Corações Quentes
1 Capítulo 1
Notas iniciais
– Gente...gente, vamos parar com a zona? Não estamos nem na metade da aula ainda.
Dava para notar o cansaço na voz da professora que tentava dividir os alunos em duplas pra um trabalho sobre fisiologia. Afinal, era apenas terça feira e os ânimos estavam exaltados ás 7:30 da manhã.
– Mas professora, olha o tamanho da injustiça! Eu sempre faço meus trabalhos com a Cecilia. Como assim agora não pode? — A garota esbravejava enquanto limpava as lentes dos óculos com a toca da blusa do garoto sentado à sua frente.
– Não podendo Majú. Foi sorteio e infelizmente pra você, não caíram juntas.
– Mas profs! Só sobrou eu! Com quem eu vou fazer esse trabalho? Não pode ser um a dupla de três, eu, a Ceci e o Dani?
Antes que a professora pudesse responder, alguém bateu na porta o que fazendo com que a professora desviasse toda a atenção.
– Com licença, bom dia- a mulher cumprimentou a todos e depois disse em direção a porta — pode entrar.
Ela foi logo seguida por uma garota morena, com lindos olhos negos e uma flor de tecido amarelo na cabeça. A garota estava um pouco acanhada e não fez contato visual com ninguém por muito tempo. Normalmente ela não era assim, mas o fato de ter que encarar uma nova sala, faz com que estivesse momentaneamente insegura, pois todos sem exceção a encaravam nesse momento.
– Oi Rafa, mudou mesmo? — perguntou a professora que só recebeu um aceno com a cabeça como resposta.
– O que é aquela flor no cabelo dela? — Cecilia cochichou com Majú de forma debochada.
– Sei lá, menina estranha. Tem jeito de metida.
A secretária se retirou da sala e a professora fez as devidas apresentações:
– Pessoal. Essa é a Rafaela, a nova companheira de classe de vocês... — a professora foi interrompida por um assovio alto, daqueles usados para elogiar a beleza dos outros — menos Fábio – Chamou a atenção do garoto que fez todos rirem.
– Onde eu me sento? — Rafaela perguntou sentindo o rosto queimar.
– Pode sentar em qualquer lugar, mas antes eu queria te apresentar a sua dupla para o trabalho, já que pra tudo na vida tem uma solução – Dizia enquanto apontava para Majú.
– Tá de brincadeira?!- a garota resmungou ao se largar na cadeira em sinal claro de descontentamento — Mas eu nem conheço ela!
– Olha que ótima oportunidade para conhecê-la. Pode se sentar Rafa e não ligue para a Maria Júlia, ela está um pouco brava, porque eu a separei da irmã siamesa dela — A professora fez um beicinho debochando das meninas, o que fez a sala toda rir.
Rafaela se dirigiu para o fundo da sala e passou direto pela garota que seria seu par para o trabalho de biologia, seus olhos se cruzaram por milésimos de segundo antes que Rafaela desviasse o olhar.
– Pro, deixa ela fazer o trabalho com o Dani e eu faço com a Majú. — Cecilia falou enquanto a garota se sentava.
– Não! – a professora foi bastante enfática.
– Por mim tudo bem, sem problemas trocar. – Rafaela falou erguendo os ombros, em uma atitude de quem não se importava. Majú passou a observar por cima do ombro enquanto ela colocava a mochila em cima da mesa.
–Não tem como trocar, seria injusto com os colegas que também não farão o trabalho com quem queriam. Agora chega de reclamar e vamos tocar a vida. Já está decidido. – dito isso, a professora virou-se para a lousa e começou a escrever.
Rafaela se senta no fundo da sala, na penúltima carteira na fileira ao lado da de Maria Júlia. Ao seu lado está Fábio, o garoto que assoviou quando ela entrou. Ele se aproximou da garota e disse:
– Oi!
– Oi.
– Além de linda você é muito cheirosa.
Escutou-se alguns risos após as palavras de Fábio, até mesmo um “Que escroto” e um “Péssimo”, vindos dos colegas. Todos já estavam acostumados com a falta de noção do garoto.
Rafaela olhou para o garoto com desdém, depois revirou os olhos antes de dizer com um sorriso cínico no rosto:
– Obrigada, sua opinião sobre mim é de extrema importância. Que bom que eu te agradei. — fez um sinal negativo com a cabeça e voltou a tirar as coisas da mochila sobre a carteira enquanto a sala vinha a baixo com o alvoroço dos os colegas com a resposta da menina. O rosto de Fábio queimava com as coisas que os colegas diziam e com a zoada que faziam.
– Menina... otária! – isso foi tudo o que ele disse.
