Corações Feridos

77 Primeiro dia com você


Dois dias depois.

Julie arrumava as caixas que vieram da casa da mãe de Daniel, onde ele morava antes. Ela ainda não conseguia processar a ideia de que eles morariam juntos agora. Precisava impor regras, já que até agora ela não sabe se estão juntos de verdade ou apenas atuando para ver se resulta na melhora de sua memória.

Ela se sentia um pouco tímida, não sabia o que falar e como agir com ele. Daniel estava um pouco diferente, estava bem calado e só falava para fazer perguntas.

Daniel não seria o único a se mudar para cá. O filho de Bia também iria vir.

As duas combinaram que durante o dia Bryan ficaria com a Julie e durante o dia e a noite, depois que Daniel dormir, ele voltaria para a verdadeira mãe. Mas não tinham certeza de que isso ia dar muito certo.

- Huh. — Julie fez uma careta, arrumava as cuecas dele. — Por ordem de cor… — Sussurrou. Sempre arrumou assim. A maioria era preta ou cinza. Todas eram cuecas box. — É. — Ela se levantou cruzando os braços, já tinha terminado a mudança.

Respirou fundo. Toda satisfeita, até que pintou uma dúvida.

- Quem é que vai ficar com a cama? — Se perguntou ainda sem ter respostas. Ficou pensativa por um tempo. — Oh… N-não… — Ela sussurrou passando a mão pelo seu rosto e o sentindo quente e vermelho. — Eu dei uma chance para ele… — Não tinha pensado nisso, agora os dois iam morar juntos, consequentemente, seriam um casal. — Não… Isso não… Não podemos dormir juntos… Não mesmo… — Ela sabia que não era um pesadelo, porém, na sua mente era algo ‘’errado’’ — Ok. — Respirou fundo. — Eu não me importo de ficar com o sofá… Não me importo… — Saiu do quarto e desceu as escadas.

Chegou na sala e encarou o grande sofá a sua frente. Sim, era confortável, mas não se comparava a uma bela cama.

Seus pensamentos se interromperam com um barulho de motor de carro, ela correu até a janela e abriu a cortina. Viu que era o carro da Bia. Suspirou sentindo seu coração bater mais forte. — São eles. — Pensou alto.

Foi até o quintal, estava descalça, pisou na grama verde, ainda molhada. Correu até a calçada. Viu Beatriz sair do carro e dar meia volta para abrir o banco da carona.

Daniel saiu também enquanto sua irmã retirava Bryan, que agora seria Diego, do banco de trás. Daniel usava um óculos escuro de marca, ele saiu e o vento balançou seus cachos, Julie ficou olhando o lindo homem a sua frente, enquanto o mesmo olhava para as ruas, distraído. Estava com uma expressão séria no rosto, Julie quase babava com isso.

Bia precisou cutucar seu ombro para ela ‘’acordar’’. — Ah, oi? — Se virou para a amiga, Beatriz riu com isso.

- Aqui. — Entregou o bebê. — Aproveita que ele está dormindo. — Sussurrou.

Julie pegou seu ‘’filho’’.

Beijou o rosto do neném, ele era lindo. — Ei, porque o Daniel está usando óculos escuro?

- Aff, nem sei. — Bia revirou os olhos. Ela não tinha tanta paciência com o novo Daniel. — Ele estava mexendo na minha bolsa, acabou encontrando. Você pode me devolver?! — Esticou os braços e Daniel se virou para as duas. Julie não sabia direito para quem ele olhava. Pensou que ele olhava para a irmã, mas… Estava enganada. — Me devolve! — Bia pediu de novo. — É um óculos feminino!

- E daí? — Ele retirou.

Bia pegou com força das suas mãos.

- É feminino! Seu idiota! — Saiu batendo o pé.

- Calma Bia! — Julie a repreendeu tentando não ri da reação da amiga.

- Calma?! — Ela voltou. — CALMA?! Isso é porque você não passou a manhã toda com ele! — Apontou para o Daniel que tentava entender o que fez de tão mal. Sua reclamação estava quase acordando o bebê, Julie precisou dar umas batidinhas leve nas costas dele pra voltar a dormir.

