Cores do Meu Coração
51 Teme 21 - Por que a vida não dá folga?
Notas iniciais
Eu estava no meu treino de Kick Boxing quando recebi a mensagem de Hinata dizendo que Iruka queria falar urgentemente comigo. Dei de ombros e assim que terminei meu treino, depois de banhar-me e aprontar-me, eu fui ver o que o tal Gurú poderia querer comigo. Eu já imaginava que era problema, não poderia ser outra coisa para ele querer falar comigo assim, do nada, sem eu procurá-lo, como foram tantas outras vezes. Cheguei e notei uma nuvem cinza se aproximando devagar dos telhados de Konoha.
Estranhei. Não havia vento forte, mas ela continuava vindo. Não é boa coisa. Sacudi de leve a minha cabeça e me dirigi para a porta. Bati duas vezes e instantes depois Iruka abriu-a, parecia pesaroso, muito pesaroso. Algo aconteceu com ele. Deve ter visto algo muito ruim.
— Entre. — disse, me dando espaço e assim o fiz.
Fomos para a sua sala especial para consultas e nos sentamos nas almofadas.
— Então… O que houve? — perguntei, tirando minhas coisas de meus bolsos e a arma do cós da minha calça, colocando-os ao meu lado.
— Ponha suas mãos sobre a bacia, diga seu nome e sua data de nascimento.
Assenti.
— Uchiha Sasuke, 23 de julho de 1979. — falei, sentindo o frio do líquido na ponta dos meus dedos. Iruka fitou a água e eu também. Ela ficou escura, partindo dos meus dedos e se alastrando até as bordas. Pontos vermelhos surgiram aqui e ali, como se sangue pingasse naquela água negra. — Eu vou morrer? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
Iruka me fitou e suspirou pesadamente.
— Como pode dizer isso com tanta tranquilidade? Você tem uma filha e seu coração está começando a ser banhado pelas boas intenções do amor que Naruto nutri por você! — ele estava alterado, muito preocupado. — Além de que milhões de pessoas dependem dos seus…
— Calma, homem! — elevei a minha voz acima da dele. — É a morte que não é nada para mim, apenas uma passagem. Maiko sofrerá, mas eu não terei partido. Minha empresa ficará bem, quanto a Naruto… — suspirei e estalei a língua. — E quanto tempo me resta?
— Os deuses me foram sádicos, Sasuke, pois me revelaram absolutamente tudo sobre a sua morte em forma de sinais. — tirei meus dedos de dentro da água. — Doze corvos albinos perfuravam seu corpo, desejando engolir seu coração… O sol tentou cegá-los, mas a lua nefasta impediu-o e o céu chorou sangue por dias e dias inteiros… O mundo tornou-se cinza e uma densa neblina não me deixou ver mais nada sobre você.
Esperei ele dizer algo mais.
Iruka ofegava e seus olhos brilhavam de tristeza, mas ele nada disse.
Aos poucos fui abrindo um sorriso gentil ao cruzar meus braços. Respirei fundo e soltei o ar devagar, como se eu estivesse olhando para Maiko quando ela me faz suas perguntas que são, as vezes, tristes ou dolorosas. “Papai vai morrer um dia? Não quero ficar sem meu papai!”. Fechei meus olhos e num suspiro senti minha alma se tranquilizar. Não havia fios soltos, nem anéis para criar, eu estava em paz, eu estava pronto.
— Tudo bem, Iruka, eu sempre estive preparado para esse momento desde o dia que eu assumi os fardos que carrego até hoje. — descruzei meus braços e apoiei-os nos meus joelhos. — Acho que sei o que vai me acontecer… E quem vai me atacar. — nos fitamos. — Era só isso?
Iruka sorriu e, de algum jeito estranho, veio me abraçar carinhosamente. Eu dei tampinhas de leve em suas costas e nos soltamos. Nós nos levantamos e Iruka me guiou para a porta.
— Acha que tudo dará certo? — perguntei a ele.
Iruka arregalou os olhos.
— Uchiha Sasuke está com dúvidas?
— Bom… — dei de ombros, meio envergonhado. — A morte, ainda que eu não tenha medo dela, deixa a realidade cheia de dúvidas… — suspirei. — Eu tenho, de certa forma, medo de que algumas coisas não deem certo.
Iruka suspirou profundamente e tomou as minhas mãos.
— Não sei o que te espera, além do que eu já lhe disse, mas eu tenho certeza que os deuses não serão ruins, não irão te abandonar.
Assenti e fui para o meu carro, retornar para o meu escritório. Fui pensando no que Iruka me dissera, em cada detalhe da sua visão nefasta, analisando as possibilidades. Kakashi me informara que os Hyuugas “andavam estranhos esses dias, meio conspiradores” desde que fora anunciado, pela Konoha’s Enterprise, uma premiação para os maiores benfeitores de Konoha durante o jantar beneficente anual bancado pelo Velho Supremo.
Muitos magnatas estarão expostos para todos da mídia, em público e em rede nacional, ao receber o prêmio ou só pelo fato de estar na festa. Me preocupa o fato de que eu fora convidado juntamente com Shisui. Nós dois somos investidores beneficentes em alguns projetos sociais, e com certeza Itachi e Naruto irão no embalo, como nossos acompanhantes.
Respirei fundo ao chegar no prédio, estacionando o carro. Os gêmeos deveriam estar planejando algo, alguma forma de me afetar, um instinto antigo de sobrevivência me dizia isso. Eu tinha que estar preparado. Aliás, não só eu estaria em perigo. Naruto estaria por estar perto de mim. Eu tenho que protegê-lo também.
Entrei no elevador e fitei meu celular. Era uma foto minha com Maiko e com Naruto. Fitei a data no mostrador. Fazia um ano que eu me envolvera com ele, no bom sentido e que passamos por todo tipo de situações. Suspirei. Foi um ótimo ano, eu vivi uma vida inteira com ele, por assim dizer, vivi de tudo, inclusive eu até me apaixonei por esse moleque. Sorri. Naruto se tornou meu completamente, uma parte especial da minha alma, uma parte brilhante, quente e alegre.
Talvez, antes de morrer, eu possa dar um pouco mais de mim a ele, fazer uma última boa ação, provocar um último momento eterno de alegria para Naruto, pois sei que a minha partida será dolorosa. Senti meu peito apertar. Disquei o número de Kakashi.
