Coroas de Ferro e Veludo

18 A Aliança das Cinzas


Os dias em Valerius se transformaram em semanas. Dhorwack cumpriu sua promessa: ele esperou. Ele se tornou uma presença constante e silenciosa na mansão, recusando-se a agir como um monarca. Ele ajudava nos jardins, carregava caixas de suprimentos e, nas noites em que o peso do passado parecia esmagar os ombros de Elowen, ele apenas permanecia sentado do lado de fora da porta dela, garantindo que nenhum pesadelo cruzasse aquele limiar.

​Elowen o observava através das frestas das janelas e dos reflexos nos espelhos. Ela via a pele dele queimar sob o sol e suas mãos, feitas para segurar cetros, tornarem-se calejadas pelo trabalho braçal. A frieza dela começou a derreter não por palavras, mas pela consistência daquela presença. Ele não estava ali para possuí-la; estava ali para servi-la.

​Uma noite, uma tempestade violenta atingiu a capital. Os trovões ecoavam como canhões e os relâmpagos iluminavam o quarto de Elowen com clarões fantasmagóricos. O som a transportou de volta para aquela tarde no jardim em Aethelgard — a sensação de sufocamento, o cheiro de Vane, o medo absoluto. Ela acordou gritando, o suor frio escorrendo pelo rosto.

​A porta do quarto se abriu em um estrondo. Dhorwack entrou, a espada desembainhada, os olhos frenéticos procurando pelo perigo. Quando viu Elowen encolhida na cama, abraçada aos próprios joelhos, ele parou imediatamente. Ele guardou a arma e, pela primeira vez em semanas, hesitou em se aproximar.

​— Estou aqui — ele disse, a voz baixa para não assustá-la. — Ninguém vai tocar em você. Eu juro pela minha vida.

​Elowen olhou para ele. A luz de um relâmpago revelou o rosto de Dhorwack: havia uma dor ali que espelhava a dela, uma angústia por não poder arrancar as memórias de sua mente.

​— Dhorwack — ela chamou, a voz trêmula. — Chegue perto. Por favor.

​Ele caminhou lentamente e sentou-se na borda da cama. Elowen não hesitou; ela se lançou nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito. Dhorwack a envolveu com uma delicadeza quase sagrada, como se ela fosse feita de vidro.

​— Eu não aguento mais o silêncio — ela confessou entre soluços. — Eu tentei odiar você para não sofrer mais, mas o ódio é exaustivo, Dhorwack.

​— Então não odeie — ele sussurrou, beijando o topo da cabeça dela. — Apenas sinta. Sinta que eu estou aqui e que nunca mais vou soltar você. Eu errei da pior forma possível, mas meu amor por você é a única coisa pura que restou em mim.

​Elowen afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. Ela viu o Rei que abdicaria de tudo e o homem que aprendeu a ouvir. Com um gesto lento, ela levou a mão ao rosto dele, limpando uma lágrima que escapara dos olhos do monarca.

​— Vane precisa pagar — ela disse, a voz subitamente firme. — Não por mim, mas por todas as outras. Eu voltarei para Aethelgard, Dhorwack. Mas não voltarei como sua favorita. Voltarei para ver a justiça ser feita e para mostrar àquele parlamento que a mulher que eles desprezaram é a única que tem coragem de governar ao seu lado.

​Dhorwack sentiu um calafrio de triunfo e alívio. Ele segurou a mão dela e a beijou com devoção.

​— Você não será a favorita — ele declarou. — Você será a Rainha. E quem se atrever a dizer o contrário terá que enfrentar o Rei e a mulher que o ensinou a ser homem.

​Naquela noite, a tempestade lá fora continuou, mas dentro daquele quarto, a paz finalmente se estabeleceu. Eles dormiram abraçados, dois sobreviventes prontos para retornar ao campo de batalha, não mais como mestre e protegida, mas como iguais, forjados no fogo da traição e curados pela persistência do perdão.