Corações Rendidos
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Eric ouviu a campainha tocar. Se ergueu da cama, ficando sentado. Não aguardava ninguém. Quem seria? Tirou o cigarro da boca e segurou-o entre os dedos, soltando a fumaça em seguida. Olhou para a janela. Estava com tanta preguiça de ir atender a porta... Ao ouvir novamente, se levantou, praguejando. Calçou as botas e nem ao menos ligou para a garrafa de whisky que jazia na cama praticamente cheia. Não conseguira tomar mais que um copo e meio do liquido amarelado e não conseguira cheirar nada. Tudo em seu interior parecia estar estragado, pois não conseguia comer, nem ao menos beber, nem nada. Só conseguia fumar e demasiadamente.
Foi lentamente atender a porta. Quem estivesse lá fora que esperasse. Não estava com pressa nenhuma. Abriu a porta e se deparou com dois homens desconhecidos. Ambos usavam roupas brancas e o olhavam com raiva. Quem eram aqueles dois loucos?
— O que vocês querem? Não chamei nenhum médico, pelo que eu sei. – Disse, encarando-os.
Outro cara mais baixo surgiu, no meio daqueles dois que eram do tamanho de Eric e encarou-o. Eric não estava entendo mais nada. O que Fred fazia ali em sua porta com aqueles dois? Se fosse para levá-lo a um sanatório ou hospital, daria uma boa lição naquele baterista imbecil.
— Eric, eles só querem falar com você. – Fred disse.
— Sobre? — Eric encostou-se à porta, cruzou os braços e passou a encará-los.
Prestou atenção na fisionomia de ambos, enquanto ninguém lhe respondia. Um deles, o moreno o lembrava muito Beth. Era muito parecido com ela... Praguejou em pensamento. Agora tudo o faria lembrar-se daquela mulher? Até um cara maluco que aparecera em sua porta? Mas a semelhança era muita, ainda mais o tom da cor dos olhos. Parou de encarar o moreno. Não queria se lembrar de Elisabeth. Tinha que esquecê-la de uma vez por todas. E o faria.
— Sobre a minha irmã! – Ryan se adiantou, tentando controlar o tom de voz.
— Ah amigo, eu não tenho culpa nenhuma! Nem conheço tua irmã! – Eric tratou logo de se defender. Mal chegara à cidade! Nem tivera tempo de pegar alguma garota...
Ryan se adiantou um passo, mas foi impedido por Mike. O filho da mãe tinha coragem de dizer que não conhecia Beth?
— Conhece sim! – Mike disse. – E conhece muito bem. Elisabeth Mountbatten.
Eric se desencostou da porta e desfez a cara de tranqüilidade no exato momento em que ouviu aquele nome. Então aqueles dois eram irmãos dela? Ah, só podia ser. Ninguém iria parecer tanto com Beth e não ter nenhum tipo de parentesco com sua garota. Espera, sua garota? Não, corrigiu-se em pensamento. Beth não foi, não era e nunca iria ser sua garota. Odiava aquela mulher, odiava mais que tudo no mundo.
— Essa mulher... – Estalou a língua, começando a ficar incomodado com as imagens que vinham à sua mente. Ela e o cara. – Conheço. Mas o que eu tenho a ver com ela?
Dessa vez, Mike não conseguira impedir Ryan. O loiro bateu no braço do irmão que o impedia de se aproximar de Eric, fazendo-o tirar de sua frente e empurrou Brittingham para dentro, fazendo-o quase cair. Aquele infeliz ainda tinha coragem de fazer aquela pergunta? Tinha atormentado sua irmã por quase um ano! Mesmo não estando presente na vida dela. Mas tinha feito e isso bastava para Ryan.
— O que você tem a ver, seu filho da mãe?! Você apenas tá acabando com a vida da Beth! – Ryan quase berrou, olhando fixamente para Eric.
Brittingham tentou manter-se calmo, mas não conseguiu. Como assim estava acabando com a vida dela? Pelo que vira, ela estava muito feliz com um idiota.
— Eu não estou acabando com nada! Tá maluco, cara? Não tenho nada a ver com Elisabeth!
— Ah não? Tem certeza que não? Eu discordo. – Mike se juntou à Ryan.
