Corações Feridos

49 Meu primeiro e fracassado dia no trabalho.


Notas iniciais
Amei os reviews! Respondo todos mais tarde!

Era uma segunda de manhã. Daniel tinha sido chamado para ir até a sala de seu chefe. Já que ele ficou responsável de conseguir uma nova secretária. Estava um pouco nervoso, tentava ignorar seu mal-humor, afinal, era assim que ele andava desde que começou a ter um ‘’caso’’ com a Thalita. Na maioria das vezes enxia a cara de bebida e claro, no dia seguinte, acordava com ressaca. Assim como nessa manhã. — Ela chegará hoje? — Demétrius perguntou levemente interessado.

Infelizmente Daniel não percebeu o tal interesse do seu chefe, apenas respondeu. — Sim senhor, hoje... Umas dez horas. Deve estar chegando. — Disse depois de olhar seu relógio de pulso, marcava nove e quarenta.

– Demétrius... — Uma voz feminina os interrompeu, uma mulher entrou. Usava um terninho curto, óculos, cabelo preso e salto alto. — Já mandei o e-mail que o senhor pediu.

– Obrigado querida. — Compartilhou um sorriso safado, dessa vez Daniel notou, também percebeu a intimidade...''Querida''. Mas ignorou, conhecia seu chefe e sabia que ele era do tipo ‘’safado’’. — Ah, Daniel. Daqui a pouco eu vou ir para uma reunião. Fique de olho quando a novata chegar. — Pediu e o loiro assentiu educadamente. — Está vendo aquela sala ali? — Apontou para uma porta ao lado do seu escritório. — Vai ser a sala dela.

– C-claro. Se me permite... Preciso voltar para o trabalho. — Demétrius aceitou com a cabeça.

Daniel deu mais uma olhada para a secretária. ‘’ Hm... ‘’ — Estranhou aquilo. Lembrou que essa tal Ana, a secretária, era bem comportada quando chegou aqui. Mas agora... O seu jeito vulgar, sua roupinha justa e apertada e o modo como trata o chefe era muito diferente... Como se fossem amantes.

Voltou para o seu escritório. Como Thalita estava atrasada, ele precisou fazer algumas coisas sem a ajuda dela... ‘’ Ela não ajuda muito mesmo... ‘’ — Pensou. Achando que ela e nada era a mesma coisa.

Se sentou na cadeira. Ligou o computador e começou a digitar. Formatava um contrato mas suspirou, queria se distrair um pouco e então deu uma pausa no trabalho para entrar no facebook.

Nisso, Julie pegava o elevador. Se olhou no espelho que tinha enquanto subia os andares. Ela estava nervosa, trêmula. Era seu primeiro dia no trabalho, e depois de dez minutos que pisou no prédio, já havia se perdido duas vezes.

Lá era enorme, tinha muitos andares, muitas salas, escritórios... Se sentia dentro de um labirinto. Respirou fundo, fechando os olhos e torcendo mentalmente para o elevador não enguiçar, tinha pavor de elevador, mas Martim disse que era bem menos cansativo e mais rápido. Se esse prédio não tivesse tantos andares, ela ia de escada... Sempre preferiu escadas. Já que as escadas não precisavam de energia para funcionar...

O elevador parou em um andar. Ela saiu. Olhou para o corredor. Era grande e espaçoso. Reconheceu aquele corredor... Era ali que Daniel trabalhava.

No fundo se sentia um pouco insegura.

Daniel ouviu alguém bater na porta. — Hm. — Pensou que era Thalita, mas se fosse mesmo a Thalita... Ela nem ao menos bateria na porta. — Entre!

E então Julie entrou.

Se encararam sérios. Daniel a analisou. Usava um terninho, na medida certa. Usava calça em vez de saia... Era uma calça justa que ia se soltando quando chegava nos joelhos. Seu cabelo estava solto, usava um salto e ela segurava uma bolsa.

