Cores do Meu Coração
11 Teme 5 - Sem querer querendo
Notas iniciais
Inacreditável. Essa é a palavra. Inacreditável. Uzumaki Naruto é a minha soulmate. Esse Iruka. Como eu posso ajudar esse idiota se eu vou matar ele? Só se matando ele, eu esteja ajudando-o, porque se não for assim, já era. Fica para a próxima reencarnação. Assim que minha testa se encostou na dele, eu senti o mesmo choque que eu senti quando Iruka me tocou. E então tudo mudou como mágica, minha mente foi inundada por frequências inexplicáveis e então eu estava vendo o mundo de outro jeito. Maldita hora que eu usei a cabeça, literalmente. Naruto, minha soulmate? Só pode ser uma sacanagem!
Larguei-o contra um carro que eu nem sabia de quem era e arregacei minhas mangas. Apoie-me em meus joelhos e o encarei. Diabo? Talvez eu seja.
— Então, como quer ser fodido? — estapeei seu rosto — Sempre quis comer alguém em público.
Eu agarrei sua camisa, mas meu corpo foi empurrado. Olhei para o lado e lá estava Shisui com o telefone na mão. Ele ofegava.
— Se tocar nele mais uma vez, eu vou ligar para Itachi.
— Vai mesmo? — meu tom era de fato ameaçador e sombrio — Liga. Liga para ele que eu quero ver. Vamos, liga para ele e diz que o caçula surtou de novo! — gritei — Liga, caralho!!!
— Sasuke, você está fora de si!
— Mas é claro que eu estou! — eu falava sadicamente caminhando para perto dele — É claro que eu estou fora de mim, até porque fui eu que procurei briga, não foi? Eu sou o cão pitbull que adora atacar os inocentes, não é? — Shisui retrocedeu alguns passos — Que foi? Não vai ligar para Itachi vir salvar a bunda daquele idiota ali?
— Por favor, Sasuke… Eu…
— VOCÊ O QUÊ?! — gritei intimidando-o.
Meu corpo foi mais uma vez empurrado. Isso já está me dando nos nervos. Naruto me derrubara, aliás, agarrou minha cintura para não soltar mais, me chocando contra tudo que era sólido e podia machucar. Leia-se carros, motos, paredes, meio-fio, poste, essas coisas. Arfei de dor e acertei outra cabeçada em sua testa, fazendo-o ficar tonto. Cansei de usar capoeira nesse cara.
Afastei meus pés e coloquei os punhos na frente do corpo, numa posição de combate. Naruto fez o mesmo e veio para cima de mim. Desviei e o soquei na altura das costelas, girei o corpo e chutei suas coxas, fazendo-o deslizar pelo asfalto. Naruto se levantou, cuspiu sangue e veio de novo, mas devagar, provavelmente me analisando. Respirou fundo e muito sério começou uma sequência rápida de ganchos acompanhados por chutes. Desviei de uns, levei outros, mas consegui revidar a tempo, ora um soco na barriga, ora um na cara. Barriga, cara, barriga, cara, barriga, cara e para terminar, um chute voador no peitoral.
Ele caiu cuspindo sangue. Cambaleei. Os socos desse cara são bons. Se eu não já tivesse apanhando tanto na vida, com certeza já estaria desmaiado. Respirei fundo e esperei. Nenhum reação. Acho que ele apagou.
— Eu disse que devolveria o favor. — falei me afastando e vendo se o sangue da minha cabeça tinha parado de escorrer. Parara, finalmente.
Fitei Shisui. Ele estava desesperado. É, acho que amanhã vou receber bronca.
— NARUTO!!! NÃO!!! — ele gritou e eu me virei.
A última coisa que eu me recordo foi de ver aqueles olhos de uma cor suave, mas brilhante, se aproximando de mim e então senti minha pele ser rasgada na altura da barriga. Senti novamente a dor dilacerante de ter uma garrafa de vidro entrando dentro de mim e deixando pedaços pelo caminho. Perdi as forças das minhas pernas e caí de joelhos, cuspindo sangue.
— Desculpa querido, doeu? — falou cinicamente. — Achei que você estava com sede, quis matá-la direto da fonte. — sorriu com falsa doçura.
Eu ri baixo. Esse bastardo. Ah, ele me paga.
— Eu morro… — gemi tirando de dentro de mim um caco de vidro, jogando-o de lado e me levantando — Mas levo você comigo!
