Coroada - A Seleção Interativa
59 Battlecry
Notas iniciais
Marcus acabou de colocar a farda e saiu de seu quarto, trombando com alguns outros soldados no corredor dos dormitórios. A maior parte deles sorria e conversava, o Leger reparou, casualmente. Ele ainda estava ajeitando o quepe, que parecia nunca ficar no lugar, quando foi abordado por dois outros.
“Grande Marcus!”, um deles disse, e Marcus se virou para ver um sorridente Louis Johnson.
“Bom dia, Louis”, ele cumprimentou, não entendendo a excitação do colega. Olhou pra o outro lado e viu Gale Thorne, outro de seus amigos, a quem também cumprimentou. “O que ‘tá havendo?”
“Ah, Leger, não se faça de idiota”, Louis devolveu, um sorriso maroto brincando em seus lábios. “Todos nós já sabemos.”
“Sabem do quê?”, Marcus perguntou, ainda confuso.
“Que você saiu com a Isabelle Washler ontem”, Gale explicou, e Marcus engoliu em seco. Procurou entre os guardas, e conseguiu achar seu colega de quarto, William Boyega, que lhe deu um sorriso de desculpas. Eles teriam uma conversa séria sobre discrição naquela noite.
“Não foi nada demais”, disse aos dois, finalmente parando de mexer no quepe à medida que eles se aproximavam da saída para o Palácio.
“Você esteve paquerando elas nos últimos cinco anos, Leger. Se não tiver sido nada demais, desista da vida”, Louis devolveu, cínico.
“Estive?”
“Esteve”, Gale confirmou no momento em que eles passaram pela folha de turnos. Aparentemente, Marcus havia pego o primeiro turno às portas do Salão das Mulheres, o que significava ouvir mais encheção de saco, sendo esse posto parte do itinerário das rondas. “Espero que tenha corrido tudo bem.”
Marcus se lembrou da noite anterior, quando levara Isabelle à um parque de diversões e depois à uma lanchonete indicada por Anthony. Correra mais que tudo bem, na verdade. Ele quase tinha medo de acordar em sua cama após aquilo tudo, porque algo tão bom não poderia ser de fato realidade.
Em meio à esses pensamentos, ele sorriu para o amigo e assentiu. Louis disse mais alguma coisinha debochada, mas ele não conseguiu ouvir. Separou-se dos colegas, seguindo seu caminho até o posto, e ficou lá de pé. Estava lá quando as Selecionadas da Elite chegaram, após o café, e acenou com a cabeça para elas quando entraram, murmurando um ‘senhoritas’. A Rainha e as princesas chegaram alguns momentos depois, e America beijou a testa do afilhado antes de entrar.
Logo antes do horário de almoço dos residentes do Palácio, ele reparou que estava na hora da troca de turno. Ele normalmente encontrava quem ficaria depois dele ali perto, na metade do caminho para a cozinha, então se pôs a andar. Quando se aproximou da porta secreta que levava para o cômodo, porém, ouviu um barulho alto vindo do Salão, seguido de vários gritos femininos. Correu para lá de volta, sem pensar duas vezes, e pôde ver dois outros soldados fazendo o mesmo.
Já lá dentro, com a arma sacada, o Leger conseguiu observar as garotas todas encolhidas num canto, ali perto da porta. Olhou então para as grandes janelas, que portavam buracos de bala. Enquanto ele olhava, mais um tiro foi disparado, o que assustou principalmente às garotas. As criadas já estavam acabando de sair da sala por uma porta secreta no canto, no intuito de chegar ao seu abrigo designado, mas as meninas pareciam meio perdidas. Ele olhou para os que lhe acompanhavam, lendo Koden e Fleet nos crachás.
“Koden!”, disse, alto, para ser ouvido por cima dos tiros, que continuavam e ganhavam freqüência agora. Já era possível ver algumas pessoas vestidas de preto se aproximando pelo vidro. “Me ajude a ajudar as senhoritas! Fleet, nos dê cobertura!”
Ele teria se surpreendido com a própria capacidade de liderança, ma snão tinha tempo para aquilo. Os dois assentiram, e partiram para a ação.
Eles conseguiram tirar elas do Salão com eficiência suficiente, tendo Koden saído na frente, guiando o grupo, e Marcus ficado para trás, para ter a certeza de que todas sairiam. No momento que a última, Sofia Delacour, conseguiu sair da sala, um pedaço da janela grande o suficiente para alguém bastante alto passar se quebrou. Eles haviam conseguido entrar, e estavam atirando. Marcus manteve sua arma em mãos e se virou para quem estava entrando, mas o soldado ao seu lado gritou algo antes que pudesse sequer mirar.
“Leger! A prioridade é proteger a família, vá logo!”, ele gritou.
“Depois de você, Fleet!”, Marcus devolveu.
“Sem essa, idiota! Você é quem um dia vai ser promovido à capitão da guarda, é infiniamente mais importante do que eu!”, o soldado argumentou, atirando, e mais uma pessoa entrou. “Marcus, saia daqui! Koden não vai conseguir sozinho!”
“Fleet, seu idiota, eu n-“
“Anda, Leger! Eu te cubro, vai, vai, vai!”