Não sorriam um para o outro, já que na noite passada Daniel foi até a casa de Bia e os dois discutiram. — Pode me ajudar? — Ela quebrou o gelo. — Esse lugar é muito grande e eu acho que me perdi.

Ele arrastou a cadeira, se levantando. — Onde quer ir?

– Para a sala do... Demétrius. — Leu o nome que estava escrito no papelzinho.

Suspirou. — Venha comigo. — Passou por ela e abriu a porta. Ela o seguiu. Cabisbaixa, Julie lembrava do seus pensamentos ontem a noite... Eram pensamentos tão intensos e profundos que quando acordou pela manhã ainda não tinha se esquecido.

Eles andavam pelo corredor. Era enorme e Daniel apertava seus passos, tinha muitas tarefas para fazer hoje e como Thalita ainda não tinha chegado... Estava tudo nas suas costas. — Então... V-você chegou bem ontem a noite? — Julie perguntou, queria puxar assunto já que os dois agora seriam colegas de trabalho.

E também... Ficou preocupada com o Daniel dirigir uma moto enquanto estava bêbado.

– Perdi as contas de quantas vezes caí de moto ontem a noite.

– Hm. E... Você não se machucou?

– Graças a Deus, não. Cheguei à ralar meu braço, mas... Não aconteceu nada. N-nem... Sangrou.

‘’Será que devo perguntar para ele sobre o exame?’’ — Ela pensava. Mordendo seus lábios. ‘’ Ele chegou no ponto que eu queria... Preciso falar para ele que eu não me esqueci disso... Que mesmo separados... Eu... Me importo com ele. ‘’

– Moto é perigoso, Daniel. Você precisa tomar muito cuidado. — Pausou, agora o encarando, ele a imitou. — Me promete que não vai mais andar de moto bêbado?

Ele só abaixou a cabeça. — É por aqui. — Apenas disse, se virando para o outro corredor.

– Daniel. — Ela o parou. — Me promete? — Pegou nas suas mãos.

– Porque?

– …

– Fala. — Se aproximou. — Porque não quer que eu ande de moto bêbado?

– Porque é perigoso, até mesmo sóbrio é perigoso! A-ainda mais bêbado... — Respirou fundo. — Vai, só promete.

– Não posso prometer isso. Ando bebendo mais do que o normal para esquecer os problemas. E eu só tenho a moto agora. Eu não vou andar à pé.

– Hm, que tipo de problemas?

Com essa pergunta, o elevador do corredor se abriu e antes dele responder, Thalita surgiu no meio das várias pessoas que estavam no elevador e se jogou em seus braços. — Amore! Desculpe o atraso! — Disse dando dois beijos no rosto dele. Percebeu Julie ali. Sentiu raiva. Ainda mais ao ver os dois juntos. Pareciam... ‘’se dar bem’’. — Deu o emprego para ela? — Se soltou, sem esconder a expressão de nojo no rosto.

– Vamos Thalita, chegou atrasada... Não perca seu tempo aqui. — A empurrou levemente. Sério.

Ela obedeceu só porque não queria estragar sua manhã discutindo com a Julie. A loira sumiu das vistas dos dois. — Parece que a Thalita não mudou nada... — Juliana comentou, ainda seguindo Daniel, que continuava sério. — Ela ainda corre atrás de você.

– Até hoje eu me pergunto o que de tão mau em fiz para merecer isso na minha vida...

– Também não é para tanto. — Riu fracamente. — Tenta dar um basta nela, de uma vez por todas.

Não respondeu, só se virou para o outro corredor. ‘’Nossa, mas como esse prédio é grande... ‘’ — Ela pensava, ainda o seguindo. Viu quando Daniel apertou o botão do elevador. — Nós vamos de elevador? É... Tão longe assim?

– Estamos no terceiro andar. E a sala do Demétrius é no sétimo. — Explicou.

