Coroas de Ferro e Veludo
16 O Inverno no Olhar
A viagem de Dhorwack foi uma descida ao inferno em vida. Cada batida dos cascos de seu cavalo contra o solo parecia um eco da própria consciência gritando o nome dela. Ele chegou a Valerius coberto pela poeira da estrada, com as roupas desalinhadas e o olhar de um homem que havia perdido sua alma e estava disposto a cavar a terra com as mãos para recuperá-la.
Quando ele parou diante da mansão de Elowen, não houve trombetas ou anúncios. Ele apenas empurrou as portas, ignorando os protestos das criadas, e seguiu o rastro do perfume de jasmim que o assombrava.
Ele a encontrou no jardim interno, sentada junto a uma fonte. Elowen não se assustou. Ela não se levantou, nem demonstrou a menor surpresa. Ela apenas pousou o livro que lia e desviou os olhos para ele. Seu rosto era uma máscara de mármore: perfeito, belo e absolutamente gélido.
— A que devo a honra da visita de um Rei tão ocupado? — a voz dela saiu calma, sem a menor centelha do calor que outrora o incendiava. — Se veio para terminar o seu julgamento, creio que o exílio já foi uma sentença clara o suficiente.
Dhorwack deu um passo à frente, mas parou ao ver o recuo quase imperceptível nos ombros dela. A dor de saber que ele agora era uma ameaça para ela foi pior do que qualquer adaga.
— Elowen... eu sei. Eu sei de tudo. Vane... ele confessou. Eu o tenho nas masmorras — ele disse, a voz rouca, quase um súplica. — Eu fui um tolo. Um cego. Eu deveria ter sentido a sua dor, eu deveria ter protegido você de tudo, inclusive da minha própria insegurança.
Elowen soltou um riso curto, um som seco que não chegou aos olhos. Ela se levantou lentamente, ajeitando as dobras de seu vestido com uma indiferença que cortava mais que o aço.
— Você sabe de tudo? — ela repetiu, aproximando-se dele, mas mantendo uma distância intransponível. — Saber a verdade depois que ela foi gritada por um monstro não é mérito, Dhorwack. É apenas constatação. O que me dói não é o que Vane fez. Eu já superei ele uma vez, e superarei de novo. O que me quebrou foi que, no momento em que eu mais precisei que você fosse o homem que dizia ser, você escolheu ser apenas um juiz.
— Eu imploro pelo seu perdão — ele disse, caindo de joelhos diante dela, o Rei de Aethelgard humilhado pela própria falha. — Eu não sairei daqui sem você. Eu passarei o resto dos meus dias provando que sou digno da sua confiança novamente.
Elowen olhou para o homem aos seus pés. O diamante em seu pescoço brilhava, um lembrete de uma promessa que fora estilhaçada. Ela estendeu a mão e, por um segundo, ele achou que ela o tocaria, mas ela apenas a usou para afastar uma mecha de cabelo de seu próprio rosto.
— Você não entende, Dhorwack. Confiança não é um tributo que se paga com desculpas. É algo que se cultiva no escuro, e você deixou a luz apagar. Você tem o seu reino, suas leis e suas certezas. Eu tenho a minha casa e a minha verdade.
Ela deu as costas a ele, caminhando em direção à varanda.
— Peça para as criadas servirem um vinho e preparem um quarto de hóspedes, se desejar descansar antes de voltar para o seu trono — disse ela, sem olhar para trás. — Mas não espere que eu abra a porta do meu quarto, nem a do meu coração. Para você, Majestade, eu sou agora apenas o que você viu no jardim: uma estranha de quem você duvidou.
Dhorwack permaneceu de joelhos, o som da água da fonte sendo o único ruído em meio ao silêncio gélido que Elowen deixara para trás. Ele estava na casa dela, mas nunca se sentira tão longe de seu lar.
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