Coroas de Ferro e Veludo
15 O Rugido da Verdade e o Sangue da Culpa
O gabinete real estava mergulhado em uma penumbra opressora. Dhorwack não acendera as velas; a única luz vinha das brasas agonizantes na lareira, refletindo-se em seus olhos vazios. O silêncio foi interrompido por batidas leves e confiantes. O Barão Vane entrou, caminhando com a arrogância de quem acredita ter o rei na palma da mão.
Vane serviu-se de um cálice de vinho sem pedir licença e sentou-se à frente de Dhorwack, soltando um suspiro de satisfação.
— Majestade, vejo que o castelo está mais... silencioso. Fez bem em se livrar daquela distração. Reinos não podem ser governados sob o feitiço de mulheres daquela laia.
Dhorwack não se mexeu. Sua voz saiu como um sussurro vindo de um túmulo.
— Você parecia muito próximo dela no jardim, Vane.
O Barão soltou uma risada baixa, um som viscoso que fez os pelos da nuca de Dhorwack se arrepiarem.
— Ah, Dhorwack... não me olhe com esse ciúme. Fiz o certo por você. Aquilo no jardim foi apenas um lembrete. Mulheres como a Styles foram feitas para serem usadas, não para serem amadas. Elas são como cavalos de raça: bonitas de se ver, mas precisam sentir o chicote para saberem quem é o dono.
Dhorwack levantou o olhar lentamente. A fúria começava a borbulhar sob sua pele, mas ele permaneceu imóvel, deixando que o veneno de Vane escorresse livremente.
— O que quer dizer com "um lembrete"? — perguntou o Rei, as palavras saindo entre dentes cerrados.
— Ora, eu a conheço desde que era uma faxineira órfã e virgem em Valerius. Eu fui o primeiro a domesticá-la, muito antes de ela aprender a usar diamantes — Vane sorriu, deleitando-se com a própria crueldade. — No jardim, eu apenas quis sentir novamente aquele terror que ela emana. É inebriante, Majestade. Ela luta, ela chora, ela implora... e isso só torna o ato mais prazeroso. Eu fiz um favor a você, mostrando que ela nunca passará de um brinquedo que já foi meu.
O ar na sala pareceu desaparecer. Em um movimento tão rápido que os olhos de Vane mal puderam acompanhar, Dhorwack saltou sobre a mesa. O impacto lançou o Barão ao chão, com o Rei sobre ele. As mãos grandes de Dhorwack fecharam-se em torno do pescoço de Vane com a força de uma prensa de ferro.
— Você... a abusou? — a voz de Dhorwack não era mais humana; era o rugido de uma besta ferida.
Vane tentou falar, mas apenas sons sufocados saíam de sua garganta enquanto seu rosto tornava-se arroxeado. Ele lutava, arranhando os braços do rei, mas Dhorwack era uma força da natureza movida pelo horror da descoberta. A imagem de Elowen no jardim — o pânico que ele confundira com desejo, as roupas desalinhadas que ele interpretara como entrega — agora queimava sua alma com a verdade devastadora.
— Eu a chamei de traidora... — Dhorwack rugiu, batendo a cabeça de Vane contra as pedras do chão. — Eu olhei para o sofrimento dela e a condenei! Enquanto você... seu verme imundo... você a destruía novamente!
Dhorwack desembainhou a adaga de sua cintura, a ponta de aço pressionando a garganta de Vane, fazendo surgir um fio de sangue. A sede de morte era quase incontrolável. Ele queria ver o brilho da vida desaparecer dos olhos daquele monstro, centímetro por centímetro.
— DHORWACK! PARE! — o grito de Claire ecoou na entrada do gabinete.
Ela e Gaspar haviam acabado de chegar, entrando a tempo de ver o Rei prestes a cometer um regicídio parlamentar. Gaspar correu para segurar o braço de Dhorwack, enquanto Claire se ajoelhava ao lado dele.
— Não suje suas mãos com esse lixo! — gritou Claire. — Ele merece a forca, não uma morte rápida! Se você o matar agora, nunca poderá pedir perdão a ela com as mãos limpas!
Dhorwack tremia, os olhos fixos em Vane, que arquejava por ar, aterrorizado. Lentamente, o Rei soltou o aperto, levantando-se com um movimento brusco. Ele olhou para as próprias mãos, sentindo o peso da culpa esmagar seu peito.
— Eu a perdi, Claire — ele sussurrou, a voz quebrada pela agonia. — Eu fui o pior monstro de todos. Eu a deixei sozinha com a dor que eu deveria ter curado.
Ele se virou para Gaspar, a autoridade real retornando envolta em sombras.
— Levem-no para a masmorra mais profunda. Que ele apodreça até o dia em que Elowen decidir qual será o seu fim.
Sem esperar por uma resposta, Dhorwack atravessou o gabinete, correndo em direção às cavalariças. Ele não esperaria por carruagens ou escoltas. Ele cavalgaria até que seus pulmões ardessem e seu cavalo exaurisse, com um único pensamento martelando em sua mente: ele precisava trazê-la de volta, mesmo que tivesse que passar o resto da vida de joelhos pedindo por um perdão que ele sentia não merecer.
Fale com o autor