Majú ria alto como muitos, ela olhou para Cecilia e balbuciou “Adorei”. Cecilia concordou e as duas olharam para trás para observar a menina com um ar sério no rosto copiando a matéria da lousa. Ao observar a garota, Majú se sentiu um pouquinho mais conformada com sua parceira para o trabalho, claro que não era como Cecilia, mas talvez não fosse tão ruim assim.
A professora pede silêncio e volta ao que estava fazendo. A aula passa como se tempo estivesse se arrastando. Alguns não conseguem manter o foco na lousa por muito tempo, atrapalhando assim os demais. Cecilia e Majú ainda reclamam por não poder fazer o trabalho juntas, até que finalmente o sinal toca para alivio de todos, inclusive da professora. Nesse breve momento, durante a troca de professores, Maria Júlia se levanta e vai falar com sua nova parceira.
– Oi!
– Oi. — a outra responde a loira que se aproxima.
–Rafaela né?
– É. Você é Maria Julia?
– Todos me chamam de Majú, prefiro assim. A impressão que eu tenho quando me chamam de Maria Julia, é que vai dar merda ou que já deu e alguém descobriu. – Rafaela deu sorriso discreto e quase imperceptível. – Você estudava onde?
– Aqui.
– Aqui?!
– À tarde, só mudei de horário.
Antes que pudessem continuar a conversa, o professor de geografia entrou na sala e ordenou que cada um fosse para seu lugar. Cumprimentou a todos e disse:
– Oi Rafa! Conseguiu mudar de horário?
– Consegui.
Majú ficou intrigada, parecia que todos os professores conheciam a garota e gostavam dela, falavam com ela de forma terna. Estranhou um pouco, pois acho que com ela Rafaela havia sido um pouco seca. Logo depois pensou que a menina provavelmente seria apenas mais uma puxa saco.
As aulas passaram com a mesma lentidão da primeira até chegar a tão esperada hora do intervalo. Todos se levantaram e saíram em desespero da sala. Majú estava retocando o batom e observou quando Rafaela colocou os fones de ouvido pegou um livro e calmamente saiu da sala. Cecilia e ela deram os braços e saíram da sala.
Durante o intervalo, outros se juntam a elas, entre eles Marcos o namorado de Majú e o irmão gêmeo dela João Pedro que estudam em outra sala. Todos conversavam quando Fábio se aproximou.
– Vocês perderam a melhor tirada do ano – Cecilia falou para os amigos — eu ri litros.
– Verdade! – Majú concordou.
– Aquela menina é muito otária! Cheia de querer dar uma de gostosa – Fábio estava indignado – eu elogiei ela e ela veio falar merda.
– O que aconteceu? – Marcos perguntou curioso.
Cecilia tratou logo de contar a história para os meninos não hesitaram nem um pouco em tirar sarro do garoto.
– Mas quem é essa menina?
– Aquela. – Majú fez um sinal com a cabeça apontando a garota que saia da biblioteca da escola com um livro diferente na mão.
– Ah sim, sem quem é. Ela namora um cara da tarde que fazia natação comigo. Ela é bolsista. – João Pedro falou.
– Aquela ridícula é bolsista? –Fabio perguntou surpreso.
Sem ao menos esperar a resposta ele andou até a menina que se encontrava a poucos passos deles. Ela lia a contra capa do livro, alheia a tudo que a cercava, quando Fábio puxou um dos fones de ouvido da garota que se assustou ao ver o garoto ruivo e alto a sua frente.
–Você é bolsista?
– Sou – Ela respondeu sem entender o que estava acontecendo.
– Credo! Então você é pobre? – Fabio falou rindo da garota que continuava sem entender o que se passava.
Imediatamente Majú, Marcos, João Pedro e Cecilia (que estavam bem próximos) sairam em defesa da garota. Aquela cena era ridícula até mesmo para Fábio.
– Cala boca véio! – João Pedro disse se colocando entre Fabio e Rafaela.
– Não é verdade? – ele tentou se defender- Estou falando alguma mentira? É pobre mesmo, lancha pão com manteiga e é cheia de querer dar uma de boazona.
– Você é muito idiota! — Majú falou irritada. – Não liga pra ele não Rafa, esse menino é retardado.
– Tá tudo bem. Eu não ligo, sou pobre mesmo. Não me envergonho disso. – Rafaela falou com muita calma enquanto olhava fixamente para o garoto.
– Mas ele não tem o direito... – Cecilia esbravejava quando foi interrompida.
– Tanto faz, eu estou cagando pra ele.
– A conversa nem é com vocês, não sei por que o mimimi. Ela acabou de dizer que não se importa. – Fábio falou um pouco receosos, ele não sabia que suas palavras teriam essas reações, não imaginou que tomariam partido da garota.
