Notas iniciais
Olá!!! Espero que não tenha ficado muito confuso, procurei escrever de forma que não ficasse muito repetitivo e enjoativo de ler. Boa Leitura!!

Sob a desculpa de estar com dor de cabeça, Maria Júlia, ficou pouco tempo com Cecilia, Marcos e João Pedro antes de subir para o seu quarto. Marcos ficou chateado com isso, pois achou que seria tratado de outra forma depois da demonstração pública de amor. Ele entendia que ela não estava se sentindo bem, mesmo assim se sentiu desvalorizado.

Maria Júlia trocou de roupas, fechou as janelas, deitou-se no escuro e começou a chorar. Era um misto de emoções que ela não conseguia entender. Ao mesmo tempo que se sentia bem por pensar em Rafaela, se sentia horrível por sentir-se bem.

Pensar em Marcos também a deixava muito mal, pois era como se estivesse traindo o garoto, e isso nunca havia acontecido. Achava que ela e Marcos estariam juntos por toda sua vida e descobrir sentimentos mais intensos por outra pessoa, fazia com que ela se achasse a pessoa mais abominável do planeta. O fato dessa pessoa ser uma menina, pesava muito na sua confusão, porque ela nunca olhou para nenhuma outra garota com outros olhos. Pensava que cada um era livre para ficar com quem quisesse, mas no fundo achava um pouquinho nojento e estranho duas pessoas do mesmo sexo juntas. Dizia que jamais beijaria uma garota, e se sentiu perdida quando percebeu que a única coisa que queria na vida, era estar com uma garota, mais do que isso, ela queria ser amada por uma garota. Isso a levou a pensar na sua sexualidade e quando começou a pensar nisso, achou que iria enlouquecer.

Cecilia e Marcos subiram alternadamente para ver como Majú estava, mas para evitar qualquer tipo de conversa ela fingiu dormir, pois, não conseguiria fingir interesse em qualquer conversa que surgisse. Ela só queria falar com Rafaela e se arrependeu amargamente por não ter trocado número de telefone com a menina.

A tarde passou, Marcos e Cecilia foram em bora, os pais de Maria Júlia chegaram e queriam leva-la ao médico, mas ela se recusou, pois não existia remédio no mundo que pudesse curar o que ela sentia, nada poderia amenizar sua situação. O que a deixava melhor, era saber que faltava menos de doze horas para ver Rafaela outra vez.

Para Rafaela, as coisas não estavam melhores. Pensar em Maria Júlia, trazia o quente e o frio para dentro dela ao mesmo tempo, era angustiante sentir aquilo. Ela já havia beijado algumas meninas, não muitas, duas ou três. Geralmente estava bêbada em alguma festa e não fez por sentir algo por uma delas, apesar de naquele momento ter se sentido atraída de alguma forma. Foi simplesmente por farra, apenas um momento, algo no qual ela não pensava, porque simplesmente não importava e não fazia diferença alguma em sua vida.

Ela saia com meninos quando achava alguém legal e tivesse os mesmos interesses que ela, apesar de achar os meninos um pouco bobos, muito mais do que as meninas. Ela nunca teve uma paixonite, era como se ficasse com os meninos porque era o que esperavam dela. Rafaela se sentia estranha por isso, pois vivia cercada de pessoas que se apaixonavam o tempo todo e esse tipo de coisa nunca acontecia com ela. Se achava diferente por isso, e não queria ser assim. Não queria ser igual a todo mundo, mas também não queria ser diferente. E pensar em Maria Júlia da forma que estava pensando, a fazia sentir-se diferente de várias formas, o que para ela era horrível.

Já em casa, tentou se distrair de toda forma possível, e não havia nada que pudesse faze-la deixar de pensar em Maria Júlia, principalmente pensar sobre o que Maria Júlia sentia em relação a ela. Achou que iria surtar. Nunca tinha sido tão intenso seus sentimentos por alguém. Seu desespero era tanto que estava pensando seriamente em desistir da bolsa de estudos e voltar para a antiga escola. Assim, não passaria pela tortura diária de ver Maria Júlia com Marcos.

