Notas iniciais
Olá! Eu tinha meio que desistido dessa fic, mas resolvi dar mais uma chance. Espero que gostem, boa leitura.

Naquela manhã em particular, tudo parecia diferente para Maria Júlia de alguma forma. Era como se estivesse vendo tudo através de um filtro diferente ou como se estivesse vendo as coisas sem a película escura que as cobria até então. Seus sentidos pareciam mais aguçados, a luz daquele dia parecia mais intensa e agradável do que nos outros dias, o cheiro do café fresco era sem igual naquele dia e o gosto era o melhor que já havia sentido, tudo aquilo combinava perfeitamente com a leveza que pairava no ar. Era um mundo novo que só ela parecia perceber e se sentia bem com isso. Ela havia conseguido se desligar de tudo que não trouxesse para ela um pouco de paz, mas infelizmente, esse instante de paz durou apenas até descer do carro e de longe notar que Marcos a esperava no mesmo lugar de sempre. Ele estava cabisbaixo e parecia triste, o que a fez sentir de imediato um nó no estomago que veio acompanhado de um grande sentimento de culpa, pois ela sabia que ele estava daquela forma pelo o ocorrido na noite anterior.

– Oi. – ela disse receosa ao se aproximar, mas ele mal olhou para a cara dela – Marcos...

– Porra Majú! – ele a interrompeu de forma meio bruta e até grosseira, o que a assustou um pouco – Você me apronta uma daquelas ontem e vem agindo como se estivesse tudo bem?

–Desculpe...eu só quero conversar com você... não quero brigar.- ela disse calma e docemente, depois ficou em silêncio por alguns instantes, enquanto o garoto ainda olhava para o outro lado.

Ela se sentia péssima com a situação e tentou tocar o braço de Marcos que o puxou com rispidez, o que a fez se sentir pior.

–Vou para a minha sala, depois a gente se fala. – Marcou falou e saiu sem ao menos olhar para trás, o que deixou Maria Júlia muito mal.

– Nossa! Que climão é esse? – Cecilia perguntou se aproximando da amiga enquanto a cumprimentava com um beijo no rosto como de costume.

– Nada não, rolou um estres ontem a noite e... tá tudo um pouco estranho...

– Estranho como? – Cecilia perguntou franzindo a testa.

Maria Júlia ficou em silêncio por alguns instantes, pois ela não sabia como responder, não sabia e não entendia o que estava acontecendo, mas ela sabia que algo não estava certo. Parecia que algo faltava entre eles e além disso, o mais importante era que sentia falta de algo nela. Após um tempo perguntou: — Ceci, você se lembra como eu era antes de namorar o Marcos?

Cecilia ficou pensativa por um tempo, respirou profundamente e sorrindo disse:

– Lembro sim, você não tinha peitos.

As duas riram. Cecilia havia percebido o clima tenso em que a amiga se encontrava e quis descontrair.

– Besta!

– To falando sério, não tinha mesmo! Era tipo, picada de mosquito..., mas por que essa pergunta agora?!

– Não sei... eu só estou tentando me lembrar e não consigo! É quase como se hoje eu não fosse mais um individuo, porque ele está em praticamente todas as minhas lembranças.

– Majú, vocês tinham 12 anos, em quatro anos muitas coisas muda!

– Sim, mas como eu seria se eu não estivesse com ele. O que teria mudado em mim?

– Tanto faz, você mudaria de qualquer forma, estando com ele ou não. Mas de onde saiu isso?! Porque esses são pensamentos um pouco pesados para as sete da manhã, você não acha?

– Não sei de onde saiu, mas tô pensando nisso, desde ontem à noite. – Maria Júlia sorriu ao se lembrar da tarde que havia passado com Rafaela – Nisso e em outras coisas.

– Que outras coisas?! – de repente Cecilia arregalou os olhos – É outro menino? É por isso que está assim pensativa, tá afim de outro cara? E agora Majú?

– E agora o que? Você enlouqueceu? – Maria Júlia falou franzindo a testa e estreitando os olhos.

