Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo
17 Passos na Penumbra, Verdades Cruéis e o Peso das Coroas
O relógio de teto do palácio bateu duas horas da manhã. O som metálico das badaladas ecoou pelos corredores desertos, reverberando no peito de Jaqueline como um aviso.
Ela estava parada no meio do seu quarto, descalça, o vestido noturno de cetim vinho esvoaçando suavemente com a brisa fria que entrava pela janela. A porta destrancada, o vinho intocado e o silêncio esmagador tornaram-se insuportáveis. O orgulho que sempre a sustentara como uma armadura de ferro agora parecia uma gaiola sufocante.
— Chega — murmurou ela para o escuro, a voz trêmula de frustração e um desejo desesperado que ela já não conseguia mais mascarar. — Eu sou a Princesa. Eu não vou ficar esperando como uma boba enquanto ele finge que eu sou invisível.
Com passos apressados, Jaqueline abriu a porta do seu aposento e caminhou pelo corredor gelado da Ala Leste até a Suíte do Capitão, onde Bernardo vinha se alojando. A porta dele tinha uma réstia de luz alaranjada por baixo. Ele ainda estava acordado.
Sem bater, dominada pelo impulso e pela mágoa acumulada, Jaqueline girou a maçaneta e entrou.
O quarto de Bernardo era austero, bem diferente do luxo caloroso do quarto principal. Mapas táticos cobriam a mesa de carvalho, e uma única vela queimava ao lado de uma garrafa de uísque meio vazia.
Bernardo estava sentado na beira da cama de solteiro. Vestia apenas uma calça escura e uma camisa de linho cinza desbotada, com os botões abertos. Ele segurava um copo de cristal na mão e encarava o fogo fraco da lareira com um olhar sombrio, exusto e profundamente distante.
Ao ouvir a porta se abrir, ele ergueu a cabeça devagar. Os olhos cinzentos de Bernardo encontraram os verdes de Jaqueline, mas não houve o brilho provocador de sempre, nem o sorriso de canto. Houve apenas um cansaço denso e doloroso.
— O que você está fazendo aqui, Jaquele? — perguntou ele, a voz grave, baixa e desprovida de qualquer emoção teatral. Ele nem sequer se levantou.
Jaqueline cruzou os braços, tentando manter a postura ereta, mas o queixo dela tremeu por um segundo antes de ela recuperar a voz.
— Eu vim saber até quando essa farsa vai durar, Bernardo! — disparou ela, dando dois passos para dentro do quarto. — Você anda me ignorando pelo palácio como se eu fosse um fantasma! Fingindo reverências, me tratando como uma estranha diante de todo mundo, dormindo neste quarto caindo aos pedaços... O que é isso? Um novo jogo tático da Guarda Real para me punir?!
Bernardo soltou uma risada curta, amarga e sem um pingo de humor. Ele deu um gole lento no uísque, deixou o copo sobre a mesa de cabeceira com um estalo seco e finalmente levantou-se. A altura dele e a largura dos seus ombros preencheram o espaço, mas a aura ao seu redor era de pura exaustão emocional.
— Não é um jogo, Jaqueline. Eu cansei de jogar — respondeu ele, olhando-a nos olhos com uma firmeza que cortou o ar do quarto.
Jaqueline deu um passo atrás, pega de surpresa pelo tom desprovido de afeto.
— O quê?
— Você ouviu — continuou Bernardo, a voz subindo de tom, carregada de uma dor contida que finalmente transbordava. — Eu cansei. Cansei de passar todas as noites tentando provar para você que eu não sou seu inimigo. Cansei de tentar arrancar um sorriso seu no meio de batalhas infantis de ego. Cansei de correr atrás de uma mulher que olha para mim como se eu fosse uma punição, um obstáculo ou uma corrente no pé dela!
— Eu nunca disse que você era uma corrente! — rebateu ela, o peito arfando, a voz embargada pela defensiva.
— Mas age como se fosse! — interrompeu o Duque, dando um passo à frente, com os olhos cinzentos faiscando de mágoa. — Você passou meses dizendo que eu invadia seu espaço, que eu abusava de chaves mestras, que nossa união era apenas um contrato! Pois bem, Jaque. Eu te dei o que você sempre pediu: distância. Eu te dei a sua preciosa liberdade. Por que você está aqui agora reclamando disso?
