​Dhorwack estava sentado em seu trono, mas parecia um fantasma de si mesmo. Quando Claire entrou na sala, encontrou o irmão com o olhar fixo no nada, as mãos apertando os braços da cadeira até os nós dos dedos ficarem brancos. Com a voz embargada pelo orgulho ferido e por uma mágoa profunda, ele despejou o que vira no jardim: o abraço, o Barão Vane, a suposta traição.

​Claire ouviu tudo em silêncio, mas quanto mais Dhorwack falava, mais algo não se encaixava na mente aguçada da princesa. Ela conhecia o olhar de uma mulher que busca poder, e esse nunca fora o olhar de Elowen.

​— Dhorwack, você é um mestre na estratégia de guerra, mas um recruta no coração humano — disse Claire, levantando-se com um suspiro de impaciência. — Elowen Styles atravessou reinos por você. Ela enfrentou o Parlamento por você. Você realmente acha que ela jogaria tudo fora com um verme como o Barão Vane em um corredor aberto?

​— Meus olhos não mentiram, Claire! — ele rugiu.

​— Seus olhos viram uma moldura, mas você não conhece a pintura — rebateu ela. — Gaspar, prepare a carruagem. Vamos para Valerius. Agora.

​A viagem foi tensa. Gaspar Heraldrick, sempre analítico, tentava acalmar os nervos de Claire, mas até ele admitia que a súbita partida de Elowen indicava algo muito mais sombrio do que um simples desentendimento amoroso.

​O Retorno à Casa de Seda

​A mansão de Elowen em Valerius estava envolta em um silêncio fúnebre quando Claire e Gaspar chegaram. Não havia música, nem risadas. As criadas se moviam como sombras. Quando Claire forçou sua entrada, encontrou Elowen em seu escritório, mas a mulher que viram não era a cortesã altiva de outrora. Ela estava pálida, com os olhos fundos e uma rigidez no corpo que gritava trauma.

​— O que fazem aqui? — perguntou Elowen, a voz desprovida de qualquer emoção. — Vieram trazer o decreto oficial do meu exílio?

​— Viemos buscar a verdade que meu irmão foi burro demais para enxergar — disse Claire, aproximando-se e sentando-se à frente dela. — Elowen, eu vi como você olhava para ele. Aquilo no jardim não foi um encontro. O que aconteceu?

​Elowen sustentou o olhar de Claire por um longo tempo. A armadura de gelo que ela construíra em torno de si começou a rachar diante da empatia genuína da princesa. Com uma voz baixa e trêmula, ela contou tudo. Contou sobre o abuso que sofrera anos atrás, sobre o rosto de Vane sendo o protagonista de seus piores pesadelos, e sobre como ele a atacara no jardim, usando sua força para calá-la enquanto zombava de sua nova posição.

​— Ele não estava me abraçando — sussurrou Elowen, as lágrimas finalmente descendo, pesadas. — Ele estava me asfixiando. Ele queria me mostrar que, não importa se eu usasse diamantes ou trapos, para homens como ele, eu sempre serei apenas uma presa. E o que mais dói... o que realmente me matou... foi que Dhorwack olhou para a minha agonia e viu um crime. Ele viu desejo onde só havia pânico.

​Gaspar, que até então permanecia em silêncio, sentiu uma náusea profunda. Como conselheiro, ele conhecia as artimanhas dos nobres, mas a crueldade de Vane e a cegueira de Dhorwack eram uma combinação catastrófica.

​Claire sentiu o sangue ferver. Ela esticou a mão sobre a mesa e segurou a de Elowen, apertando-a com força.

​— Aquele canalha... — murmurou Claire, os olhos faiscando com uma promessa de vingança. — Elowen, eu sinto muito. Por Vane e pela estupidez do meu sangue.

​Gaspar trocou um olhar com Claire. O choque em seus rostos era visível. Eles haviam ido em busca de uma explicação, mas encontraram uma tragédia de erros que poderia custar a alma de um rei e a vida de uma mulher extraordinária. O silêncio que caiu sobre a sala agora não era de dúvida, mas de uma fúria fria que em breve retornaria para Aethelgard.