– M-mas... Precisamos mesmo do elevador? Porque não vamos de escadas? — Perguntava. — E-eu... Não gosto de elevadores. — Não escondia seu nervossísmo.

– Vamos... — Ele apenas disse, aproveitando que o elevador estava vazio.

Entrou, puxando o braço de Julie para que ela entrasse também. — E-eu não sei... — Dizia ela, encarando aquele elevador. Viu seu reflexo no espelho, junto ao Daniel. — Esse espelho... Está rachado... A-ai... Daniel... E-eu estou com medo, admito que quando peguei o elevador hoje fiquei imaginando tantas coisas... — Balançou a cabeça. — Pensei que ia acontecer algum acidente ou coisa assim... — Daniel revirou os olhos.

O elevador parou de repente. Julie gritou.

Porém, não era nada de mais. Era apenas alguém chamando o elevador. A porta se abriu e um rapaz de terno e bem arrumado, assim como Daniel entrou. — Hm... — Ele mexia na sua pasta enquanto ia até o fundo do elevador. Se recostou na parede e colocou sua pasta em cima do joelho para ajeitar alguns papéis.

Até que um documento caiu. Julie se agachou para pegar e os dois se encararam. — Julie? — Ela não reconheceu o rosto, porém, já tinha escutado aquela voz em algum lugar.

– Ah, o-oi. — Deu um sorrisinho sem graça. — Q-quem é você? Como sabe o meu nome? — ‘’Essa pasta...’’ Já imaginava que o rapaz era algum tipo de terrorista.

– Sou eu! O João Paulo, mas me chame de JP! — Disse sorrindo. — O rapaz que te chamou para dançar na balada.

– Nossa! É mesmo! Me desculpe... Eu não estava te reconhecendo. — Falou corando.

– Vai para qual andar? — Daniel perguntou para JP, seu tom de voz era um pouco seco.

– Ah, o sétimo.

– Hm. — Ele apertou e o elevador voltou a andar.

Os dois continuaram conversando.

– Não sabia que trabalhava aqui, Julie.

– Hoje é o meu primeiro dia, e você? Trabalha aqui?

– Ainda não, mas pretendo. — Viu Daniel de braços cruzados, calado. — Acho que também te vi na balada, certo?

– É, foi isso mesmo.

– Sou JP. — Estendeu a mão.

– Já sei.

– Hm, e o seu nome?

– Daniel.

– Também trabalha aqui? — Sorriu.

– Trabalho. — Revirou os olhos.

– Bom, se eu tiver sorte. Consigo trabalhar aqui também. — Estava animado. — Seria o emprego perfeito, já que eu poderia ficar do seu lado, Julie. — Ela corou com aquilo.

'' E esse elevador que não chega? '' — Daniel pensava, irritado.

Já estavam no quinto andar... Chegando no sexto quando...

A luz acabou. Os três sentiram o elevador parar. Julie gritou, seus olhos se enxeram de lágrimas quase instantaneamente. As luzes de emergência coladas na parede se acenderam, deixando o ambiente meio esverdeado.

Mas o elevador em si, não voltou a andar. — Ótimo! — Daniel bateu com força na porta do elevador, não era a primeira vez que a luz acabava no prédio, geralmente acabava quando o dia era muito quente e o ar condicionado de todas as salas ficavam sempre no máximo, junto as outras máquinas que eram ligadas à energia: Computador, FAX, impressoras...

– Droga... Eu sabia! E-eu... Tenho que sair daqui! — Julie estava desesperada, deixando os dois do mesmo jeito.

– Calma. Logo logo a energia vai voltar. — JP tentava tranquiliza-lá.

– Esse aí só vê o lado bom das coisas... — Daniel murmurou. — Eu vou dar logo a real. Vamos ficar horas trancados aqui. — Julie arregalou os olhos com as palavras. — Horas! — Disse. — Não é a primeira vez que isso acontece, já fiquei preso por cinco horas no elevador. E ouvi boatos que um funcionário passou dois dias aqui dentro.