–É que ela tá ligada que o problema dela se resolve com dinheiro, mas o seu não tem grana que dê jeito, nem toda fortuna do mundo é capaz de curar idiotice. – Marcos falou arrancando risos.
– Vai se fude véio! – Fábio falou e saiu de perto.
– Você é bem calma, se fosse eu tinha voado de unha na cara dele. – Cecilia fez todos rirem, mas todos sabiam que ela provavelmente faria isso mesmo.
– Estudo aqui há um ano e meio praticamente, já ouviu isso antes de outros alunos, já ouvi pior de outros alunos. Resolvi ligar o foda-se, só falta mais um ano e meio. Mesmo assim, obrigada. — A garota falou sinceramente e saiu.
– Mesmo assim não está certo – Marcos disse enquanto Rafaela se afastava.
– Ela é bem gata. – João Pedro observou.
Rafaela estava realmente agradecida por ter sido defendia, isso já era bem diferente do que estava acostumada. No banheiro ela lavou o rosto e respirou fundo para engolir o nó contido na garganta. Chorar ali, sob aquelas circunstancias era inadmissível. Só se permitia chorar quando estava sozinha, geralmente chorava durante o banho, onde tinha mais privacidade e ninguém via. Odiava esses momentos que ela considerava ser de muita fraqueza.
O sinal toca pondo fim ao intervalo, todos voltavam para suas salas enquanto Marcos e Majú se beijavam na porta da sala como todos os dias. Rafaela se sentiu desconfortável com a cena ao passar por eles.
Na última aula, o professor de Língua Portuguesa – um dos mais queridos- entra na sala e diz:
– Bom-dia me povo! -ele recebeu um sonoro “Bom dia” como resposta — Hoje, nós vamos apenas conversar. Eu recebi uma denuncia de alunos de outra sala sobre algo que aconteceu durante o intervalo. Eu não vou citar nomes, mas alguém aqui sofreu preconceito por parte dos colegas, ou melhor, do colega.
– Essa menina toda cheia de querer dar uma de fodona e não é merda nenhuma. – Fábio se adiantou em dizer.
– Poxa Fabião! Eu disse que não citaria nomes.
– Ela é folgada mesmo. Bolsista que vive de esmola.
– Calma aí rapaz! Por que tanto ódio? A bolsa que a escola oferece é uma oportunidade para pessoas terem o mesmo ensino de qualidade que vocês têm. Para começar, a média de bolsista é mais alta que a de vocês. Enquanto a media para passar de ano de vocês é seis pontos e meio, a média de bolsista é de sete e meio, no final são quatro pontos a mais que o normal.
– Tem que ralar mesmo, tá aqui de graça.
– E você não tem ralar por quê? É certo não dar a mínima para aprender e desrespeitar as pessoas só por que seu pai paga?
Fábio sentiu o rosto queimar, pois suas notas eram sempre muito baixas, sempre passava no sufoco. Não por que não era inteligente, mas não tinha interesse.
O professor fez um discurso sobre respeito ao próximo que colocou muita gente para pensar. Enquanto o professor falava, Majú olhou para trás e ficou encarando a colega que parecia concentrada rabiscando a última folha do caderno. Ela sentiu empatia pela garota, a primeira impressão que teve da garota era que era bem metida, mas agora já não achava que era bem assim.
Rafaela tirou os olhos do caderno e instintivamente olhou para Majú. Seus olhares se cruzaram e ficaram assim por poucos segundos. Mesmo que não percebessem, sorrisos tímidos e amigáveis se abriram nos dois rostos, até que Rafaela voltou a rabiscar o caderno e Majú virou-se para frente.
Finalmente acabaram-se as aulas, todos se sentiram aliviados. Para grande parte da sala estava tedioso ouvir o professor falar sobre aquele assunto. Majú espera Rafa guardar as coisas na mochila e diz:
– Sobre o trabalho... você poderia ficar aqui para discutirmos sobre como vamos fazer?
– Hoje?
–É
– Não posso, tenho compromisso.
– Mas é rápido, queria resolver isso logo.
– Não dá mesmo. Amanhã resolvemos. – as duas caminhavam em direção ao portão seguidas por Cecilia que mexia no celular – Se você quiser eu posso fazer e colocar seu nome.
– Enlouqueceu? Jamais!– Majú se sentiu ofendida.
– Droga! Amanhã, prometo! – Rafaela saiu correndo para não perder não o ônibus parado no ponto prestes a sair. Majú tinha um sorriso leve no rosto enquanto observava a menina se distanciar. João Pedro se junta a irmã e intrigados eles observam a garota partir.
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