​O mensageiro mal havia deixado a mansão em Valerius quando Elowen terminou de ler a carta. Suas mãos não tremeram. Em vez disso, seus olhos arderam com uma determinação fria que Madame Sinclair reconheceria como o olhar de quem está prestes a ganhar um jogo impossível. Ela não aceitaria o papel de vítima de um destino trágico. Se Dhorwack achava que mundos diferentes não podiam se cruzar, ela provaria que era capaz de derrubar as fronteiras entre eles.

​— Arrumem minha carruagem. Agora — ordenou ela, a voz cortante. — Levem apenas o necessário para uma longa viagem. Não esperarei pelo amanhã.

​Uma semana de estradas poeirentas e noites mal dormidas em estalagens de beira de estrada se seguiu. Elowen Styles, a mulher que comandava os desejos de Valerius, estava agora diante das portas de ferro de Aethelgard.

​Dentro do castelo, o clima era sufocante. Dhorwack estava no centro da sala do conselho, cercado por ministros de feições severas e o Parlamento. Discutiam impostos e tratados, mas a mente do rei era um deserto. No momento em que um lorde idoso e arrogante começou um discurso prolixo sobre a moralidade do clero, as portas duplas se escancararam.

​Claire MacKenzie entrou, seus passos ecoando com uma urgência que interrompeu a fala do lorde.

​— Princesa Claire! — gritou Lorde Hoth, um dos parlamentares mais conservadores, levantando-se com o rosto rubro. — Isso é uma reunião de Estado! Onde está sua decência ao interromper assuntos que estão além da compreensão de uma dama?

​Claire parou, virou-se lentamente e fixou o olhar no homem. O silêncio que se seguiu foi gélido.

​— Lorde Hoth, se a sua capacidade de governar fosse metade da sua habilidade em ser inconveniente, Aethelgard já teria conquistado o mundo — disse Claire, sua voz baixa e mortalmente calma. — Sente-se, feche a boca e lembre-se de que o sangue que corre em minhas veias deu a você o privilégio de estar sentado nesta cadeira. Se eu interrompo, é porque o assunto que trago é mais urgente do que a sua mediocridade.

​O homem sentou-se, mudo de choque e humilhação. Claire então caminhou até a mesa principal, olhando diretamente para o irmão, que a observava com uma expressão de cansaço e irritação.

​— Dhorwack... ela está aqui. No salão principal.

​O nome não precisou ser dito. O impacto foi físico. Dhorwack sentiu o coração bater contra as costelas com tamanha força que o ar lhe faltou. Sem uma única palavra de explicação aos ministros, sem se despedir ou encerrar a sessão, o rei se levantou. As cadeiras arrastaram-se no chão, as capas dos parlamentares farfalharam em confusão, mas Dhorwack já estava cruzando o umbral da porta.

​Ele correu pelos corredores de pedra fria, a respiração curta, até chegar ao grande salão. No centro da imensidão de mármore, envolta em uma capa de viagem que não conseguia esconder sua elegância nata, estava ela.

​Elowen sentiu a presença dele antes de ouvi-la. Ela se virou lentamente, o diamante em seu pescoço captando a luz pálida das janelas altas de Aethelgard. Um sorriso enigmático, o mesmo que o fizera perder o juízo em Valerius, surgiu em seus lábios.

​— Olá, Dhorwack — disse ela, a voz calma preenchendo o vazio do salão. — Você esqueceu de mencionar na sua carta que os mundos só permanecem separados quando ninguém tem coragem de caminhar entre eles. Eu vim buscar o resto da minha resposta.

​Dhorwack parou a poucos metros dela, o amor de sua vida diante de si, desafiando a lógica, o reino e o próprio destino.