– O que eu disse tem fundamento, seria um bom motivo para essa analise toda do relacionamento de vocês. Quem é? Me conta!

– Não tem outro menino coisa nenhuma! Pode ficar tranquila. – instintivamente Maria Júlia, começou a procurar Rafaela com os olhos.

– E você vai me deixar assim no vacou, sem saber o que tá acontecendo?

– Não é nada demais... são só coisas passando pela minha cabeça. – Maria Júlia fingiu dar pouca importância.

– Não vai me contar mesmo? Vou ter que implorar, é isso?

– Não tenho o que contar.

– Tudo bem, vou fingir que acredito em você, mas não vai ao menos me dizer o que ou quem você está procurando, já que está falando comigo sem olhar para a minha cara? – Cecilia era uma pessoa muito astuta pegou no ar que algo estava realmente acontecendo.

– Não é nada não. – Maria Júlia falou balançando de leve a cabeça como se estivesse saindo de um transe.

– Se é o Marcos ele já foi pra sala dele.

– É... era ele mesmo. – Maria Júlia disse tentando justificar.

– Olha, vou te dizer duas coisas: Um, não pense que vai se livrar fácil assim de me contar tudo, porque você vai contar, nem que seja sob tortura; Dois, aconteça o que acontecer entre você e o Marcos, eu estou do seu lado, porque apesar dele ser meu primo, eu te amo mais!

– Awnnn! Eu também te amo! – As duas se abraçaram e saíram de braços dados para a aula.

– Vaca! – Cecilia falou em um tom de voz suave.

– Cretina! – Maria Júlia falou no mesmo tom.

Enquanto caminhava Maria Júlia, passou a procurar por Rafaela outra vez. Ela estava meio eufórica e sentia como se um animal vivo estivesse se movimentando dentro da sua barriga, além do seu coração estar acelerado. Não via a hora de ver a menina.

Já dentro da sala, sentou-se e começou a tirar as coisas da mochila sem deixar de olhar para a porta esperando que a qualquer momento a morena entrasse.

A professora de química entrou e já ia fechando a porta atrás de si, quando Rafaela ofegante a impediu de fechar a porta.

Ao ver a garota, uma sensação nova tomou conta de Maria Júlia, foi como se uma onda a tivesse invadido e tivesse levado todas as outras sensações embora, levado inclusive o animal que insistia em se contorcer freneticamente, deixando-a mais leve.

Rafaela entrou e olhou rapidamente para Maria Júlia enquanto cainhava até sua carteira, (o que fez Maria Júlia se sentir um pouco triste por não ter seu olhar correspondido como ela esperava) sentou-se na cadeira e soltou corpo respirando profundamente, enquanto se abanava com as próprias mão. Nesse momento, uma garota se sentava ao seu lado começo a abana-la com uma apostila. O gesto da colega a fez sorrir.

– Obrigada!

– Achei que você precisava de uma ajudinha. – a menina sorriu de volta – Melhorou?

– Quase... tô morta! – Rafaela jogou a cabeça para trás demonstrando sinal de cansaço enquanto a garota sorrindo continuava a abanar.

O ciúme atingiu Maria Júlia com força, aliás, com mais força do que ela jamais imaginou sentir. Seu rosto fervia enquanto ela se perguntava o que estava acontecendo entre as duas. Tentou parar de olhar, mas por mais que tentasse desviar o olhar, não conseguia por muito tempo. Assistir aquela cena era algo bem próximo ao masoquismo, mesmo assim ela não conseguia deixar de olhar.

Assistir aquela cena, automaticamente produzia um filme que se passava apenas na cabeça de Maria Júlia, onde o único enredo era o fim trágico da menina que entre risos, conversava com Rafaela. Entre outras coisas, imaginou a garota explodindo em milhões de pedacinhos e em seguida imaginou a garota sendo atingida por um trem. Seu semblante mudou drasticamente enquanto imaginava formas de pulverizar a pobre garota que estava apenas sendo gentil com Rafaela.

– Agora estou bem. Qual seu nome? – Rafaela perguntou.