- Você não tem paciência! — Ele retrucou nervoso. — É por isso que só tem uma filha de sete anos! Não consegue cuidar de mais ninguém! Nem se quisesse!

Sua irmã apontou o dedo para o bebê com uma expressão enfurecida, ameaçou contar tudo.

- Bia! — Julie interrompeu, Beatriz respirou fundo.

- Agora ele é problema só seu. — Ela deu um sorriso forçado. — Eu já vou.

- Tá. — Juliana suspirou. — Eu te ligo mais tarde. — A amiga assentiu.

Julie deixou Bia dar alguns beijinhos no bebê. Ela entregou a bolsa com algumas roupinhas, suas papinhas favoritas, chupeta e uns brinquedos de borracha.

Os dois viram ela ir até o carro, dar a ré, manobrar e sair. Ficaram parados ali por um tempo, até que Julie puxou assunto. — Vamos entrar?

Ele olhou em sua volta, ainda sem entender onde estava. — Minha perna dói. — Reclamou.

- Você fraturou. — Ela explica. — Precisou levar alguns pontos, estava usando cadeira de rodas antes. Mas já está bem melhor. — Daniel faz uma cara de que não está entendendo direito. — Foi só um acidente.

- Acidente? Que acidente? — Se espantou.

- N-nada. Vem… Vamos entrar.- Pediu gesticulando com uma mão. Daniel a seguiu. — Huh. — Ela parou, sentiu seu pé estalar.

- Tudo bem?

- Tudo. É que eu estou descalça, sempre acabo pisando em um desses buracos no quintal. Torci meu pé. — Explicou entregando o bebê para Daniel. — Ai…- Ela precisou apoiar-se no braço do loiro para conseguir equilibro. Passou a mão por seu pé. Estava dolorido.

- Quer que eu te carregue?

- Não, obrigada. — Corou. — Eu já deveria ter me acostumado com isso… — Murmurou. — Vamos, cuidado com as rachaduras… — Voltou a andar, mesmo mancando.

- Rachaduras?

- É, vem… Tem muitas no piso da varanda, trás má sorte se pisar.

Daniel riu, ainda segurando seu ‘’filho’’. — Então eu não posso pisar?

- De jeito nenhum! — Ela balançou a cabeça. — NÃO! — Ela gritou assustando o bebê e Daniel. — Eu estou falando sério! Não pise! Nem ameace pisar!

- Está bem. Calma. Eu… Só pensei que…

- Não pense. Não brinque com isso.

- Nossa… — Sussurrou. — Você leva essas superstições à sério. — Disse enquanto a morena abria a porta da sala.

Os dois entraram e Julie pegou o bebê ainda pensando no que Daniel disse a pouco sobre suas superstições. ‘’ Até parece que não me conhece… ‘’ — Ela pensou e logo em seguida balançou a cabeça, tinha se esquecido que Daniel perdeu a memória. Ela para ele era uma estranha, não conhecia seu jeito nem suas manias.

Ela percebeu que o rapaz olhava para todos os lados, reparava todo o canto da casa, calado.

Daniel sentia uma certa nostalgia… Aquela casa, os quadros… O sofá, toda aquela decoração, sentia que já ficou aqui antes. Ele focou seu olhar em Julie, a mesma deu apenas um sorrisinho tímido, sabia que Daniel estava em ‘’outro mundo’’.

Algumas cenas correram na sua mente, momentos dele e da Julie juntos.

Ele se sentou no sofá sentindo tontura, era uma sensação boa e ruim ao mesmo tempo. Julie pensou em perguntar se estava tudo bem, mas Daniel continuava muito pensativo, ela achou melhor não interromper.

Também se sentou, dessa vez no sofá de frente para ele, cruzou as pernas enquanto mexia seu pé machucado e segurava o bebê, fez algumas caretas de dor. Tinha mesmo torcido e a dor começava a incomoda-la.

