Coroas de Ferro e Veludo
21 O Legado das Sombras e da Luz
Um ano se passara desde que o Barão Vane fora entregue ao destino que ele mesmo cavara. Aethelgard e Valerius não eram mais apenas reinos vizinhos; tornaram-se um império de ideais compartilhados. Mas, naquela manhã, o palácio de Dhorwack pulsava com uma energia diferente. O silêncio dos corredores foi quebrado pelo choro vigoroso de uma nova vida.
Dhorwack estava sentado no banco de pedra do jardim de lírios, as mãos entrelaçadas e a cabeça baixa. Ele, que enfrentara exércitos sem piscar, tremia a cada som que vinha dos aposentos reais.
— Acalme-se, irmão. Se você continuar abrindo um buraco nesse chão, vai acabar encontrando o tesouro perdido dos nossos ancestrais — disse Claire, aproximando-se com Gaspar. Ela trazia um sorriso leve, embora seus próprios olhos traíssem o cansaço de uma noite em claro dando suporte à cunhada.
— Eu nunca tive tanto medo em toda a minha vida, Claire — confessou Dhorwack, levantando-se. — Nem quando a vi partir para Valerius... nada se compara a isso.
Antes que Claire pudesse responder, Richard saiu pelos grandes portões, limpando o suor da testa, mas com um brilho de triunfo no olhar. Ele fora o primeiro a entrar, como o irmão e aliado que se tornara.
— Vá lá, Dhorwack — disse Richard, batendo no ombro do irmão. — Ela está esperando por você. E, aviso logo, ele tem o temperamento da mãe e a teimosia dos MacKenzie.
O Pequeno Príncipe de Aethelgard
Dhorwack entrou no quarto em passos lentos, quase temendo quebrar o momento. Elowen estava encostada nos travesseiros, o rosto pálido e cansado, mas seus olhos brilhavam com uma luz que ele nunca vira, nem nos diamantes mais caros. Nos braços dela, envolto em lã macia, estava um pequeno embrulho.
— Venha conhecê-lo — sussurrou Elowen, estendendo a mão para o marido.
Dhorwack sentou-se ao lado dela e, com uma delicadeza extrema, tocou a pequena mão do filho. O bebê apertou seu dedo com uma força surpreendente.
— Ele é perfeito — Dhorwack murmurou, as lágrimas que ele tanto segurara finalmente caindo. — Como você se sente?
— Sinto que o círculo se fechou, meu amor — disse Elowen, encostando a cabeça no ombro dele. — Da faxineira que não tinha nada, à mulher que tem o mundo inteiro nos braços. Este menino nunca saberá o que é o medo que eu senti. Ele crescerá em um reino onde o nome da mãe é respeitado e o do pai é amado.
O Brinde Final
Mais tarde, no grande balcão do palácio, os três casais se reuniram sob o céu estrelado. Richard e Catarina apresentavam seu próprio herdeiro, o pequeno sucessor de Valerius, que agora teria um primo e aliado em Aethelgard. Claire e Gaspar, que haviam se casado em uma cerimônia íntima meses antes, observavam a cena com a satisfação de quem construíra a estrutura política para que aquela paz durasse gerações.
— Um brinde — propôs Gaspar, erguendo sua taça. — Às histórias que não terminam com o "viveram felizes para sempre", mas com o "lutaram juntos todos os dias".
— Às mulheres que nos fizeram homens — completou Richard, olhando para Catarina.
— E aos homens que tiveram a coragem de enxergar além das aparências — finalizou Elowen, olhando para Dhorwack.
Dhorwack ergueu o filho pequeno em direção ao horizonte, mostrando-lhe as luzes da cidade que agora prosperava.
— Que este seja o nosso legado — disse o Rei. — Um reino onde o amor não é uma fraqueza, mas a maior de todas as forças.
Enquanto a noite caía sobre Aethelgard, as sombras do passado finalmente se dissiparam. A cortesã e o rei, a rainha de gelo e o devasso, a princesa e o conselheiro... todos haviam encontrado seu lugar. O livro de suas dores fora fechado, e um novo tomo, escrito com esperança e diamantes, começava a ser redigido sob a luz da lua.
Fale com o autor