Agarrei seu corpo e me atirei na frente do caminhão que estava passando aquela hora da madrugada. O caminhão me acertou, mas Naruto só foi atropelado pelo carro que vinha atrás do caminhão e não conseguiu desviar a tempo do corpo dele, procurando não ser atingido pela caçamba do caminhão. Eu vi tudo isso enquanto girava no ar.
Nossos corpos voaram, eu tenho certeza, nem preciso que me digam. Voei longe, mas eu não perdi meus sentidos, nem no momento que ouvi minhas costas se chocando contra o meio fio a praticamente vinte metros de distância do bar. Eu não sei o que foi mais atormentador: ouvir meus ossos quebrando dentro de mim ou sentir meu peito de alguma forma ser perfurado. Se eu não morresse hoje, não morreria nunca mais, pensei tentando entender em que estado meu corpo ficara enquanto meus tímpanos eram praticamente estourados pela barulheira que o caminhão estava fazendo na rua.
Não sei explicar, algo despertou em mim, e mesmo com as minhas costelas quebradas, meu corpo se moveu para o lado. Eu já me vira assim, recebendo forças de não sei da onde para fazer algo puramente instintivo, uma motivação poderosa de espírito, como aquele choque que me derrubara no bar, para fazer algo por alguém.
Era mais forte que a minha mente.
Eu vi Naruto cambalear e ter seu corpo chicoteado. Foi como ver um filme em câmera lenta. Seu rosto de terror logo deu lugar a uma expressão desfalecida. Ele rolou pela rua e parou de barriga para cima. Minha vista estava embaçando, mas como eu disse e não sei explicar, algo dentro de mim aconteceu misteriosamente.
Não sei porque raios de razão, levantei-me do meio fio, corri para o outro lado da rua, mesmo com todos gritando que eu deveria parar, desviei loucamente do caminhão, indo até o corpo de Naruto estirado no chão. Abracei-o e dei as costas, tudo isso em questão de segundos, eu acho. O carro desgovernado, acredito eu, se chocou contra nós dois, mas eu recebi todo o impacto que Naruto deveria ter sentido, de modo que demos uma cambalhota escrota para frente, rolamos pelo asfalto frio e só paramos debaixo de outro carro, que serviu para parar o primeiro.
Eu pude ouvir meus ossos estralando, de novo, ao passo que a lataria do carro se amassava e as ferragens do chassi ousavam nos machucar. O empurrei, e nem sei como, para a calçada, longe da loucura a tempo e me arrastei para o mesmo lugar, colocando-me ao seu lado, mas não fui rápido o suficiente, pois o pneu, nem sei mais de qual carro, passou por cima da minha perna esquerda na altura do joelho. Aí eu gritei, mas minha voz foi engolida por uma golfada de sangue que eu vomitei na calçada, enquanto me arrastava igual a um zumbi.
Meu corpo inteiro doía, moído, latejante, trêmulo e ardente, em brasa. Eu senti falta de ar, o coração acelerando e aos poucos fui ficando dormente. Merda, estou infartando! Naruto desmaiara, mas não parecia ter sofrido mais do que uma fratura na perna.
— Por… — gemi fitando-o, com o resto de fôlego que me restara — Por… Por… Por que eu fiz… Isso… De novo?
Então, escuridão e silêncio. Mas não pensem que eu morri, não, não. Vaso ruim não quebra, só arranha. Acordei duas noites posteriores às cirurgias. Olhei em volta e me vi num quarto meio escuro, mas branco, minha cabeça doía e eu não sentia absolutamente nada do meu corpo. Eu sentia minha boca seca, meus lábios rachados e muita tontura. Deve ser o efeito da anestesia.
De repente alguém apareceu em meu campo de visão. Era… Eu acho que é Shisui.
— Sasuke? — ele chamou e sua voz me pareceu distante, bem longe. Tentei respirar fundo, mas meu peito doeu impiedosamente. Pisquei lentamente algumas vezes e suspirei — Sasuke? — concentrei-me em sua voz. Estava se aproximando — Sasuke?
— Estou aqui… — resmunguei, mas meu queixo latejou. — Argh… Tsk…
— Calma, calma, não fale. — sua voz branda era quase um mantra para mim — Você deslocou a mandíbula por causa dos socos de Naruto, prejudicando um pouco suas cordas vocais.
Caralho, esse cara bate bem! Se eu tivesse um chapéu, eu o retiraria para Naruto, porque, raivas a parte, ele merece. Puta que pariu, soco medonho!