Ela brincou com Bryan para tentar se distrair. O bebê estava sério, apenas olhava para ela, não estava acostumado a ficar com a Julie, pois estava sonolento, achou até que fosse sua verdadeira mãe. Julie fechou os olhos, deitando seu pescoço na almofada do sofá.

Até que sentiu alguém segurar seu pé, abriu os olhos rapidamente, chegou a achar que fosse algum fantasma a fim de puxa-la. — O que está fazendo?! — Perguntou espantada para Daniel que agora estava agachado segurando seu pé torcido com as duas mãos e o apertando com os dedos.

- Uma massagem. — Respondeu inocente.

- Não precisa. — Ela disse e logo após soltou seu pé.

Se levantou ainda mancando, segurava o bebê. — Quer conhecer o resto da casa? — Se sentiu estranha em perguntar isso, mas precisava mostrar a casa. Mesmo sabendo que Daniel já morou aqui por quase dois anos.

Ele balançou a cabeça aceitando. — Então vem… — A sala era grande, ela atravessou a sala, passando para a cozinha. — Aqui. — Entregou o bebê de novo. — Pode pegar o que quiser na geladeira. — Disse abrindo a mesma. — Tem mais comidas e biscoito nesses armários, pode pegar também mas eu gosto que abra primeiro a porta esquerda, depois a direita, sempre nessa mesma ordem.

- E pra fechar? Precisa ter ordem também?

Ela parou com aquela pergunta. O ‘’ antigo ‘’ Daniel não ligava para essas coisas, na verdade, ele nunca abriu nenhuma das portas do armário na ordem que Julie pedia. — Pra fechar… É… — Ela continuava pensativa, ainda estranhando seu novo comportamento. — São as duas ao mesmo tempo, sempre.

- Hm. — Ele concordou com a cabeça. — Primeiro as rachaduras… Depois o armário… Porque hein?

‘’ Agora sim está parecendo você mesmo. ‘’ — Ela suspirou aliviada com os pensamentos. — Eu não sei… — Respondeu simplesmente. — Sempre fui assim. Você… Achava isso diferente.

- Diferente? Quando achei isso?

- Há um tempinho atrás… Anos atrás, na verdade. — Se corrigiu. — Quando éramos namorados.

- E… O que eu te dizia?

- Dizia que era loucura e na maioria das vezes você ria de mim. Mas… Você gostava.

- Ah. — Ele sorriu fracamente, ainda se sentindo confuso. — Eu acho isso muito estranho. Ainda não me acostumei. — Olhou em sua volta. — Com tudo isso. — Pausou. — Mas então… Me diz, qual é o lugar da casa que… Eu mais gostava de ficar.

Ela sorriu.

- O terraço. — Disse passando pela cozinha. — É só me seguir. — Eles passaram pela sala, subiram as escadas. Atravessaram alguns corredores, Daniel aproveitava para reparar mais na casa de Julie, que agora seria a sua.

Precisaram subir mais algumas escadas. Julie abriu uma espécie de portinha de madeira que ficava no teto. Ela subiu primeiro, se sentou no chão e pegou o bebê das mãos de Daniel para ajuda-lo a subir.

Ele olhou para o terraço, era grande, tinha algumas plantas grandes para enfeitar o chão, era coberto. Havia uma rede e um pouco mais distante, uma churrasqueira feita de pequenos tijolos antigos. Dando um estilo mais rustico ao terraço. Porém, o que mais o encantou foi uma mesa de totó, um pouco mais pra frente. Daniel caminhou até lá, Julie sorriu o seguindo, ainda segurando o bebê.

- Você adorava ficar aqui. As vezes no fim de semana, você passava a tarde jogando totó com o Martim e Félix, enquanto eu saia com a Bia. — Julie explicou.

Daniel girava os bonecos da mesa usando as mãos. Ele logo encontrou uma bolinha branca e pesada, estava dentro do buraco do gol esquerdo. Olhou para Julie e notou que ela já o olhava antes. — Vamos jogar? — Propôs.

- Jogar? — Ela fez uma careta. — Eu não sei. — Balançou a cabeça. — Uma coisa que você precisa saber sobre mim. Eu não tenho paciência com nenhum tipo de jogo. — Lembrou da vez que cuidou de Nandinha e ela pediu para jogar video-game e ela não aceitou. — O único jogo que sei jogar é caminhada! — Daniel sorria ao ver seu nervosismo. — E muito mau!