— Chame Sasori. — falei calmo ao sair do elevador, indo para a minha sala. — Diga que é uma encomenda urgente, importante e que fique pronta em dois dias. — sorri para Hinata num aceno e por um instante eu soube que sentiria falta da “minha honey”. — Sim, isso mesmo. Mande-o vir no escritório da sede ainda hoje. — entrei em minha sala. — Certo. Obrigado.
Sentei-me na minha poltrona e fitei a minha sala gigantesca, com duas, das quatro paredes brancas de quatro metros de altura, sendo estantes abarrotadas de arquivos. As outras possuíam telas digitais embutidas, que eu usava para acompanhar as filiais internacionais. O piso negro e brilhante de mármore liso e o teto da mesma cor das paredes, dando um contraste estranho na iluminação, porém muito interessante.
Em frente a minha mesa em forma de meia lua havia duas poltronas brancas grandes e uma mesa de centro, um vaso branco oval com flores azaleias amarelas e dois livros de meu uso pessoal. No canto, perto da porta, um grande sofá e uma porta lateral que levava para uma das salas de reunião que possui nesse andar. As portas duplas de ébano arrematavam o ar do ambiente, bem como toda a mobília da mesma madeira e as soleiras das portas que davam acesso a varanda do prédio.
— Tudo o que eu construí… — suspirei. — Foi bom ter trabalhado aqui por tanto tempo. — afaguei a fria madeira da minha mesa. — E pensar que eu sentirei falta dessa correria louca de trabalho diário. — Toquei o interfone. — Honey.
— Sim, Sr. Uchiha.
— Me traga um cappuccino especial. Daquele que só você sabe fazer. — sorri de lado. — Pode fazer essa gentileza para o seu velho amigo?
— Qualquer coisa para você, Sasuke, meu bom amigo.
Desliguei e afundei na cadeira durante um suspiro, fitando o calendário. A cerimônia seria em quatro dias. Se os Hyuugas iriam fazer algo contra mim, o meu instinto me dizia que seria naquele dia o grande momento de sua ação. Acabar com o imperador da Rebú durante um escândalo em rede nacional, culminando em morte. Seria perfeito.
Hinata entrou e me entregou meu cappuccino. Sorri para ela em agradecimento.
— Chame a encarnação da preguiça para mim, sim, honey?
— Claro, Sr. Uchiha.
Ela saiu rapidamente. Fiquei degustando lentamente aquela cafeína que me faria falta. É, eu vou sentir falta dessa vida, mas tudo bem, se os deuses querem que eu vá, eu vou. Não serei negligente como o meu pai. Se meu tempo aqui, nessa vida e nessa terra, está em seus dias finais, não posso fazer nada senão preparar tudo para a minha partida. Eu não direi adeus, mas preparei o caminho para que todos possam seguir em frente sem mim, principalmente Maiko e Naruto. Busquei minha agenda e fiz algumas anotações.
Eu preciso deixar alguns pontos já acertados, exigências legais necessárias para o futuro desses dois. Sorri ao fitar a foto de Maiko sobre a minha mesa. “Se eu quisesse mais um papai, queria que fosse o Tio Naruto, ele é tão legal, papai!”.
Shikamaru entrou e se assombrou com o sorriso que eu exibia. Não era assustador, era apenas sincero, tranquilo, em paz. Ele se aproximou e se sentou na poltrona em frente em mim.
— Então… — ele pigarreou. — O que quer?
— Preciso que me ajude.
— Com? — ele folgou sua gravata, preocupado com algo. Eu acabei rindo disso.
Respirei fundo. É um pedido augorento, mas é preciso. Puxei uma folha de papel e coloquei-a sobre a mesa, aproximei-me dele, cruzando minhas mãos na frente do meu corpo.
— Meu testamento provisório. — ele arregalou os olhos e quis falar. — Veja bem, provisório… Uma precaução em virtude de um pressentimento ruim.
— Certo… Devo chamar Kakashi?
— Sim. E diga a ele que quero dois documentos.
— Quais? — ele falou, buscando sua caderneta para já tomar nota.
— Além do testamento, eu quero uma guarda compartilhada.
Ele anotou e me fitou, confuso.
— Mas para ter a guarda compartilhada, você tem que…
— Eu sei e é esse o segundo documento.
Durante aquela manhã, ao lado de Kakashi e Shikamaru, eu preparei toda a documentação que eu achei necessária para garantir o futuro de Maiko e de Naruto. A tarde, Sasori apareceu e eu tratei de meus assuntos com ele, um dos artistas mais famosos e criativos de Konoha. No fim das contas, ele captou o que eu queria para o presente de um ano de namoro para Naruto. Acho que… Ele ficará feliz, apesar da minha morte.
Parece que é uma coisa: mal me recupero de um momento depressivo de dúvidas em relação a Naruto, morro por dois minutos e torno, só para descobrir que vou morrer definitivamente. Chega a ser de lascar um negócio desses.
Naruto quer conhecer meu quarto, o que tenho na minha mansão, que na verdade é da minha família. Qual o mistério desse quarto? Nenhum, é só o meu quarto, que eu o moldei ao meu estilo, nada de mais. E ele quer comemorar um ano de namoro num encontro “normal”. Bom, eu vou levá-lo para um encontro ao estilo do diabo. Por isso estou aqui, na porta da casa de Naruto, me acabando de rir enquanto fumo, por causa das lembranças que estão me ocorrendo agora.
Não vim de moto. Eu escolhi, para a noite, algo mais… Diabólico. Bati três vezes na porta de Naruto e fui me recostar no carro, cruzando as pernas e apoiando meu braço para fumar melhor, observando o povo passar e quase virar a menina do exorcista para fitar Gipsy. É o nome do meu carro, e sim, todos os meus automotivos são mulheres.
Achou ruim? Uma palavra para você: foda-se.
Fitei a entrada. Nada. Peguei uma pedrinha na rua e joguei contra a porta dele. Eu estou com preguiça demais para bater na porta dele de novo. Esperei. Naruto abriu a porta segurando sua jaqueta, fechou-a e veio até mim vestindo a peça, para então “pentear” os cabelos, sacudindo-os com força para que voltassem ao estado normal de desordem.