Ele não conseguiu discutir, só saiu correndo. Koden havia chegado ao final do corredor, graças à Deus, mas o caos começava a tomar conta do lugar. Aparentemente, haviam se aproveitado da troca de guarda para infiltrar silenciosamente, e deveriam ter entrado por três ou quatro portas. As meninas acabavam de entrar quando Marcus chegou.
“Estão todas aí?”, perguntou, ao que Koden assentiu. Fechou a porta atrás de si, então, e se virou para o corredor, onde rebeldes corriam de um lado para o outro, batalhando com soldados. Puxou um refil de sua arma e verificou se o cassetete estava solto.
“Pronto pra chutar alguns rebeldes, Leger?”, Koden perguntou para ele, sorrindo. Marcus sorriu de volta.
“Vamos nessa.”
–x-x-x-
Austin já estava morando no Palácio há mais ou menos duas semanas só, mas já vira mais daquele lugar em sua vida inteira. Por exemplo: quem diria que ele teria seu próprio mini-gabinete, ao lado do de seu mentor, Yoren? Ele certamente nunca adivinharia. E, por Deus, quem no mundo conseguiria saber que aquele gabinete tinha conexão direta ao abrigo da família?
Ele sabia admitir que tinha sorte por ficar tão bem-localizado no Palácio. Fizera tudo ser muito mais simples, e ele podia fazer praticamente tudo o que tinha de fazer do gabinete. Inclusive namorar, o que era o porquê de Celina estar sentada em sua mesa de mogno enquanto eles faziam uma vídeo-conferência com Astra pelo Skype. Os três conversavam sobre algo engraçado, como o porquê de Austin ainda não ter noivado (o que, para ele, não era nada engraçado. Ele não se sentia pronto para aquilo). No momento em que sua irmã e Celina começaram a criar alguma teoria da conspiração sobre ele ter outra namorada e não saber escolher entre elas, porém, um guarda entrou na sala, afobado.
“Marquês Orders! Senhorita Blanco!”, disse ele, ofegante. “Que bom que lhes encontrei!”
“Tem algo de errado, soldado?”, Austin questionou.
“O senhor parece meio exasperado”, Celina concordou.
“Está havendo um ataque rebelde!”, ele se explicou. “Preciso que vão para o abrigo da família, agora!”
“Ah, Deus”, Celina disse, se pondo no chão e calçando suas sapatilhas bem rápido.
“Astra, temos de ir”, ele disse para a irmã, que assentiu freneticamente, antes de fechar o notebook e colocá-lo na gaveta, trancando-a e pondo a chave no bolso de seu jeans em seguida. “Vamos, Celina! Obrigado, soldado!”
“Disponha”, ele disse, antes de fechar a porta e sair a passos rápidos pelo gabinete de Yoren. Austin abriu a portinha secreta e fez Celina entrar primeiro. Olhou pra trás uma única vez antes de descer, pensando que, se os rebeldes estragassem um sequer daqueles livros nas estantes, ele caçaria um por um.
Então riu do próprio pensamento. Austin Orders, o menininho intelectual que nem podia se defender direito, caçando rebeldes? Com certeza a imagem daquilo faria Astra, Anthony ou Arthur ficar sem ar de tanto rir.
–x-x-x-
Quando os soldados vieram, uma ou duas horas mais tarde, para tirar a família do abrigo, Aurora esperava subir e encontrar destruição total, como da última vez. Ela tinha grande receio de encontrar novamente os corpos, as pessoas feridas, o sangue e a destruição que tinha visto no último ataque, no aniversário de Hannie.
Quando chegaram à superfície, porém, era mais como se um bando de adolescentes revoltados tivesse passado por ali do que assassinos sanguinários. Tudo estava revirado, como se esses rebeldes quisessem somente fazer bagunça, e não exterminar a monarquia. Parecia, na verdade, que o maior dano havia sido feito aos livros de Austin Orders, o Marquês, que carregava um semblante fechado pela bagunça feita em sua sala. Aurora quase riu desse pensamento, mas pensou que seria indelicado com os soldados que os haviam contido.
“Senhoritas”, uma assessora, que Aurora pôde reconhecer como Agatha, a líder delas, as chamou. “Como podem ver, o dano ao Palácio não foi tanto. O Salão das Mulheres, no entanto, está um tanto quanto bagunçado, e um confronto que aconteceu às portas deixou algumas marcas feias no chão. Então, a presença de vocês lá foi dispensada, por hoje.”
A maioria delas sorriu. Era ótimo que pudessem ir para seus quartos e só ficar vegetando até o jantar naquele dia, porque Agatha lhes prometera uma aula de administração naquela tarde. Era um alívio para Aurora vê-la adiada.
“Mas não pensem, por favor, que não teremos aquela aula da qual conversamos mais cedo”, Aurora quase gemeu quando ela voltou à falar, e Alyssa certamente o fez. “Amanhã teremos o Jornal Oficial, então presumo que seja melhor que nos encontremos no sábado. Por favor, estejam todas na biblioteca pontualmente após tomar seu café da manhã, sim?”
Um burburinho de confirmação deixou Agatha satisfeita, e ela foi ter com alguém mais após isso. Aurora suspirou antes de pegar as escadas para o seu quarto, havia saído da contabilidade de seu pai para a administração de Agatha. Era quase como ter pulado da panela para o fogo.
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