Coroas de Ferro e Veludo
13 O Estilhaço da Confiança
O jardim de Aethelgard, com suas rosas de inverno e estátuas silenciosas, era o único lugar onde Elowen sentia que podia respirar sem o peso dos olhares do parlamento. Ela caminhava distraidamente, tocando as pétalas geladas, quando uma voz arrastada, como o deslizar de uma serpente sobre pedras, fez o sangue em suas veias congelar.
— O tempo foi generoso com você, pequena rata de biblioteca. Você se tornou uma mulher magnífica.
Elowen virou-se bruscamente. Diante dela, com um sorriso de escárnio que ela via em seus pesadelos há anos, estava o Barão Vane, um dos nobres mais influentes da corte de Dhorwack. O homem que, anos atrás, havia destroçado sua inocência em um beco escuro de Valerius.
— O que você faz aqui? — a voz dela falhou, o terror subindo pela garganta.
— Eu faço parte deste conselho, Elowen. E quando soube que a "favorita" do Rei era a mesma menina que eu usei no passado, não pude resistir a ver se o sabor continuava o mesmo.
Antes que ela pudesse gritar, Vane avançou. Ele a prensou contra uma pilastra de pedra, a mão pesada abafando sua boca enquanto a outra tentava rasgar o tecido fino de seu vestido. Elowen lutou com a força do desespero, unhando o rosto dele, mas o trauma a paralisava.
Nesse exato momento, Dhorwack, que saíra à procura dela para compartilhar boas notícias, dobrou o corredor do jardim. A cena que ele viu estancou seus passos: Elowen nos braços de Vane, as roupas desalinhadas, em uma proximidade que, aos olhos de um homem já atormentado pela pressão de todos ao seu redor, pareceu um encontro clandestino.
Vane, percebendo a presença do Rei, soltou-a rapidamente com um sorriso cínico, recompondo-se como se tivesse sido interrompido em um flerte. Elowen caiu de joelhos, ofegante, as lágrimas turvando sua visão.
— Majestade — Vane disse com uma reverência falsa. — Apenas admirando as... belezas do seu jardim. Com licença.
Dhorwack não disse uma palavra. Ele esperou Vane desaparecer antes de caminhar até Elowen. Mas não havia consolo em seus olhos; havia uma chama de traição e ciúme cego.
O Embate nos Aposentos
Ao chegarem nos aposentos privados, Dhorwack fechou a porta com uma violência que fez os quadros tremerem.
— Então é isso, Elowen? — ele rugiu, andando de um lado para o outro. — O meu amor não era o suficiente? Você precisava garantir mais aliados no parlamento? Precisava se oferecer a um homem como Vane para ter certeza de que sua coroa não cairia?
Elowen o olhou, em choque. Ela esperava que ele visse sua dor, seu medo, os hematomas que começavam a surgir em seus pulsos. Mas ele só via a própria insegurança.
— Você realmente acredita nisso, Dhorwack? — ela perguntou, a voz trêmula de indignação. — Depois de tudo o que eu abdiquei para estar aqui, você acha que eu me entregaria àquele monstro por poder?
— O que eu vi não mentia! — ele rebateu. — Você estava nos braços dele! Por que ele estaria ali se você não tivesse dado liberdade?
Elowen sentiu algo se quebrar dentro de si. Não era apenas o coração, era a base de tudo o que haviam construído. Se ela tivesse que explicar que fora atacada, se tivesse que provar sua dor para o homem que dizia amá-la, então a confiança dele era uma ilusão.
— Se você me conhece tão pouco a ponto de acreditar que eu faria tal coisa... se o seu amor é tão frágil que desmorona diante de uma dúvida — ela disse, limpando as lágrimas e endireitando as costas com uma dignidade cortante —, então eu não tenho nada a dizer em minha defesa. Você deveria confiar em mim sem que eu precisasse implorar por isso.
— Elowen, não mude de assunto! Diga-me a verdade!
— A verdade é que eu não pertenço a este lugar de desconfiança e sombras — ela declarou, caminhando até o baú e pegando sua capa de viagem. — Você disse que nossos mundos eram diferentes, Dhorwack. Pela primeira vez, eu concordo com você. No meu mundo, as pessoas são o que são. Aqui, vocês se escondem atrás de títulos e deixam o julgamento cegar o coração.
Sem olhar para trás, ignorando os chamados agora hesitantes de Dhorwack, Elowen saiu do castelo. Ela não procurou Claire, não pediu carruagens reais. Ela pegou o primeiro transporte que saía em direção a Valerius.
Dhorwack ficou parado no centro do quarto vazio, o cheiro de jasmim dela ainda no ar, mas o calor de sua presença partido. Elowen estava voltando para sua casa, para o lugar onde ela era a dona de seu destino, deixando para trás um rei que, em sua cegueira, acabara de perder a única coisa que realmente possuía.
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