Coroada - A Seleção Interativa
58 The Last Time
Notas iniciais
Arthur parecia sério naquele dia. Mais do que o normal.
É claro que o príncipe sempre parecia sério. Afinal, ele era o príncipe. Tinha de aparentar calmaria e tranquilidade, mas, quando Alasca ouviu que ele viria vê-la, ela havia ficado à espera do Arthur jovial e descabelado que por vezes lhe aparecia às quartas. Em vez disso, o ruivo estava pensativo e distante, mirando as muralhas e a cidade além delas da sacada do quarto de Alasca.
E, depois de quinze minutos jogando conversa fora sobre a semana, ela não se aguentou. “Com o que você ‘tá tão preocupado?”
“O quê?”, o príncipe fez uma careta, surpreso. Por que garotas conseguiam ler ele tão facilmente?
“Você está pensativo e distante. Não consegue juntar mais que dez palavras em uma sentença ou falá-las rápido. Evidentemente tem algo te incomodando”, Alasca se explicou.
Arthur suspirou e esfregou as têmporas antes de falar. “É só que... Eu tenho esse projeto pra entregar pro meu pai, sabe? Um dos projetos que vira e mexe ele me manda fazer, eles fazem parte das minhas provinhas.”
“Mas você não tem delas sempre?”
“O tempo todo, verdade”, confirmou. “Só que, como eu dizia antes de ser interrompido, esse é o mais sério até agora. E é pra valer até demais.”
“Do quê se trata?”, ela balançou os pés, que, de cima da cadeira de metal, mal raspavam no chão.
“Acho que você tem certa obsessão por interrupções, Alasca”, ele sorriu. “Mas, hm, eu não sei se posso te contar.”
Ela o fuzilou. “Você não está brincando com minha curiosidade, está, Vossa Alteza?”
Ele engoliu em seco. Realmente era um pouco – muito — confidencial, mas Alasca provavelmente não falaria com ele até que lhe contasse. Suspirou. “É sobre extinguir a sétima Casta.”
Alasca arregalou os olhos, o que o assustou um pouco, mas depois sorriu, o que o fez sentir um pouco melhor. “Arthur, mas isso é ótimo!”
“Só tem um problema”, ele coçou a parte de trás de sua cabeça. “Extinguir os Oito foi fácil, era só incluir eles em Castas superiores. Mas os Sete... É diferente. Não há como simplesmente incluir eles numa Casta acima, porque, eles têm uma função necessária.”
Ela pensou um pouco, e viu que a dúvida do príncipe fazia um pouco de sentido. Impor as Castas fora relativamente difícil e requerera um bocado de planejamento, segundo o conhecimento geral, então tirá-las deveria ser duas vezes o esforço. Depois de um tempo, teve uma ideia.
“Acho que é porque a questão não é que todos possam ter um emprego bom que dê muito dinheiro, sabe? Pelo menos não a questão de tirar as Castas”, ponderou, gesticulando, o que prendeu a atenção de Archie. “Acho que é mais sobre oportunidades, liberdade. Sobre você escolher o quê quer ser, não ter de se atar à um rótulo.”
Archie captou a linha de raciocínio, o rosto se iluminando. “Sim! Então talvez eu não precise mudar as pessoas de Casta, só dar à elas a opção de escolher um emprego independente da Casta.”
“E, enquanto as outras Castas existirem, se alguém que era um Sete, mas agora não tem Casta, quer ser um arquiteto, pode ser um Três!”, Alasca sorriu ainda mais largamente.
“Talvez possamos até integrar os Seis à essa leva, sabe? Tipo pegar dois coelhos em uma cajadada”, Archie se pôs de pé num pulo, agitado, o que a assustou um pouco.
Mas, obviamente, nada comparado à quando logo em seguida ele se inclinou e colou os lábios no dela.
Alasca já havia beijado Arthur uma vez, no início da Seleção, e ela nunca se esqueceria de como seus lábios eram meio rachados e quentes, mas, uau. Era como viver tudo de novo, mas de um jeito novo e melhor. Lembrou-se, graças ao bom Deus, de não ficar parada, e retribuiu o beijo enquanto passava as mãos pelos curtos cabelos ruivos. Foi quase uma decepção para ela quando ele a soltou, porque Alasca sempre quereria mais.
“Tenho de ir”, ele disse, os olhos brilhando de felicidade, quando alcançaram os dela. “Tenho duas Castas para extinguir, graças à um certo alguém.”
Ela se segurou para não suspirar ou se largar na cadeira antes de ele sair de perto. Não importava que eles já houvessem passado mais de dois meses, quase três, juntos: Alasca sempre se derreteria pelo príncipe.
–x-x-x-
Arthur não poderia estar mais feliz. E confuso.
Claro que ele estava radiante: finalmente conseguira acabar o planejamento da extinção dos Sete, engavetar os Seis junto, e ter o projeto aprovado e elogiado pelo seu pai. Aquele era um dia de comemoração para o príncipe.
Ao mesmo tempo, sua cabeça estava virada de ponta-cabeça.
Ele finalmente achara que conseguira. Que havia achado duas, entre aquelas seis garotas, que poderia desposar. E estava pronto para investir nelas e, com o tempo, descartar uma por uma. Alasca, porém, havia sido descartada. Arthur a achara um pouco instável demais, apesar de tão divertida e intrigante como as outras, e não sabia se teria a cabeça necessária para ser uma Princesa ou Rainha, e mexer com toda a burocracia que vinha com o trabalho.
