Coroas de Ferro e Veludo

17 A Abdicação do Orgulho


Dhorwack permaneceu no chão de mármore muito depois de Elowen ter saído. O quarto de hóspedes que lhe fora oferecido parecia uma cela de luxo; ele não conseguia pregar o olho, sentindo que cada centímetro daquela casa exalava a presença dela e, ao mesmo tempo, a sua total exclusão.

​No dia seguinte, ele não partiu. Contra todas as expectativas de seus ministros em Aethelgard e até de Richard em Valerius, o Rei permaneceu. Ele não usava mais a coroa ou as vestes cerimoniais; vestia-se de forma simples, observando Elowen de longe enquanto ela comandava seus negócios com a precisão de uma general. Ela passava por ele como se ele fosse parte da mobília, um fantasma de um passado que ela estava decidida a enterrar.

​Na terceira noite, Dhorwack a encontrou na biblioteca. Ela estava de costas, organizando alguns pergaminhos, quando ele entrou silenciosamente.

​— Eu não vim aqui para exigir que você volte — ele disse, sua voz menos como a de um rei e mais como a de um homem em ruínas. — Eu vim para dizer que abrirei mão do trono.

​Elowen parou o que estava fazendo, mas não se virou. Seus ombros ficaram rígidos.

​— O que você disse?

​— Claire pode governar. Ela nasceu para isso, e Gaspar estará ao lado dela. Se o problema é o mundo em que eu vivo, eu o deixarei para trás. Eu ficarei aqui, nesta cidade, nesta casa, se você permitir. Eu serei o homem que limpa suas pranchas, o guarda da sua porta, qualquer coisa... desde que eu possa estar no mesmo ar que você respira. Eu prefiro ser um ninguém ao seu lado do que um rei sem você.

​Elowen finalmente se virou. Seus olhos, antes gélidos, agora mostravam uma rachadura de dor e descrença. Ela caminhou até ele, parando tão perto que ele podia sentir o calor de sua pele.

​— Você abdicaria de séculos de linhagem por uma mulher que o mundo chama de prostituta? — ela perguntou, a voz falhando pela primeira vez.

​— Eu abdicaria de tudo por você, Elowen. Porque você é o único reino que eu realmente desejo conquistar todos os dias. O resto é apenas pedra e poeira.

​Elowen olhou para o rosto dele, buscando qualquer sinal de hesitação, mas só encontrou uma devoção absoluta e desesperada. A muralha que ela erguera com tanto esforço começou a desmoronar. Ela não o abraçou, mas levou a mão ao peito, tocando o pingente de diamante que ele lhe dera.

​— Eu não quero que você deixe de ser quem é, Dhorwack — sussurrou ela. — Eu só queria que você soubesse quem eu sou.

​— Eu sei agora — ele respondeu, dando um passo cauteloso para mais perto. — Você é a mulher que me ensinou que a verdadeira nobreza não está no sangue, mas na alma que sobrevive ao fogo.

​O silêncio na biblioteca mudou de peso. Não era mais o silêncio do gelo, mas o de uma trégua frágil. Elowen suspirou, fechando os olhos por um momento, e quando os abriu, havia uma pequena centelha de esperança.

​— Não vá embora ainda — ela disse, quase em um sussurro. — Mas não me peça para voltar para Aethelgard hoje. Se você quer mesmo provar que mudou... comece aprendendo a esperar por mim.

​Dhorwack sentiu o primeiro sopro de vida retornar ao seu peito. Ele assentiu, curvando a cabeça em um sinal de respeito que ele nunca prestara a nenhum outro monarca. Ele esperaria. Esperaria uma vida inteira se fosse necessário, pois agora sabia que o perdão, assim como o amor deles, teria que ser reconstruído tijolo por tijolo, sobre as cinzas de tudo o que restara.