Ele parou diante de mim e me encarou. Seus olhos se arregalaram quando entendeu o “carro” atrás de mim, reluzindo embaixo da luz do poste. Ele trazia uma caixa pequena e retangular entre os dedos, mas quase a deixou cair.
— Você realmente se esforça para chamar atenção, não é mesmo?! — ele falou, enquanto babava, olhando para o carro.
— Naruto, Gipsy. Gipsy, Naruto. — apresentei-os. — Essa é a minha… — pensei um pouco e sorri de lado. Vou sentir falta da minha coleção de carros e motos também. — É o meu xodó de quatro rodas. A princesa dos meus olhos da alta velocidade. — admiti. — E sim, eu sou um pavão, adoro ter todo o planeta babando por mim.
Eu pisquei um olho e saí da frente, abrindo a porta do carona para Naruto entrar. Ele foi meio temeroso, meio abobalhado, admirando o interior do carro, depois eu entrei e me recostei no banco, pendendo minha cabeça para seu lado. Sorri de lado, levando minha mão até sua nuca.
— Feliz aniversário de um ano de namoro, conturbado e muito escroto, mas um ano inteiro. — sorri mais, puxando-o para um beijo demorado.
Afaguei seus cabelos macios, sentindo aquela textura que eu com certeza vou sentir falta. Seus lábios carnudos, quentes, sua boca molhada perfeita para beijar, sua língua curiosa que sempre investiga cada canto da minha boca. Sua mão veio ao meu peito, subiu devagar pelo meu pescoço até pousar em meu rosto e finalmente nós paramos, buscando ar. Arfei, sorrindo, de olhos fechados, saboreando aquele gosto divino.
— Sim, conturbado, mas eu não me arrependo de nada. — sorriu docemente. — Feliz aniversário de um ano de namoro para você também… — estendeu a mão que segurava a caixa para mim. — Espero que goste, combina mais com você do que comigo. Só… cuida bem delas. — a emoção era palpável no se tom de voz, enquanto ele encarava a caixa.
Peguei a caixa e abri. Continha um par de luvas de couro marrom, com um elástico embutido na divisão do pulso, além de algumas linhas de costura formarem desenhos no tecido. Coloquei-as, experimentando ao mover meus dedos, observando-a. Estavam um pouco desgastadas, mas pareciam bem cuidadas.
— Eram suas? — perguntei, apoiando minhas mãos no volante cor de barro e dando mais uma analisada. Ficam bem, apesar de serem um pouco apertadas. Minhas mãos são mais compridas que as de Naruto coisa de dois centímetros, mas faz toda diferença.
Ele negou com a cabeça enquanto sorria.
— Papai. — disse, depois de um suspiro. — Acho que ele gostaria de ver que estão sendo finalmente usadas, além de sentir muito orgulho ao saber que são suas agora. — Naruto me fitou intensamente, com seus olhos revoltos em sentimentos.
— Vem cá. — o puxei para um abraço, afagando suas costas. — São lindas. Obrigado. Eu gostei muito… Vou guardá-las na minha coleção pessoal. — nos soltamos, eu as retirei e as guardei na caixa, colocando-a no porta-luvas. Segurei seu queixo e dei mais um beijo em seus lábios. Droga, como é bom beijar essa boca. — Muito obrigado pelo presente.
— Tudo bem, dei com todo prazer. — sorriu com toda a sinceridade que só ele possui.
— A propósito, eu queria te lembrar que é amanhã a cerimônia de premiação que Hiruzen me convidou e disse claramente que eu te levasse. — fitei a rua. — Como você vai dormir lá em casa, não se preocupe com roupa, eu te empresto um dos meus ternos que eu nunca usei. Tranquilo para você? — encarei-o e ele assentiu.
Suspirei, sorrindo de modo sacana.
— Pronto para uma noite com o diabo? — eram sete em ponto. Hora das crianças se divertirem!
— Ansioso! — ele respondeu, empolgado.
— Comecemos com uma volta no país. — liguei o motor do carro e dirigi de “modo tranquilo” para fora de Konoha, pegando a autoestrada. — Naruto. — ele me fitou, eu estava com um braço apoiado na porta, escorando o meu rosto, e com outra mão no volante. — Você já andou a mais de 250 km por hora? — perguntei tranquilamente, observando a estrada ser engolida pelo farol do carro.
— Até Shisui descobrir que fui multado algumas vezes. — deu uma risada sapeca e esfregou a nuca, sem jeito. — Nunca cheguei a tanto, mas gosto de correr.
— Foi até quanto? — o motor estava roncando mais alto. Gipsy tinha pressa de chegar ao seu destino, de modo que ia a 140 km/h.
— 190km/h. Se eu me matasse em um acidente de carro, não quero nem saber o que Dona Kushina faria! — estremeceu.
Eu gargalhei alto, afundando devagar o pé no acelerador, passando pelas rodovias que circundavam Suna, quase saindo de seu território. Encarei Naruto, seu rosto na frente da enorme lua cheia, ainda mais lindo e suspirei. Fitei o marcador de velocidade: 180 km/h.
— Parece que estamos chegando no seu limite, little bitch. — falei, enquanto passava a marcha. Apertei um botão no painel e o teto do carro retrocedeu, fazendo Naruto abrir um enorme sorriso. — Acho que algumas multas de velocidade acima da média não vão me matar, vão? — encarei-o, fazendo uma cara falsa de preocupação.
Os sons do carro rasgavam a minha alma, quase me dando tesão sexual.
— Quem seria louco de te multar? — revirou os olhos, ainda sorrindo.
— Já levei multa na vida, sabia? — Naruto fez uma teatral cara de surpresa. — Vamos de 250? — perguntei, voltando meus olhos para a estrada. — Estamos chegando num perímetro urbano, Naruto, quer fogo no asfalto? — meu sorriso “El Diablo” começava a despontar.
Ele fez uma cara reflexiva e de repente surgiu um pequeno sorriso em seus lábios, que ia crescendo mais e mais a cada instante.
— Põe o cinto. — falei, passando a marcha novamente e indo até os 250 km. Naruto o colocou rapidamente e eu pus as duas mãos no volante. Concentrei-me na pista e então carros apareceram, poucos, mas exibindo claro perigo de colisão para nós.
