Coroas de Ferro e Veludo
20 O Florescer de Aethelgard
A noite que se seguiu ao julgamento foi a primeira em que o palácio de Aethelgard não pareceu uma fortaleza de segredos, mas um lar em reconstrução. No entanto, a calmaria era apenas a superfície. No corredor das masmorras, antes de ser enviado para Valerius, o Barão Vane recebeu uma visita inesperada.
Claire MacKenzie entrou na cela escura, acompanhada por Gaspar. Ela não trazia compaixão, apenas um pergaminho e uma adaga de prata.
— Você achou que sairia vivo desta terra, Vane? — a voz de Claire era um sussurro letal. — Meu irmão é um homem de leis, mas eu... eu sou a guardiã do que resta do nosso sangue. Gaspar encontrou registros de que você planejava um golpe usando a saída de Elowen como pretexto.
Gaspar deu um passo à frente, ajustando os óculos com sua frieza habitual.
— O Barão subestimou a lealdade da guarda. Eles preferem um Rei apaixonado a um traidor violento. Suas terras foram confiscadas, Vane. Sua linhagem termina aqui, no esquecimento.
Vane tentou cuspir um insulto, mas Claire apenas sorriu, uma expressão que faria generais tremerem. Ela não o matou; ela o deixou com o peso da própria insignificância antes de ordenar que o levassem para a fronteira de Valerius, onde o povo de Richard, avisado por Catarina, já o esperava com a justiça das ruas.
O Banquete da Unidade
Meses se passaram. A primavera finalmente rompeu o gelo de Aethelgard. O jardim onde o horror ocorrera fora replantado com lírios brancos e lavanda, por ordem de Dhorwack, para que o perfume do passado fosse substituído por uma nova memória.
Um banquete foi organizado para celebrar não uma coroação, mas a união definitiva dos três casais. Richard e Catarina chegaram de Valerius, trazendo consigo um ar de renovação. Catarina, agora visivelmente grávida, caminhava de braços dados com Richard, que a tratava com uma devoção que chocava a antiga corte.
— Quem diria, irmão — Richard comentou, erguendo uma taça para Dhorwack enquanto observavam Elowen e Catarina conversarem perto da varanda. — Que as mulheres que quase nos destruíram seriam as únicas capazes de nos salvar de nós mesmos.
Dhorwack sorriu, um sorriso que raramente aparecia antes.
— Elas não nos destruíram, Richard. Elas apenas derrubaram as estátuas que tentávamos ser.
Elowen aproximou-se, usando o coração de diamantes, mas agora acompanhado por uma aliança de ouro simples no dedo. Ela não precisava mais da coroa sobre a mesa para ser respeitada; o Parlamento, agora purgado de traidores sob a supervisão de Gaspar e Claire, curvava-se diante dela por temor e, gradualmente, por admiração.
Claire e Gaspar juntaram-se ao grupo.
— As rotas comerciais entre os dois reinos estão seladas — anunciou Gaspar, com um brilho de satisfação. — Mas a rota entre nossos corações parece ser a mais lucrativa de todas.
Claire soltou uma risada e deu um beijo rápido no rosto do conselheiro.
— Ele está ficando sentimental, Dhorwack. Por favor, mande-o revisar alguns impostos antes que ele comece a escrever sonetos.
A risada geral ecoou pelo salão. Ali, naquela mesa, a "loucura" que Dhorwack temera um dia tornou-se a fundação de uma nova era. Três casais que começaram em brigas, abusos, desconfianças e segredos, agora formavam um hexágono de poder inquebrável.
Dhorwack segurou a mão de Elowen e a levou aos lábios.
— O que você está pensando? — ele perguntou em voz baixa.
Elowen olhou para os amigos, para a vida que pulsava ao seu redor e para o homem que atravessara o próprio inferno para buscá-la.
— Estou pensando que a faxineira de Valerius teria tido medo deste futuro — ela sorriu, os olhos brilhando. — Mas a Rainha de Aethelgard acha que este é apenas o primeiro capítulo.
Dhorwack a puxou para um beijo, ignorando o protocolo, enquanto o sol se punha sobre um reino que, finalmente, aprendera que a justiça e o amor eram as únicas coroas que realmente não pesavam.
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