Notas iniciais
Olá!!! Ainda não sei quais rumos tomar na estória. Espero que gostem. Boa leitura!

No dia seguinte, alguns alunos faziam rodinhas dentro e fora das salas de aula. Majú e Marcos estavam abraçados na porta da sala dela como faziam todos os dias até dar a hora de entrar. João Pedro, Cecilia e mais dois alunos estava com eles.

– O que é aquilo?! – Cecilia falou franzindo a testa. Todos olharam na mesma direção que ela e viram Rafaela se aproximar correndo.

Ao se aproximar da porta, Rafaela parou e apoiou as mãos nos joelhos tentando recuperar o folego.

– O que aconteceu? — Quis saber Cecilia muito curiosa e de certa forma preocupada.

Rafaela se ergueu, colocou as mãos na cintura e respirou profundamente. Durante esse breve momento pensou em dizer “Não é da sua conta”, mas decidiu que esse tipo de atrito era desnecessário. Disse:

– Dormi no ônibus e passei da merda do ponto. Tive que voltar correndo. – Rafaela contava enquanto tirava uma caneta da mochila para prender o cabelo em um coque – Tenho que me acostumar com esse horário.

– Achei que tinha alguém atrás de você, tipo... um ladrão...um cachorro... o Fábio... – Marcos falou arrancando risos de todos. Majú não achou graça, ela havia se preocupado de verdade. A primeira coisa que passou pela sua cabeça, foi que algo de ruim estivesse acontecendo e ela já estava se preparando para o pior. Apesar disso, mesmo que forçando, ela sorriu como os outros.

– Nem acredito que corri tanto e ainda não começou! – Rafaela parecia inconformada e ainda estava bastante ofegante.

O professor de matemática se aproximava da sala, alguns alunos começaram a entra outros ficavam pra fora, pois só entravam depois do professor. Nesse momento, como todos os dias, Marcos puxou Majú para o beijo de boa aula, o que causou um pouco de desconforto em Rafaela, então ela seguiu Cecilia para dentro da sala enquanto João Pedro rumava para a sala dele.

– Vamos parar com isso os dois? Todo santo dia é a mesma coisa! — Repreendeu o professor.

– É ela professor, não consegue manter as mãos longe do meu corpo, eu digo não, mas ela me agarra – disse o garoto.

– Besta! – Majú disse enquanto dava um tapa no braço de Marcos. Ele lhe deu mais um selinho e correu para sua sala enquanto ela entrava.

Enquanto Maria Júlia entrava, Rafaela a observa pensativa. Ela simpatizava bastante com a garota, principalmente quando sorria, era estranho. Nunca tinha visto um sorriso tão, bonito, tão simpático. Chegava a ser reconfortante.

Passaram-se as aulas normalmente como todos os dias. Algumas vezes uma delas se pegava observando a outra. Existia uma curiosidade mútua e silenciosa entre elas. Era um sentimento para o qual nenhuma das duas dava atenção, mas que se fazia presente e por isso se observavam. Em apenas dois dias, uma já tinha suas impressões sobre a outra.

Pelo o que pode ver, Rafaela achou Majú espalhafatosa, com uma personalidade expansiva, vivia sorrindo, tinha que se conter para não falar alto e falava com todo mundo. Era o tipo de pessoa que ela geralmente evitava, achava um pouco irritante e muito diferente dela.

Maria Julia por sua vez, achou Rafaela triste, estranha. Não parecia querer fazer amizades, era praticamente monossilábica com as pessoas, parecia ser bastante misteriosa. Também não era o tipo de pessoa que Maria Julia teria como amiga, achava sem sal e deprimente.

Finalmente chegou a hora do tão esperado intervalo. Maria Júlia se aproximou de Rafaela e perguntou:

– Podemos conversar sobre o trabalho? — Rafaela fez que sim com a cabeça e elas saíram da sala, pois não podiam ficar lá dentro. Do lado de fora continuou — Como você acha que devemos fazer?

– Pensei em fazer hoje depois da aula, aqui na biblioteca...

– Hoje quem não pode sou eu. Amanhã?

– Amanhã não dá pra mim. – as duas caíram no riso

– Tá difícil né? – Rafaela observou.

Foi como se pelo menos naquele momento, a camada de gelo fino que existia entre as duas estivesse se partindo.

– Tem a opção de dividir os tópicos e depois a gente junta tudo.

– Pode ser – Rafaela franziu um pouco a testa – mas não estou acostumada a fazer trabalhos assim. Na verdade, eu estou acostumada a fazer e colocar o nome dos outros. Por isso e te sugeri isso ontem.