No dia seguinte já na sala, Maria Júlia mal podia esperar para ver Rafaela entrando ofegante pela porta como acontecia todos os dias. Lembrando-se do que tinha acontecido no dia anterior, lançou um olhar mortal em direção a Aline, mas logo em seguida voltou-se para a porta a espera de Rafaela.

As aulas começaram e terminaram, uma atrás da outra, o intervalo começou e chegou ao fim. As aulas recomeçaram novamente e Rafaela não apareceu. Decepcionada, Maria Júlia tentava de todas as formas conseguir o número do celular de Rafaela e nada. Tentou até na secretaria da escola e obviamente não teve sucesso. Seu desespero aumentava a cada minuto, pois era sexta feira e ela sabia que passaria por toda aquela angustia durante mais alguns dias, principalmente por que na segunda-feira seria feriado na cidade.

Rafaela tinha um trato com a mãe, quando ela não quisesse ir à escola não iria. A condição era que não poderia faltar em dia de prova ou de algo que valesse nota. Rafaela gostava de estudar (e sua mãe sabia disso), tinha uma curiosidade natural sobre as coisas, adorava saber como tudo funcionava, gostava de se sentir desafiada e por isso eram raros os dias que se valia do trato entre elas.

Na sexta-feira, ela já estava pronta para a escola quando desistiu de ir, pois não sabia o que aconteceria. Gelava só de pensar em ver Maria Júlia. Nesse dia, ela não se sentia muito normal, porque além dos pensamentos e sentimentos que ela tentava esquecer, não queria ficar sozinha, e geralmente ela adorava ficar sozinha. Então não levou o irmão para a escolinha na esperança de sentir melhor com alguma companhia, mas não adiantou. Resolveu ligar para os amigos Borboleta e Marvel, que em questão de minutos estavam em sua casa, jogando videogame e comendo tudo o que viam pela frente. Achou que com mais gente por perto, não se sentiria tão sozinha, mas estava completamente enganada, pois a única pessoa que ela realmente poderia preencher o vazio que sentia, não estava lá.

Os amigos de Rafaela, estranharam a garota que estava mais calada do que o normal. A conheciam bem o suficiente para saber que havia algo de errado e sabiam melhor ainda que tentar arrancar algo dela que ela não quisesse contar, era como tentar tirar leite de pedra. Não aconteceria de forma alguma.

Borboleta se aproximou e perguntou:

– O que você tem?

Rafaela encarou aquele rosto amigo, depois baixou os olhos.

– Medo. – foi tudo o que ela conseguiu dizer antes de começar a chorar.

Borboleta a abraçou, e sabia que a coisa era séria, caso contrário ela jamais choraria na frente de alguém. Marvel os viu abraçados e largou o controle do videogame para se unir a eles. Em seguida, Leonardo que disputava a partida com Marvel e não sabia o que estava acontecendo, mas achou legal os três abraçados ali, então largou seu controle e se uniu a eles tentando abraçar os três.

A atitude do garotinho fez com que todos sorrissem. Naquele momento Rafaela se sentiu muito amada, mas infelizmente ainda se sentia só.

Conforme os dias se passavam, Maria Julia parecia se enterrar em uma tristeza sem fim, o que preocupou a todos. Fazia dias que ela não se sentava ao piano e isso jamais havia acontecido, pois não existia nada no mundo que a fizesse deixar de tocar.Com toda a dificuldade do mundo, após muita conversa, Marcos a convenceu a ir em uma festa de uns caras que ele conhecia, pois achou que isso a animaria. Mas o que ela queria era apenas ficar em casa monitorando as redes sociais das quais Rafaela fazia parte. Apesar da garota não ser muito ativa no mundo virtual, ela queria estar lá caso algo mudasse.