— Porque nós somos casados, Bernardo! — gritou Jaqueline, lágrimas de raiva e humilhação finalmente queimando seus olhos verdes. — Você disse no altar que cuidaria de mim! Disse que esperaria por mim!
— E eu esperei! — urrou Bernardo, a voz ecoando pelas paredes de pedra, fazendo Jaqueline estremecer. Ele respirou fundo, tentando controlar o tom de voz, e aproximou-se até ficar a um palmo dela, encarando-a com uma tristeza profunda. — Eu esperei até perceber que estava lutando por algo que nunca vai acontecer. Você não quer um marido, Jaqueline. Você quer uma guerra eterna para alimentar o seu orgulho. E eu não vou passar o resto da minha vida mendigando o afeto da minha própria esposa.
O silêncio que se seguiu foi devastador. Cada palavra do Duque caiu sobre o peito de Jaqueline como uma rocha pesada. A verdade nua e crua daquelas acusações desarmou totalmente a princesa. Pela primeira vez na vida, ela não tinha uma resposta rápida, uma farpa ou uma risada debochada para se defender.
Ela estava nua em sua própria culpa.
Bernardo desviou o olhar para a janela, apertando a ponte do nariz em um gesto de dor e exaustão.
— Por favor... volte para o seu quarto, Duquesa — disse ele, a voz voltando ao tom gélido, diplomático e impessoal que a matava por dentro. — Está tarde. Amanhã temos deveres com o reino.
Jaqueline permaneceu estática por três segundos aterrorizantes. O nó em sua garganta era tão apertado que ela mal conseguia respirar. Ela olhou para Bernardo, esperando ver uma réstia daquele olhar apaixonado que a aquecera na manhã do casamento, mas só encontrou uma muralha de gelo.
Engolindo o choro com um soluço abafado, Jaqueline deu meia-volta e saiu do quarto, pisando firme para não fraquejar, fecho a porta atrás de si.
A caminhada de volta para a Suíte Principal foi um pesadelo em lento movimento. O palácio de La Push parecia gigantesco, frio e assustadoramente vazio. As paredes de mármore que antes representavam seu lar e sua força agora pareciam testemunhas silenciosas da sua derrota mais dolorosa.
Ao entrar no seu quarto, Jaqueline trancou a porta. Mas a vitória de ter a chave do seu lado não trouxe alívio algum.
Ela encostou as costas na madeira da porta e deslizou até o chão, abraçando os joelhos. As lágrimas que segurara com tanto esforço finalmente rolaram quentes e descontroladas por seu rosto. O mundo parecia ter perdido a cor. A solidão do quarto grande, a cama intocada, o perfume dele no ar... tudo doía de uma forma física, rasgando o seu peito.
ela compreendeu a extensão do seu erro: o medo de se entregar e perder o controle fizera com que ela destruísse a única coisa verdadeira que já possuíra. Ela não queria mais a vitória sobre Bernardo. Ela só queria o abraço dele de volta.
Enquanto isso, na Suíte do Capitão, a situação não era diferente.
Assim que o som dos passos de Jaqueline desapareceu pelo corredor, Bernardo soltou o ar que prendia nos pulmões e deixou o corpo cair pesado sobre a cama. Ele cobriu o rosto com as duas mãos, o peito subindo e descendo em arfadas descontroladas.
Ele se sentia destruído. Ver o olhar magoado de Jaqueline e as lágrimas nos olhos verdes dela quase o fizera ajoelhar-se e pedir perdão na mesma hora. Cada palavra ríspida que dissera fora como dar uma punhalada no próprio coração.
Ele a amava com cada fibra do seu ser. Mas o Duque sabia que, se cedesse naquele momento, o casamento dos dois estaria fadado ao fracasso definitivo. Jaqueline precisava entender que ele não era um brinquedo de corte ou um troféu a ser pisoteado pelo orgulho dela. A união deles era para valer, um compromisso de vida e alma — e ela precisava decidir, por conta própria, se estava disposta a lutar por ele da mesma forma que ele lutara por ela.
Bernardo encarou o teto escuro do quarto, o olhar sombrio e repleto de uma tristeza pesada.
— Me perdoe, meu amor... — sussurrou ele para a noite vazia, fechando os olhos enquanto a tempestade lá fora começava a cair sobre La Push. — Mas você precisa aprender a amar sem medo.
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