– Não, não gosto dessas coisas. Não acho justo... – antes que Maria Júlia terminasse de falar, Marcos a abraçou por trás lhe beijando o pescoço. O que fez com que ela se assustasse.

– Que susto! – Maria Júlia disse um pouco brava.

– Amor! Eu estava com saudades.

– Já vou, é rápido.

Aquilo irritou Rafaela um pouco. Achou muita falta de educação interromper as duas assim. Marcos deu um beijo no pescoço de Majú e saiu.

– Não tem como você trocar...- Maria Júlia foi interrompida por Rafaela.

– Olha, pra mim tem que ser hoje. Então acho melhor cada uma pegar dois tópicos, aí a gente junta e entrega na sexta. – o tom de voz era um pouco frio, bem diferente do que estava usando até o momento, mas não era agressivo.

Maria Júlia conseguiu perceber a mudança sutil de humor da colega. Ela concordou com Rafaela e cada uma foi para um lado. Mesmo que durante o intervalo tenha procurado Rafaela com os olhos, não a viu em canto algum. Instável. Esse foi o novo adjetivo de Maria Júlia para Rafaela.

Após o termino das aulas, Maria Júlia estava abraçada a Marcos enquanto ouvia Cecilia falar do quanto o novo namorado da mãe era feio e estava rindo muito com as comparações maldosas que a amiga fazia entre o homem e animais ou objetos inanimados. A conversa foi interrompida quando seu telefone celular tocou.

Após atender, ela bufou e falou para o irmão:

– João, a mamãe vai se atrasar, ela disse pra gente pegar um taxi e disse mais alguma coisa não entendi o que ela falou, porque acabou a merda da bateria.

– Putz! – João Pedro falou desanimado.

– Estou indo para o clube. Vem comigo? – Marcos perguntou animado.

– Não posso, tenho piano hoje. – Maria Júlia respondeu.

–É uma pena. A noite vou na sua casa. — Marcos a beijou e estava indo em direção ao carro do pai, quando João Pedro decidiu ir com ele para o clube.

– Quer carona? Eu falo pra minha mãe te deixar na sua casa. – Cecilia falou sem tirar os olhos do celular.

– Não, acho que vou pegar um taxi direto para a aula de piano.

– Você quem sabe.

As duas se despediram e Cecilia partiu. A essa altura, quase todos os alunos da manhã já tinham ido embora e os alunos da tarde já estavam entrando. Maria Júlia achou melhor esperar o taxi dentro da escola, além disso, ela precisava do número do disk taxi e um telefone do qual pudesse ligar.

Enquanto ia até a secretaria da escola tentar resolver seus problemas, de canto de olho ela viu Rafaela entrando na biblioteca e em se questionar, foi atrás.

– Oi! – Maria Júlia disse ao se aproximar.

– O que você está fazendo aqui ainda? – Rafaela franziu a testa, pois estranhou a menina lá.

– Preciso de um táxi.

– Hum... aqui não tem, pelo menos nunca vi. Mas se eu vir algum, te aviso. – Rafaela disse com tom de sarcasmo.

– Folgada! – Majú falou rindo – Olhando pra você eu não diria que você é capaz de fazer piadas.

– E olhando pra você não diria que era capaz de entrar em uma biblioteca. Achei que viraria pó, igual a vampiro no sol.

– Rá, rá! E o que você sabe sobre mim? — Maria Júlia disse em um tom desafiador.

– Tanto quanto você sabe sobre mim. – Rafaela cruzou os braços e tombou um pouco a cabeça para a esquerda enquanto encarava Maria Júlia.

– Calma garota! Adoça essa alma! Eu só estava puxando conversa. – Majú falou enquanto abria um sorriso enorme. – Não precisa ficar na defensiva. Eu já estou saindo.

Maria Júlia já havia dado uns passos em direção a saída quando ouviu: — Desculpa! Eu... olha... foi mal. Eu só quero fazer esse trabalho logo, porque será uma coisa a menos pra eu me preocupar. – ela percebeu que cada palavra ali era a mais sincera possível.

– Tudo bem. Eu deveria ter deixado você em paz. – Maria Júlia mantinha o sorriso no rosto.

– Fala com Estela a bibliotecária, acho que ela pode te ajudar a arrumar um taxi.

– Obrigada – Majú virou-se e fez menção de dar o primeiro passo quando, virou para Rafaela outra vez e continuou – Posso te fazer uma pergunta?

– Pode.