Desviei de todos habilmente e quando saímos do perímetro urbano, Naruto estava com os olhos quase saltando das órbitas, um sorriso que não cabia mais na cara e as mãos abertas ao lado da cabeça, tossindo por causa dos gritos que dera quando eu ultrapassei todos os carros. Sorri de lado e acelerei mais.
Estávamos quase saindo do país, dada a velocidade que seguíamos. Fitei a hora rapidamente. Vamos chegar a tempo.
— Quer mais, little bitch? — eu perguntei, quando ele tornou a respirar direito. — Mais rápido? — tive que alterar minha voz dado o barulho do motor.
— Depois daquela tirolesa, isso parece brincadeira de criança! — ele devolveu no mesmo tom.
Arqueei uma sobrancelha. Meus olhos se “enrusbeceram”, eu vi pelo espelho retrovisor. Diminuí a velocidade ao poucos, tirei de um compartimento meu par de luvas pretas de alta aderência, vesti-as, estalei meu pescoço para os dois lados — isso tudo o carro em movimento — e uma mão no volante, outra na marcha. O carro parou, no meio do nada, no deserto entre Suna e Uzushio. Encarei Naruto, deixando a marcha em ponto morto.
— Brincadeira de criança? — eu encarei a estrada vazia, uma reta plana, linda, um sonho, com uma descida miserável de cinco quilômetros a frente.
Nada. Nem um bicho, só terra de um lado e do outro. Tão vazio, que o ronronar de Gipsy ecoava pelo mundo. Naruto estava claramente confuso.
— Você sabe a quantos metros estávamos do chão? Muitos! E tudo o que nos mantinha no ar era um cinto!
Assenti, respirei fundo, troquei habilmente as marchas, abrindo meu melhor sorriso diabólico, e em 13 segundos nós chegamos a lindos 400 km/h. Naruto agarrou-se no banco como um gato assustado, os olhos querendo sair de dentro da sua cabeça. Eu não ouvia nada, só Gipsy cantando loucamente a sinfonia da velocidade. Num golpe rápido de vista eu vi o declive. Ainda de relance, vi Naruto me encarar, e lá fomos nós a 400 km/h descer uma serra de 300 metros de altura. Eu desacelerei na reta, pois viriam as curvas sinuosas.
Gargalhei alto, notando que um certo moleque estava que nem mamulengo, sendo jogado para lá e para cá a cada curva fechada. O cheiro de borracha queimada, o odor forte das pastilhas de freios, somados ao aroma da gasolina em explosão daria náuseas em qualquer um se não estivéssemos em alta velocidade.
Um minuto depois, eu estava acelerando de novo, passando pela praia banhada pelo Pacífico, a lua do meu lado, contornando os 35 quilômetros de serra a 400km de novo. Eu uivava, gritava e assobiava de felicidade, soltando o volante de vez em quando só para erguer os braços, sentindo a dor de eles quase serem arrancados fora.
Estávamos chegando a cidade. Dei um cavalo de pau e puxei o freio de mão, o carro fez um giro de 360º e parou. O solavanco foi tão grande, que eu gargalhei sentindo a dor de ter batido a cabeça no volante. Saí do carro achando graça, quase perdendo as forças e o fôlego.
Do que eu ria? Da cara de Naruto! Ele estava quase verde, com uma mão na boca, tentando se livrar do cinto, respirando fundo e de olhos fechados. Assim que se soltou, pulou fora do carro, ignorando a porta. Eu só o ouvi gemer, vomitando.
Caí de quatro no chão, rindo ensandecidamente, batendo a mão na areia.
— Se você continuar rindo, farei questão de vomitar em você! — rosnou para mim.
Retirei meu paletó, o cachecol, joguei tudo dentro do carro e me afastei, rindo mais, batendo palmas, indo para o mar. Eu não conseguia me conter. Minha cara já estava doendo de tanto rir.
— Desculpa… — falei entre um riso ou outro. — Mas… Cara… Você tinha que ter visto a… — tornei a gargalhar. — Sua cara!!! — apoiei-me numa pedra, porque eu estava sem forças.
Eu acho que nunca, em toda a minha vida, eu ri tanto como agora. Acho que todas as risadas que eu não dei a minha vida inteira eu estou dando agora. Naruto se colocou de pé, se apoiando no carro e me fitou, estreitando o olhar.
— Babaca! — falou baixo e furiosamente, com os dentes trincados. — Você é um babaca, Sasuke!
Escorei minhas costas na pedra, recuperando meu fôlego e a postura.
— Gostou da brincadeira? — perguntei, de modo cafajeste.
— Por que você está me irritando?! — ele apertou os punhos com força. — Eu estou seriamente tentado a socar a sua cara! — chutou o chão com força e começou a se distanciar, pisando duro.
Meneei a cabeça negativamente. Deixei-o se afastar bastante, para só então vestir minhas roupas e acompanhá-lo no carro, indo tão devagar que eu parecia estar de bicicleta.
— Vai para onde? — perguntei, tentando manter Gipsy em linha reta.
— Para canto nenhum! Só estou tentando evitar um episódio parecido com o que aconteceu no Bola 7. — ele me olhou com ódio.
Acelerei um pouco, parei o carro na sua frente e fui saindo, puxando a chave comigo. Agarrei-o, colocando-o em meu colo e o sentei no capô do carro. Ele cruzou os braços e virou a cara, como a criança birrenta que é. Eu sorri, levantei um pouco sua camisa, tateei seu umbigo e comecei a cutucar na região ao redor dele. Foi imediato: Naruto me fitou no primeiro toque, pelo canto dos olhos, no segundo fez o bico que eu gosto de morder e no quarto ele tentou se defender.
— Está com raiva de mim, little bitch, está? — tentei colocar minhas mãos para dentro da sua camisa, mas ele percebera o meu intento e tentava me impedir. Eu fazia a mesma voz idiota que eu faço quando Maiko se irrita e eu faço cócegas nela para que se acalme. — O diabo foi malvado, foi? Hein, tá furioso? Esse Uchiha mal fez você ficar com raiva?
— Para, Sasuke… Não! — ele se debatia e arfava. — Não… Para com isso! — me encarando com um olhar pidão. Ele estava quase deitado no capô, tentando inutilmente me afastar com as pernas, pois eu estava entre elas.
— Ainda está com raiva de mim? — parei, mas deixei as mãos na região.
