Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo

15 Ciúmes em Seda Vermelha, Giros Vorazes e um Quarto Vazio



​O Salão dos Espelhos do Palácio de La Push resplandecia com as cores vívidas do Baile de Primavera. Guirlandas de jasmins e urzes pendiam dos arcos de mármore, e a orquestra entoava melodias festivas que contagiavam os convidados. No centro do salão, a tradicional Quadrilha Real de Primavera tomava forma — uma dança de corte elegante, cadenciada e cheia de reverências polidas entre os casais da nobreza.

​Jaqueline, trajando um vestido de gala em tom vermelho-rubi de ombros nus, girava graciosamente entre as damas da corte. Porém, seus olhos verdes, afiados como lâminas, desviavam-se constantemente da pista de dança.

​A pouca distância, encostado em uma das colunas do salão com uma taça de cristal entre os dedos, estava Bernardo. O Duque vestia uma farda militar negra com debruns dourados que realçava ainda mais sua estatura e ombros largos. Ele estava cercado por três jovens nobres da província do norte, que riam de forma exagerada, inclinando-se perigosamente em sua direção e tocando o braço do Duque sob qualquer pretexto fútil. Bernardo, com sua polidez impecável e um sorriso charmoso, apenas mantinha a conversa, totalmente alheio ao vulcão prestes a explodir a poucos metros dali.

​Um aperto desconhecido e incrivelmente incômodo queimou o peito de Jaqueline. A mandíbula da princesa travou.

​— Licença, conde — disse ela bruscamente ao seu par da quadrilha, abandonando a formação da dança no meio do compasso.

​Com passos firmes e a cauda do vestido farfalhando contra o mármore, Jaqueline cruzou o salão como uma tempestade anunciada. As jovens nobres calaram-se no ato ao notar a aproximação imperiosa da Duquesa.

​— Com licença, senhoritas — interrompeu Jaqueline, a voz gélida banhada por um sorriso perfeitamente ensaiado. Ela entrelaçou o próprio braço no de Bernardo com uma posse que nunca demonstrara antes. — Receio que preciso roubar o meu marido. A farda do Duque é muito bonita para ficar decorando colunas enquanto a corte se diverte.

​Bernardo arqueou uma sobrancelha, surpreso com a abordagem repentina, mas os olhos cinzentos faiscaram com um divertimento sutil.

​— Será um prazer, Vossa Graça — respondeu ele, fazendo uma breve reverência às jovens, que se afastaram ajeitando os leques com expressões de pura decepção.

​Assim que saíram do alcance da roda de conversa, Bernardo inclinou-se para ela com um sorriso provocador:

​— Devo me preocupar com essa mudança repentina de atitude, Jaque? Ou você só veio me salvar da diplomacia entediante?

​— Salvar você? — debochou ela, erguendo o queixo e disfarçando o ciúme sob a camada habitual de orgulho. — Eu só não quero que as filhas do Marquês achem que o Duque Herdeiro está disponível para adoção. Agora cale a boca e venha dançar.

​Nesse exato momento, o maestro ergueu a batuta e os tambores Quileutes ressoaram pela primeira vez na noite, anunciando a transição da valsa tradicional para a famosa Dança da Tempestade — a dança rápida, folclórica e cheia de energia das tribos de La Push.

​O ritmo acelerou drasticamente. Bernardo soltou a taça sobre uma bandeja e segurou a mão de Jaqueline com firmeza.

​O que se seguiu foi um espetáculo de pura vibração. A Dança Quileute exigia agilidade, sintonia absoluta e força. Bernardo puxou Jaqueline para junto de seu corpo e a lançou em uma sequência de rodopios rápidos, a saia rubi dela voando pelo salão como fogo em movimento. Eles giravam, trocavam passos rápidos de calcanhar e ponta, aproximando-se e afastando-se no ritmo frenético dos tambores.

​E, pela primeira vez em meses, ambos esqueceram o orgulho, as trancas e as disputas de poder.

​Jaqueline soltou uma gargalhada sincera e cristalina enquanto Bernardo a erguia no ar em um giro espetacular, fazendo os nobres ao redor abrirem espaço e aplaudirem. Ao voltar para o chão, ela tropeçou levemente na barra da saia, mas os braços fortes de Bernardo a apararam instantaneamente antes que ela caísse.

​A música cessou com um golpe final de tambor.

​A respiração dos dois estava descontrolada e ruidosa. Jaqueline encontrava-se completamente presa nos braços dele, com a testa encostada no peito de Bernardo, sentindo o pulsar acelerado do coração do marido através do tecido macio da farda. Quando ergueu o rosto para encará-lo, deu de cara com os olhos cinzentos dele fixos em seus lábios, emanando uma intensidade tão avassaladora e crua que o coração de Jaqueline deu uma cambalhota violenta no peito.

​Um arrepio elétrico percorreu sua espinha. O desejo que ela tentara sufocar por semanas explodiu de forma dolorosa em seu peito. Por um segundo, a vontade dela foi puxá-lo pela gola da farda e beijá-lo diante de todo o reino.

​A ficha caiu como um golpe de água fria. Ela estava se apaixonando por ele.

​Aterrorizada com a própria vulnerabilidade, Jaqueline piscou rápido e recompôs-se num salto, dando dois passos para trás e desfazendo o abraço.

​— Eu... eu preciso de ar — murmurou ela, a voz ligeiramente falhada.

​Sem dar tempo para Bernardo responder, a princesa deu meia-volta e afastou-se rapidamente em direção aos jardins, mantendo uma distância segura do marido pelo restante da noite. Ela recusou outras danças, mal tocou na comida do banquete e recolheu-se cedo para os aposentos.

​A Espera e o Silêncio da Noite

​No quarto, o ar parecia denso. Jaqueline dispensou as criadas assim que vestiu uma camisola leve de cetim marfim. Ela penteou os cabelos acobreados diante do espelho, mas seus olhos não saíam do reflexo da porta principal.

​A hora passou. O relógio de pêndulo do corredor bateu meia-noite... depois uma da manhã.

​A lareira começava a perder a força, reduzindo-se a brasas alaranjadas. Jaqueline andava de um lado para o outro sobre o tapete macio. Ela sentou-se na beira da grande cama de casal, abraçando os próprios joelhos, e encarou a porta de carvalho.

​O silêncio do palácio era ensurdecedor.

​Pela primeira vez desde que se casaram, a chave mestra não girou na fechadura. As passadas firmes e o perfume amadeirado de Bernardo não surgiram pela porta. O sofá perto do fogo permaneceu vazio e frio.

​Conforme as horas avançavam para o amanhecer, uma sensação estranha, amarga e dolorosa começou a apertar o peito de Jaqueline. Um nó na garganta se formou, e lágrimas quentes, que ela se recusava a deixar cair, banharam seus olhos verdes.

​Ela estava triste. Uma tristeza profunda e inexplicável que a pegou totalmente desprevenida.

​'Por que ele não veio?', pensava ela, encostando a cabeça no travesseiro gelado e encarando o lado vazio da cama. 'Ele cansou de mim? Foi procurar aquelas jovens do salão? Ou finalmente desistiu de esperar por mim?'

​Sem compreender o porquê de aquela ausência doer tanto quanto um golpe no peito, Jaqueline encolheu-se debaixo das cobertas, percebendo, na solidão daquela noite, que a sua tão preciosa liberdade não passava agora de um quarto silencioso e sem vida.