Cores do Meu Coração
6 Teme 3 - Um dia na vida
Notas iniciais
Chapéu Fedora preto, bengala de mogno com um corvo na ponta, echarpe listrada preta e branca, camisa branca por dentro de um colete, calça social e sapato preto bem engraxado, a la Tony Stark, com meu paletó sendo carregado por minha pequena. Esse sou eu entrando na recepção do meu banco sem olhar para ninguém e acabando de ordenar a todos os meus seguranças que impeçam que qualquer pessoa, que tenha a intenção de querer me fazer perguntas relacionadas ao traste e ao acidente na noite anterior, entre.
Claro que a festa que rolara por causa do festival fora suprimida pela notícia de que o notável dono da Rede Bancária Uchiha, a Rebú, fora atacado por um dos modelos do estilista da noite. Entrei em minha sala e indiquei o sofá para Maiko. Oh vida de merda.
— Senhor Diretor. — minha secretária entrou calmamente se equilibrando em seus saltos e sorriu para Maiko, para só então deixar alguns papéis em minha mesa — Alguns jornais dizem que o escândalo de ontem envolve ciúme entre os primos. Alguma coisa relacionada com problemas familiares e intrigas envolvendo um amor antigo. Como devo proceder?
Fitei-a, retirando meu chapéu e colocando minha begala de lado, embaixo do chapéu.
— Hinata. — suspirei — Chame meu advogado e processe todos eles.
— Sim senhor. — ela fez uma breve reverência e saiu da minha sala.
Arfei de cansaço e recostei-me melhor na minha cadeira. Fitei Maiko, ela começara a fazer os seus deveres de férias, fazia apenas uma semana que as aulas dela se encerraram para dar início às férias de inverno. Ela estava concentrada e por sorte não ouvira o que Hinata dissera, não quero que minha filha pense que eu não gosto de um de seus tios tão amados.
Levantei-me da cadeira e fui até a porta, trancando-a. Diminuí um pouco a iluminação da sala, busquei um abajur e coloquei-o aceso na mesa onde Maiko estudava. Fui até a minha mesa e apertei um botão escondido debaixo de um dos porta-retratos que decoravam-na. A cobertura das paredes deu lugar a telas digitais, a luminária da sala se tornou um projetor de holografias e de hologramas, exibindo em tempo real em gráficos, códigos e outras formas que deixavam a minha sala igualzinha a Bolsa de Valores de Nova York, porém sem as pessoas gritando incansavelmente. Todas as pessoas me perguntam porque a minha mesa tem um teclado e uma tela digital embutida na superfície, se não há monitor. É para controlar o que se passa na minha sala grande, que praticamente é um monitor gigante do meu computador holográfico.
Maiko parou seus deveres e ficou assistindo eu mover arquivos e imagens para lá e para cá, executando os meus deveres de diretor-geral. De vez em quando eu sorria para ela de maneira divertida e voltava a ver as telas pretas com luzes brancas, que eram as letras, as linhas, os pontos, as imagens que compunham a projeção. É, quando eu ativo a sala, eu me sinto realmente o Tony Stark.
Algumas horas de trabalho depois, eu saí para almoçar com Maiko. Mesmo com todo o trabalho que eu tinha para fazer e com Maiko ao meu lado, eu não conseguia esquecer o problema de meu irmão. Coitado, tudo o que ele queria era um momento a sós com meu primo para finalmente se declarar para ele e eu acabei estragando tudo.
Eu devia ter me afastado assim que vi Naruto, mas continuei por lá. O que deu em mim? Kami sabe lá o que se passou em minha cabeça.
— Papai.
Fitei a menina sentada ao meu lado na mesa do restaurante.
— Diga. — retirei meu chapéu e penteei meus cabelos.
— Hoje o senhor não parece bem… Parece que está nas nuvens.
— Acho que eu estou mesmo. — comentei sorrindo. — Me desculpe.
— Tudo bem. — ela deu de ombros e continuou a comer.