- Eu te ensino. — Ele disse sorrindo. — É só jogar a bolinha no gol. É fácil.

- Não Daniel. — Ainda negava. — Eu não tenho paciência com isso… Não tenho… E ainda estou segurando o bebê. — Sacudiu fracamente Bryan em seu colo. O bebê deu uma gargalhada fraca.

- Porque não coloca ele no berço? — Continuava sorrindo. — Tem muitos brinquedos lá. E a gente fica aqui, eu te ensino a jogar.

Ele conseguia ser mais teimoso do que antes e isso a irritava de mais. Estava com tantos pensamentos em mente, sabia que agora teria que dividir a casa com o Daniel, e pior, ele estava com amnésia. Julie não sabia como lidar com isso, e ainda por cima tinha que cuidar de um bebê que não era seu e que já tinha consciência das coisas, sabia que sua verdadeira mãe era a Bia e talvez demoraria um pouco para ele se ‘’adaptar’’ a nova família. — Hein? — E então Julie acordou e sentiu que Daniel segurava uma de suas mãos. Ainda insistia com o jogo.

- JÁ DISSE QUE NÃO! — Ela acabou perdendo sua paciência, não parava de pensar nos problemas.

Seu grito foi o suficiente para Daniel se afastar assustado. Ela passou por ele, deixando Daniel parado ali no terraço, desceu as escadas segurando o bebê que mordia fracamente o seu ombro.

Ela entrou para o quarto, se deitou no colchão, com o filho da Bia em seus braços. Retirou seus chinelos e suspirou, ia sentir falta dessa cama…

Na verdade… Não queria deixar de dormir nela. Mas sabia que não poderia dividir o mesmo colchão com o Daniel, achava errado. Julie continuou mimando o neném, ele fechou os olhos. A morena sentiu ume louca vontade de acorda-lo só para apertar aquelas bochechas gordas.

O colocou deitadinho no colchão. Ele abriu as perninhas e os bracinhos. Ela sorriu, não conseguiu conter seu sentimento maternal. Beijou seu rostinho com carinho, sentindo um cheiro delicioso de talco de maçã.

Ela parou ao ver que o bebê abriu a boca para bocejar. — Que coisinha linda. — Ela disse carinhosa, pegou sua mãozinha, que era do tamanho do seu dedo indicador. Beijou com carinho. Continuou beijando.

Até que parou.

Respirou fundo.

Não podia se apegar a ‘’ coisinha linda ‘’. Não era seu verdadeiro filho e um dia o Daniel ia recuperar a memória.

E Bia ia recuperar o bebê.

Julie sentiu uma grande vontade de chorar só de pensar nisso. Não sabia o que fazer com tantos problemas.

Ficou pensativa por alguns instantes. Pensou em dizer toda a verdade para o Daniel, mas o médico recomendou que não. Ele estava em tratamento… Precisava lembrar das coisas aos pouco, naturalmente.

Seus pensamentos foram interrompidos com um choro fraco. Bryan acordou enjoado, com certeza por causa dos seus primeiros dentinhos. — Sch… Meu neném, não chora. — Ela alisou sua barriguinha.

Mas foi parando aos poucos. Ele não era seu neném. Não podia fazer tantos carinhos na criança, pelo menos não enquanto Daniel não estiver por perto.

Ela o pegou no colo. Mesmo sentindo seu coração se partir, ela não podia se apegar ao bebê, não podia achar que ele era seu filho de verdade, nem mesmo por poucos segundos.

Seu verdadeiro filho morreu. ‘’ Morreu porque eu não consegui cuidar… ‘’ — Ela pensava sentindo um aperto no peito.

Carregou Bryan até o berço de madeira no quarto, ao lado da cama. O colocou ali cuidadosamente, junto com alguns travesseiros. Pegou a chupeta e colocou nele, ele dormiu quase imediatamente.

