Corações de Ferro

2 Capítulo 2: Um achado


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O dia amanheceu da mesma forma que o anterior. O sol estava tostando os miolos antes das nove da manhã, o fluxo de alunos da Jasper High School tomou conta das ruas e se encerrou no mais tardar. Um amontoado de crianças e adolescentes que atravessavam as avenidas sem olhar para os lados, pouco preocupados com os carros e motos que passavam, acabou estranhando, mas deu de ombros, devia ser a tranquilidade da cidade que não convinha veículos demais nas ruas, provável que os acidentes eram raros.

Jasper não lhe segredou nada em relação a essas anomalias urbanas. Emy cresceu em Washington, D.C, estava acostumada com prédios e muitos apartamentos situados nas zonas barulhentas dos grandes centros, cheios de poluição e barulho de buzinas que a davam enxaquecas na maior parte do tempo. Nunca pensou em se mudar verdadeiramente, embora desejasse um ambiente de trabalho mais tranquilo e uma localização menos estressante. Porém, sua avó partiu numa tarde de segunda-feira, e por ser filha única de seus pais que se foram num acidente fatal de carro, foi lhe herdado uma fazenda pequena na pacata cidade de Jasper. Primeiro pensou em vendê-la devido a localização desagradável, mas após conseguir transferência de seu emprego presencial para o home office e o conlink de Jazz apontando para essa cidade, resolveu se mudar no mais tardar, trazendo poucas bagagens e um Autobot danificado na carroceria, que buscava o líder Optimus Prime e seu diretor médico, Ratchet, com urgência.

— Mas será que realmente estão aqui? — questionou para o nada, apoiando a bochecha na palma da mão à espera do sinal verde no semáforo para prosseguir. Algumas crianças passavam em grupos animados devido ao fim das aulas, e de repente para seu completo desgosto, um carro chamativo, ornado com adesivos de chamas amarelas parou de um lado, pelo vidro transparente conseguiu identificar um adolescente ruivo que não devia passar dos dezessete anos. De primeira pensou que fosse apenas mais um sem noção dirigindo um carro extremamente barulhento, se divertindo às custas da permissão dos pais, mas após um outro adolescente montado numa moto em detalhes azuis parar do outro lado, identificou na hora o comportamento desagradável ao seu redor. — Era só o que faltava, nessa hora da manhã, sério?

Quando o sinal se abriu, ambos os jovens dispararam numa velocidade absurda pela rua, levantando poeira e arrancando alguns assobios de outros adolescentes que jaziam no meio do caminho. Isso soava tão bobo, os jovens de Jasper estavam mais preocupados em disputas de alta velocidade invés de estarem na escola, estudando para um bom futuro? Bem, partindo do ponto de que a fiscalização da polícia não devia ser tão firme quanto em Washington, DC, essas situações se tornariam familiar diante os olhos.

Que animador.

Bom, de qualquer forma isso não ajudaria a encontrar nenhum cybertroniano, então logo esqueceu sobre o racha que aconteceu entre os dois menores de idade. Dirigindo ao redor do pequeno shopping e algumas pequenas lojas, além do hospital, estacionou por perto e saiu da caminhonete velha. O dia parecia ainda mais quente na medida que caminhava pela praça e contornava a universidade, a uniformidade da cidade não passava batido em nenhum momento que corria os olhos pelos transeuntes e carros comuns, que não chamavam atenção e nem pareciam suspeitos.

Tudo isso soou infrutífero.

Era como procurar agulhas no palheiro.

Mesmo que Jasper não fosse grande e tivesse uma população pequena, como encontraria Autobots nela? Não tinha nenhum tipo de localizador cybertroniano ou qualquer coisa parecida. Com a batalha travada entre Jazz e alguns Decepticons idiotas, o conlink acabou por ser danificado e não funcionava direito, sendo que a linha de comunicação ficava num chiado eterno, cheio de pequenos proops, a única mudança foi no ping captado que indicou a localização do líder Autobot Optimus. Porém, como encontrá-lo?

Isso nunca dará certo.

Emy deveria estar se empenhando em ajudar Jazz a consertar o conlink para tentar contato com First Aid, seja onde o Protectobot estivesse. Ele saberia ajudá-lo e traria ajuda junto.

O tempo está acabando.

Voltando para o carro e dirigindo na direção de uma lanchonete de fast food, Emy divagou sobre os acontecimentos da manhã.

