Coroas de Ferro e Veludo
1 O Chamado do Horizonte
O sol de outono banhava as torres de Aethelgard com uma luz dourada, mas dentro da sala de mapas, o clima era de puro marasmo. Dhorwack MacKenzie tamborilava os dedos sobre a mesa de carvalho, os olhos fixos em fronteiras que ele já conhecia de cor.
— Se eu tiver que assinar mais um decreto sobre a rota do trigo, vou acabar usando esta pena para furar meu próprio olho — murmurou Dhorwack, sua voz grave ecoando pelas paredes de pedra.
Claire, que estava sentada em uma poltrona próxima fingindo ler um livro, soltou uma risada baixa.
— Aethelgard está em paz, irmão. Isso deveria ser um elogio à sua gestão, não um castigo. Mas admito... o ar aqui dentro parece estar ficando mais ralo a cada dia.
Dhorwack levantou-se, a capa de veludo roxo escuro arrastando-se levemente pelo chão. Ele caminhou até a janela, observando as montanhas ao longe.
— Faz meses que não temos notícias reais de Richard. As cartas de Catarina são protocolares demais. "O reino vai bem, o clima está ameno, saudações da família". Quero ver com meus próprios olhos como ele está se saindo no trono de Valerius.
Claire fechou o livro com um estalo seco, seus olhos brilhando com a perspectiva de aventura.
— E, de quebra, fugimos desse silêncio ensurdecedor? — Ela se levantou, cruzando os braços. — Eu vou com você. Richard sente minha falta, mesmo que tenha orgulho demais para admitir. E Catarina... bom, alguém precisa levar um pouco de vida àquela corte de gelo.
Dhorwack esboçou o primeiro sorriso verdadeiro do dia.
— Prepare as carruagens e a escolta. Partimos ao amanhecer.
A Chegada em Valerius
A viagem durou três dias, cruzando vales verdes até que as torres imponentes de Valerius surgissem no horizonte. Diferente do estilo rústico de Aethelgard, o reino de Richard era adornado por mármores claros e jardins simétricos.
Quando a comitiva dos MacKenzie cruzou os portões principais, as trombetas anunciaram sua chegada. Richard MacKenzie já os esperava no pé da escadaria, vestindo seus trajes formais. Ao seu lado, impecável e com uma expressão que beirava a indiferença, estava Catarina Lioncurt.
— Dhorwack! Claire! — Richard abriu um sorriso contido enquanto o irmão descia do cavalo. Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão firme e um breve abraço, a força dos MacKenzie evidente em ambos.
— Richard. Você parece... devidamente majestoso — brincou Dhorwack, embora seus olhos analisassem o cansaço oculto sob as pálpebras do irmão.
— Sejam bem-vindos à nossa casa — disse Catarina, inclinando a cabeça com uma elegância estudada. Seu tom era cordial, mas não havia calor em suas palavras. — Preparamos os melhores aposentos para vocês. Espero que a viagem não tenha sido exaustiva.
— O cansaço desaparece diante de uma recepção tão grandiosa, cunhada — respondeu Claire, retribuindo a mesura com um sorriso astuto, sentindo imediatamente a tensão silenciosa que pairava entre o rei e a rainha de Valerius.
Enquanto entravam no palácio, Dhorwack sentiu o peso da etiqueta local cair sobre seus ombros. Ele tinha vindo em busca de algo novo, mas as primeiras horas em Valerius prometiam ser tão monótonas quanto as de seu próprio reino. Mal sabia ele que Richard já tinha planos para subverter aquela ordem.
— Esta noite teremos um banquete — Richard sussurrou para Dhorwack enquanto caminhavam pelo corredor. — Mas guarde suas energias para amanhã à noite. Vou te levar a um lugar onde as coroas não importam.
Dhorwack ergueu uma sobrancelha, o interesse finalmente despertado.
— E que lugar seria esse?
— A casa de Elowen Styles — Richard respondeu com um brilho cúmplice no olhar. — Você vai entender quando chegar lá.
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