– Aline.

– Obrigada pela a ajuda Aline.

– Sem problemas.

Enquanto Rafaela explicava para Aline que estava daquele jeito, porque tinha dormido no ônibus e perdido o ponto outra vez, Maria Júlia observava e tinha certeza que Rafaela estava jogando charme para a menina e ao mesmo tempo que dizia para si que aquilo não era da conta dela, achava um absurdo sem tamanho.

Após o fim de sua pequena conversa com Aline, Rafaela olhava para as próprias mãos em cima da carteira enquanto pensava na tarde anterior com Maria Júlia. Sem perceber um lindo sorriso foi gradualmente se formando em seu rosto. Olhou para Maria Júlia e deu de cara com a garota de cara amarrada.

“Oi” Rafaela falou ainda sorrindo, mas apenas movendo os lábios sem emitir som. Maria Júlia apena bufou e virou-se para frente balançando a cabeça em um sinal negativo enquanto sacudia as pernas. Rafaela estranho a atitude e continuou a olhar para garota enquanto seu sorriso se desfazia da mesma forma que havia se formado. Maria Júlia olhou outra vez para Rafaela que perguntou “O que foi? ” e como resposta apenas estreitou mais os olhos e virou para a frente deixando o corpo deslizar afundando-se um pouco mais na cadeira.

Foi inevitável para Rafaela se sentir rejeitada, durante todo o tempo ela revia mentalmente o dia anterior à procura de algo errado que tivesse feito para que fosse tratada daquele jeito.

Para Rafaela, as aulas naquele momento, estavam em último plano e ela praticamente não deixou de olhar para Maria Júlia, mas para sua tristeza seus olhares não se cruzaram nem uma vez. Com o passar do tempo, a mistura de sono, curiosidade e insegurança, foram o suficiente para que Rafaela se sentisse irritada com tudo aquilo. De um momento para outro, Maria Júlia passou a ser apenas mais uma riquinha babaca e fútil que tratava as pessoas como bem entendia. Decidiu que não ia mais perder tempo e nem paciência com aquilo, ia tentar mais uma vez se concentrar na aula. Tentou, mas não conseguiu, pois estava muito ocupada xingando Maria Júlia mentalmente para se concentrar em outra coisa.

Maria Júlia, lutava bravamente contra sua vontade de olhar para trás, mas se manteve firme em sua decisão. Mesmo que isso lhe fizesse mal.

Assim que tocou o sinal, Maria Júlia observou Rafaela levantar-se e sair da sala sem olhar para os lados com cara de poucos amigos. Maria Júlia sentia-se devastada com aquilo, doía pensar que teria que juntar Rafaela a Marcos na lista de que não gostava dela no momento. Abraçou Cecilia e suspirou profundamente antes de sair da sala

– Você não quer... – Cecília nem terminou a frase pois foi interrompida por Maria Júlia.

– Não!

Ela mal conseguiu dar dois passos para fora da sala e deu de cara com Marcos sorrindo com um pé de alface nas mãos.

– Me desculpe por ter sido um grande babaca, eu sinto muito mesmo! – o garoto disse antes de envolver Maria Júlia com um dos braços e puxa-la para um beijo.

A atitude dele pegou a garota de surpresa, jamais passou pela cabeça dela que ele teria um gesto daquele em frente à escola toda. Os colegas e amigos do casal assobiavam, gritavam e batiam palmas em um enorme alvoroço.

– Isso é para você- ele disse entregando o pé de alface que tinha na outra mão.

– Alface?! – ela –perguntou surpresa.

– Não tinha flores por aqui, foi o que deu pra arrumar.

Maria Júlia sorriu e o beijou novamente, quando deixou seus lábios e o abraçou, pode ver por cima do ombro do garoto Rafaela (que até então os observava) entrar na enfermaria.

Por alguns instantes eles se mantiveram assim abraçados, a maioria dos alunos se dispersaram e tudo parecia bem, até que o rapaz que trabalhava na cantina da escola disse para o inspetor de alunos apontado para Marcos.