Fitei-o e sorri de leve. Era o mínimo que eu podia fazer para dizer que eu estava bem. Shisui suspirou aliviado e se afastou um pouco. Fora buscar algo e retornou. Posicionou o objeto bem em cima de mim e eu o fitei: era um espelho e minha cara estava horrivelmente boa. Se me permitem a comparação, eu mais pareço o filho do monstro do Frankenstein. Do nariz para baixo, tudo inchado, minha cabeça estava com uma atadura, talvez por causa do corte, havia um imobilizador em meu pescoço e algo ao redor da minha cabeça no sentido vertical que impedia minha boca de se mover direito.
— Você está bonito, sabia? — Shisui disse com os olhos cheios de lágrimas.
Sorri de lado e estiquei meu braço, alcançando sua cabeça, puxei-o para baixo e depositei um beijo suave em sua testa. Ele não aguentou. Caiu em prantos sobre meu corpo, soluçando como criança, desesperado. Pousei minha mão sobre sua cabeça e afaguei seus cabelos.
— Eu sinto muito, Sasuke, é tudo culpa minha! Se eu…
Puxei seus cabelos com as poucas forças que eu tinha e fi-lo me encarar. Sorri e neguei com indicador. Apontei para mim mesmo e pisquei um olho.
— Como pode achar que a culpa é sua?! Claramente…
Fechei a cara e arqueei uma sobrancelha.
— Certo. — ele sorriu enxugando as lágrimas — Se você diz que a culpa é sua, ela é sua. — eu tentei rir, mas a dor que eu senti em meu peito e na minha cabeça me impediram. — Sabe… Os médicos não sabe dizer como é que você está vivo.
Olhei de lado e vi sobre o criado mudo um vaso. Apontei para ele. Shisui fitou por um tempo, encarou-me e depois desatinou a rir, depois de entender o que queria supor, daquela forma incrível que fez Itachi amá-lo. Meu irmão sempre me disse que acha lindo o jeito que Shisui ri, principalmente quando é uma risada natural e não forçada. É, meu irmão sempre teve bom gosto, pelo menos na maioria das vezes.
— Os médicos disseram que você quebrou quatro costelas, e uma delas perfurou o seu pulmão, quebrou a perna esquerda em sete lugares, perdeu parte do fígado por causa da garrafa de vidro, a mandíbula deslocada e um corte superficial na cabeça.
Toquei minha cabeça e arregalei meus olhos, tentando fazer uma careta teatral de pânico. Meu primo riu mais um pouco e meneou a cabeça negativamente. Que bom que ele não está mais com aquela cara de desespero. Não quero vê-lo sofrendo por mim. Shisui já tem motivos demais para dores de cabeça, ele não precisa de mais e muito menos vindos de mim
— Apesar de tudo, de você estar um caco, até que você esta bem.
Repuxei os lábios para baixo e assenti de leve, como se eu dissesse que fosse esperado.
— Os médicos disseram que em pouco tempo, questão de algumas semanas, você vai poder retomar sua rotina de treinos, pois vai até ser preciso para fortalecer seu corpo, mas a fala vai demorar mais um pouco por causa do deslocamento.
Apontei para o relógio dele.
— Talvez três meses… — eu o vi segurar o riso. É, eu sei o que você está pensando: por que ele está querendo rir? Depois eu conto essa história. — Irônico, não? E envolvendo a mesma pessoa.
Mostrei o dedo médio a ele e Shisui riu ainda mais. E eu que sou o babaca.
— Itachi vai falar com Hiashi… — arfei e revirei os olhos — Nem me venha com essa cara, Uchiha Sasuke! — sua voz ganhou um repentino tom autoritário — Eu já sei o que vai acontecer quando você receber alta! Vai dar um jeito sozinho de recuperar a saúde de seu corpo e vai acabar se prejudicando, como das outras vezes. — se eu pudesse, eu teria me encolhido — Hyuuga Hiashi vai preparar duas próteses auxiliares para seu corpo e você vai usar, querendo ou não!
Assenti. Deus me livre discordar dos dois Uchihas mais velhos. Prefiro levar uma surra de Naruto e ser atropelado de novo do que ir contra a vontade desses dois. E falando no traste...
Apontei para a minha cabeça. Ele ficou sem entender o que eu queria dizer. Suspirei, parecendo um cavalo relinchando, e pensei melhor sobre como eu iria perguntar. Era o jeito.
— Naruto…? — tentei falar, mas foi tão difícil que eu mordi a parte interna da minha bochecha. Droga, meu sangue é amargo. Pensando bem, faz sentido ser amargo.
