Corações de Ferro

3 Capítulo 3: Uma nova esperança


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A caminhonete vermelho tijolo estacionou num rompante em frente a uma rústica casa, e Emy Louise desceu num bater de porta que estremeceria Jazz caso a visse. A porta do celeiro recebeu igual tratamento energético, e felizmente, nenhuma luz cegante ou qualquer outra artimanha tramada pelo Autobot a atingiu quando invadiu o espaço mal cheiroso que o amigo se encontrava.

O fedor de energon e ozônio estava mais forte, as manchas na lona se intensificaram num espaço de poucas horas, apesar de Jazz estar na mesma posição que o deixou, com os tubos firmemente conectados ao peito danificado e o sintetizador ligado.

— Jazz! — gritou, o Autobot moveu a cabeça em sua direção, nenhum pouco surpreso ou amedrontado. — Jazz!

— Sim, sim, estou ouvindo, meus sensores de áudio ainda estão funcionando perfeitamente. — Apesar do tom irônico, sorriu.

— Eu a-acho... eu acho que encontrei um deles — gaguejou, gesticulando com ferocidade. — Não sei quem, não sei o nome, mas era uma moto... azul e... e... eu ouvi uma voz e era uma voz feminina e... e... — Jazz inclinou a cabeça, tentando assimilar o que cuspia sem nem sequer uma pausa. — Eu não sei se existem Autobots femininos, mas deve ser, não deve? Tipo... tipo... é um cybertroniano, quer dizer uma... e...

— Uau! Você deveria se acalmar um pouco, desse jeito vai ter um infarto antes de terminar de falar. Por que não se senta e conta isso em detalhes? — Jazz frisou o tambor por perto e Emy se forçou a respirar fundo para assimilar em seu próprio cérebro os acontecimentos que fervilhavam, sem atropelar as palavras como uma demente.

Céus... depois de tanto tempo de procura, quase duas semanas, finalmente uma pista valiosa surgiu, e não conseguia acreditar. Sorte? Coincidência? Não fazia diferença.

— Você achou um Autobot, então?

— Bem... eu não sei se era um Autobot. — Com um pulo, sentou-se no tambor, digerindo a pergunta do amigo. Pelo que ele e First Aid contaram, Cybertron se dividiu em duas facções que viviam em guerra pela tomada de controle, os Decepticons e os Autobots. Dificilmente encontrava-se um cybertroniano neutro em termos de guerra, dito isso, ou se apoiava um lado que visava a liberdade sem regimes de castas ou um lado que pretendia manter as castas e a subjugação das raças. Emy definia um lado como bom e outro como mau, os mocinhos e os vilões. — Tipo, eu ouvi o Jack conversando, Jack era o adolescente que veio montado na moto falante, eu pensei que ele estava ao telefone ou que tinha alguma amiga por perto, mas quando vi melhor... não havia ninguém e nenhum telefone, só ele e a moto.

— Você tem certeza disso?

— Sim, a menos que a pessoa que conversava com ele tivesse poderes de teletransporte para sumir num piscar de olhos — ironizou, e o nariz de Jazz franziu. — É uma cybertroniana, não pode ser outra coisa, uma moto que fala? Não existe tecnologia nesse mundo o suficiente para produzir isso ainda, nem os japoneses estão tão perto.

Emy viu a linha da boca de Jazz se comprimir numa expressão que indicava que ele estava pensando. Raramente via os olhos azuis desconcertantes dele, então o pouco que podia deduzir do amigo se limitava aos movimentos de seus membros faciais não ocultos.

— E tem a possibilidade de existir uma cybertroniana mulher? Quer dizer... fêmea ou...? — Realmente não sabia como classificá-los, apesar de muitas semelhanças, as formas como funcionam as bolhas de gênero e relacionamentos interpessoais dos cybertronianos lhe fugia do pensamento.

— Sim, poucas, mas não extintas. Os Autobots se espalharam pela galáxia, então perder contato era o casual a acontecer. — Um pequeno silêncio se estendeu entre ambos, no qual absorvia em goles sôfregos o cheiro pungente de energon que vazava do amigo. — Embora eu saiba de algumas... pode ser a Arcee, como também Elita-One ou Chromia.

— Perfeito. — Emy se levantou num pulo, as energias recarregadas nas veias. — Eu irei atrás dessa cybertroniana, ela deve saber do paradeiro de Ratchet ou Optimus Prime. — Com uma nova dose de confiança, começava a ver uma luz no fim do túnel, uma ajuda que salvaria a vida de seu amigo. — Jazz... tudo dará certo, você vai ver.

No entanto, Jazz não parecia compartilhar muito de seu entusiasmo, os lábios se franziram outra vez, porém de preocupação.

— Você deve tomar cuidado, Emy, não se revele e nem nos revele tão de cara.

— Eu sei, não precisa dizer, vou tomar as minhas precauções antes de fazer quaisquer movimentos.

O visor dele se moveu em sua direção, mas antes que pudesse dizer algo, uma tosse avassaladora o acometeu, inclinando-o para frente e estourando algumas válvulas cauterizadas, cujo escorreu energon puro, pingando na lona e em suas roupas, atingindo tanto a pele dos braços descobertos, quanto o rosto.

— JAZZ! — gritou, começando a sentir a ardência devido ao contato direto com o energon.

O ataque de Jazz gelou a espinha, e na mesma hora saiu em busca do cauterizador que First Aid deixou, mal colocando as luvas de segurança antes de correr para subir na pequena escada ao lado do Autobot sangrento.

— Escória. — Jazz lutou para conter-se, segurando os tubos que regavam suas veias com gasolina sintetizada e mantinham seu "sangue" circulando, o calor do cauterizador o atingiu ao tempo que tomava consciência da humana mergulhando mãos nuas em suas válvulas soltas no buraco pouco abaixo da região em que nos humanos se localizavam as costelas, feito por um disparo potente de um Decepticon filhote de Unicron. — Afaste-se, Emy, você vai se ferir ainda mais. — Ele não era o mais conhecedor da anatomia humana, nem sabia como se comportava direito os órgãos de seres tão molengas quanto os orgânicos do planeta Terra, mas do tempo passado junto a Emy e de todas as observações feitas por First Aid, aprendeu que humanos e energon não deveriam em nenhuma hipótese entrar em contato, era mais que claro ao ver as cicatrizes velhas e novas de queimadura que revestiam os braços da garota.

Energon fresco banhou as mãos e os braços de Emy, o rosto dela aos poucos acumulava gotas de suor na medida que aumentava o cauterizador e fechava as aberturas das fissuras nas válvulas, enfiando os dedos sem medir as consequências nos revestimentos danificados e trazendo-os para frente.

— Cale a sua boca e fique parado.

Por enquanto, na falta de First Aid e do tal Ratchet, Emy ocupava o lugar com os poucos conhecimentos que detinha, mesmo que tivesse que usar todas as forças possíveis para não gritar de dor ao entrar em contato com as substâncias tóxicas vazando do corpo de Jazz.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.