– Foi aquele garoto ali! Ele entrou na minha cozinha, pegou a alface e saiu correndo.

No momento que o rapaz apareceu acusando Marcos de roubo, a escola toda voltou-se para ele outra vez.

– Você roubou isso para me dar? – Maria Júlia perguntou espantada.

– Desculpa, eu pago, não queria roubar, foi no desespero...

– Se você tivesse pedido, eu teria dado! Não se entra nos lugares, pega as coisas dos outros e sai correndo.

– Desculpa... – Marcos não passava muita credibilidade, pois estava rindo da situação.

– Bom, seu Marcos, vamos conversar lá diretoria. – falou o inspetor de alunos.

O garoto deu um selinho em Maria Júlia, depois baixou a cabeça seguindo com o a inspetora de alunos e com o rapaz da cantina para a diretoria.

– Delinquente! Cadeia nele! – Cecilia berrou em meio aos risos, o que fez com que os risos aumentassem de volume.

– Para! – Maria Júlia falou achando graça.

Nesse momento, o rapaz da cantina voltou e estendeu a mão para Maria Júlia que lhe devolvesse o pé de alface, o que ela fez sob risos dos colegas.

Maria Júlia se sentia um pouco mais leve, pois já era meio caminho andado com Marcos, mas sabia que teriam muito o que conversar ainda, pois, alguns pontos do namoro deles tinham que ser discutidos. Enquanto ria e comentava com alguns amigos sobre o acontecido, ela não podia deixar de pensar em Rafaela, e o fato da garota ter entrado na enfermaria, fez com que ela se preocupasse. Não se conteve e foi até lá ver o que acontecia. Abriu a porta de vagar e logo viu Rafaela aparente mente dormindo em uma maca. Ficou ainda mais preocupada, achou que algo grave poderia estar acontecendo.

– Rafa? – Chamou baixinho enquanto caminhava sem fazer barulho, chamou outra vez e nada, Rafaela parecia dormir.

Ao se aproximar, Maria Júlia pode observar tranquilamente toda a beleza da menina que dormia. Reparou cada pequeno detalhe daquele rosto; a pequena cicatriz no queixo, o formato perfeito do nariz, a pele que parecia aveludada, os lábios carnudos que pareciam quentes. Em um impulso, tocou os cabelos soltos que emolduravam aquele rosto que ela considerava perfeito.Com movimentos delicados, pode sentir toda a maciez dos fios e pensou que poderia fazer aquilo por horas. Naquele momento, um leque de novas sensações se abriu diante dela, eram coisas que ela não conseguia classificar, mas estava muito, muito longe de ser algo ruim. E apesar do coração acelerado se sentia estranhamente calma.

Não foi capaz de se conter e em instantes seus dedos passaram a fazer contato com a pele do rosto da garota revelando ter exatamente a textura que ela imaginava. Enquanto fazia os desenhos dos contornos do rosto de Rafaela, seu corpo começou a reagir ao contato. Sem se dar conta, sua respiração tornou-se mais profunda, sentiu sua pele arrepiar e sentiu partes do seu corpo latejar. Maria Júlia sabia o que era aquilo, sabia que estava excitada, mas nunca tinha acontecido daquele jeito com um toque tão pequeno e inocente. Enquanto seus dedos passeavam delicadamente pela testa de Rafaela, a garota abriu os olhos por alguns instantes, depois de forma serena fechou novamente.

– O que você está fazendo? — Rafaela perguntou com os olhos fechados.

– Vi você entrar aqui e fiquei preocupada. Resolvi vir ver se está tudo bem. – Maria Júlia estava muito terna e doce. Em momento algum deixou de acariciar Rafaela.

– É só um pouco de dor de cabeça. Acho que é por que eu estou com muito sono. A enfermeira me deu um comprimido e disse para eu descansar um pouco.

– Melhorou?

Rafaela fez movimentos preguiçosos com a cabeça dizendo que sim, logo depois abriu os olhos lentamente e passou a encarar Maria Júlia.

– Fico mais tranquila que esteja melhor.