Rafaela costumava trabalhar como monitora em um buffet infantil geralmente aos finais de semana para ter seu próprio dinheiro. Naquele fim de semana, disse que não poderia ir. Queria apenas ficar em casa e pensar na vida. Ela teve a mesma ideia que Majú e passou a procurar a menina pelas redes sociais. Se sentiu em cacos quando viu Maria Júlia marcada em uma foto recente da festa onde estavam. Marcos lhe beijava o rosto, com a legenda “Amor eterno”. Mesmo que Rafaela não tivesse percebido, apesar do sorriso, Maria Júlia não parecia feliz naquela foto, além disso, tinha os olhos fixos em outro lugar. Ela olhava para a porta na esperança angustiante que alguém mais pudesse chegar e entrar por ela. Infelizmente, esse alguém nunca chegou.

Apesar de um final de semana de cabeças cheias, desculpas pouco elaboradas e tristezas aparentes, as duas sobreviveram até o próximo dia de aula. A questão agora tanto para uma quanto para outra era: Como agir diante da pessoa que representava tudo o que você não queria sentir?

Naquele dia, quando Maria Júlia chegou, milagrosamente Rafaela já estava na escola. As duas se observaram de longe e durante aquela troca de olhares, foi como se um acordo silencioso tivesse sido selado. A partir daquele instante passaram a se evitar como inimigas mortais. Foi mais fácil assim, porque dessa forma não teriam que deixar a covardia de lado e enfrentar o problema confrontando o que sentiam.

Essa distância deixou sequelas visíveis, principalmente em Maria Júlia que parecia ter perdido o brilho natural. Por mais que ela tentasse, não conseguia agir normalmente. Preferia se isolar o que não era nada normal da parte dela. Para quem não conhecia Rafaela direito, ela continuava igual, mas bastava ter um pouco mais de proximidade para notar que ela estava mais calada do que o normal. Parecia que ela simplesmente não estava.

Os dias foram se passando e elas continuavam a se evitar a todo custo. Rafaela desistiu de mudar de escola. Na verdade, ela resolveu deixar isso como um plano B, caso as coisas entre elas ficassem realmente tensas. Por afinidade, ela acabou se aproximando um pouco mais de Aline, o que deixou Maria Júlia ainda pior. Ela ficava doente quando via as duas juntas, mas era muito discreta. Só se permitia olhar quando tinha certeza que não seria percebida por ninguém. Estava se esforçando muito para ser legal com Marcos e trata-lo bem, pois ele sabia que algo não estava bem e tentava ser gentil e carinhoso com ela, o que a deixava muito irritada, porque sentia que ele a sufocava e queria um pouco mais de espaço. O fato de se irritar com o garoto, fazia com que ela se sentisse um lixo, pois ele só era legal com ela e no fundo ela sabia disso.

Após algum tempo, Maria Júlia observou curiosa a aproximação entre João Pedro e Rafaela que pareciam bem à vontade um com o outro. No início, eram apenas algumas palavras, mas com o tempo, João Pedro deixou de ficar com eles no intervalo para ficar com Rafaela e Aline que sempre estava por perto. Olhando para aquela situação, ela simplesmente não sabia como agir, e se sentia traída, tanto pelo irmão quanto por Rafaela, o que era loucura, já que ela não tinha nada com Rafaela e João Pedro não sabia o que se passava. Aquilo passou a martelar na cabeça dela constantemente, era torturante pensar no que poderia estar acontecendo entre eles. O pior é que não podia conversar sobre isso com ninguém, pois o que sentia por Rafaela, era o segredo mais bem guardado do mundo.

– João, você é amigo da Rafaela? – ela perguntou como se fosse algo corriqueiro

– É bem legal trocar ideia com ela. – ele respondeu sem tirar os olhos da tv.

– Hum. – foi tudo que ela conseguiu dizer. Na verdade, ela não queria se aprofundar mais na conversa, sabia que ia acabar se decepcionando. Então imaginou que não fosse nada demais e que eles eram apenas amigos, assim conseguiria lidar melhor com situação.

Mas depois de alguns dias, Maria Júlia teve que encarar o que de fato acontecia quando João Pedro, se aproximou deles no intervalo e perguntou:

– O que vocês vão fazer hoje?

– Não sei, por quê? – Marcos respondeu.

– Eu e a Rafa vamos no cinema, vocês estão a fim de ir com a gente?

Maria Júlia, sentiu o corpo gelar e imediatamente começou a suar frio.

