a cinzas pela afronta que cometeu contra a minha filha?

​Jacob encarou o Rei de Forks sem piscar. A sua postura era de uma dignidade inabalável, embora os seus olhos transbordassem a dor da perda.

​— Não há exércitos, Edward — respondeu Jacob, a voz profunda e calma. — Eu ordenei que todos os meus homens mantivessem as suas lâminas nas bainhas. Se o sangue precisa de ser derramado para aplacar a sua fúria e vingar as lágrimas da Renesmee, que seja o meu. O povo de La Push não tem culpa pelas sombras que invadiram o meu palácio.

​Edward deu um passo à frente com o cavalo, apontando a ponta da espada diretamente para o peito de Jacob.

​— Você a usou. Mentiu para ela desde o primeiro dia. Mantinha conversas com os lordes do sul para nos subjugar e a traiu com a sua antiga amante na própria biblioteca real. A minha filha voltou para casa com o coração despedaçado! Como você ousou?!

​— Eu não escrevi aquele pergaminho — declarou Jacob com extrema firmeza, sem dar um passo atrás diante da lâmina. — Eu amo a sua filha mais do que a minha própria vida. Eu fui vítima de uma conspiração para destruir a aliança dos nossos reinos. Sobre o beijo na biblioteca... eu cometi o erro de hesitar por um segundo ao ser abordado pela duquesa, e pagarei por essa falha pelo resto dos meus dias. Mas a carta é falsa, Edward. Eu jamais trairia Forks. Eu jamais trairia a Renesmee.

​Emmett adiantou-se a cavalo, rosnando:

​— Palavras vazias! Ele está a tentar ganhar tempo, Edward! Vamos cortá-lo aqui mesmo e marchar sobre a cidadela!

​Edward levantou a mão, detendo Emmett. O rei examinou a face de Jacob por longos segundos. A ausência de armas, a resignação e a verdade nua nos olhos do Rei de La Push deixaram Edward perplexo. Se Jacob fosse o vilão manipulador descrito na carta, teria montado uma defesa ou fugido para o sul.

​— Se você jura que é inocente — disse Edward, baixando a espada apenas um centímetro —, porque se entrega assim, sem resistência?

​— Porque a confiança da sua filha foi destruída, e a responsabilidade de restaurá-la é minha — respondeu Jacob. — Eu entrego-me à sua custódia. Leve-me para Forks como seu prisioneiro. Ponha-me nas suas masmorras. Eu me submeterei a qualquer julgamento, a qualquer interrogatório, até que a verdade sobre os conspiradores seja revelada. Se eu tentar fugir ou se provarem que a carta é minha, execute-me. Mas não faça guerra contra o meu povo.

​Edward baixou completamente a espada. Ele olhou para Emmett e deu a ordem:

​— Prendam-no. Desarmem-no e coloquem-lhe as correntes de ferro. Voltamos para Forks.

​Nas Masmorras da Grande Catedral

​As profundezas da cidadela de Forks eram frias, úmidas e mofadas. Nas masmorras de pedra sob a catedral, a única iluminação vinha de uma tocha fraca presa à parede de corredores escuros.

​Jacob estava sentado num banco de madeira tosca dentro de uma cela com grades grossas de ferro. As suas mãos estavam presas por correntes pesadas. Ele mantinha os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar fixo no chão de pedra gelada.

​O som de passos apressados e o farfalhar de vestidos elegantes ecoaram pelo corredor.

​Renesmee apareceu diante da cela. Ao saber que Jacob se entregara e estava trancado nos subterrâneos de seu próprio castelo, a jovem rainha não conseguira conter a tempestade de sentimentos e descera até aos calabouços. Ela trajava um vestido escuro e trazia o rosto pálido, com os olhos ainda inchados do choro constante.

​Ao ver a figura dele atrás das grades, a raiva que ela tentara sufocar explodiu novamente.

​— O que você pensa que está a fazer aqui?! — vociferou Renesmee, agarrando as grades de ferro com as duas mãos, as articulações dos dedos ficando brancas. — Acha que se entregar como um mártir dramático vai fazer com que eu esqueça a sua nojeira?! Acha que a sua encenação me impressiona, Jacob?!

​Jacob ergueu a cabeça devagar. Ao ver a esposa, uma onda de alívio e dor percorreu o seu rosto. Ele levantou-se, as correntes ecoando pesadamente contra o solo, e caminhou até parar do outro lado das grades, a poucos centímetros dela.