– Logo passa, daqui a pouco estou melhor... você já pode voltar para o seu namorado e para as declarações publicas de amor dele. — Maria Júlia gelou nesse momento, não sabia o que dizer e tudo o que pode fazer foi desviar o olhar.

– Você viu? — Maria Júlia perguntou timidamente.

– E teve alguém que não viu?

– Ele queria se desculpar... a gente discutiu ontem... foi besteira, quer dizer...sei lá.

– Foi por isso que você me tratou estranho hoje?

– Não! Eu não te tratei estranho, te tratei normal! – Maria Júlia negou com todas as forças, mas o que queria mesmo dizer era “Olha, eu te tratei daquele jeito, porque você acha que pode ficar dando bola para qualquer piranha que se aproxima de você, mas você não pode! ”. Mas se ela dissesse isso, não teria como explicar por que Rafaela não poderia flertar com quem bem entendesse. Para ela isso não tinha explicação, Rafaela só não podia e ponto.

Foi notória a mudança na voz de Rafaela quando ela disse um pouco triste:

– Tá bom... deve ser impressão minha. Agora preciso descansar. – ela desviou o olhar que até então se mantinha fixo em Maria Júlia. Logo depois, virou a cabeça para o lado em um sinal claro de que aquela conversa acabava ali.

Maria Júlia sentiu-se vazia naquele momento e em um gesto sutil e instintivo, segurou delicadamente o rosto de Rafaela pelo queixo, virando gentilmente para si o rosto da garota que não ofereceu nenhuma resistência.

As duas passaram a se encarar em silêncio, enquanto as mais variadas reações químicas aconteciam em seus corpos sem que se dessem conta, a única coisa que as duas tinham consciência naquele momento, era uma da outra.

Maria Júlia passou a acariciar novamente o rosto de Rafaela que em um gesto automático, colocou a mão sobre aquela que a acariciava. Entre bocas secas e respirações quase ofegantes, os dedos de suas mãos se entrelaçaram como se existissem apenas para aquilo.

Sem perceber, elas haviam se fechado em uma bolha onde apenas as duas existiam, onde sentiam que se completavam profundamente de forma emocional e física. Dentro dessa atmosfera que as envolvia, estavam descobrindo juntas naquele momento o que era desejar alguém por completo.

Seus olhares se perdiam hora dentro dos olhos, hora nos lábios da outra a sua frente. Parecia inevitável que seus lábios se juntariam em uma declaração clara do que sentiam. Mas aquele ambiente, aquele estado de entrega em que se encontravam se desfez ao escutarem alguém mexendo na fechadura da sala de enfermaria.

Em um pulo Maria Júlia se afastou virando-se para a parede do fundo da sala e tentando normalizar os batimentos cardíacos e a respiração levou as mãos a cintura. Rafaela por sua vez, mesmo deitada deu um pulo, achou que estivesse caindo da maca. Ela cobriu os olhos com as mãos em uma tentativa se normalizar como Maria Júlia.

– Oi?! — falou a enfermeira um pouco surpresa ao entrar.

– Oi... eu só queria ver como ela estava. – Maria Júlia respondeu meio sem jeito.

– Muita gentileza da sua parte, mas o intervalo já acabou. Você deveria estar na sua sala de aula. – a enfermeira falou seriamente.

– Já? Eu nem ouvi o sinal. Tenho que correr. – Maria Júlia falou e surpresa. Tudo o que ela mais precisava naquele momento, uma bela desculpa para sair de lá. E foi o que ela fez, mas não sem antes olhar mais uma vez para Rafaela que a encarava.

Ao fechar a porta atrás de si, viu Marcos do outro lado do pátio caminhando da diretoria para a sala dele. Quando a viu, ele abriu o maior sorriso que seu rosto poderia comportar. Foi nesse momento que Maria Júlia se sentiu perdida, seu coração pareceu ser esmagado dentro do próprio peito, pois ela parecia começar a entender o que sentia por Rafaela, porém, com isso ela passou a entender o que não sentia por Marcos. Nesse exato momento ela só tinha um desejo, desaparecer.