– Eu tô. — Marcos respondeu, enquanto Maria Júlia continuava calada e pálida.

– E não tem nem um menino delicinha pra ir comigo? – Cecilia perguntou arrancando risos.

– Eu até conheço uns caras... – João Pedro foi interrompido por Cecilia.

– Não estou falando daqueles seus amigos com cara de sujo, veja bem, eu disse meninos delicinha, lindos e cheirosos.

– Não sei como é isso não. – João Pedro disse franzindo a testa.

– Nem eu! — Marcos reforçou — Mas vai sozinha, acho que vai ser legal.

– De vela? Tá loco? Sem chance!

Enquanto a conversa acontecia, Maria Júlia se mantinha calada, apenas desejando que não fosse verdade e que seu irmão e Rafaela fossem apenas amigos. Imaginava uma forma de sair daquela situação, pois não podia ficar tão próxima de Rafaela, principalmente se ela estivesse com outra pessoa.

– Acho que não é encontro de casais, é rolê de amigos... acho. – Marcos falou dando um fio de esperança a Maria Júlia.

– Não caio nessa, vai como amigo e começa a se pegar, depois eu fico com cara de tacho. – Cecilia falou cruzando os braços. – Prefiro não ir, já me conformei que vou morrer encalhada feito baleia na areia da praia... sozinha... – e começou o drama de Cecilia que dramatizava tudo como ninguém, geralmente, Maria Júlia se divertia vendo os absurdos que a amiga dizia, mas dessa vez estava focada em outra coisa.

– Ela não falou nada da gente ir também? – Majú perguntou apreensiva.

– Nem falei com ela, mas não tem problema. – João Pedro respondeu prestando atenção em Cecilia que ainda não tinha parado de falar.

– Mas vocês vão sair só como amigos mesmo? Achei que tivessem ficando. – Maria Júlia tinha muito medo da resposta do irmão.

– Por enquanto é só como amigo mesmo, mas... pode ser que mude. A gente tem se encontrado bastante na pista de skate.

– Rá! Não falei?! – Cecilia disse triunfante.

– Não rolou nada entre vocês? – Maria Júlia estava um pouco mais aliviada.

– Quase. Ontem eu achei que a gente fosse se beijar, mas o irmão dela caiu e a gente teve que socorrer.

Maria Júlia começou a se irritar por saber que eles andavam se encontrando.

– Mais nada? – Marcos perguntou.

– Nada. – João Pedro ergueu os ombros.

– Como você é mole! – Cecilia comentou

– Não estou com pressa! – João Pedro falou muito seguro.

Cada frase daquela conversa parecia uma facada em Maria Júlia, ela estava péssima e começava a entrar em desespero.

– Para mim não dá, eu tenho piano hoje. – Ela disse a primeira coisa que veio a sua cabeça.

– Achei que tivesse desistido! –Marcos falou estranhando.

– Não desisti, só dei um tempo, agora vou voltar.

– Para de graça Majú, — João Pedro falou — a gente pega a sessão das sete ou das oito, você não vai perder o piano.

– Por que você está insistindo? Vai sozinho com ela. – Mara Júlia parecia irritada.

– Poxa Majú, você me conhece. – João Pedro falou chateado. Todos sabiam que ele era muito tímido. — Me ajuda nessa!

–Mas o mais difícil você já fez, já chamou ela pra sair. – Maria Júlia sentiu-se mal pelo irmão.

– Bom... na verdade, a gente estava falando de um filme e eu disse que eu ia com uns amigos assistir e perguntei se ela queria ir também, ela topou. Não posso chegar agora e dizer que todo mundo desistiu de ir e que só vamos nós dois.

– Tudo bem, eu vou. – Maria Julia aceitou relutante, pois preferia morrer a ter que ver seu irmão com Rafaela.

Quando João Pedro contou a Rafaela que só iam os quatro ela ficou sem reação, queria dizer que não ia mais, mas achou chato desistir, afinal, João Pedro era muito legal e ela adorava o sorriso dele, porque era muito parecido com o sorriso de Maria Júlia, não tão bonito quanto, mas parecido.