Julie continuou ali por alguns segundos, queria ter certeza de que ele não ia acordar de novo.

Percebeu a respiração calma do neném. ‘’ Parece que vai dormir a noite inteira...’’ — Pensou sorrindo e foi andando.

[...]

Daniel ainda jogava totó no terraço, estava sozinho, não sabia explicar como conseguia jogar sozinho. Mas ele dava um jeito. Ia para um lado, ia para o outro. Não comemorava nenhum dos gols que fazia no jogo. Apenas jogava, sem se importar com nada a não ser com o grito de Julie. Ele tentava entender o porque do seu comportamento com ele, chegou a achar que eles brigaram antes dele perder a memória. Incutiu isso na sua mente e ficou pensativo.

Mal sabia ele que Julie estava assim porque sentia sua consciência pesar com tanta mentira, se Daniel descobrisse sobre o divorcio de anos atrás? Que seu verdadeiro filho morreu e que esse bebê em sua casa é apenas seu sobrinho?

Ficou ali por mais meia hora depois que Juliana desceu. Ele estava calado, se sentia sozinho, como se ninguém se importasse com ele.

Ouviu a porta se abrir, mas continuou jogando. Julie se aproximou lentamente, segurava um pote com saladas de frutas que tinha acabado de fazer. Misturava a sobremesa com uma colher. Daniel continuou cabisbaixo até Juliana caminhar em direção a mesa de totó.

Se sentiu triste ao ver ele jogando sozinho. — Você quer? — Ela ofereceu a sobremesa esticando os braços.

Daniel a olhou e negou com a cabeça, ainda calado. Julie suspirou, colocou a salada de frutas em cima do balcão, perto da churrasqueira. Estava arrependida pelo modo como o tratou. — Me ensina a jogar? — Ela pediu.

Daniel parou de mexer com os bonecos. Nem viu que a bolinha entrou no gol. — Pensei que não gostasse.

- Ah. — Deu um sorrisinho. — Mas eu nunca dei uma chance para o totó, quem sabe eu… — Foi interrompida. Daniel puxou delicadamente o seu braço, ela riu fraco. — O que está fazendo? — Perguntou ao ver que ele a abraçou por trás.

- Vou te ensinar. — Disse sussurrando no seu ouvido, ela fechou os olhos sentindo o calor dos seus lábios, bem próximo ao seu pescoço. Seu coração palpitou.

Daniel pegou as pequenas mãos de Julie. — É só girar isso… — Ele disse a ajudando a jogar.

Julie girou, viu os bonequinhos rodando. Sorriu em pensamentos. Era mais fácil do que ela pensava. — A bolinha… Ela sussurra tentando esticar seus braços. A bolinha estava parada no canto da mesa de totó.

- Eu pego. — Daniel segurou seus cabelos negros que balançavam pelo vento fresco da tarde.

Beijou lentamente seu pescoço antes de solta-lá e caminhar até o canto da mesa para pegar a bolinha. Os dois se olharam mas Julie cortou o olhar na hora.

Olhou para o chão. Parecia procurar algum dinheiro caído. Daniel sorriu torto. — Vamos jogar? — Ele quebrou o silêncio.

- Éeer… — Se enrolou. Sentia seu rosto corar mais a cada segundo. — Acho que ainda não aprendi direito…

- Hm. Claro. — Se aproximou e pegou seus braços novamente.

Sorriram juntos. Daniel a abraçou como antes. Julie não conseguia esconder o sorriso. Gostava de ter ele ali, tão perto… Já não se importava com o jogo de totó, na verdade, nem pensava mais nele. Queria apenas o abraço.

- É só deixar a bolinha entrar no gol. — Ele explicava como se o jogo fosse muito dificil.

- No gol? É aquele buraco ali? — Ela pergunta apontando a cabeça para o gol. Se fingia de boba apenas para aquele abraço durar mais.

- Sim. É o gol. Entendeu?

- Ainda não está muito claro… Eu não sei… — Por impulso, entrelaçou os dedos de suas mãos, que estavam uma sobre a outra.

- É, tem razão… Esse jogo é muito complicado. — Daniel dobrou os braços de Julie e a abraçou, a envolvendo pela cintura.