— Não! — resmungou, com um bico emburrado.
Abracei seu corpo por dentro de suas roupas, puxando-o para mim e selei seus lábios, sem me incomodar com o “sabor exótico” de rámen de porco que ele comera. Fitei-o. Vou sentir falta desses olhos.
— Festa? — perguntei, apontando com a cabeça para as luzes vindas da cidade próxima.
— Vai me arrumar uma escova de dente no caminho? — fez uma careta, colocando a língua de fora. — Tem um gosto horrível na minha boca. — choramingou.
Suspirei, soltando-o para que pudesse descer do carro, peguei no porta luvas pastilhas extra-fortes de hortelã e menta — uma Halls preta, para ser mais exato — e joguei para ele. Ergui dois dedos, indicando a quantidade e esperei ele entrar. Já no carro, fomos para o centro da cidade, e parece que Naruto sentiu-se melhor com o sabor da pastilha na boca. Fomos para uma boate em um local um pouco reservado. Tinha uma fila absurdamente gigante na porta. Eu nem conseguia ver o fim daquela coisa.
— Caramba… — falei, olhando por cima dos braços de Naruto. — Quanta gente!
— O que é isso? Todo mundo resolveu se encontrar aqui, hoje? — Naruto me encarou, espantado.
Fiz um bico inconformado e saí do carro.
— Vamos, Naruto! — falei, abrindo a porta para ele. — De que adianta ser rico, famoso, lindo, a cara da riqueza e não poder usar isso? — dei de ombros quando ele saiu.
— Parece que amanhã estaremos nos jornais de novo. — falou, enquanto entrelaçava sua mão na minha.
Dei de ombros e apertei sua mão. Os dois seguranças da porta nos encararam. Se é para foder, pois que seja do meu jeito.
— Eu sou Uchiha Sasuke, esse é o meu namorado, Uzumaki Naruto e estou pouco me lixando para o fato de vocês me quererem! — falei alto. Os homens nos deram passagem e fomos entrando, com olhares, flashes e barulho ecoando pelo mundo. — Onde é a porra do bar? — a música tocava alto e eu já percebi Naruto se mexendo ao meu lado.
Deixei-o ir dançar, enquanto eu ia buscar uma bebida. Do balcão do bar eu fiquei o assistindo se mexer ao som das batidas fortes que o DJ da noite selecionava. Eu vi em sua cara o quanto Naruto adora festas. Ele tem cara de farreiro mesmo, fazer o quê? Apoiei-me no balcão, ignorando duas mulheres ao meu lado, se insinuando para mim em seus vestidos vulgares e eu enchi a minha mente com o corpo de Naruto se movendo.
Ele olhou para mim e deu um sorriso malicioso, depois virou as costas e começou a balançar os braços sensualmente para cima, passando um por trás da cabeça, acariciando o outro, descendo-o pela nuca em direção ao peitoral, passando pela cintura e pelo bumbum, parando-o no quadril, como quando ele está desfilando.
Arqueei as sobrancelhas e fiz uma cara de admiração. Olha só, e dizem que eu sou o Incúbus. Não pude deixar de reparar que alguns seres pararam de dançar para assistir Naruto. Meneei a cabeça negativamente e me sentei na banqueta, para apreciar melhor o show particular.
Ele rebolou lentamente algumas vezes e depois desceu até o chão, para logo em seguida subir, com as costas arqueadas, empinando o bumbum. Depois que ergueu totalmente o corpo, jogando a cabeça para trás, virou para mim, mordendo o lábio e acariciou a coxa da perna esquerda, que estava levemente dobrada na frente da outra.
— Que carinha gostoso, não é? — comentou o homem ao meu lado.
“Sem querer” eu quebrei seu nariz, acertando as costas da minha mão contra sua cara.
— Disse alguma coisa? — ele saiu gemendo, tentando conter o sangue. — Não? Ok. — dei de ombros.
Naruto me fitou com a sobrancelha arqueada, negando com a cabeça. Só pisquei um olho para ele.
Sorri diabolicamente de lado enquanto limpava a minha mão com um lenço. Pendi a cabeça de lado, vendo aquela posição em que Naruto se encontrava. Hum, esse moleque está procurando muita encrenca hoje, muita mesmo. Mordi o lábio, sorrindo para ele.
Naruto continuou rebolando, passando as mãos por seu corpo, deu uma piscadela de olho para mim e me chamou com o dedo. Neguei, sem malícia alguma, sorrindo em desculpas. Eu queria muito ir, mas não sei nem o “dois-para-lá-dois-para-cá”. Pois é, sou um fiasco, desculpa, mundo, desculpa, Naruto.
Ele estreitou os olhos enquanto se aproximava, segurou meu pulso e começou a me puxar para a pista de dança. Fui pesarosamente, com uma cara risonha de homem ferrado. Só eu mesmo para rir da minha própria desgraça.
— Eu não sei dançar, Naruto! — falei um pouco alto em seu ouvido, por causa do volume elevado da música.
— E daí?! — ele revirou os olhos.
— Eu vou pisar no seu pé. — olhei-o, sorrindo. — Sério, cara, não me faz passar por isso! — nós já estávamos no meio do olho do furacão de pessoas se mexendo ao som de, eu acho, Jennifer Lopez. Não sei que música é essa, depois pergunto a Naruto.
— Cala a boca e só me deixa te conduzir.
Arfei, meneando a cabeça negativamente, e fiquei atarantado, parado no meio de todo mundo, de frente para Naruto. Ele virou de costas e me fez abraçar seu torso.
— Você só tem que rebolar. — falou no meu ouvido e depois se insinuou com os quadris e o bumbum.
Sabe quando você tem uma coisa em mão, uma pessoa te ensina o que fazer com ela, mas você continua sem saber o que fazer com a coisa? It’s me, guys! Curvei meu rosto sobre seu ombro e ri pesarosamente.
— Acha que eu sei fazer isso? — falei, ainda rindo da minha desgraça. — Sério, Naruto, eu não sei o que fazer… — ele bufou, colocou as mãos em meu bumbum e me fez “rebolar”. Foi a coisa mais tosca da face da terra que eu já fiz. Nem eu jogando boliche foi tão tosco como eu rebolando. Eu tirei suas mãos do meu traseiro e segurei-as no ar. — Desculpa, mas não vai rolar. — eu me segurava para não gargalhar da minha própria tosquisse.
