Coroas de Ferro e Veludo
7 O Veredito do Sangue
O retorno para Aethelgard foi como mergulhar em um oceano de gelo após ter conhecido o calor do fogo. Dhorwack estava de volta ao seu trono, mas sua alma parecia ter ficado ancorada nos lençóis de seda em Valerius. O estresse era visível em cada gesto seu: ele gritava com os generais por falhas irrelevantes, ignorava os banquetes e passava as madrugadas andando de um lado para o outro em seu gabinete, com o cheiro de jasmim e sândalo ainda assombrando sua memória sensorial.
Claire o observava há dias. Ela conhecia o irmão melhor do que qualquer conselheiro e sabia que aquele mau humor não era cansaço da viagem, era luto. Numa tarde cinzenta, ela entrou no gabinete dele sem anunciar, fechando as portas pesadas atrás de si.
— Chega, Dhorwack. Se você quebrar mais uma pena contra esse pergaminho, vou ser obrigada a assumir o reino enquanto você se interna em uma torre — disse ela, sentando-se na frente dele com uma expressão de seriedade rara. — O que aconteceu naquela casa em Valerius? Richard me disse que você mal saía de lá.
Dhorwack jogou a pena sobre a mesa e afundou na cadeira, passando as mãos pelo rosto. O silêncio durou uma eternidade até que ele finalmente cedeu.
— O nome dela é Elowen, Claire. E eu nunca senti nada parecido. Com ela, eu não sou o "Rei MacKenzie". Sou apenas um homem. Ela é inteligente, forte... ela sobreviveu a coisas que fariam nossos cavaleiros tremerem. Eu disse a ela que casaria com ela. E eu quis dizer cada palavra.
Claire respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ela sentia a dor do irmão, mas o pragmatismo de sua linhagem falava mais alto. Ela se inclinou para frente, a voz agora suave, mas cortante como uma lâmina.
— Dhorwack, escute o que você está dizendo. Você é o Rei de Aethelgard. Nosso sangue é o que mantém este país unido há séculos. Você acha mesmo que o Conselho, o clero e o povo aceitariam uma cortesã como Rainha? Eles não veriam a força dela, veriam apenas o passado. Eles a destruiriam, Dhorwack. E destruiriam você junto com ela. Uma relação assim... é uma fantasia que não sobrevive à luz do sol de uma corte real. Você a ama? Então poupe a vida dela dessa humilhação. Esqueça essa loucura e siga sua vida como o rei que você foi treinado para ser. Mundos diferentes não se cruzam sem causar uma catástrofe.
As palavras de Claire foram como golpes de martelo na consciência de Dhorwack. Ele queria gritar que não se importava, mas no fundo, ele sabia que ela tinha razão. O amor dele era o que a colocaria em maior perigo.
Naquela mesma noite, com as mãos trêmulas e o coração pesado como chumbo, ele se sentou para escrever. Não era um decreto real, era o fim de um sonho.
"Elowen, escrever estas palavras dói mais do que qualquer ferida de batalha. Eu disse que voltaria, e uma parte de mim sempre estará aí, mas a realidade deste trono é uma prisão da qual não posso fugir. Nossos mundos são oceanos distintos e eu não posso pedir que você se afogue no meu. O que vivemos foi a única verdade da minha vida, mas não podemos seguir com essa loucura. Eu te amo, e é por te amar que te deixo livre de mim. Fique com o diamante; que ele brilhe por nós dois na escuridão."
Ele selou a carta não com o brasão oficial, mas com uma gota de cera simples. Ao entregá-la ao mensageiro, Dhorwack sentiu que estava enviando uma parte de si mesmo para a morte. O rei estava de volta, mas o homem havia se quebrado.
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