Julie riu ao ver que estava sendo puxada. Percebeu que já estava distante da mesa de futebol. Daniel apoiou as costas na parede do terraço, ainda a abraçando por trás. Ela se sentiu corada e mudou de posição.

Ficou de frente para ele. Seus olhos se focaram um no outro. E só depois de sair daquele transe Julie percebeu que suas mãos estavam sobre o toráx dele. Ela sorriu e subiu suas mãos para a nuca, brincando com os cabelos de Daniel. Ele também retribuiu ao carinho, a abraçou pela cintura juntando mais os seus corpos.

Eles ficaram abraçados ali.

Julie fechou os olhos, deitou sua cabeça no ombro dele. Sentiu os cabelos dourados de Daniel tocarem sutilmente no seu rosto por causa do vento, lhe causando cócegas. Ela estremeceu ao sentir o vento bater nas suas costas. Daniel a abraçou mais forte e a esquentou. Ela sorriu e virou seu rosto.

Ficaram perigosamente próximos.

Ele sussurra. — Quantas vezes já ficamos abraçados nesse terraço?

Ela tocou no seu rosto. — Sessenta e sete vezes, contando com essa agora, são… Sessenta e oito.

Daniel riu balançando a cabeça. — Sério?

Ela assentiu. Daniel aproximou mais os seus rostos. — Queria poder me lembrar de todos esses abraços… — Também tocou no seu rosto. Segurou seu queixo e eles se olharam novamente. Sorriram juntos e Daniel avançou.

Conseguiu beijar lentamente seus lábios, era o que ele queria desde que saiu do carro de sua irmã. Se olharam de novo depois de trocar aquele selinho. Ele desceu sua mão para a nuca dela. E beijaram novamente. Perderam as contas de quantos selinhos eles trocaram, Julie parou de contar depois que chegou aos dez. Ela sabia que o clima estava esquentando, sentia as mãos dele passearem pela lateral do seu corpo, ela fechou os olhos. Daniel tentou aprofundar o beijo, queria um beijo igual ao que ganhou no hospital.

Mas Julie ‘’acordou’’ para a realidade.

Ele estava sem memória…

Abaixou a cabeça. — O que foi? — Daniel abaixou o seu rosto também e conseguiu mais um beijo lento e fraco.

- Não… Não… — Ela falava sozinha. Ele até soltou seu rosto. Um pouco assustado.

- Não o que?

Ela percebe que ele ouvia, mas dessa vez, não mente. — É errado, não somos casados…

- Mas estamos juntos. Certo? — Perguntou confuso. — Eu te pedi mais uma chance.

- Pediu. Eu sei. — Soltou as mãos dele que agora estavam na sua cintura.

Se afastou um pouco. Daniel a olhou sério, não conseguia entender nada.

- Eu vou descer para lavar o meu rosto. — Ela se abanou com as mãos. — Está muito calor aqui… — Praticamente correu pelo terraço e desceu as escadas desesperadamente.

Passou pela sala, pensou em ir até o quarto para ver o bebê, mas sabia que se sentiria ainda pior com tudo isso. Era tudo mentira, e agora se sentia confusa com ‘’ O novo Daniel ‘’ ele não se lembrava mais de nada. Era como se começasse do zero mas a diferença é que eles não eram mais aqueles adolescente apaixonados que se conheceram no colégio.

Ela estava confusa e ele? Pior ainda…

‘’ Temos toda uma história que ele… Se esqueceu! Se esqueceu de tudo! Não lembra nem dele mesmo… Da personalidade dele… Ele não era assim, está diferente agora. O Daniel que eu conheço era amoroso com a irmã dele. já agora está completamente diferente. Não lembra mais de nada’’ — Ela pensava enquanto passava pela casa. — ‘’ Imagine lembrar de nós? Ele nunca vai lembrar. Nunca vai lembrar do nosso primeiro beijo, nossos abraços… Talvez demore de recuperar a memória. Ou talvez nunca recupere ‘’ — Era pessimista. — ‘’ Ele não lembra mais do nosso casamento, nosso amor e nosso verdadeiro filho… ‘’

Estava atordoada. Se sentou no sofá para por os pensamentos no lugar. Mas antes mesmo de pensar foi interrompida.