Jazz estava mais frágil que um copo de vidro, e era mantido conectado por muitos tubos à máquina sintetizadora para manter-se hidratado, as cauterizações dolorosas eram feitas todos os dias, pois todos os dias as válvulas abriam e energon manchava a lona azul, tal qual feria sua pele com queimaduras de segundo grau que ardiam e doíam como o inferno. O caso era que nesta manhã em específico, Jazz parecia pior, ele não disse muitas coisas, pois quando falava escorriam linhas roxas pelos lábios e a expressão dele se comprimia para uma dolorida, ele a afastou com uma mão, enquanto mantinha os tubos seguros e Emy se desesperou numa montanha de lágrimas não derramadas, na busca de ferramentas deixadas por First Aid que poderiam ser úteis. Contudo, ela própria não era útil nesse caso.

Jazz está cada dia pior.

Parando no estacionamento vazio, Emy encarou o letreiro desbotado da lanchonete, o drive thru tinha poucos carros que logo eram despachados com lanches gordurosos, e no interior havia menos de cinco pessoas ocupando mesas, boa parte, adolescentes. Verificando sua aparência no espelho retrovisor, ajeitou os fios de cabelos atrás da orelha, antes de abaixar-se para amarrar os cadarços soltos dos tênis.

Seu almoço seria um punhado de batatas murchas e um hambúrguer duvidoso, mesmo que o estômago insistisse em repudiar qualquer coisa devido ao estresse mental que andava passando.

Com uma lufada de ar, apoiou a testa no volante a tempo de sua visão periférica captar algo. Um garoto estacionava uma motocicleta azul bem polida a alguns passos de distância, e olhando-o melhor, identificou o mesmo jovem que estava apostando racha em plena luz do dia mais cedo. Ele tirou o capacete de visor escuro, ajeitando o cabelo com um passar de mão e riu, sua face jovial esbanjava uma idade que não passava dos dezoito, ele devia estar no ensino médio ainda, talvez primeiro ou segundo ano.

— Isso foi maneiro, deveríamos fazer de novo! — disse ele, e Emy franziu o cenho. Com quem diabos esse menino estava falando? Não havia nenhum telefone em suas mãos. Ele era louco? — Tipo irado, você viu a Sierra nos olhando?

Adolescentes, sempre tão estranhos, talvez esse menino seja usuário de drogas. Que pena, tão jovem e já tão perdido.

Dando um último olhar avesso ao garoto, se inclinou outra vez para pegar a carteira no compartimento do carro, mantendo-se fora de vista sem querer, quando ouviu uma voz que fez todos os pelos da nuca arrepiarem.

— Isso não irá se repetir, Jack. — A voz feminina e um tanto estática chegou aos ouvidos como um tapa, fazendo-a congelar com a mão estendida na direção do porta luvas. O que diabos? — Usar poderes para benefício próprio é contra as regras, você sabe.

— Ah, vamos lá...!

— Não.

— Só mais uma vez. Por favor?!

— Isso é um não.

O que...? O que diabos?

De onde veio essa voz? Do garoto? Ele não estava sozinho? Oh, deve ser um celular em viva voz. Não! Essa voz não veio de nenhum celular.

A mão de Emy fechou no ar, e lentamente ergueu o braço para o espelho retrovisor e o moveu na direção do adolescente, e sem erguer-se, o viu com o capacete na mão se afastando da motocicleta azul, sem nenhum celular na mão ou qualquer outro aparelho de comunicação. O adolescente... como foi dito o nome? Oh, Jack. Jack desapareceu dentro do fast-food sem nenhum outro olhar para fora, e Emy se moveu para fitar a motocicleta.

Será possível...?

Não, não, de jeito nenhum. É imaginação! Jack estava conversando com uma amiga que chegou e partiu em um estalar de dedos, essa voz tão limpa não poderia ter vindo de uma moto, não é?

Um sorriso cego rasgou os lábios quando as sobrancelhas franziram, uma dor aguda no peito.

Motos não falam.

Motos não falam.

O espelho direito da motocicleta se moveu lentamente, mirando os lados.

Motos não falam, e motos não rotacionam espelhos sozinhos.

Uma holografia apareceu na moto, uma imagem de uma pessoa com um capacete de visor escuro, tão bem feita e firme que se assemelhava a uma pessoa de verdade.

Motos não falam, e motos não possuem sistema holográfico.

Motos não falam...

A motocicleta se moveu, recuou e deixou o estacionamento. As pupilas de Emy dilataram, acompanhando a moto azul escuro desaparecer na rua mais adiante.

Motos não falam, a menos que não sejam motos normais.

— Meu Deus...

Ela havia encontrado um deles.