Coroas de Ferro e Veludo

19 A Justiça do Diamante


O retorno a Aethelgard não foi uma entrada discreta pelas portas dos fundos. Dhorwack fez questão de que a carruagem real cruzasse a avenida principal em plena luz do dia, com as cortinas abertas. Ao lado dele, Elowen Styles mantinha a cabeça erguida, os olhos fixos no horizonte, vestindo um traje de viagem azul-marinho que exalava uma sobriedade régia.

​O castelo estava em polvorosa. Claire e Gaspar os aguardavam no topo da escadaria, ambos com expressões de alívio misturadas a uma tensão palpável.

​— O Parlamento está reunido — sussurrou Gaspar assim que Dhorwack desmontou. — Eles estão exigindo a libertação de Vane ou um julgamento imediato. Eles acham que você o prendeu por puro ciúme.

​Dhorwack olhou para Elowen. Ele não precisou dizer nada; estendeu o braço para ela, um convite para o campo de batalha. Ela aceitou, os dedos firmes sobre o veludo da túnica dele.

​O Julgamento de Ferro

​As portas do Grande Salão se abriram com um estrondo. O burburinho dos parlamentares cessou instantaneamente quando o Rei entrou, mas o verdadeiro choque foi ver a mulher que eles acreditavam ter sido expulsa para sempre.

​— Silêncio! — a voz de Dhorwack ecoou, mais potente do que nunca. — Tragam o prisioneiro.

​O Barão Vane foi arrastado para o centro do salão. Suas roupas estavam sujas e seu rosto exibia as marcas da fúria de Dhorwack, mas ele ainda tentava manter uma postura de arrogância, buscando apoio nos olhares de seus aliados no Parlamento.

​— Majestade! — gritou Lorde Hoth. — Isso é um ultraje! Manter um nobre nestas condições por causa de uma...

​— Diga a palavra, Hoth — Elowen interrompeu, sua voz clara e gélida como o inverno de Aethelgard. Ela deu um passo à frente, soltando o braço de Dhorwack para enfrentar a plateia sozinha. — Diga o que você pensa de mim. Mas antes, ouça a verdade que o seu "nobre" colega confessou entre estas paredes.

​Vane tentou rir, um som rouco e desesperado.

— Ela é uma mentirosa! Ela me seduziu no jardim e agora tenta se vingar porque o Rei descobriu!

​Elowen não se abalou. Ela caminhou até ficar a centímetros de Vane.

— Você disse que eu era como um cavalo de raça que precisava do chicote, Vane. Você disse que se deleitava com o meu choro. — Ela se virou para o Parlamento. — Eu tenho aqui os registros da Madame Sinclair em Valerius. Nomes, datas e quantias de cada vez que este homem pagou para abusar de órfãs sob o teto dela. Eu não sou a única vítima dele; sou apenas a única que sobreviveu para ter voz.

​Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala. Gaspar deu um passo à frente, abrindo um pergaminho pesado.

— O Barão Vane não apenas cometeu crimes de violência, mas também desviou fundos das províncias do norte para pagar seu silêncio em Valerius. Temos as provas.

​Dhorwack deu um passo à frente, a mão no punho da espada.

— O crime de Vane não foi apenas contra esta mulher, mas contra a justiça de Aethelgard. E o meu crime... — ele fez uma pausa, olhando para Elowen com uma dor visível — foi ter duvidado da integridade daquela que é mais nobre do que todos vocês juntos.

​O Rei voltou-se para o carrasco e para os guardas.

— A sentença para estupro e alta traição é a morte. Mas Vane não terá a honra de uma execução de nobre. Ele será levado para as masmorras de Valerius, onde as autoridades de Richard o aguardam para que ele encare as famílias das outras meninas que ele destruiu.

​Vane foi arrastado, gritando e implorando, enquanto seus antigos aliados baixavam as cabeças, envergonhados pela podridão que haviam defendido.

​A Coroa da Verdade

​Quando o salão finalmente se esvaziou dos traidores e dos curiosos, restaram apenas os MacKenzie, Gaspar e Elowen. Dhorwack caminhou até o centro do estrado, mas não subiu ao trono. Ele pegou a coroa que estava sobre a almofada de veludo e caminhou até Elowen.

​— O povo pode precisar de tempo para entender — disse ele, em voz baixa. — Mas este reino não terá uma Rainha de sangue frio. Terá uma Rainha que conhece a dor e a justiça.

​Ele não colocou a coroa na cabeça dela; ele a ofereceu em suas mãos, um gesto de igualdade absoluta.

​— Eu não quero que você seja rainha por mim — ele sussurrou. — Quero que seja por eles. Porque você é a única que pode ensiná-los o que é a verdadeira força.

​Elowen olhou para a coroa de ouro e depois para o homem que aprendera a se curvar. Ela não sorriu com triunfo; sorriu com uma paz melancólica. Ela aceitou a coroa, mas em vez de usá-la, ela a colocou sobre a mesa do conselho.

​— Eu serei sua Rainha, Dhorwack. Mas primeiro, seremos nós mesmos. O trono pode esperar por amanhã. Hoje, eu só quero o silêncio do seu abraço.

​E ali, diante da história de Aethelgard, o Rei e a sua soberana se uniram não por um contrato, mas por uma redenção que fora escrita com lágrimas, sangue e uma coragem inabalável.