Coroada - A Seleção Interativa
78 Marry You / If This was a Movie / Enchanted
Notas iniciais
A igreja do palácio teria ficado relativamente cheia, mas ambos insistiram para que fosse ao ar livre. As famílias e amigos de Dade e Skyler estavam espalhados pelos bancos brancos quando começaram a ouvir os doces sinos. A cerimônia começou, as vozes entraram.
Não seria um casamento normal, isso todos viam. Normal já não era algo próprio dos noivos, ambos alternativos e com certa preferência por inovações; mas a entrada alegre de Anthony Schreave serviu para confirmar aquilo. Ele escolhera uma música antiga, mas perfeita, para cantar com os outros padrinhos enquanto dançava seu caminho até o altar.
"It is a beautiful night, and we're looking for something dumb to do. Who cares, baby? I think I wanna marry you", o príncipe cantou, docemente, antes de se virar para a entrada. Aurora Bocchi entrou, deslumbrante em seu vestido azul.
"Is it the look in your eyes? Or is it the dancing juice? Who cares, baby? I think I wanna marry you", ela cantou, a voz mais frágil e doce do que a do príncipe, enquanto os dois subiam para os lugares de padrinho e madrinha.
Nos próximos versos, Louise e Arthur tomaram lugar junto à eles, também cantando. Em seguida, Marcus e Isabelle. Alyssa Swan, que já havia sido eliminada, viera para ser madrinha junto à Austin Orders – Skyler considerava ela sua melhor amiga, ou quase isso. Por último, os irmãos da noiva, Kaya e Richard, dançaram enquanto Louise e Anthony faziam da música um dueto.
Ainda antes de ela acabar, Dade Fadaye entrou balançando a cabeça e pulando – como numa dança esquisita – enquanto acenava para todos. Arthur se sentia feliz e triste pelo amigo. Era um dia importante, e ele sabia o quanto Dade ansiara por ele, mas também sabia que uma das coisas que o amigo mais queria na vida era entrar com sua mãe em seu casamento. A senhora Fadaye, porém, morrera de morte súbita quando o loiro ainda tinha somente dez anos.
No fundo, o ruivo meio que invejava Dade. Ele havia, no final das contas, encontrado a garota de sua vida. A menina com quem ele sempre sonhara. Dade Fadaye, um dos seus, estava se casando. E isso era tudo que Arthur poderia desejar para si próprio.
Ele foi bruscamente arrancado de seus pensamentos pelo alto soar de uma marcha nupcial. Louise, percebendo que ele estava estonteado, o cutucou. "Postura, Arthur", disse ela. "E tente não parecer muito boquiaberto."
Ele limpou a garganta e ajeitou as costas, olhando de fato para o início do tapete que levava até o altar. Lá, andando caminhando a lentos passos, Skyler Smith parecia encantada.
E estava. Era o melhor dia da vida dela, em sua própria concepção. E nada poderia estar mais perfeito. A decoração, seu vestido, a recepção... Tudo estava perfeito. Tudo estava tão perfeito que Skyler quase achava que era uma mentira, um sonho. Não é como se seus devaneios fossem incomuns, de qualquer maneira.
Então, ela encontrou os olhos de Dade. Foi como se, em um literal piscar de olhos, todas as preocupações fossem embora. Não existia dúvida, não existia caos, não existia conflito. Naquele momento e dele em diante, para Skyler, isso era tudo o que existiria: ela e Dade.
●●
Anthony quase corria pelos corredores do Palácio, o violão batendo em suas costas e panturrilhas. Ele xingava Arthur internamente por ter demorado tanto a lhe dar a notícia, já que, se ele soubesse mais cedo, poderia simplesmente ter esperado na porta.
Esperado na porta. Esperado na porta por Aurora Bocchi.
O pensamento o estonteava, mas ele segurou seu ritmo. Não poderia demorar, ou não conseguiria falar com ela antes que a colocassem no carro e levassem-na embora novamente. Ele não poderia a ver partir. Não por mais uma vez.
Então ele apertou ainda mais seu passo, zunindo escadaria abaixo. Tropeçou em um dos degraus, quase espatifando sua cara no chão, mas algum guarda ajudou-o a permanecer em seus pés. Ele agradeceu rapidamente com um aceno de cabeça antes de sair andando novamente, dessa vez ainda mais rápido. Será que eu não consigo ser eficiente nem uma vez na vida?
Anthony nunca soube a resposta. Quando virou o próximo corredor, entrando no hall principal, sequer tinha alguma pergunta a fazer.