— Claro que não vai rolar, você tem que se soltar! — resmungou, indignado.
— Mas o que é que eu posso fazer?! — olhei ao meu redor. — Acha que eu estou duro por que estou com vergonha? É porque eu não consigo mesmo! — gargalhei. — Eu sou a pessoa mais sem vergonha da Terra, Naruto, se eu não quero dançar, é porque não sei mesmo!
— Como assim? — me fitou por cima do ombro, com uma sobrancelha arqueada. — Lembro muito bem de você fazendo cosplay do Michael Jackson natal passado! — ele deu uma risadinha e se virou, ficando de frente para mim. Passou os braços por trás do meu pescoço e entrelaçou seus dedos nos meus cabelos. — Eu acho… — falou devagar, me fitando intensamente. — Que você só quer me assistir. — e mordeu o lábio.
— Com certeza eu prefiro te ver dançar, do que pagar o mico da minha vida, dançando. — beijei sua boca, brincando com sua língua. Os quadris de Naruto roçavam de leve nos meus, no ritmo da música, se insinuando, me provocando, todo sugestivo.
— Tudo bem, então. — disse isso e me soltou, sorrindo. — Daqui a pouco te encontro na mesa.
Respirei aliviado, livre do suposto castigo, quando uma batida tocou alto. Parei de andar assim que a ouvi e me virei lentamente para o DJ: eu não sei se dou na cara dele ou se saio correndo. A música começou a subir pelo meu corpo e quando vi Naruto rebolando perigosamente para o meu lado, aí algo em minha cabeça soltou. Eu arfei e apontei para Naruto.
Ele franziu o cenho. Fui me aproximando, caminhando, deslizando, chegando, agarrando ao som daquele assobio característico. Estremeci completamente quando Naruto tocou a minha nuca, uma corrente elétrica percorreu todo o meu corpo e foi para ele assim que aquela mesma mão escorregou pelo meu peito.
Olhei para baixo quando ele me soltou. Ficou girando no próprio eixo, rebolando freneticamente, seus olhos sempre encontrando os meus a cada giro. Estremeci de novo, fechei meus olhos e fui erguendo os braços, sacudindo meu tronco para lá e para cá, na batida da música, sentindo o corpo de Naruto roçar no meu. Apoiei minhas mãos na cabeça e abri os olhos.
— Não faz assim, Naruto… — ele desceu e subiu, devagar, inclinando o corpo para mim, levando o meu fôlego junto.
— Fazer o que? — perguntou, com uma cara inocente.
Estreitei meu olhar. Esse jogo se jogam dois. Peguei a mão de Naruto e o girei em seu eixo, fazendo-o ficar de frente para mim, pus um dedo em seu queixo, sorri de lado e fui me ajoelhando, descendo o dedo por seu corpo. Quando senti o chão em minhas pernas, mexi meus quadris para cima e para baixo, num movimento ondulatório, as mãos acima da cabeça, afagando os meus cabelos. Fui me erguendo e num giro, encarei Naruto de novo.
Ele passou as mãos pelo meu corpo, passeou-as pelo seu, me dizendo o óbvio. “Eu sou gostoso e você não pode negar”. Minhas mãos foram para a sua cintura e começamos a nos mover um respondendo as insinuações do outro, com rebolados, corpos se movendo em sincronia, como serpentes no acasalamento, até que a música acabou. Nos fitamos e eu comecei a rir, indo para o bar, puxando-o pela mão.
— Só você mesmo para me fazer passar por uma coisa dessa. — falei, pegando a minha bebida.
— Eu não sei se você percebeu, mas está todo mundo olhando para a gente. — sussurrou no meu ouvido.
Dei uma olhada em volta e encarei Naruto.
— Repita comigo. — segurei seu queixo. — E daí? — beijei-o e fui tomar um gole da bebida.
— O que eu quis dizer é que você estava só fazendo drama! Não me venha mais com essa historinha que não sabe dançar. — sorriu, de forma sapeca.
Suspirei.
— Eu estava me controlando, Naruto… — virei o resto da bebida e sacudi a minha cabeça. — Eu quero evitar situações desnecessárias, como a que aconteceu a dois segundos atrás. — pedi outro. — Uma mulher acabou de apertar a minha bunda. — falei, indiferente.
Mas também, veja a posição em que estou: o corpo escorado no balcão, um pé em cima das grades de apoio, me deixando com o traseiro arrebitado. A pessoa já nasce com a bunda desnecessariamente grande, aí fica fazendo pose. Querem o quê? Depois de passar uma música inteira me sacudindo, rebolando, correspondendo as provocações de Naruto, é claro que, no mínimo, alguém ia tentar pegar na minha bunda.
Mexi o gelo com o canudo que colocaram no copo, retirei-o e comecei a beber. Fite Naruto de lado e percebi que ele olhava em volta, em busca da dita cuja. Meneei lentamente a cabeça.
— Ei, moleque, está procurando o quê? — perguntei, cutucando sua cintura com força, para ver se ele me olhava.
— A vadia que acha que pode tocar em você! — grunhiu, com olhos ferozes.
Eu ri.
— Vire para a esquerda. — ele virou. — Baixe um pouco a cabeça — ele baixou. — Achou a vadia. — era justamente a que estava ao lado dele, num vestido brilhante prateado, os cabelos loiros colocados de lado, as pernas cruzadas de modo sugestivo e de vez em quanto ela me olhava, sorrindo de modo provocante.
Revirei meus olhos e me concentrei na bebida gelada.
— Com licença, moça! — ele cutucou o ombro dela com força. — Mas esse homem aqui... — apontou para mim e eu dei o “cumprimento de quem bebe”, ou seja, levantei o copo. — É demais até para você olhar, quiçá tocar. Eu não vou nem comentar o fato dele já ter dono! Então pode ir tirando o cavalinho da chuva e procurar alguém do seu nível, vadia!!!
— Como é? — ela se levantou, colocando as mãos na cintura, empinando o nariz. Ih, agora é briga de gente loira. Não vai prestar. — Me desculpe, colega, eu não tenho culpa se nem você dá conta do seu macho e ele fica dando bandeira! — ela cruzou os braços.
Eu me segurei para não rir.