Fred entrou também, mas não fechou a porta. Se Ryan ou Mike resolvesse partir para uma briga, não salvaria a pele de Eric. Por mais que se sentisse inclinado a fazê-lo pelo bem da banda.
— Eu só transei com ela! Fim! Não teve mais nada! – Eric enfrentou os dois a sua frente. Estava em desvantagem caso acontecesse uma briga ali, mas que se danasse. – Como eu poderia estar acabando com a vida dela? Ela brincou comigo. E quer saber do mais? Não sinto nada pela sua irmã! Nem nunca senti. Ela não significa nada pra mim. Quero mais é que ela se ferre. E se vocês estão aqui para falar sobre o que aconteceu naquele maldito lugar, eu nem sei o motivo de eu ter feito aquilo. Mas não disse nenhuma mentira. Sua irmã é uma vagabunda, ordinária! Deu pra mim e foi embora quando eu tava dormindo. Isso é pior que puta. – Falou bem alto.
Eric nem terminou de falar, o loiro avançou, dando-lhe um soco no rosto e outros mais sem parar. Mike continuou parado. Não tinha o que fazer quando Ryan entrava numa briga. Ele não deixava espaço algum para os outros. Seu irmão era muito calmo, quase não entrava em brigas, mas quando entrava, iria até o final. Até acabar com o adversário ou deixá-lo perto de morrer.
Brittingham não conseguia revidar os socos que recebia do filho da mãe, só o que conseguia fazer era segurá-lo pelo pescoço com as forças que ainda tinha. Fora pego de surpresa. Já tinha noção que suas palavras acabariam naquilo, mas não se preparou. Quase gritou ao receber mais um soco no rosto. Deixou escapar um gemido de dor. Sua raiva estava começando a aumentar. Não falara nenhuma mentira. Sua boca já estava enchendo-se de sangue. Quando ia dar uma joelhada em Ryan, ouviu um grito.
— PÁRA!
Beth puxou Ryan pela camisa e empurrou-o para o outro lado, fazendo-o bater de encontro à parede. Mike tentou puxá-la, mas empurro-o também. Seu coração estava despedaçado, estraçalhado pelas palavras de Eric. Chegou à tempo de ouvir tudo o que ele dissera e tudo aquilo a fizera se sentir um lixo humano. Ela o amava tanto... Reprimiu as lágrimas. Prometeu a si mesma que nunca mais choraria por aquele infeliz, quando estava no carro seguindo Mike. Olhava para ele, que ainda estava no chão. O rosto ensangüentado e os olhos cheios de raiva. Ele se levantou, encarando-a.
— Beth! Você é louca? Ryan estava dando uma lição nesse cara! – Mike gritou com ela.
— Eu disse que não precisava. – Ela falou, ainda encarando Brittingham. – Vamos embora. Por favor.
— Não precisava? Beth pelo amor de Deus! Eu vou terminar o que eu comecei! – Ryan avançou em Eric de novo.
Beth ficou entre os dois. As duas mãos espalmadas no peito largo de Ryan, impedindo-o de se aproximar de Eric. Não sabia o motivo, mas não queria que seu irmão encostasse mais um dedo no loiro.
— CHEGA RYAN! CHEGA! ELE NÃO MERECE ISSO! – Berrou para que o irmão ouvisse bem. Empurrou-o novamente para longe de Eric.
Ryan ficou perplexo com as palavras de Beth. Eric não merecia uma surra por tê-la destratado com palavras e a feito sofrer durante aquele tempo? Já não entendia mais aquela história. Tinha certeza que Beth contara apenas o que precisavam saber e não tudo o que acontecera entre ela e Eric.
— Beth...
— Não, acabou. Vocês vão sair daqui e esquecer essa história. – Determinou, encarando ambos os irmãos. – Por favor.
Mike e Ryan assentiram olhando fixamente para o loiro cheio de sangue, que devolvia o olhar na mesma intensidade. Com a mesma raiva. Se ela não queria que batessem no infeliz, não o fariam.
— Se é isso que você quer tudo bem. – Ryan falou, bufando e procurando um pouco de calma.
— É, é isso que eu quero. Agora vão embora.