Baixei meu olhar e voltei a comer o meu almoço, sem saborear tanto. Eu ainda estava preocupado com meu irmão e com Shisui. Deus sabe o quanto eles sofreram por quererem estar juntos. O amor às vezes é foda, sabia? Suspirei e busquei o cardápio. Maiko acabara de terminar seu almoço e exigia a sobremesa. Para mim, pedi um cappuccino e para ela um sundae de morango. Desde que ela começou a assistir Devil May Cry, o anime, ela ficou fã de pizza de pepperone e de sundae de morango. Vai entender essas crianças de hoje em dia.
Eu estava na borda da mesa e Maiko estava mais perto da janela, protegida de mãos alheias de pedófilos safados, abaixo da janela, longe de ser alvo de fotógrafos inescrupulosos. Enquanto eu bebia calmamente a minha bebida e assista ela exprimir caretas de satisfação a cada colherada do sorvete, ouvi uma estranha movimentação no restaurante. As pessoas pareciam animadas com algo, mas eu não dei atenção, deveria ser algum ator famoso.
Isso sempre acontece.
De repente senti um choque percorrer meu corpo e me ergui de vez, derrubando a xícara sobre a mesa. Fitei meu braço. Eu havia sido tocado, mas nada, além da descarga estática, acontecera, eu continuava o mesmo. Encarei a pessoa que me tocara. Eu tive que arregaçar as mangas da minha camisa e retirar as luvas para almoçar, por isso estava “exposto”.
Arregalei meus olhos. Ele? Aqui? Falei que essa semana prometia.
— Quem é esse senhor, papai? — indagou Maiko se encaminhando para perto de mim depois de ter se assustado com a minha reação repentina. — Ele é mau?
— Não, claro que não. — sorri e soltei o ar, pegando-a no colo. — Eu estava tão distraído que não o vi chegar, só isso, Mai-chan.
Fitei o homem que me tocara. Era Iruka e ele sorria gentilmente para nós dois.
— Perdoem-me pela rudeza. Eu deveria ter lhe falado antes de tocá-lo. — disse juntando as mãos em prece e fazendo uma reverência demorada.
— Tudo bem. — falei arqueando uma sobrancelha — O que quer?
— Gostaria de saber se está tudo bem com seu irmão, apenas isso.
— De certa forma, ele está bem. — falei colocando Maiko no chão e desdobrando minhas mangas, para então colocar as luvas e segurar na mão da menina — Não é preciso alarde para isso.
—Que bom. — ele se abaixou um pouco e estirou a mão para Maiko — Olá, eu sou Iruka.
—Oi… — ela falou com alguma timidez. Fitou-me procurando alguma aprovação para continuar a conversar e depois desceu seus olhos para o rosto sereno do senhor — Eu sou Uchiha Maiko, prazer em conhecê-lo senhor Iruka. — ela apertou a mão dele.
Eu vi os olhos de Iruka se alumiarem ao tocar a pequena mão nua dela e então ele me fitou demoradamente, analisando algo em meu rosto ou algo que estivesse mim e eu não pudesse ver, algo espiritual. Estranhei seu olhar fixo em mim. Como se saísse de um transe, ele piscou várias vezes e fitou Maiko novamente, voltando a sorrir.
— Você tem um pai que te ama muito, não é?
— Como sabe que ele é meu pai? — o gênio Uchiha não muda, pensei, fitando a cara de indignação que ela fez por causa da pergunta.
— Vocês se parecem. — então Maiko abriu um enorme sorriso e assentiu vigorosamente.
— É o melhor pai do mundo.
— Entendo.
Iruka voltou seu olhar para mim, se despediu com outra reverência de mãos postas e se afastou para fora do restaurante, sozinho e tranquilo em suas vestes brancas. Que coisa não, encontrá-lo almoçando por aqui? Coincidência, destino ou apenas o desejo de comer comida de qualidade? Não sei, mas me parece suspeito.