— Querida, se informe primeiro antes de cagar pela boca! EU fui o único que conseguiu dar conta!!! — ele empinou o nariz e se inclinou para cima dela.
Endireitei a minha postura e cruzei os meus braços.
— Não parece. — ela estreitou os olhos. — Você não passa de um carinha qualquer, colega, que deu sorte, mas saiba! — estalou os dedos no ar. — Quem está na pista, dança! E outra: ele não é casado, posso ver bem! — ela apontou para o próprio dedo anelar. — Aqui é a selva, e vence o mais forte! — novamente ela estalou os dedos.
Uma pequena platéia de curiosos estava se formando, ouvindo a discussão.
— Carinha qualquer? — riu debochadamente. — Eu sou Uzumaki Naruto, filho de Uzumaki Kushina, rainha da sedução e você, quem é? Uma prostituta que tem que dar em cima do homem alheio para ver se consegue alguma migalha! — riu novamente, da mesma forma debochada.
Ela fez uma cara de indignação com a boca aberta e eu vi que a mulher estava se preparando para bater em Naruto com aquelas unhas enormes. Sacudi a cabeça de leve, agarrei Naruto, puxando-o para mim, e beijei seus lábios. Encarei-a, assim que o soltei minimamente.
— Deixa eu te mandar a real. — afaguei o peitoral dele, nossas mãos se entrelaçando. — Sim, eu tenho dono, vadia, e o nome dele é Uzumaki Naruto, filho de Uzumaki Kushina, rainha da sedução. — todo mundo suspirou de admiração, pois eu falara mais alto que a música. Todos ficaram cochichando o nome dele e o fato dele ser um modelo famoso. — Acha mesmo que eu trocaria tudo isso... — passei sugestivamente a mão pelo seu corpo. — Por uma coisa que nem você? — puxei Naruto para irmos embora. — Vai procurar um vibrador inspirado no Kid Bengala.
Devem estar se perguntando porque eu intervi. Tudo bem, talvez Naruto levasse um tapa, mas se ele desse uma tapa qualquer que fosse, a criatura se desmontava. Naruto é um homem muito forte, tem que ter muito preparo para aguentar uma surra dele. E outra, ele perder o tempo dele batendo numa criatura que nem vale a pena? Eu não podia deixar.
Fomos para fora, as pessoas ficaram lá dentro gritando, loucas, batendo palmas para Naruto, que era todo orgulho e simpatia, esbanjando sua beleza gratuitamente. Por algum milagre dos deuses, não haviam paparazzis, mas não duvido que sejamos notícia em algum blog. Chegamos ao carro, mas não entramos, pois Naruto estava inquieto, fumaçando, irritadíssimo.
Eita ferro, é hoje.
— Calma, Naruto… — falei manso, para ver se surtia algum efeito.
— Cara! Que vadia! — ele respirou fundo, colocando as mãos nos joelhos, como se estivesse cansado. Depois, aparentemente do nada, começou a rir, gargalhar, como se não houvesse amanhã. — A gente arrasou lá dentro! — levantou e me abraçou, afundando o rosto no meu pescoço, ainda rindo de leve.
Afaguei suas costas.
— Claro que sim… — beijei o alto da sua cabeça. — Somos os Senhores da Sedução, eu, o Íncubus, e você, o modelo mais quente de Konoha. — nos fitamos. — Jantar?
— Por favor. — ele respondeu, satisfeito.
Assenti e logo estávamos na estrada de novo, retornando a Konoha. Íamos rápido, mas nada absurdo demais, pois eu fiquei preocupado dele vomitar de novo. Naruto passou a viagem toda dizendo como fora ótimo dançar comigo, e que eu poderia me surpreender se me deixasse envolver, que eu sempre tinha um segredo escondido e que ele iria descobrir todos eles. Sorri de lado. Eu levei-o para a praça principal, aonde ainda havia um quiosque aberto.
Na verdade era um pequeno trailer, onde uma senhorinha preparava os lanches e servia. Ela ficava até não sei que horas da noite, vendendo comida. Parei o carro perto dela e já saltei, salivando de fome. Essa é a senhora que faz o melhor hambúrguer do universo.
— Nerumi, sua linda, eu estou morrendo de fome! — falei alto, me pendurando na janela de seu trailer. Ela riu baixo e caminhou para as chapas. — Eu quero daquele jeito!
Fitei Naruto se aproximando.
— Vai querer o quê? — apontei para o cardápio pintado na lataria do trailer. Tudo que sua mãe não gosta de ver você comendo, tudo que é um atentado terrorista ao estômago, ou seja, tudo de bom nessa vida é vendido nesse quiosque.
— Pode ser o mesmo que você, mas sem os 5 litros de pimenta. — ele sorriu de forma doce.
Eu ri.
— Nerumi. — ela me fitou. — Um especial para o astro aqui.
— Astro? — a senhora deu uma boa olhada em Naruto. — Ora, você é aquele menino! O que desfila, não é? Que jogou bebida na cara do Sasuke! — riu-se.
— Ele é um babaca! — Naruto sussurrou para ela e eu fingi que não estava nem aí. — Mas não conta a ele que eu disse isso. — piscou o olho para ela, tentando conter a risada.
Nerumi riu e preparou os lanches. Dois hambúrgueres gigantes nos foram servidos, acompanhados de copos fartos de suco. Eu quase chorei de emoção quando vi o meu. Abocanhei e revirei os olhos de prazer palativo, dei uma tapa no balcão e arfei.
— Esse é o melhor hambúrguer do Universo, Nerumi!!! Eu vou morrer indignado por não saber a receita dessa divindade aqui! — apontei para o meu lanche e Nerumi corou, rindo baixinho.
Ela fitou Naruto e sorriu.
— Sasuke é meu cliente há vinte e dois anos anos, sabia? — afagou o balcão. — Foi ele que me deu esse trailer e conseguiu o alvará para eu trabalhar. — eu sorri de lado. — É como um filho para mim.
— Ele não é tão malvado como quer que as pessoas acreditem! — Naruto sussurrou de novo, fingindo que eu não ouvia nada.
Ela só sorriu, como as senhorinhas sempre fazem.