Combinaram de se encontrarem no shopping e só para variar um pouco Rafaela estava atrasada. Os meninos conversavam normalmente, mas Maria Júlia estava desesperada, não via a hora que Rafaela chegasse, ela levou quase duas horas para se arrumar e mesmo assim achou que tinha escolhido a roupa errada. Levou muito tempo para se arrumar parecendo que não estava arrumada, pois queria estar perfeita, mas não queria que parecesse que ela se dedicou a isso. Estava olhando se a maquiagem estava em ordem quando viu pelo espelho Rafaela caminhando em direção a eles.

Elas nunca tinham se visto sem o agasalho marrom e a camisa branca do uniforme escolar. Não foi nada decepcionante quando se encontraram. A roupa de Maria Júlia, parecia a roupa de algumas celebridades quando vestem algo mais comum e confortável, e mesmo assim parecem mais bem vestidos do que você jamais esteve a sua vida toda. Rafaela, como era de se esperar tinha um estilo mais rocker de se vestir. Mas dessa vez ela tinha novidades, ela tinha alargado as orelhas. Maria Júlia não conseguia tirar os olhos de Rafaela, achava que ela estava ainda mais linda de alargador.

Rafaela cumprimentou a todos de longe com um oi geral, mas João Pedro lhe beijou o rosto, então ela se sentiu na obrigação de beijar a todos inclusive Maria Júlia.

Foi como se essa separação nos últimos tempos não tivesse valido de nada, pois aquele único toque entre elas, pareceu revitalizar o que sentiam uma pela outra.

– Você colocou mesmo? – João Pedro falou.

– É, foi por isso que eu demorei. – Rafaela falou sorrindo.

– Devia ter me falado, eu ia com você.

– Para você segurar minha mão enquanto eu chorava?

– Você chorou?

Rafaela estreitou os olhos e fez sinal negativo com a cabeça.

Enquanto a conversa dos dois continuava, Maria Júlia ficou triste por perceber que quem estava participando da vida de Rafaela era o irmão e não ela.

Depois de uma certa discussão, mais por parte de Rafaela, ficou decidido que os meninos comprariam os ingressos e as meninas as pipocas. Enquanto eles foram para bilheteria do cinema, deixaram as duas sozinhas.

O ar parecia denso ali, era quase como se não pudessem respirar. Não sabiam como se comportar sozinhas no mesmo ambiente. Era algo incomodo, mas ao mesmo tempo era bom, porque era a primeira vez em muito tempo que ficavam sozinhas em um mesmo ambiente e isso era como se um dos seus desejos mais profundos se realizasse.

– Não sabia que você estava se encontrando com meu irmão. – Não era bem o que Maria Júlia pretendia dizer, pelo menos, não assim de cara.

– E não estou. – elas ainda não se olhavam.

– Ele disse que vocês se encontram na pista de skate.- Era evidente o ciúme na voz de Maria Júlia.

– A pista é em frente à minha casa, eu vou lá e encontro com ele, não vou lá para me encontrar com ele. Percebe a diferença?! Mas nem sei por que estou te dizendo isso! Você tem que cuidar da vida do seu namorado, não do seu irmão. – Rafaela foi bastante enfática na palavra namorado.

– Não estou cuidando da vida dele, só estou curiosa. É normal! – após um momento de silêncio, Maria Júlia perguntou tornando o tom de voz sutil — Você anda de skate?

– Agora bem menos, mas meu irmão adora, então estou lá sempre..., mas é mais por causa dele.

– Leonardo né? – Maria Júlia falou encarando Rafaela.

– É. – Rafaela olhou para Maria Júlia sorrindo o que a fez sorrir também.

Apesar de tentar, Rafaela não conseguiu esconder que estava feliz por Maria Júlia ter se lembrar de algo que ela disse apenas uma vez e há algum tempo atrás. Isso serviu para que a conversa entre elas começasse a fluir melhor, mas não como era antes.