​— Renesmee... — murmurou ele, a voz rouca. — Eu só queria ver você... saber se está bem...

​— Eu não sou sua "Renesmee"! — gritou ela, a voz embargada soltando farpas. — Você é um falso! Um hipócrita miserável! Você usou-me, beijou aquela duquesa vulgar nas minhas costas e planejou entregar o meu reino aos lordes do sul! Eu odeio você! Odeio o dia em que aceitei casar com um selvagem como você!

​Ela bateu com os punhos contra as grades, as lágrimas voltando a inundar os seus olhos acobreados.

​— Por que não lutou?! — questionou ela, num tom histérico e desmesurado. — Por que não trouxe os seus exércitos?! Por que veio entregar-se como um covarde para morrer na cela do meu pai?!

​Jacob não se alterou com os gritos nem com os insultos. Ele apenas a encarou com um olhar profundo, repleto de uma tristeza infinita e de uma serenidade desconcertante.

​— Renesmee... olhe para mim — disse Jacob, a voz suave, mas firme como uma rocha.

​Ela tentou desviar o olhar, mas a intensidade das palavras dele prendeu a sua atenção.

​Jacob aproximou a mão acorrentada da grade, querendo tocar-lhe o rosto, mas deteve-se a meio do caminho, sabendo que não devia.

​— Se eu fosse realmente esse monstro que você acredita... — disse Jacob, pausadamente, sustentando o olhar dela — se eu fosse o homem frio e calculista que escreveu aquele pergaminho para subjugar Forks... você acha mesmo que eu estaria aqui, trancado nesta cela, acorrentado por vontade própria, pronto para dar a minha vida apenas para garantir a sua segurança e o seu perdão?

​Renesmee estancou. As palavras cortantes dela morreram-lhe na garganta.

​— Um homem culpado teria fugido para o sul ou mandado o seu povo para a guerra para se proteger por trás de escudos — continuou Jacob, a voz embargada pela emoção. — Mas eu estou aqui. Nas masmorras do seu pai. Porque eu não me importo com a coroa, não me importo com os lordes do sul e não me importo com a minha própria vida se eu não tiver o seu amor. Eu cometi um erro com a Genevieve ao não afastá-la no primeiro segundo, e arrepender-me-ei disso até ao meu último sopro. Mas aquela carta não é minha. Eu nunca traí o seu coração, Nessie. Nunca.

​O uso do apelido carinhoso fez o peito de Renesmee estremecer.

​Ela olhou para ele, atônita. As palavras de Jacob penetraram no seu peito não como uma desculpa esfarrapada, mas como uma verdade crua e lógica que desarmava qualquer argumento da raiva.

​Sem saber o que dizer, com o coração em desalinho e uma dor profunda no peito, Renesmee deu dois passos para trás.

​— Guardas... abram a porta da galeria — murmurou ela com a voz trêmula e incerta.

​Ela deu as costas a Jacob e começou a subir as escadas a passos rápidos, quase correndo, enquanto as correntes dele ecoavam em silêncio atrás das grades.

​Nos Aposentos Reais: A Dúvida e a Sombra da Verdade

​Renesmee entrou nos seus aposentos privados e fechou a porta bruscamente, recostando-se contra a madeira entalhada. A sua respiração estava desordenada.

​Ela caminhou devagar até a janela que dava para as torres da catedral e o acampamento das tropas.

​As palavras de Jacob não paravam de ecoar na sua mente: “Se eu fosse culpado... você acha mesmo que eu estaria aqui?”

​A raiva cega que a dominara desde a manhã anterior começou a dar lugar a uma enorme e incômoda interrogação. O raciocínio de Jacob era irrefutável. Se ele estivesse realmente conspirando contra Forks, a atitude lógica de um traidor seria recuar para os domínios do sul, armar o seu povo e usar as defesas naturais de La Push para se manter no poder. Vir sozinho, desarmado, e entregar-se à prisão de um rei furioso era o oposto do comportamento de um estrategista frio.

​Renesmee levou as mãos à cabeça, sentando-se na borda da cama.

​— Meu Deus... — sussurrou ela para a penumbra do quarto. — E se ele estiver a dizer a verdade? E se fomos todos enganados?

​A dúvida plantara-se no seu coração como uma semente perturbadora. Pela primeira vez desde o início da tempestade, Renesmee percebeu que precisava de olhar para além do seu próprio orgulho ferido se quisesse descobrir a verdadeira face do inimigo.