Se levantou para atender o telefone que tocava. Estava nervosa e atendeu do mesmo jeito. — Alô?! — Ela gritou apreensiva.

- Julie? Tudo bem? O bebê está bem? — Era Bia. Logo ficou nervosa com o grito da amiga.

- Sim, sim… Está… — Passou a mão pelos cabelos, tinha até se esquecido de ver o bebê, mas sabia que ele dormia. — Bia. Preciso falar com você.

- É, disse que ia me ligar mas não ligou.

- Não deu. — Caminhou com o telefone sem fio e se sentou na poltrona. — Preciso falar com você. — Sua voz estava fraca, ela estava a ponto de chorar.

Daniel descia as escadas do corredor quando viu Julie sentada de costas para ele, conversava com alguém no telefone. Ele não queria atrapalhar. Deu meia volta e pensou em subir de novo.

- É o Daniel… — Assim que ouviu seu nome ele se virou novamente e parou na escada para escutar. — A gente se beijou.

- E isso não é bom?

- Não! E quando ele recuperar a memória? Será… Será que ele me ama mesmo?

Daniel pegou aquela pergunta para ele. No fundo, tinha certeza de que a amava de mais no passado. Só que agora estava confuso. — Julie… Para com isso, ele te ama sim, claro. Mais do que tudo!

- Eu não sei… — Fez uma careta e limpou as lágrimas que começaram a cair. — Tenho medo. Não paro de pensar no dia em que a memória dele voltar e ele lembrar de tudo… Eu estou mentindo para ele! Sobre o nosso casamento… Tem coisas sobre ele que ele mesmo não sabe o que é! Não lembra! E nós sabemos, me entende? Isso tudo me deixa muito mal, e eu não sei se amo… A nova versão dele. É tão diferente, vocês dois por exemplo. Estão tão mudados um com o outro. Vocês eram muito amigos além de irmãos… Isso mexe comigo. — Daniel continuava parado na escada. Pensou na Bia como uma amiga mas balançou a cabeça, realmente era difícil pensar nela assim, ele a detestava — Tem o problema sobre o Bryan também…- Ele mordeu seus dentes ao ouvir esse nome novamente. ‘’Bryan’’ o nome que tanto mexeu com ele — E o Daniel? Não lembra nem mesmo dos pais… Você acha que ele vai lembrar que é doente?

- Julie. — Sua voz interrompe.

Juliana se levanta imediatamente da poltrona e se vira de frente para Daniel. Se espanta ao ver ele ali. — Amig-- Ela desliga o telefone na cara de Bia, estava nervosa.

Daniel desceu cuidadosamente as escadas, ainda sentindo um incomodo na perna, ele não conseguia tirar as palavras de Julie da sua mente, queria muito entender o que estava acontecendo, equem era Bryan.

Mas agora ele tinha certeza de três coisas: A primeira é que o tal Bryan é muito importante para a Julie, a segunda é que ele tinha alguma doença que ela e Bia tentavam esconder e a terceira era que Julie não sabia se o amava. Isso tudo o deixava ainda mais confuso.

Ele pensou em pedir explicações. Mas... Estava tudo tão perfeito assim, ele com ela e com o seu sobrinho que na sua mente era seu primeiro filho. Ele não queria estragar tudo sendo inconveniente e a enchendo de perguntas. — Ainda vai jogar totó comigo?

Julie entendeu que ele não queria tocar naquele assunto do telefone, até ficou mais feliz com isso.

Deu um sorrisinho forçado. — C-claro.

Notas finais
As coisas estão complicadas... Ele nem quis tocar no assunto. Isso é bom ou ruim? E o que acham sobre os dois morando juntos com o bebê? Será que vai dar certo? E o Daniel e a Bia? Será que vão se dar bem ou continuarão brigando? Comentem! Mais tarde respondo os reviews, preciso estudar para a prova de espanhol. Beijos! :x