Coroas de Ferro e Veludo

9 O Cruzamento dos Destinos


O silêncio que se seguiu ao "olá" de Elowen foi tão denso que Dhorwack podia ouvir o próprio sangue latejando nas têmporas. O mundo lá fora — o parlamento indignado, as leis de sucessão, as pressões de Claire — ruiu como um castelo de cartas sob a chuva. Não havia rei naquele salão; havia apenas um homem que se sentia completo pela primeira vez em sete dias de agonia.

​Dhorwack quebrou a distância entre eles com três passos largos e possessivos. Ele não a tocou imediatamente; ele a devorou com os olhos, certificando-se de que ela não era uma alucinação nascida de sua privação de sono.

​— Você é a mulher mais louca e perigosa que já cruzou esses portões — ele sussurrou, a voz carregada de uma emoção que ele mal conseguia conter.

​— E você é o homem mais tolo que já usou uma coroa, se achou que uma carta de despedida seria o suficiente para me manter longe — rebateu ela, embora seus olhos traíssem a vulnerabilidade de quem atravessou um reino por um "talvez".

​Dhorwack não esperou por mais palavras. Ele envolveu o rosto dela com as mãos e a beijou com uma ferocidade que selava um pacto. Era um beijo que cheirava a viagem, a determinação e a uma promessa que não poderia mais ser quebrada. Elowen se entregou ao abraço, as mãos agarrando a túnica real dele como se estivesse reivindicando seu território.

​Ao fundo, Claire apareceu no topo da escadaria. Ela observou a cena com um misto de admiração e pavor. Ela sabia que, naquele exato momento, a história de Aethelgard estava mudando para sempre. O escândalo seria colossal, mas ao ver a postura do irmão — a força que retornara ao seu corpo, a vida que brilhava em seus olhos — Claire percebeu que a "loucura" era, na verdade, a única cura para a alma dele.

​Dhorwack se afastou apenas o suficiente para encostar a testa na dela.

​— Eles vão tentar nos destruir, Elowen. Os lordes, o conselho... eles não vão entender. Para eles, você é um escândalo.

​— Deixe que tentem — Elowen respondeu, os olhos faiscando com a mesma audácia que a fizera rainha do submundo de Valerius. — Eu passei a vida limpando a sujeira de casas que eles frequentam. Eu conheço os segredos que eles escondem sob essas capas de arminho. Se eles querem uma guerra, Majestade, eles terão uma rainha que sabe lutar no escuro.

​Dhorwack soltou uma risada curta, uma centelha de esperança finalmente vencendo o marasmo. Ele segurou a mão dela e se virou para a entrada do salão, onde os primeiros parlamentares curiosos começavam a surgir, cochichando e apontando.

​— Então vamos dar a eles algo sobre o que falar — disse Dhorwack, endireitando os ombros e entrelaçando seus dedos nos dela com firmeza.

​Ele não a levou para os fundos ou para um quarto escondido. Ele a conduziu pela mão, atravessando o grande salão sob o olhar chocado da corte, em direção aos seus aposentos privados. A cada passo, o som dos saltos de Elowen no mármore anunciava que a cortesã de Valerius não tinha vindo para ser uma amante escondida; ela tinha vindo para reivindicar o lugar que o próprio rei havia prometido, transformando a "loucura" em uma revolução.