– Melhorou? – Perguntou a enfermeira ao se aproximar de Rafaela.

– O quê? – Rafaela respondeu após ficar encarando a mulher por alguns segundos.

– Está se sentindo melhor?

Rafaela continuou a encara a mulher com cara de quem não entendia o que ela estava falando, até que perguntou:

– Posso ficar aqui?

– Se você já está melhor, tem que voltar para a sala. Não pode usar a enfermaria para fugir das aulas.

– Eu nunca tive problemas com as aulas, é só... eu realmente não estou bem.

A enfermeira viu que eram sinceras as palavras de Rafaela, além disso, a garota ainda não lhe parecia bem. Então, permitiu que ela ficasse por ali mais algum tempo.

Rafaela agradeceu e virou-se de lado encolhendo as pernas e fechando os olhos. Em um looping que parecia eterno, ela revia mentalmente tudo o que havia se passado entre ela e Maria Júlia, também passou a mesma cena com os mais variados desfechos, inclusive com a concretização de um beijo entre elas.

Ela tinha medo de admitir o que estava sentindo e ficava tentando se justificar para ela mesma de todas as maneiras. Tentava a todo custo não pensar mais nisso, mas era impossível pensar em outra coisa, pois logo seus pensamentos eram redirecionados para Maria Júlia. Era como se a garota fosse uma nevoa que encobria os seus pensamentos. Após um bom tempo nessa batalha mental, foi vencida pelo sono e dormiu até que a enfermeira a acordasse, pois, as aulas acabaram e já era hora de ir para casa.

Esperou um pouco mais para buscar suas coisas na sala de aulas, queria ter certeza que não haveria mais ninguém lá. Ao entra na sala, Rafaela deu de cara com Maria Júlia fazendo a gentileza de guardar suas coisas dentro da mochila para ela. Quando terminou, fechou a mochila e caminhou até Rafaela que que estava imóvel em frente a lousa apenas observando a garota.

Frente a frente, poucos centímetros as separavam quando Maria Júlia estendeu a mochila para que Rafaela pegasse. Muitas coisas se passavam tanto na cabeça de uma como de outra, as duas estava nervosa e não sabiam direito como agir ou o que falar.

Rafaela pegou a mochila das mãos de Maria Júlia e encheu os pulmões de ar, quando abriu a boca para dizer algo, foi interrompida por Marcos que entrou abruptamente na sala dizendo:

– Vamos Majú, tá todo mundo te esperando. A Ceci e eu também vamos pra sua casa.

– Vamos. – ela disse sem jeito enquanto ele a abraçava. Se existisse um momento perfeito para ela desaparecer, aquele era o momento.

– Tá afim de ir também, Rafa? – Ele perguntou sorrindo.

– Fica pra a próxima, mas obrigada. – Rafaela disse sem jeito enquanto sacudia a cabeça em um sinal negativo.

Maria Júlia se sentiu aliviada quando Rafaela recusou o convite. Não por que não quisesse a companhia da garota, ela queria a companhia da garota e mais ninguém, mas ela não sabia como se comportaria com todos por perto.

Marcos despediu-se de Rafaela que apenas acenou para ele, Maria Júlia bem que tentou dizer algo, mas só conseguiu acenar, recebendo outro aceno e um olhar decepcionado de Rafaela de volta. Abraçado a Maria Julia, Marcos a conduziu em silêncio para fora da sala. Ela olhou por cima dos ombros e viu Rafaela que com os olhos, a acompanhava partir.

Rafaela esperou mais um pouco antes de ir embora, queria ter certeza que eles já teriam ido quando ela saísse. Como todos os dias foi embora sem companhia, mas dessa vez era diferente, pois aquela era a primeira vez que ela se sentia realmente só.

Notas finais
Particularmente, eu gostei de como ficou esse capítulo depois que o reescrevi, mas ainda não está como eu queria. Espero que tenham gostado. Deixem reviews pessoal, porque estou com a impressão de que a estória não está agradando, assim como não estava agradando a mim. Beijo!