Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo
16 O Gelado Duque de La Push, Olhares de Canto
Se Jaqueline achava que o silêncio daquela noite sem fim fora um evento isolado, os dias seguintes provaram que ela estava terrivelmente enganada.
Bernardo não estava apenas ocupado; ele mudara de tática. O homem que antes invadia o quarto com chaves mestras, fazia piadas provocantes ao pé do ouvido e cercava a esposa com uma presença avassaladora simplesmente recuou. Tornou-se o modelo perfeito de cortesia diplomática — e isso era infinitamente pior do que qualquer provocação.
A primeira prova dessa nova e torturante realidade aconteceu durante o almoço real no Jardim das Hortênsias.
Jaqueline, vestindo um robe leve de linho verde-oliva, sentou-se à mesa externa onde Bernardo já saboreava uma xícara de café enquanto lia os relatórios da Guarda das Fronteiras. A princesa pigarreou alto, ajeitou a saia com ruído e derrubou uma colher de propósito para chamar atenção.
Bernardo ergueu os olhos cinzentos. Não havia neles a centelha de deboche costumeira, apenas uma polidez calma e distante.
— Bom dia, Duquesa — disse ele, a voz num tom cordialmente impecável. Ele levantou-se brevemente em uma reverência impecável, como mandava o manual de etiqueta da corte. — Espero que tenha dormido bem.
— Eu... dormi bem, sim — mentiu ela, pegando uma torrada com uma hesitação que odiou demonstrar. — E você? Não o vi chegar ontem à noite. Nem anteontem. Aliás, você por acaso descobriu que o quarto de hóspedes tem uma cama mais macia ou esqueceu o caminho dos nossos aposentos?
— Tive reuniões até tarde com o conselho militar sobre a patrulha do norte, Jaque — respondeu Bernardo, dobrando o jornal com serenidade e servindo-se de mais café. — Achei que seria mais sensato dormir nos aposentos da guarda para não perturbar o seu sono. Sei o quanto valoriza o seu espaço e a sua tranquilidade.
Jaqueline travou o garfo no meio do caminho. Ela esperava uma piada sobre trancas de ferro, uma piscadela ou uma provocação sobre o abraço matinal da semana anterior. Mas não veio nada. Apenas uma consideração polida que soava como um soco no seu orgulho.
— Ah. Entendo. Muito... atencioso da sua parte — murmurou ela, o peito apertando com aquela sensação incômoda de frustração.
— Sempre às ordens — sorriu ele, um sorriso leve que não chegava aos olhos. Bernardo levantou-se, pegou suas pastas e fez mais uma breve mesura. — Com sua licença, preciso vistoriar os cavalariços. Tenha um ótimo dia.
Jaqueline viu o marido afastar-se a passos firmes, o manto azul-escuro esvoaçando com elegância. Ela amassou o guardanapo de linho na mão com tanta força que quase o rasgou.
— "Tenha um ótimo dia"?! — sibilou ela para as hortênsias, indignada. — Desde quando ele é tão educado?! Onde está o brutamontes abusado que tentava me arrombar a porta?!
Mais tarde, no Pátio de Treinamento de Espadas, a situação atingiu o limite da tolerância de Jaqueline.
Acompanhada por Renesmee e Carlie, a princesa fingia prestar atenção na colheita de ervas dos jardins suspensos, mas seus olhos verdes estavam cravados na arena de terra batida. Bernardo treinava combate corpo a corpo com Seth e dois generais da alta guarda. Ele estava sem túnica, vestindo apenas calças de couro e uma faixa de pano no peito, o suor fazendo sua pele brilhar sob o sol da tarde enquanto esquivava de golpes e desarmava os oponentes com uma facilidade desconcertante.
Algumas damas da nobreza suspiravam na varanda superior, cochichando e apontando para o Duque.
Jaqueline sentiu o sangue ferver. Decidida a testar os limites do marido, ela desceu a escadaria de mármore e caminhou direto até a borda da arena, com um lenço de seda na mão.
— Bernardo! — chamou ela, mantendo a postura de esposa preocupada.
O Duque parou o treino no ato. Seth abaixou a espada de madeira, arfando e rindo. Bernardo pegou uma toalha para enxugar o pescoço e caminhou até a amurada onde Jaqueline o esperava.
— Aconteceu algo, Jaque? — perguntou ele, a voz rouca pelo esforço físico.
— Nada grave — disse ela, estendendo o lenço de seda com um sorriso estudado. — Você parece exausto. Trouxe um lenço para enxugar o suor... e pensei que poderíamos caminhar pelos jardins do lago depois do treino.
Antigamente, Bernardo teria puxado a mão dela, feito algum comentário ousado sobre como ela ficava linda tentando agradá-lo e arrancado um rubor das suas bochechas.
Em vez disso, Bernardo pegou o lenço com extrema delicadeza, usou-o para limpar as mãos e entregou-o de volta.
— Agradeço a gentileza, minha esposa. Mas infelizmente não poderei acompanhá-la — disse ele, num tom calmo e profissional. — Preciso analisar as planilhas de abastecimento com o tio Taylor antes do jantar e depois terei uma reunião com os emissários do sul.
— O jantar inteiro? E a noite toda? — deixou escapar Jaqueline, antes que seu filtro de orgulho pudesse conter a pergunta.
Bernardo encarou-a por um segundo mais longo. Seus olhos cinzentos pareceram decifrar a tempestade que rugia dentro do peito dela, mas ele não deu um passo em direção à armadilha.
— Provavelmente a noite toda, sim — respondeu o Duque, com um aceno respeitoso de cabeça. — Não se preocupe em me esperar acordada. Durma bem.
Ele deu meia-volta e retornou para o centro da arena, chamando Seth para mais uma rodada de combate como se a conversa tivesse sido sobre a previsão do tempo.
Jaqueline permaneceu estática na borda do pátio, com o lenço amassado entre os dedos e a boca levemente aberta de choque.
Ao longe, na varanda dos jardins, Carlie e Renesmee observavam a cena. Carlie deu um gole demorado em seu chá e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— O Bernardo é um estrategista diabólico — comentou Carlie, com uma piscadela para a Rainha. — Ele percebeu que a Jaque só luta quando é atacada. Agora que ele tirou as tropas do campo de batalha... ela não sabe o que fazer com a própria munição.
— A Jaqueline vai enlouquecer em três dias — riu Renesmee, vendo a filha morder o lábio inferior e marchar de volta para o palácio com os punhos fechados de pura birra e saudade velada.
Naquela noite, nos aposentos da Duquesa, Jaqueline não trancou a porta.
Pela primeira vez em semanas, a porta permaneceu destrancada, a lareira acesa com lenha nova e duas taças de vinho repousavam sobre a mesa de centro. Jaqueline vestia um vestido noturno de cetim vinho, escovara os cabelos acobreados até brilharem e sentara-se na beira da cama, encarando a maçaneta.
O relógio bateu onze horas. Meia-noite. Uma da manhã.
A maçaneta não girou. A chave mestra não ressoou. O Duque cumprira a promessa de não incomodá-la.
Jaqueline deitou-se na cama imensa, encarando o teto e abraçando o travesseiro onde o cheiro amadeirado de Bernardo ainda permanecia de forma tênue. Ela soltou um bufado frustrado no escuro, percebendo a pior das verdades: a distância dele doía mil vezes mais do que qualquer provocação, e ela estava desesperadamente disposta a perder aquela guerra só para ter o seu noivo folgado de volta.
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