Terminamos nossos lanches, eu ainda aguentei mais outro e então nós retornamos para o carro, de barriga cheia. Suspirei e apertei o botão, fazendo o teto do carro retornar. Subi os vidros e liguei o ar-condicionado, que na verdade tem outro nome nesse carro, só que eu não sei qual é, respirei fundo, apreciando ainda a pimenta reminiscente em minha boca e em minha garganta.
— E agora? Para onde vamos? — Naruto perguntou, ansioso.
Abri devagar os meus olhos e fitei-o. Sua cara não podia ser mais sugestiva. Olhei para frente, liguei o motor do carro e arrancamos devagar.
— Casa. — falei. Notei sua mordida no polegar, sinal que estava quase extrapolando seus níveis de ansiedade e expectativa.
A paisagem foi mudando. Não havia prédios ou casas, era apenas uma enorme floresta escurecida pela noite. Recostei-me na porta e dirigi com calma. Não havia trânsito, tampouco pessoas, só a noite, a lua e a mata, nos recepcionando em todo o seu esplendor natural.
— Sabe onde estamos? — perguntei, ligando os faróis altos para que ele pudesse enxergar melhor.
— Fora da cidade. Mas não sei exatamente onde. — olhava em volta, tentando se situar.
Penteei meus cabelos com uma das mãos.
— Isso tudo o que está vendo é meu. Isto é, da família Uchiha. E ali em cima. — apontei para luzes perdidas numa massa escura. — É a Mansão Uchiha. Meu lar dos quinze até os dias de hoje.
Começamos a subir, em curvas sutis. Naruto corou de tanta expectativa. Que é isso, homem, pensei, está quase parindo uma criança só por que vai na minha casa? Meneei a cabeça negativamente e digitei um código no meu celular, ao nos aproximarmos do pátio frontal da mansão. Pedi que Naruto me esperasse perto da fonte, enquanto eu guardava Gipsy, no estacionamento subterrâneo que eu mandara fazer.
Apareci dois minutos depois. Fitei-o. Ele parecia ter um vibrador enfiado na bunda de tão inquieto que estava, mexendo os dedos com rapidez.
— Mas que porra é que tu tem, Naruto? — perguntei, colocando-me ao seu lado.
Fomos para a porta. Digitei o código de segurança em meu celular e as portas se abriram. Com o que ele se deparou? Com o gigantesco hall de entrada do século XVII, com suas colunas, tapeçarias, escadas e toda tranqueira que mansão de família rica e milenar tem que ter.
— Parece um déjà vu. — ele comentou timidamente, mas ainda inquieto.
— Déjà vu de quê? — meneei a cabeça sem entender ainda.
— Do dia que você me tomou pela primeira vez. — estremeceu. — A sensação é parecida. Não me pergunte por que, é só um pressentimento.
Parei e me lembrei do dia em questão. Ah, ele fala do medo de não saber o que o espera. Dei de ombros e me sentei na escadaria de mármore branco, acendi um cigarro e fitei Naruto parado de frente para mim.
Abri um largo sorriso, levantei-me e comecei a subir os degraus. Naruto veio atrás. Seguimos por um corredor no mesmo estilo monocromático do meu escritório, cheio de pinturas de antigos parentes meus. Uns eu conheço, outros não. Viramos a esquerda e nos vemos caminhando por uma ponte suspensa de mármore, que passa por cima do jardim de inverno interno da casa. A lua nos iluminou. Entramos casa adentro de novo e Naruto se deparou com um único corredor com duas escadas laterais, que desciam. Só havia um par de portas de madeira de ébano.
Retirei do meu bolso minhas chaves e busquei a vermelha. Bem sugestivo, não? Enfiei na tranca e destranquei as portas. Fitei Naruto.
— Tem certeza? — perguntei, me afastando da porta.
— Tenho. — respirou fundo. — Não vou hesitar. — falou, de forma corajosa.
Eu sorri e suspirei, colocando uma mão em seu peito, em pedindo que ele seguisse. Naruto respirou fundo, fitou-me por um segundo e depois se virou para a porta. Apaguei meu cigarro na manga da minha jaqueta e joguei a ponta em meu bolso. Fitei-o, ainda sorrindo.
— Está com medo? — perguntei. A verdade? Eu quero muito mostrar isso a ele, mas não quero que ele seja motivado por seus sentimentos e pelos meus, nem que ele cometa alguma imprudência além das que já vivemos esta noite. — Seja sincero.
— Um pouco. — admitiu. — Mas acho que é mais por causa da ansiedade do que qualquer outra coisa.
Olhei-o bem nos olhos e vi verdade neles. Eu me senti intensamente satisfeito. Eu sei que pode parecer loucura, quero dizer, quantas vezes eu trouxe pessoas para cá e elas me disseram ansiosas para entrar, mas sinto que com Naruto é diferente. Sua ansiedade parte da curiosidade não pelo desejo carnal e isso é realmente satisfatório. Pousei uma mão em sua nuca e lhe beijei apaixonadamente, abraçando a sua cintura.
— Ouça, Naruto. Entenda bem o que direi. — afaguei seu rosto. — Aqui fora eu sou Uchiha Sasuke, seu namorado apaixonado e que lhe protegeria de tudo. — beijei mais. — Mas lá dentro… Eu serei plenamente, sem restrições, seu dominador e se não for devidamente meu submisso, devo insistir, para sua segurança e antes que veja qualquer coisa que exista lá dentro, que pare.
Eu temo por ele porque me conheço e sei das atrocidades que sou capaz de fazer por mero prazer. Eu não quero forçá-lo a nada, menos ainda a ter sexo comigo.
— Está tudo bem. — ele sorriu. — Eu disse que confiava em você, não? — abraçou meu pescoço e sussurrou. — Gosto de ser seu submisso, não me importo se é aqui ou lá dentro.
Sorri e beijei seu rosto, para então virar Naruto para a frente de minhas portas. Talvez eu não tenha oportunidade de dizer isso, dada as circunstâncias, então direi de uma vez. Não posso deixar passar. Abracei-o por trás e depositei leves beijos em seu pescoço.
— Só lhe direi mais uma coisa e então poderá entrar. — sussurrei, dando um beijo em sua orelha. — Uzumaki Naruto, meu namorado e meu submisso… Eu te amo. — o soltei. — Vá em frente.
Naruto deu cinco passos, trêmulo, girou as maçanetas e entrou, não no meu quarto, mas no meu mundo, do qual não haveria escapatória.
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