O retorno para Aethelgard foi como mergulhar em um oceano de gelo após ter conhecido o calor do fogo. Dhorwack estava de volta ao seu trono, mas sua alma parecia ter ficado ancorada nos lençóis de seda em Valerius. O estresse era visível em cada gesto seu: ele gritava com os generais por falhas irrelevantes, ignorava os banquetes e passava as madrugadas andando de um lado para o outro em seu gabinete, com o cheiro de jasmim e sândalo ainda assombrando sua memória sensorial.

​Claire o observava há dias. Ela conhecia o irmão melhor do que qualquer conselheiro e sabia que aquele mau humor não era cansaço da viagem, era luto. Numa tarde cinzenta, ela entrou no gabinete dele sem anunciar, fechando as portas pesadas atrás de si.

​— Chega, Dhorwack. Se você quebrar mais uma pena contra esse pergaminho, vou ser obrigada a assumir o reino enquanto você se interna em uma torre — disse ela, sentando-se na frente dele com uma expressão de seriedade rara. — O que aconteceu naquela casa em Valerius? Richard me disse que você mal saía de lá.

​Dhorwack jogou a pena sobre a mesa e afundou na cadeira, passando as mãos pelo rosto. O silêncio durou uma eternidade até que ele finalmente cedeu.

​— O nome dela é Elowen, Claire. E eu nunca senti nada parecido. Com ela, eu não sou o "Rei MacKenzie". Sou apenas um homem. Ela é inteligente, forte... ela sobreviveu a coisas que fariam nossos cavaleiros tremerem. Eu disse a ela que casaria com ela. E eu quis dizer cada palavra.

​Claire respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ela sentia a dor do irmão, mas o pragmatismo de sua linhagem falava mais alto. Ela se inclinou para frente, a voz agora suave, mas cortante como uma lâmina.

​— Dhorwack, escute o que você está dizendo. Você é o Rei de Aethelgard. Nosso sangue é o que mantém este país unido há séculos. Você acha mesmo que o Conselho, o clero e o povo aceitariam uma cortesã como Rainha? Eles não veriam a força dela, veriam apenas o passado. Eles a destruiriam, Dhorwack. E destruiriam você junto com ela. Uma relação assim... é uma fantasia que não sobrevive à luz do sol de uma corte real. Você a ama? Então poupe a vida dela dessa humilhação. Esqueça essa loucura e siga sua vida como o rei que você foi treinado para ser. Mundos diferentes não se cruzam sem causar uma catástrofe.

​As palavras de Claire foram como golpes de martelo na consciência de Dhorwack. Ele queria gritar que não se importava, mas no fundo, ele sabia que ela tinha razão. O amor dele era o que a colocaria em maior perigo.

​Naquela mesma noite, com as mãos trêmulas e o coração pesado como chumbo, ele se sentou para escrever. Não era um decreto real, era o fim de um sonho.

​"Elowen, escrever estas palavras dói mais do que qualquer ferida de batalha. Eu disse que voltaria, e uma parte de mim sempre estará aí, mas a realidade deste trono é uma prisão da qual não posso fugir. Nossos mundos são oceanos distintos e eu não posso pedir que você se afogue no meu. O que vivemos foi a única verdade da minha vida, mas não podemos seguir com essa loucura. Eu te amo, e é por te amar que te deixo livre de mim. Fique com o diamante; que ele brilhe por nós dois na escuridão."

​Ele selou a carta não com o brasão oficial, mas com uma gota de cera simples. Ao entregá-la ao mensageiro, Dhorwack sentiu que estava enviando uma parte de si mesmo para a morte. O rei estava de volta, mas o homem havia se quebrado.