Então bam: ela acabara de fazer uma das leis que mais mudaria Illéa. Era como andar em círculos por repetidas vezes, até, então, dar de cara numa parede. Ele definiria aquilo em uma palavra sem pensar duas vezes: frustração.
E agora? O que raios ele faria?
Decidiu que precisava de descansar um pouco a cabeça, teria tempo suficiente para pensar naquilo mais tarde. Afinal, sua Elite havia sido a mais rápida de toda a história. Tempo era do que mais dispunha.
Teve sorte: era quarta à tarde, horário em que sua mãe e Louise normalmente ocupavam a sala de música para um dos raros momentos de trégua entre as duas. O carrinho duplo de Karen e Kaden estava à porta, com uma criada-babá de pé encostada nele, e ambos pareciam ouvir à música. O pequeno menino de cabelos parcos e aloirados balançava a cabeça de um lado para o outro, muito lentamente, e a garota estendia as duas mãozinhas para o alto. O príncipe apurou os ouvidos, e viu que sua irmã estava no violão e America fazia um acompanhamento com o piano. A voz fina e marcante, ele reconheceu, era da mãe. Devia ser um daqueles raros dias onde ela concordava em pegar uma das músicas de Louise. Era um dueto, de voz mais grave feita por Louise e aguda por America, mesmo que ambas tivessem vozes finas. Ele parou para prestar atenção ao pedaço que elas cantavam, que, aparentemente, era o refrão:
“This is the last time I’m asking you this
Put my name at the top of your list
This is the last time I’m asking you out
You break my heart in the blink of an eye”
A música ecoava por todo o andar, o que permitiu que ele continuasse sua perambulação. Deixou os pés lhe levarem, sem sequer pensar em para onde ia, e se viu em um dos salões que o quarto andar portava. Estava para entrar na sala vazia e examiná-la, curioso, quando ouviu uma voz.
“Eu já te falei, cara, é perigoso”, para sua surpresa, ele a reconheceu: era Marcus Leger. “O risco é ser destituído de sua posição na Realeza, e eu tenho certeza que não vai ser de um jeito amigável.”
“Ugh”, o interlocutor resmungou. “Eu só queria que tudo fosse mais simples.”
Ele o reconheceu, Anthony. Ele realmente estava começando a sofrer por aquilo.
“Então para de reclamar pelos cantos e faz alguma coisa, Tony”, Marcus devolveu, e Archie quase podia ver seu melhor amigo estreitando os olhos ao falar.
“Mas e se-“
“Se você for um covarde dos e se’s, nunca vai saber”, ele o cortou. “Agora eu tenho de ir. Tenho um encontro.”
“Tá brincando! Tomou coragem?”
“Cala a boca, Anthony. E vaza.”
Arthur se encostou contra um vão enquanto os dois passavam, Tony ainda enchendo o saco do guarda – que, graças à Deus, não estava fardado para o tal encontro. Sorriu antes de sair atrás dos dois. Às vezes, Arthur ficava tão concentrado na Seleção que se esquecia que nem tudo precisava girar em torno daquilo.
Aproximadamente 20 anos depois...
“Tem certeza disso, filho?”, o Rei Arthur pergunta ao seu varão. Maximilliam assente. “Uma vez que pronunciar as palavras, não há como voltar atrás.”
O príncipe limpou a garganta, tomando a mão de sua esposa na sua. Não havia nada mais a ser feito. Ele e Katrina não estavam destinados a reinar, e não iriam. “Temos certeza absoluta, pai. Eu renuncio, abdico o trono, e faço de Ahren o príncipe-herdeiro.”
“Bom, Max, assim será feito.”, sua mãe disse, colocando a mão em seu ombro. A rainha, já uma mulher feita, só podia oferecer apoio ao filho e à nora naquele momento. “Mas Eadlyn nunca aceitará. Ela é mais velha, ainda que por poucos minutos.”
“Ela terá de aceitar, querida. O herdeiro foi proclamado”, o rei disse. “Que chamem Ahren, então.”
–x-x-x-
Os gêmeos se sentavam à beira do lago, descalços. Eadlyn havia cruzado as pernas em borboleta, e Ahren afundara seus pés na água.
“O que acham que vão fazer, Eady?”, ele perguntou. “Quero dizer, agora que Max vai renunciar. Você é a mais velha. Você deve reinar.”
“Papai e mamãe nunca vão permitir. E, mesmo que permitam, os conselheiros iriam contra isso até a morte.”, a ruiva respondeu, visivelmente zangada com sua realidade. “Eu não posso ser rainha em Illéa, Ahren. É simples assim.”
“Eu não consigo fazer isso, Eadlyn. Eu não fui treinado para isso. Nenhum de nós dois foi.”, o garoto chutou a água. “O que fazemos agora?”
“Agora vocês levantam os traseiros preguiçosos daí”, eles ouviram uma terceira voz, e viraram as cabeças para ver sua irmã mais velha. De um pulo, se puseram de pé. “, porque eu não passei quatro horas em um avião pra ouvir meus irmãos desistirem.”
Eles sorriram um para o outro enquanto abraçavam Caroline. Aquilo poderia, no final, funcionar.
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