— Está na sala de cirurgia agora… Itachi fez questão de mobilizar um batalhão de médicos para cuidar de você, porque seu estado era mais grave que o dele, de modo que Naruto ficou esses dois dias em observação. Depois da cirurgia, vão trazê-lo para cá. — franzi meu cenho, confuso — Isso porque toda essa ala foi isolada de qualquer tentativa de invasão de privacidade. Foi ideia de Kakashi. — arqueei uma sobrancelha — De isolar a área.
Assenti. Fitei a televisão, passando um programa qualquer de vendas, e vi o relógio. Pelas minhas contas, eu estava há muito tempo desacordado. Eita ferro. Fitei Shisui novamente.
— Maiko… — gemi. Só naquele momento eu notei o quanto minha voz ficara rouca, rasgada, como se eu estivesse com navalhas na minha garganta, arranhando minhas cordas vocais.
— Itachi está com ela na casa dele. A coitadinha só parou de chorar hoje, quando o cansaço venceu e dormiu profundamente. — ele sorriu doloridamente — Infelizmente você só vai poder vê-la amanhã, mas não se preocupe, eu cuidarei dela até lá. Eu só queria me desculpar pelo comportamento de Naruto… Eu não sei porque ele fez isso, mas pode deixar que eu mesmo vou dar um jeito nele e obrigá-lo a se desculpar!
Tão nobre esse homem. O mundo precisa de mais homens com o caráter semelhante ao de Shisui, para ver se dá um jeito em como ele está. Eu ri apenas movendo os ombros, sem emitir nenhum som. Toquei seu peito, Shisui fitou meu dedo, subi-o de vez e dei um peteleco em sua testa. Ele ficou sem entender minha ação. Apontei para o seu celular e movi minha mão pedindo-o. Rapidamente me entregou e eu digitei algo. Devolvi-o.
— ”Não seja tolo, Shisui, já lhe disse que foi minha culpa. Eu resolvo isso depois. Preocupe-se em amar corretamente o meu irmão, que já vai estar me ajudando! Então deixe que o babaca seja eu e vá viver seu romance! A propósito, não é um pedido”. — ele leu e ficou corado. Pela primeira vez na minha vida eu vi uma pessoa ficar vermelha de vergonha. Que interessante! Então é assim que o corpo reage quando estávamos com o sangue quente? Estou admirado. — Como você sabe?! — ele perguntou apressadamente.
Cobri meus olhos com uma mão e depois retirei-a, negando com a cabeça em seguida.
— Mas você acha que… Vai dar certo?
Eu arregalei meus olhos. Sério, Shisui escapou de levar uma tapa segura na cara para tomar vergonha e se ligar nas coisas. Brincadeira uma coisa dessa! Fechei a cara completamente, peguei seu celular e digitei de novo. Entreguei-o.
— ”Eu vou dar na tua cara se você não se declarar para o Itachi antes de eu sair dessa boba serena! Estou falando sério! Pode usar a sua sensualidade embutida para levar meu irmão para cama de uma vez e resolver essa parada!!! Se não, eu tranco vocês dois nus dentro de um quarto!” — Shisui não corou dessa vez. Na verdade seus olhos ficaram vermelhos e ele gargalhou alto, tão alto que eu conseguia ver o céu da boca dele. Cruz credo, nessa família só tem diabo enrustido. Uma risada tenebrosa e folgada — Você é muito sacana, Sasuke! Não deixa passar nada. — ele suspirou — Pode deixar. Ele não me escapa.
Ah como eu queria rir diabolicamente agora!
Shisui disse que precisava ir agora. Tinha que responder uma coletiva de imprensa em nome de Naruto e da família Uchiha. Tinha que esclarecer os motivos do acidente.
Suspirei quando me vi sozinho e me concentrei no que estava ao meu redor. Tantas nuances diferentes, tantas cores, que chegava a ser estranho de se olhar. Era como se eu estivesse em outro mundo, outro planeta, outra realidade, não era mais a minha, isso era certo. Arfei.
Por que é que tudo que eu não quero acontece em minha vida? Que saco. Será que eu sou o único do mundo cuja as preces não são atendidas por esses tais deuses?
Isso é meio injusto, se querem saber.
Mas tudo bem. O que aconteceu não pode ser mais mudado. Não posso reclamar por algo que está fora do meu controle. Mas pensando por um lado, faz até sentido que esse idiota mal amado seja a minha alma gêmea. Ele é o meu oposto. Sempre rindo, sempre agindo feito um idiota, vindo das ruas, uma criança que precisa de colo, criando uma áurea leve ao seu redor, atraindo a todos com sua personalidade explosiva.
Naruto é como o Iruka.
Ele é o branco e eu sou o preto.
Ele é todas as cores, eu sou nenhuma.
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