Os meninos se juntaram a elas e faltava um bom tempo para começar o filme que iam assistir. Decidiram comer, e enquanto comiam conversavam, o que só fazia crescer o fascínio de uma pela outra. Logo depois foram até a loja de instrumentos musicais, Marcos queria um case novo para seu baixo e João Pedro precisava de cordas para guitarra. Dentro da loja, enquanto os outros faziam suas compras, Rafaela pegou uma guitarra para ver e ficou brincando com as cordas do instrumento. Quando os outros se aproximaram dela, pois já haviam comprado e estavam saindo da loja, ela começou a tocar as cordas vigorosamente enquanto fazia caretas. Depois entregou a guitarra para o vendedor que se aproximou e olhando para os três disse:

– Eu seria uma ótima guitarrista se soubesse tocar. – Todos riram

João Pedro passou o braço em volta do pescoço dela, enquanto ela o abraçou pela cintura e assim saíram da loja rindo. Nesse exato momento Maria Júlia parou de rir e desejou profundamente que um raio a atingisse para que caísse dura no chão. Teve que disfarçar quando Marcos a abraçou e saíram juntos da loja.

Já na sala de cinema, sentaram –se os quatro juntos, com as meninas uma ao lado da outra no meio e os dois garotos nas pontas. Era um filme de terror psicológico e os sustos eram constantes em uma determinada parte do filme. Depois de algumas cenas calmas que se seguiram, uma cena inesperada fez com que todos no cinema se assustassem. Em um movimento automático, Maria Júlia procurou a mão de Rafaela, que sem pensar a segurou com força, pois ela também havia assustado. Aquele pequeno gesto foi capaz de leva-las para o exato momento onde estavam prestes a se beijar na enfermaria da escola. Elas se olharam no escuro. A pouca claridade que vinha da tela, era o suficiente para que pudessem se ver, porque naquele momento, não se tratava apenas de enxergar a outra, era sobre sentir e isso acontecia com as duas intensamente.

Durante o resto do filme, elas ficaram ali de mãos dadas e mantiveram os olhos fixos na tela com sorrisos bobos nos rostos. Não que elas estivessem vendo mais alguma coisa sobre o filme, porque já não viam nada. Não houve mais sustos e nem risos sobre alguma frase de efeito de algum personagem. Estavam alheias a tudo e a todos, estavam apenas juntas, acariciando a mão da outra em estado de glória.

Quando as luzes se acenderam, Rafaela largou imediatamente a mão de Maria Júlia, que entendeu o gesto, mas se chateou, principalmente com a rispidez do movimento. Foram os últimos a sair da sala, pois viram os créditos do filme esperando uma última cena que não teve. Ao sair da sala, Rafaela disse que queria ir ao banheiro. Resolveu ir no banheiro do cinema mesmo que geralmente era mais vazio. Maria Julia decidiu ir também.

Elas caminharam lado a lado silenciosamente até o banheiro e quando entraram, constataram que estavam sozinhas. Rafaela entrou em um dos reservados e Maria Júlia ficou apenas se olhando no espelho. Era engraçado como o que sentiam naquele determinado momento era praticamente a mesma coisa, as duas estavam extremamente nervosas e ansiosas.

Rafaela saiu do reservado, lavou as mãos, secou e quando se aproximava da porta, sentiu seu braço ser puxado por Maria Júlia.

– O que foi? – Rafaela engoliu seco esperando pela resposta.

– A gente tem que conversar, eu tô ficando louca com tudo isso! – Maria Júlia estava ofegante e seu olhar beirava o desespero.

– Do que você está falando?

– Eu tô falando da gente! Do que acontece quando a gente se toca, quando a gente se olha... do que a gente sente quando está longe!

– Eu não sei do que você está falando. – Rafaela desviou o olha e tentou minimizar o que Maria Júlia dizia.

– Para com isso! – a frase de Maria Júlia soou como uma súplica – Não finja que você não sentiu também!

– Senti o que? – Rafaela estava desesperada para sair dali ela não suportava a ideia de ter que mentir para Maria Júlia sobre seus sentimentos.

O que se passou a seguir, já havia acontecido na cabeça das duas das mais variadas formas, mas nem uma delas imaginou que em um banheiro no shopping, Maria Júlia segurasse a gola da jaqueta de Rafaela puxando-a para si, fazendo com que seus corpos se tocassem por completo. E em um ato desesperado, beijou com força a morena que assustada a empurrou na tentativa de escapar.