Saímos depois que paguei e voltamos ao Banco. Subi para a minha sala com ares indiferentes, mas eu podia sentir as pessoas cochichando sobre o assunto do momento. Seus olhos me atacando pelas costas, indagando toda classe de pergunta sobre o acontecido, sobre meu envolvimento com Naruto, com Shisui, com qualquer merda que pudesse me irritar. Nada fiz, continuei meu caminho sem dizer uma única palavra. Cheguei a minha sala e me deparei com meu advogado sentado em uma da poltronas pretas que ficam de frente a minha mesa, Hinata estava ao seu lado, provavelmente explicando os pormenores.
— Que tipo de processo vai ser dessa vez? — indagou o homem de cabelos escrotamente brancos. Em seu terno cinza, riscos sutis brancos, sapatos pretos bem engraçados e um chapéu coco preto na cabeça, aquele homem parecia ter saído de um filme de máfia de quinta categoria.
— O que faça eles se arrependerem de ter se metido com Uchiha Sasuke. — falei desabotoando o meu colete. Fitei Hinata e fiz um aceno breve de cabeça para que ela levasse Maiko para uma sala ao lado da minha, onde ela poderia descansar e assistir filmes.
— Falência? — neguei — Multa absurda? — neguei de novo — Uso impróprio de sua imagem? — neguei — Invasão de privacidade? — neguei sorrindo — Está difícil, Sasuke.
Sentei-me em minha cadeira e empurrei um documento para ele.
— Calúnia, difamação, danos morais, essas coisas… — eu o vi tomar nota em uma caderneta. Esse jovem senhor de cara escondida por uma máscara cirúrgica nada mais é do que Hatake Kakashi, o tipo de homem que você nunca vai querer como inimigo, mas daria os rins para tê-lo como aliado. É um advogado que você tem a certeza que se ele morrer um dia, foi porque mataram-no.
— O playboy entra na lista também? — ele me perguntou levantando o olhar.
— Só com danos morais, mas seja discreto.
— Por quê? — seu tom de surpresa foi por demais grotesco.
— Ele trabalha para Shisui. Não quero prejudicar o meu primo. Uma multa está de bom tamanho, coisa que diga “Não pense que acabou”. — meu tom sombrio sorridente fez Kakashi estremecer. Para um homem de meia-idade, ele está bem assustado — Mas não quero que pareça que estou devolvendo o favor.
— Então um montante de treze mil doletas? — ele falou brincalhão. Assenti — Certo. Depósito em conta, certo? — assenti de novo. Eu estava revendo algumas papeladas — A conta de…?
— Maiko. — falei.
— Certo. Mais alguma coisa?
Parei e entrelacei meus dedos ante meu queixo, apoiando-o neles.
— Notícias… Dele?
— Na mesma. — falou recostando-se na poltrona e suspirando. Kakashi retirou seu chapéu e buscou dali um pequeno papel dobrado. Entregou-me — Mandou isso para você. Disse que é importante, que precisa de dinheiro e que se você não der… Bom. Já sabe.
Arfei revirando os olhos, eu desdobrei o papel e li o conteúdo. Arregalei meus olhos por um breve momento, depois peguei meu isqueiro de prata e ateei fogo no papel, jogando as cinzas na lixeira, para só então ir até um dos cofres que havia em uma das estantes de livros. A alavanca de abertura do compartimento ficava entre dois dicionários. Era uma bíblia. Nem me incomodei com o fato de Kakashi está olhando todo o tempo.
Rapidamente digitei a combinação, eu abri o cofre e tirei cinco maços de notas de lá. Joguei-as para Kakashi e fechei o cofre. O homem começou a contabilidade do montante. Assentiu quando percebeu que era a quantia certa.
— Ele pediu muito. — comentou arqueando as sobrancelhas — Cinquenta.
— Mas isso não vai durar para sempre. — falei severamente — Não gosto de ser roubado conscientemente por muito tempo. Um dia, o mesmo fim chega para todos, não é?
— Falando assim, você até parece seu pai. Me dá calafrios.