Ambos saíram da casa de Eric, que se manteve calado durante todo o tempo. Não sabia o que dizer. Ela teria ouvido o que dissera? Não. Se ela tivesse escutado, não o teria salvado daquele filho da puta do tal Ryan.
Fred acompanhou os dois, sem pronunciar uma palavra. Em segundos, dentro da cara só estava Eric e Beth. Ninguém mais. E os dois próximos um do outro.
Elisabeth ficou parada por alguns segundos, observando seus irmãos desaparecem. As palavras de Eric rondavam sua mente e reprimia um choro sofrido com dificuldade. Esteve certa todo o tempo. Ela nunca fora mais nada além de outra garota na cama dele. Eric nunca sentira nada por ela em momento algum. Só o que podia fazer no momento, era encará-lo com frieza.
Se virou, olhando-o. Ele também a encarava. Observou o rosto dele, cheio de sangue. O lábio inferior estava começando a inchar no canto esquerdo, pois havia um corte grande no local que vertia sangue. O mesmo acontecia na sobrancelha esquerda e o lado direito do rosto dele estava vermelho e também começava a inchar. Beth se culpou. Nunca deveria ter contado o que realmente acontecera à nenhum de seus irmãos. Ver Eric daquele jeito, machucado por sua culpa só a deixava pior. Suspirou e desviou o olhar do rosto dele.
— Bom, peço desculpas pelos meus irmãos. – Falou baixo.
— Não são suas desculpas que vão amenizar minha raiva e vão melhorar o meu rosto. – Disparou contra ela. As palavras saiam amargas de sua boca.
Beth engoliu forçadamente, não autorizando novamente uma avalanche de lágrimas. Ele era frio, mas estava certo.
— Sim, eu sei. Eu... Já volto.
Beth se distanciou dele e correu para fora. O que ela fora fazer? Por que não havia ido embora e dissera que já voltava? Eric indagava-se. Continuou no mesmo lugar. Agora que a raiva estava indo embora, começava a sentir a dor dos socos que recebera.
Observou-a entrar, com uma pequena mala branca nas mãos e trancar a porta. Que merda ela tinha naquela mala? Indagou-se.
— Sente-se no sofá. – Ela pediu, sem olhar para ele.
Eric obedeceu. Não estava entendendo nada, mas fez o que ela pediu.
Beth colocou a mala na mesa de centro da sala, abriu-a e retirou algumas coisas de dentro dela. Sem dar uma única palavra para o dono da casa, foi até a cozinha e trouxe água num recipiente que encontrara no armário. Eric apenas a observava. Se posicionou em frente à ele e levantou o rosto do loiro pelo queixo, com a ponta dos dedos. Por que fazia aquilo? Perguntava à si mesma. Já tinha a resposta na ponta da língua. Porque o amava. Por que se sentia horrível por saber que seu irmão fizera aquilo. Molhou a pequena toalha que trazia em sua mala de primeiros-socorros e começou a limpar o rosto de Eric, com cuidado, com carinho, tristeza e raiva ao mesmo tempo. Raiva de si mesma, por ser tão idiota. Retirou todo o sangue que estava no rosto do rapaz e reparava em cada traço do rosto dele, tudo tão perfeito para ela... Tudo o que nunca seria dela. Aquele homem não nutria qualquer tipo de sentimento por ela a não ser o tesão. Talvez nem isso nutrisse mais. Suspirou. Seus olhos se encheram de lágrimas novamente, mas não deixou que elas escapassem. Passou a concentrar-se nos ferimentos dele e nos curativos.
Eric não conseguia compreender o por que ela fazia aquilo. Por quê ela cuidava de seus machucados depois de tudo o que havia dito sobre ela? Só podia ser porque ela não havia escutado nada do que falara. No momento, se arrependia de cada palavra, cada virgula que falara sobre ela. Sentia-se mal. Não conseguia desgrudar seus olhos dela e por duas vezes pensou que os vira encher-se de lágrimas. Mas não, se ela não ouvira nada, não tinha motivos para chorar. Beth não tinha motivos nenhum para chorar ou para cuidar dele. Ela não o amava, nem sequer ao menos gostava dele. Tinha que aceitar isso e continuar com a sua idéia de nunca mais procurá-la e de odiá-la. Só que naquele momento, seu coração estava entregue à ela de novo. Estava sem palavras, estava arrependido de ter pronunciado tudo aquilo. Beth estava cuidando dele, como se fosse uma esposa cuidando do marido que por má sorte do destino se envolvera numa briga. E no fundo sabia que desejava isso. Porém, não. Ela era de outro. Manteria seus sentimentos por aquela garota trancados em seu coração e destruiria a chave. Esqueceria ela fácil.
