A viagem de Dhorwack foi uma descida ao inferno em vida. Cada batida dos cascos de seu cavalo contra o solo parecia um eco da própria consciência gritando o nome dela. Ele chegou a Valerius coberto pela poeira da estrada, com as roupas desalinhadas e o olhar de um homem que havia perdido sua alma e estava disposto a cavar a terra com as mãos para recuperá-la.

​Quando ele parou diante da mansão de Elowen, não houve trombetas ou anúncios. Ele apenas empurrou as portas, ignorando os protestos das criadas, e seguiu o rastro do perfume de jasmim que o assombrava.

​Ele a encontrou no jardim interno, sentada junto a uma fonte. Elowen não se assustou. Ela não se levantou, nem demonstrou a menor surpresa. Ela apenas pousou o livro que lia e desviou os olhos para ele. Seu rosto era uma máscara de mármore: perfeito, belo e absolutamente gélido.

​— A que devo a honra da visita de um Rei tão ocupado? — a voz dela saiu calma, sem a menor centelha do calor que outrora o incendiava. — Se veio para terminar o seu julgamento, creio que o exílio já foi uma sentença clara o suficiente.

​Dhorwack deu um passo à frente, mas parou ao ver o recuo quase imperceptível nos ombros dela. A dor de saber que ele agora era uma ameaça para ela foi pior do que qualquer adaga.

​— Elowen... eu sei. Eu sei de tudo. Vane... ele confessou. Eu o tenho nas masmorras — ele disse, a voz rouca, quase um súplica. — Eu fui um tolo. Um cego. Eu deveria ter sentido a sua dor, eu deveria ter protegido você de tudo, inclusive da minha própria insegurança.

​Elowen soltou um riso curto, um som seco que não chegou aos olhos. Ela se levantou lentamente, ajeitando as dobras de seu vestido com uma indiferença que cortava mais que o aço.

​— Você sabe de tudo? — ela repetiu, aproximando-se dele, mas mantendo uma distância intransponível. — Saber a verdade depois que ela foi gritada por um monstro não é mérito, Dhorwack. É apenas constatação. O que me dói não é o que Vane fez. Eu já superei ele uma vez, e superarei de novo. O que me quebrou foi que, no momento em que eu mais precisei que você fosse o homem que dizia ser, você escolheu ser apenas um juiz.

​— Eu imploro pelo seu perdão — ele disse, caindo de joelhos diante dela, o Rei de Aethelgard humilhado pela própria falha. — Eu não sairei daqui sem você. Eu passarei o resto dos meus dias provando que sou digno da sua confiança novamente.

​Elowen olhou para o homem aos seus pés. O diamante em seu pescoço brilhava, um lembrete de uma promessa que fora estilhaçada. Ela estendeu a mão e, por um segundo, ele achou que ela o tocaria, mas ela apenas a usou para afastar uma mecha de cabelo de seu próprio rosto.

​— Você não entende, Dhorwack. Confiança não é um tributo que se paga com desculpas. É algo que se cultiva no escuro, e você deixou a luz apagar. Você tem o seu reino, suas leis e suas certezas. Eu tenho a minha casa e a minha verdade.

​Ela deu as costas a ele, caminhando em direção à varanda.

​— Peça para as criadas servirem um vinho e preparem um quarto de hóspedes, se desejar descansar antes de voltar para o seu trono — disse ela, sem olhar para trás. — Mas não espere que eu abra a porta do meu quarto, nem a do meu coração. Para você, Majestade, eu sou agora apenas o que você viu no jardim: uma estranha de quem você duvidou.

​Dhorwack permaneceu de joelhos, o som da água da fonte sendo o único ruído em meio ao silêncio gélido que Elowen deixara para trás. Ele estava na casa dela, mas nunca se sentira tão longe de seu lar.