Coroada - A Seleção Interativa
46 Black Or White
Notas iniciais
"Quando foi que vocês tiveram essa ideia mesmo?", perguntou mais uma vez Aurora, enquanto era acompanhada por Anthony e Louise até o muito improvisado Salão das Mulheres.
"Esperando o Archie enquanto ele estava num encontro com Calliopr Evans Rosier", respondeu Tony, avoado. Louise lhe lançou um olhar fuzilante. "E eu tenho a impressão que não deveria ter dito isso."
"Como se eu fosse contar pra alguém", Aurora devolveu, remexendo a papelada.
"Ué. Aquela garota, Delancy, por exemplo. Vejo você com ela por aí", a ruiva palpitou.
"Só pra começar, falar com Dya é como falar com as paredes. Ela virou uma sombra desde a morte de Caroline", a morena devolveu, se completando mentalmente 'logo quando estava bem'. "Depois, se foi realmente relevante, Calliope já contou para ela. A menos que as coisas estejam realmente muito ruins e que Pipe pense que isso pode machucá-la. Bom, Pipe sempre pensa que as coisas vão machucar Dya. Ou Sofia. Ou eu, na verdade. É lindo como ela se preocupa conosco."
"Que bom que estão fazendo amigas", Tony disse. "Archie quer isso."
"Agora, foco", Louise interrompeu. "Já estão todas lá?"
"Pode apostar", Anthony afirmou.
"E quem é a primeira?", se virou para a italiana.
"Vênus Petrov, ballet. Ela é meio que a única que sabe o que está fazendo entre as selecionadas", respondeu, olhando para o papel no topo. "Se vamos mesmo fazer isso, a hora é agora."
Os irmãos se entreolharam enquanto as portas se abriam. Dentro do salão, dezesseis cadeiras haviam sido dispostas em quatro fileiras de quatro, e as selecionadas estavam quase todas sentadas. Em poltronas e sofás, um pouco mais para trás, uma boa parte da família real se acomodava para assistir. Tony e Louise rapidamente se sentaram com Astra, Alice e o resto; e Aurora se dirigiu para o assento vazio ao lado de Sofia.
Um palco havia sido improvisado, e ele estava coberto por linóleo. Em questão de segundos, Vênus entrou e começou uma dança. Aurora reconheceu-a como Lago dos Cisnes, do russo Tchaikovsky. Os movimentos da ex-Cinco eram leves e limpos, e Aurora via que ela conhecia aquela música como a palma da sua mão. A fantasia, infelizmente, não pudera ser providenciada a tempo do pequeno show de talentos; então Vênus dançava com um collant preto, uma meia-calça rosa, uma saia meio transparente cuidadosamente amarrada em sua cintura e sapatilhas de ponta. E, ainda assim, todos se sentiam como se assistissem à uma apresentação de uma renomada academia.
Quando ela acabou, os poucos presentes explodiram em aplausos. A morena educadamente agradeceu, estilo Ballet de Illéa, e saiu do palco. Aquela era a deixa de Aurora, que se pôs de pé e, de um piscar de olhos, foi para o palco.
"Olá, pessoal. Bom, como a maioria de vocês sabe, aquela foi Vênus Petrov. Ex-segunda bailarina do Ballet de Illéa, nada demais. Mais uma salva pra ela, porque ela merece", disse, como se tivesse decorado. Estava, na verdade, só improvisando. "Então, antes de chamar o meu parceiro apresentador, eu vou dar um conselho pra vocês. De amiga pra amiga, ok?", tentou mirar a maior parte de rostos possível. "Se divirtam. Isso aqui foi organizado pra que possamos todos ter uma pausa no stress pelo qual estamos passando, então se divirtam", as pessoas aplaudiram por algum tempo, até ela pedir silêncio de novo. "Ai, gente, eu preciso de alguém pra me ajudar aqui em cima. Conduzir um show de talentos não é fácil, sabem? São tantos nomes pra decorar... Eu ia usar a ajuda da Vossa Alteza, Príncipe Anthony, mas ele resolveu desaparecer justo hoj-"
"Senhorita Bocchi!", Tony gritou, se levantando de um pulo, para o susto de todos. "Nossa, me perdoe. Eu realmente esqueci."
"Suponho que Vossa Alteza tenha uma ótima justificativa para essa", Aurora brincou, enquanto ele subia ao palco.
"Ah, e se tenho", ele concordou. "É que hoje de manhã, eu e minha irm-"
"Poupe-nos da história de pescador, Alteza", a selecionada o interrompeu, e todos riram de sua cara de espanto. "Antes de prosseguirmos: sabe qual era a tradição em premiações no início dos anos 2000?"
"Claro que sim, a senhorita me contou", devolveu o louro. "E é um legado. Eu não poderia me esquecer facilmente das piadas ruins."
"A gente deveria mostrar pra eles do que estamos falando, né?"
"Decerto, senhorita", o príncipe mandou um olhar malandro para a platéia. "Você sabe quem é o líder espiritual das lhamas?"
Aurora pareceu ponderar. Ela realmente não sabia qual era a resposta e, vindo de Tony, nem queria saber. "Hm... Não, Alteza. Quem é?"
"Dalai Lhama", e riu pouco da própria piada. As selecionadas se olhavam, em constrangimento; enquanto a família real rachava de rir de quão ridículo o loiro fora. "Ok, não pegou. Reconheço a derrota. Tem alguma pra mim?"