Gargalhei alto. Meu pai me ensinou a ser quem eu sou profissionalmente, não era a toa que muitos me temiam, ainda que quisessem ter relações administrativas e financeiras comigo. Parei de rir rapidamente. Mesmo que eu seja cobra criada de meu pai, eu nunca quis ser como ele, por isso tomei outros rumos, um pouco mais nefastos que o convencional. Fitei Kakashi e fiz um aceno breve de cabeça para que ele se retirasse.
Ele organizou tudo em sua maleta e saiu sem pressa. Soltei o ar, afundando na poltrona macia, fechando os olhos e me perguntando onde diabos eu tinha amarrado o meu jegue. Ouvi uma batida apressada na porta.
— Entre.
Era Kakashi.
— Esqueceu algo? — perguntei calmamente.
— De comentar uma coisa sobre sua cara. — revirei meus olhos. Sério isso? — Você parece bem derrotado Sasuke. Acho que precisa de uma boa… — ele olhou ao redor procurando por Maiko e depois me fitou quando constatou que ela não estava lá — Foda. Se quiser te empresto uma das minhas. — ele falou dando de ombros.
— Sério isso? — coloquei meus pés sobre a mesa e acendi um cigarro, praticamente degustando a nicotina — Você voltou para me dizer o óbvio? Eu pensei que você iria oferecer a si mesmo.
— Quem? Eu? — ele ficou desconcertado. Eu sempre me divirto com o sofrimento dos outros. Sorry, I am sadist — Não iria querer uma múmia como eu.
— Não diga o que não sabe. — soltei demoradamente a fumaça — Eu sempre sei o que fazer com o que me é oferecido. — pisquei para ele, aumentando seu constrangimento — Não seria a primeira múmia e nem vai ser a última.
— Desculpe, Sasuke, mas não acho que eu aguentaria o seu ritmo.
Traguei de vez o cigarro, joguei a ponta no cinzeiro e me levantei soltando a fumaça com calma, apoiei-me na poltrona mais próxima dele, cruzei meus braços, fitei-o de cima a baixo, sugerindo uma analisada “no produto” e sorri de lado.
— Se valer a pena, eu posso ir no seu ritmo.
— Essa é a questão. — ele falou indo de ré para a porta — Não valho a pena.
Pendi um pouco minha cabeça, bem sutil, e coloquei um dedo no queixo.
— Essa questão quem decide sou eu, Kakashi.
— É melhor eu ir! — e a consumação da minha diversão. O querer fugitivo.
Ele saiu apressadamente, quase batendo a porta. Meneei a cabeça negativamente enquanto ria de seu comportamento. Ouvi um ranger, fitei minha direita e vi a porta da sala de Maiko se abrindo. Ela apareceu timidamente, com as bochechas coradas. Lá vem coisa.
— Papai. — ela sussurrou.
— Hn? — continuei indo para a minha cadeira.
— O que é… — ela engoliu em seco e respirou fundo, tomando coragem — Uma boa foda?
Aí eu não aguentei. Eu ri até não ter mais forças, fôlego ou qualquer dignidade de um verdadeiro Uchiha. Ri alto e gostosamente, fazendo Maiko rir comigo também, até cair sentada perto da porta, rolando no tapete macio. Depois de alguns minutos ela veio até mim enxugando o rosto.
— Sério, papai, o que é “uma boa foda”?
Respirei fundo e fitei o quadro da minha mãe em cima da minha mesa. Mamãe sempre soube como lidar com as crianças muito novas. Ele sempre teve esse dom que poucas mães possuem para traduzir qualquer coisa para a linguagem e a mentalidade dos pequenos. Tive que aprender na marra essa técnica por causa do gênio curioso de Maiko.
— É uma brincadeira que só os adultos podem fazer e dizer. — ela arregalou os olhos — Isso quer dizer que enquanto você não for adulta não poderá dizer essa palavra porque…
— Sou uma menina! — ela completou triunfante.
— Isso! — peguei-a em meu colo — Quem quer me ajudar a demitir pessoas más?
— Eu!
Nunca achei que cartas de demissão fossem tão divertidas de fazer com Maiko.
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