– Enlouquece? – Rafaela perguntou irada.

Maria Julia ficou ali parada por alguns instantes. Enquanto olhava para Rafaela, sentiu seus olhos encher de lágrimas e sem dizer uma só palavra, segurou o rosto da morena entre as mãos e a beijou novamente.

Rafaela foi surpreendida novamente, mas dessa vez não teve forças para lutar contra algo que queria tanto.

Aquele foi o momento de entrega das duas e nada poderia estragar a importância daquele momento onde os braços passaram a envolver os corpos que colados, tentavam ocupar o mesmo espaço, enquanto os lábios e línguas moviam-se com tanta sincronia que parecia ser coreografado. Ao mesmo tempo que aquele beijo era doce e carinhoso, demonstrava a paixão que existia entre as duas. Elas se sentiam sem folego e diminuíam o ritmo, mas simplesmente não conseguiam parar, pois quando se separavam, bastava se olhar que tudo recomeçava.

Enquanto isso se passava no banheiro, do lado de fora Marcos e João Pedro conversavam.

– Eu acho que você tem uma chance.

– Você acha? – João Pedro perguntou desconfiado.

– Tá na cara que ela quer seu corpo.

– Sei lá... eu achei que é um lance mais de amizade mesmo.

– Achei que ela tá te dando mole. – Marcos falou enquanto mandava uma mensagem para Maria Júlia.

– Depois vou perguntar pra Majú o que ela achou.

– E não vai tentar ficar com ela hoje?

– Não sei.

– Como você é lerdo Jão, já pega já!

– Cara, eu já disse, não estou com pressa! E se não rolar, ela vai ser minha amiga e acabou.

– Bichinha!

– Vai se fude! – João Pedro falou enquanto dava um soco leve no braço de Marcos.

Maria Júlia e Rafaela param de se beijar, mas continuaram abraçadas se acariciando enquanto suas testas estavam encostadas uma na outra. Quando o celular de Majú apitou ela pegou para ver. Era a mensagem de Marcos “ Morreram? ”. Ela leu a mensagem em voz alta e nesse instante, Rafaela pareceu entrar em desespero, ela se soltou de Maria Júlia e saiu apressadamente. Ao passar pelos garotos, apenas disse que não podia ficar. Eles ficaram sem reação e tinham o mesmo ar surpreso no rosto que Maria Júlia que saiu do banheiro meio atordoada.

João Pedro tentou, mas não conseguiu alcançar Rafaela que sumiu no shopping.

Os meninos fizeram várias perguntas para Maria Júlia, afim de entender o que havia acontecido, mas durante o pouco que falou, dizia que não sabia de nada. E realmente não sabia, ela ficou tão surpresa quanto eles com a partida de Rafaela, não imaginava um final que ela considerava trágico para algo tão fantástico.

Naquela noite Maria Júlia não conseguia parar de pensar, se sentia nas nuvens por Rafaela e se sentia no inferno pelo o que estava fazendo com Marcos. Desejou profundamente nunca ter se envolvido com ele, assim poderia viver o que sentia por Rafaela em paz. Enquanto ela fazia planos, imaginava se teria coragem de contar para alguém ou qual seria as reações das pessoas quando soubessem. Tentava imaginar como Rafaela estava se sentindo a respeito do beijo, se tinha gostado e se estava tão feliz quanto ela.

Milhões de coisas se passaram pela cabeça de Rafaela desde que ela soube que Maria Júlia iria com eles ao cinema. Ao sair do banheiro, esses pensamentos se intensificaram e ela não sabia o que fazer com tudo o que sentia. Então ela tentou se concentrar e tirar um pouco Maria Julia, o beijo e tudo mais da sua mente, pois ela precisava de achar uma forma de contar para sua mãe ia desistir da bolsa e voltar para a escola antiga.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Quero agradecer a todas as pessoas lindas que desde o começo da fic, gastaram um pouco do seu tempo para escrever um review aqui. É realmente muito estimulante! Muito obrigada mesmo! Beijos!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.