— Ai! – Exclamou quando ela passou um algodão molhado com alguma coisa em sua sobrancelha. – Caramba! Isso dói! Ai! – Exclamou de novo ao sentir a ardência na boca, onde agora ela passava outro algodão.
— Seja homem, isso nem dói. – Foi a única coisa que limitou-se a dizer.
— Claro que dói. – Fez uma careta. – Então aqueles dois eram seus irmãos mesmo? – Indagou.
— Sim.
— Por que estavam vestidos de branco? São médicos? – Indagou, curioso.
— Sim, são médicos.
Beth passou uma pomada em cada ferimento e fez um curativo na sobrancelha cortada de Eric. A visão dos lábios dele a faziam lembrar-se deles em sua pele, em sua boca... Balançou a cabeça afastando os pensamentos e as imagens. O que tinha que fazer, já tinha acabado. Era a ultima vez que falava com ele. Definitivamente. Sem dizer nada, guardou tudo em sua mala, jogara os algodões e gazes sujos fora, fazendo o mesmo com a água sangrenta do recipiente, lavando-o depois. Tudo sem dizer um “A” para o loiro que a acompanhava com os olhos.
Assim que foi para a porta e a abriu, sentiu uma mão em seu braço impedindo-a de dar o próximo passo. O que ele queria? Virou o rosto e olhou-o nos olhos.
— Obrigado. – Foi a única palavra que saiu da boca dele.
— De nada. – Soltou seu braço da mão dele e foi embora, sem olhar para trás.
Entrou no carro e ficou longos segundos com a cabeça encostada no volante. Ali, permitira que seu rosto fosse tomado pelas lágrimas sofridas.
Eric apenas fechou a porta e voltou para seu quarto, pensativo. A todo custo, tentaria esquecer aquela garota. E conseguiria.
***
— Anne, preciso falar com você. – Tom falou ao chegar na cozinha.
Anne preparava algo para ambos comerem sorridente, mas ao ouvir tais palavras de Tom ficou preocupada. O que ele precisava falar com ela? Não havia acontecido nada de errado até onde percebera. Enxugou as mãos num pano e se dirigiu para a sala com ele.
— O que foi?- Indagou, preocupada.
Tom sentou-se com ela no sofá e colocou seu caderno de musicas na mesa de centro. Estava nervoso, não conseguia se concentrar em nada, muito menos em suas músicas.
— Anne, da segunda vez que transamos... Essa manhã eu...
— Você?... – Instigou-o à continuar. Será que ele não tinha gostado da forma que acordara ele?
— Eu me esqueci da camisinha. Me diz que você toma pílula, por favor... – Passou a mão no rosto, as mãos trêmulas. Não iria ser nada bom receber uma resposta negativa no momento. Teria um infarto.
Tom recebeu uma sonora gargalhada como resposta. Olhou para Anne que parecia se divertir muito com a situação, incrédulo. Como ela poderia rir com um assunto desses? Um filho não era o que Tom precisava e desejava no momento.
— Isso não tem graça nenhuma, Anne Danielle DeVeaux! Por favor, me responde!
A francesa aos poucos foi parando de rir. Tom falara tão engraçado que ela não conseguira reprimir o riso.
— Claro que tomo pílula, Tom. Fica calmo, aqui está tudo certo. Também não desejo filhos. – Ela falou, sorrindo.
Tom suspirou aliviado e sorriu também. Deu um beijo em Anne, que voltou rapidamente para a cozinha e pegou novamente seu caderno onde escrevia as letras. Tinha acordado com uma bela inspiração para compor. Quando voltasse para os EUA, pretendia ter quase todas as letras do próximo álbum escritas.
— My gypsy road, can’t take me home... I drive all night… Just to see… To see the light. – Murmurava enquanto escrevia. – Isso.
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