Ele estava em tempo. As portas ainda estavam fechadas, com os guardas tirando suas luvas para abrir, e uma solitária Aurora caminhava até elas. Ela carregava atrás de si uma pequena mala branca, que, ele supunha, continha alguns pertences dela. Anthony imaginou se a rosa que ele lhe oferecera alguns dias antes estaria ali dentro.
Ele silenciosamente entrou no hall, atrás de Aurora, e fez um sinal com os dedos para que os guardas deixassem o cômodo. Notando a comoção, a ex-Selecionada virou-se de costas. Então, só então, Anthony permitiu-se admirá-la.
Ela usava um vestido listrado simples, que evidenciava sua forma magra, saltos brancos e os fios negros em um coque apertado. Poucos fiapos escapavam do topo da cabeça, flutuando sobre seu rosto como se sobre o de um anjo, embora Anthony desconfiasse que era proposital. Carregava consigo a mala branca de marca, que combinava perfeitamente com seus sapatos, e não levava nenhuma joia aparente.
Aurora costumava ser bonita. Mas, em noites como aquela, nas quais ela não se esforçava para ser bonita, mas somente para ser Aurora, ela ficava linda.
Ele sentiu os olhos azuis da italiana recaírem sobre si próprio, e inspirou profundamente. Sua mão procurou o braço do violão, mas, quando ele estava prestes a sacar o instrumento, notou o sorriso cafajeste no canto dos lábios de Aurora.
“Desde quando você é tão clichê assim?”, ela perguntou, zombeteira, e ele sentiu seu sangue ferver. Ele precisava tocá-la, precisava tê-la, ou enlouqueceria.
Levantou uma sobrancelha antes de cobrir o espaço entre os dois a passos rápidos e largos. “Talvez eu não seja.”
“Eu estou dispensada, você sabe”, ela devolveu, no tom despretensioso que usava quando queria qualquer coisa. “Arthur já vai pegar sua coroa.”
Anthony deu de ombros, fixando seus olhos nos dela enquanto segurava sua face. Em meio à suas mãos parecia tão pequena, tão frágil. “Ele que fique com a estúpida coroa. Eu prefiro pegar a garota.”
●●
Calliope olhou de Arthur para Sofia e de Sofia para Arthur outra vez. Ela sabia que este momento – o momento de sua Eliminação – chegaria, mas ainda assim, não estava preparada. Os últimos quatro meses de sua vida haviam se baseado naquela competição, naquele palácio, naquele príncipe. Como é que alguém simplesmente tocava a vida depois de quatro meses como aqueles? Ela não sabia, mas Arthur parecia ter uma ideia.
“Olha, eu me importo com vocês duas. Não quero que fiquem desamparadas”, disse o ruivo, quando as duas pareciam ter processado o que acontecia. Calli subiu seu olhar para ele, ainda meio aérea. “Têm para onde ir? No que trabalhar?”
Calliope comprimiu os lábios. A verdade era que não, ela não tinha. Não podia se mudar para a casa da madrasta de novo, e não tinha nada do dinheiro que lhe fora enviado durante A Seleção em mãos. Ela não sabia o quê fazer.
Sofia, porém, parecia mais certa do que ela – talvez pela única vez em todo o tempo de convivência das duas. Ela assentiu vagarosamente, e então engoliu em seco. “Eu só... Eu só tenho de dar um telefonema.”
Arthur sacou um pequeno aparelho de metal do bolso, um celular, e o estendeu para a garota. “Quem é?”
“Alguém longe demais para se ligar por celular, Arthur”, ela sorriu sarcasticamente, e ele riu.
“Sofia, eu sou o príncipe. Posso pagar um interurbano.”
“Não tenho a mínima dúvida disso”, ela provocou. “Mas a questão é: eu não sei o código federal da França.”
As sobrancelhas de Calliope foram quase tão alto quanto as de Arthur. Um contato na França? A garota balbuciou alguma coisa em uma língua quase familiar à Calli antes de sair da sala, mas ela não se importou em tentar entender. Descobriria mais tarde o que aquilo significava. No momento, sua prioridade era dar um jeito de não morar nas ruas.
“Calli”, Arthur a chamou, e ela teve a impressão que não era a primeira vez.
“Sim?”
“Talvez... Talvez você não tenha de sair do Palácio”, o príncipe disse, inseguro.
“Suponho que vá me contar um segredo?”
Ele sorriu do jeito que fazia quando ela lia sua expressão, e Calliope também sorriu. “Eu tenho uma oferta para você.”
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