– Por que tanta fissura por fazer esse trabalho hoje? Ele é bem fácil além de ser em dupla.

– Não gosto de ficar enrolando. Quanto antes eu me livro desse tipo de coisa, melhor para mim.

– Você me parece bem nerd. – Maria Julia tinha um ar pensativo.

– Não, não sou! Só não quero procrastinar...

– Que palavra é essa?! – Maria Júlia não se conteve e riu alto chamando atenção de uns poucos alunos que estavam lá.

– Shiiiiiu! – Rafaela levou o dedo indicador aos lábios para pedir silencio. Sentia como se todo o sangue do seu corpo tivesse subido para a cabeça, principalmente para as orelhas, pois as sentia queimar.

–É nerd sim! Sabe o nome da bibliotecária, lê por diversão e usa a palavra procas... como é mesmo a palavra? Enfim, essa palavra que quer dizer deixar para depois, só que de uma forma mais... nerd talvez?

– Primeiro, saber nome de pessoas é normal. Segundo, você conhece a palavra então se isso característica de nerd, você também é. Terceiro... como você sabe que eu gosto de ler?

Agora foi a vez de Maria Júlia sentir o rosto queimar.

– Eu vi você saindo da sala com um livro e voltando com outro, e nem um era da lista obrigatória.

– Você estava reparando em mim? – ao perguntar, o coração de Rafaela disparou e sua boca ficou seca, ela sentiu algo estranho na boca do estomago, achou que fosse ansiedade, mas de uma forma intensa. Era diferente de tudo que já havia sentido.

Maria Júlia por sua vez, sentiu o corpo gelar em calafrios intermináveis. Era como se um cubo de gelo lhe percorresse a espinha, suas mãos suavam frio e sua respiração tornou-se mais pesada. Ela desviou os olhos dos de Rafaela. Essa foi a primeira vez desde que começaram a conversar que deixaram de olhar uma nos olhos da outra. Tentando se controlar disse:

–Não, eu estava reparando no mundo e por acaso você está nele.

De alguma forma aquela resposta decepcionou Rafaela. Ela não sabia qual era a resposta que queria ouvir, mas definitivamente não era aquela.

– Hum... você não tinha que ir para algum lugar? – tentou mudar o assunto.

– É, tenho aula de piano no centro. – Maria Júlia ainda estava desconfortável.

– E por que vai de taxi? Tem ônibus daqui para o centro a toda hora, em 15 minutos você está lá.

– Eu nunca andei de ônibus.

– VOCÊ O QUÊ? – Rafaela falou arregalando os olhos — Como assim?

– Nunca andei de ônibus... nunca precisei. Meus pais sempre levaram e buscaram a gente. Qual o problema? – Majú não entendia o espanto de Rafaela.

– Cara... não é possível! Você tem quantos anos? Tipo...

– 16 e eu não entendo seu espanto. Isso é bem normal... pelo menos por aqui é.

– É claro! Às vezes me esqueço de onde estou. – Rafaela falou em um tom de deboche.

– Não entendi... você não gosta daqui? Por que o deboche?

– Não, não é isso. É uma realidade bem diferente da minha, só isso. Não quis ofender. – Rafaela ficou sem jeito.

– Fique sossegada, não ofendeu. Só que... é a minha realidade, faz parte da minha vida, mesmo que seja estranho. – Maria Júlia percebeu que o clima que existia entre as duas de alguma forma, naquele momento não era o mesmo – Bom, agora tenho que ir. Vou falar com o pessoal da secretaria mesmo para conseguir o táxi. Até amanhã.

Maria Júlia abriu um sorriso enorme no rosto como sempre, virou-se e começou a caminha, mas aos poucos aquele sorriso foi perdendo a intensidade revelando sua decepção. Em partes por ter que partir, em partes por não ser convidada a ficar.

– Até – Rafaela levantou a mão em um aceno visivelmente decepcionada com a partida da outra. Sem perceber, começou a elaborar mentalmente algumas desculpas para pedir que Maria Julia ficasse, mas decidiu se calar. O que ela não sabia era que um simples “fica” seria o suficiente para convence-la. Embora estivesse sentindo a mesma sensação estranha no estomago que tinha sentido ainda há pouco, Rafaela assistiu em silêncio Maria Júlia desaparecer na luminosidade do sol que brilhava lá fora.

Notas finais
Não sei se o melhor seria apressar as coisas ou deixar no ritmo que estão. Mas espero que tenham gostado. Qualquer opinião é bem vinda. Até mais, beijo!