Coroas de Ferro e Veludo
3 Onde as Coroas não brilham
A carruagem real, desprovida de seus brasões mais chamativos para manter uma discrição mínima, balançava pelas ruas de paralelepípedos da capital de Valerius. Dentro dela, o silêncio era preenchido apenas pelo som do couro dos assentos. Dhorwack observava a vida noturna pela janela, enquanto Richard parecia mais relaxado do que em qualquer momento no palácio. Gaspar Heraldrick, sentado à frente deles, mantinha uma postura composta, embora tivesse deixado de lado a habitual pasta de documentos.
— Você parece tenso para um homem que está prestes a conhecer o paraíso, Dhorwack — brincou Richard, ajustando os punhos da camisa.
— Não estou tenso, apenas curioso — respondeu Dhorwack. — Faz tempo que não entro em um lugar onde não sou olhado apenas como um trono com pernas.
— Na casa de Elowen, você é apenas o que deseja ser — completou Gaspar com um sorriso discreto. — Eu, por exemplo, pretendo ser apenas um homem que aprecia um vinho que não tenha gosto de política.
A carruagem parou diante de uma fachada discreta, mas imponente. Ao cruzarem o portal, o ambiente mudou drasticamente. Luzes de velas em tons de âmbar, sedas penduradas no teto e o som de uma lira criavam uma atmosfera de luxo absoluto e intimidade. Não era um prostíbulo comum; era um refúgio de alta classe.
Eles foram conduzidos a um reservado com divãs de veludo. Assim que se acomodaram, o perfume de jasmim anunciou a chegada da dona da casa antes mesmo de ela aparecer.
A Presença de Elowen
Elowen Styles surgiu entre as cortinas como uma visão. O vestido, de um tecido leve que parecia brilhar sob a luz das velas, abraçava suas curvas com uma elegância provocante. Ela carregava uma jarra de cristal com um vinho de cor rubi profunda.
— Majestades... Conselheiro — ela disse, sua voz era como seda deslizando sobre mármore. — É uma honra que tenham escolhido meu teto para buscar refúgio do mundo lá fora.
Ela se aproximou, servindo primeiro Richard com um aceno familiar, depois Gaspar, e finalmente parou diante de Dhorwack. Seus olhos verdes encontraram os dele com uma audácia que nenhum nobre jamais ousaria ter.
— Então este é o famoso Rei de Aethelgard? — perguntou ela, servindo a taça dele sem desviar o olhar. — Richard me disse que você era um homem difícil de impressionar.
Dhorwack tomou um gole do vinho, sentindo o sabor encorpado.
— Richard exagera em muitas coisas. Mas sobre este vinho, ele foi preciso. É excelente.
A conversa fluiu com uma leveza rara. Richard contava histórias de infância que faziam até Gaspar rir, e Elowen participava com comentários rápidos e inteligentes, provando que sua beleza era apenas o cartão de visitas de uma mente brilhante. A descontração tomou conta do grupo; ali, as hierarquias pareciam borradas pelo álcool e pela atmosfera envolvente.
O Convite
Em determinado momento, a música baixou de tom. Elowen, que estava sentada na borda do divã lateral, levantou-se lentamente. Ela caminhou até Dhorwack e parou a poucos centímetros dele.
Richard e Gaspar trocaram um olhar cúmplice e permaneceram em silêncio, apenas observando.
Elowen esticou a mão delicada, as unhas bem feitas e os dedos adornados com anéis finos. Ela tocou levemente o ombro do Rei e desceu a mão até o peito dele, sentindo os batimentos firmes de Dhorwack.
— O Rei Richard e o Conselheiro parecem estar muito bem servidos com a companhia um do outro e com este vinho — ela disse, sua voz agora um sussurro destinado apenas aos ouvidos de Dhorwack. — Mas sinto que sua mente ainda está em Aethelgard, Majestade. Gostaria de ser atendido especialmente por mim esta noite? Quero lhe mostrar que há coisas que nenhum trono pode comprar.
Dhorwack olhou para a mão dela e depois para os olhos desafiadores da mulher à sua frente. O tédio que o sufocava há meses dissipou-se instantaneamente, substituído por uma curiosidade ardente.
Ele se levantou, sem hesitar, e segurou a mão de Elowen.
— Richard, Gaspar... não me esperem para o café da manhã — disse Dhorwack, sua voz grave e decidida.
Richard apenas ergueu a taça em um brinde silencioso enquanto via o irmão ser conduzido por Elowen escada acima, em direção aos aposentos privados onde o mundo exterior deixaria de existir por algumas horas.
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