"Claro que sim. Assim vou achar que não me conhece, príncipe", ela brincou. "Sabe quem é o galã preferido das abelhas?"
Ele franziu as sobrancelhas em uma careta estranha, dando a entender que tinha achado a pergunta esquisita. Embora várias pessoas tenham rido da cara dele, Aurora a achou extremamente sensual. "Não faço ideia, senhorita."
"Ah, essa era fácil. É o Mel Gibson."
Menos pessoas ainda riram, para a sorte de ambos. Anthony tomou a fala. "Talvez devêssemos parar."
"Devemos", a morena concordou. "E agora, senhoras e senhores-"
"-crianças de todas as idades-"
"-uma salva de palmas para Helena Sobrine", anunciou, e a loira subiu ao palco. Fez uma reverência à todos, antes de se voltar para os apresentadores. "Então, senhorita Sobrine, o que pretende fazer?"
"Bom, eu pinto desde pequena. E posso fazer incrivelmente rápido. Então farei uma caricatura, mas preciso de voluntários", ela respondeu, sorrindo.
"Eu vou", Arthur se ofereceu, ficando de pé. "Desde que ela não faça nada que fazia antes do castelo..."
"O que isso quer dizer, senhorita?", Tony provocou, a mesma careta de antes. Aurora se obrigou a desviar os olhos.
"Eu era, bom, uma stripper", confessou. "Mas, na verdade, nunca fiz nada contra a lei. Chamo de navegar entre o legal e o ilegal."
"Então o que Vossa Alteza quis dizer foi que está de acordo desde que a senhorita não tire a roupa no palco?", Aurora perguntou, os olhos arregalados em estarrecimento.
"Basicamente", Helena respondeu, e todos riram.
"E isso conseguiu ser mais engraçado que nossas dias piadas sem que tentássemos", Tony constatou.
"Sempre achei que as coisas do início dos 2000 não prestavam", Aurora devolveu. "Com vocês, agora, Helena Sobrine."
***
Depois de um tempo, a plateia já havia assistido à Helena caricaturar o príncipe, Alyssa e Skyler cantarem enquanto Sarah Campbell tocava violão, Louise cantar e tocar piano e Calliope fazer uma apresentação de ballet. Anthony e Aurora se surpreenderam com o quão tristes estavam por ter acabado, embora todos parecessem ter se divertido muito. Quando as meninas e a família real saíram da sala, os dois ainda ficaram, encarando o palco agora vazio.
“Eu disse que iria dar certo”, ele esbarrou nela com o ombro, implicante.
“Tá, você estava certo”, ela admitiu, e ele comemorou. “Mas não se acostume a me ouvir dizendo isso. Vai ser uma das poucas vezes.”
Ele apertou os lábios. “Eu não teria tanta certeza disso.”
“Se você é quem diz, loiro…”
“Ah, Aurie”, ele se virou de frente para ela. “Eu posso não ser um gênio como Hannie ou Archie, mas não sou estúpido.”
“Está bem, senhor certeza. Surpreenda-me”, ela falou, e, com um beijo em sua bochecha, deixou-o sozinho no salão.
***
“O que eu faço?”, perguntou, mais tarde, ao seu irmão. “Isso está me enlouquecendo, Arthur. Eu não sei mais o que fazer.”
Arthur observava seu irmão encostado na parede, enquanto Anthony andava incessantemente para lá e para cá. Por que Tony tinha de fazer tudo ser complicado daquele jeito? Suspirou, antes de segurar os ombros do irmão. “Primeiro você para de andar antes que faça um buraco no chão. Depois, você senta e se acalma.”, disse, como se falasse como uma criança de cinco anos. O loiro de fato se sentou na cama. “Então você fala pra Aurora o que está acontecendo.”
“Eu não posso. Eu não consigo.”, explicou, tentando se por de pé, mas o ruivo o empurrou de volta para a cama. “Conquistar ela é como jogar um jogo. Enquanto eu não chegar na última fase não posso ter o prêmio.”
“Você não está mais conquistando a Aurora.”, Arthur constatou. Por que ele tinha tanto medo de falar o nome da menina, afinal? “Ela está totalmente na sua, Tony. Vocês dois parecem dois bobos brincando de Romeu e Julieta, às vezes.”
“Não é assim que as coisas funcionam, você sabe.”, acusou, apontando o irmão. “Você sabe melhor que qualquer um que as coisas não são simples assim.”
“São bem mais complicadas pra mim, acreite. Principalmente com A Elite vindo…”, balanceou a cabeça. “Não fuja do assunto. Quando é que você vai falar com Aurora?”
“Quando for a hora certa, duh.”
“Quando vai ser a hora certa, Tony? Vai, algum dia, haver uma hora certa?”, o loiro abriu a boca para protestar, mas Arthur o calou. “Eu não posso manter ela aqui para sempre, você sabe. Alguma hora, ou eu vou ter de dispensá-la ou ela vai pedir para sair. A ‘hora certa’ tem de vir antes disso, Anthony.”
“Quer saber, Arthur?”, ele se pôs de pé, adrenalina correndo em suas veias. Odiava quando Arthur tinha razão e o chamava por seu nome, principalmente ao mesmo tempo. “N’A Elite. Espere e verá.”
E saiu do quarto, batendo a porta. Por mais que doesse ver seu irmão zangado com ele daquela forma, Arthur sabia que era necessário. Só esperava que Anthony pudesse ver isso.
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