– Dois dias?!

– É Julie! Dois dias! Não seria tão ruim para mim se não fosse por certas pessoas...

– Está falando de mim é? — JP se aproximou.

Os dois se encararam de nariz empinado. — Estou falando de vocês dois! Uma medrosa e o outro um perfeitinho!

– Preferia ficar trancado com a Thalita é? — Julie mordeu seus dentes.

– Não queria estar preso!

– DROGA! — Juliana gritou, batendo com força na porta. — Nós vamos morrer sufocados aqui.

– Esse cara está acabando com todo o nosso ar! Me faça um favor, João Paulo, pare de respirar!

A garota suspirou. — Desculpe JP, ele costuma ser um pouco arrogante...

– Eu não ligo Juh... — JP sorriu, tocando no rosto da morena. — Eu estou feliz, não é todo o dia que eu fico preso com uma moça tão linda e amável...

Julie sorriu também, sentia seu rosto queimar e suas bochechas ganharem uma cor vermelha.

Ele aproveitou o momento para dar um beijo no rosto de Julie. Porém, o moreno sentiu uma dor forte no seu pé. Sabia que se tratava de um pisão. — Desculpe, está escuro aqui, não consigo enxergar direito. — Daniel sorriu de lado.

– Você tá afim de briga?

– Ia me deixar menos entediado.

Saiam faísca dos olhos dos dois. Foram para cima ao mesmo tempo. — Para! — Julie abraçou Daniel. — JP, não bate nele!

– Não preciso que você me defenda. — Respondeu um pouco grosso, porém, retribuía o abraço de Julie, torcendo mentalmente para que ela não se soltasse.

[...]

Duas horas depois, os três ainda estavam presos, exaustos. Se sentaram no chão do elevador. Julie abraçava seus joelhos e se balançava. — Eu vou morrer aqui! — Gritou, se descabelando. — Maldito espelho rachado, trouxe má sorte.

– Acredita nessas coisas de sorte e azar? — Perguntou JP, levemente intrigado.

– É, eu acredito. Mas muitas pessoas acham que isso é bobagem. — Olhou para Daniel.

– Bom, eu não acho. Também acredito. — Pausou, sorrindo. — Não tanto quanto você mas... Eu não me atrevo a passar embaixo de uma escada em uma sexta feira 13.

Julie riu. — Eu também não...

Um silêncio cresceu. Todos estavam sem assunto. Julie ainda estava assustada, Daniel entediado e JP não tinha muito o que conversar. Ele olhou para os dois. Viu que Daniel ainda o encarava torto. O encarava assim desde que os dois quase brigaram.

Lembrou do que Julie lhe disse na balada, quando ele tentou, sem sucesso, canta-lá. — Vocês não são namorados, não é? — Ele perguntou, um pouco confuso, tinha quase que certeza de que o pisão no pé que levou era mais ciúmes do que qualquer outro sentimento.

Daniel e Juliana se entreolharam e o loiro decidiu responder.

– Não.

– Hm... Então a senhorita mentiu para mim na balada, certo?

– Hã? — Corou. Lembrando do que disse à JP. — N-não... Bem... Eu não menti. N-nós somos casados. Éramos. Quer dizer...

– Entendo. — Balançou a cabeça, Daniel bufou. — Porque não deu certo?

– Acho que teria dado certo se eu não engravidasse.

– Ah, então a culpa é do nosso filho? — Daniel se intrometeu.

– Não. Ele não tem culpa de nada. A culpa é sua. — Pausou. — Eu não pretendia ter filhos... Ainda.

– Já é mãe? — Perguntou o moreno, sorrindo. — Não parece. — Completou. — S-seu corpo não mudou muito não é? Está esbelta.

– Hm. — Daniel revirou os olhos.

– É, eu sou mãe... Ou era... Nem sei mais.

– Porque? Deu seu filho para alguém?

– Não. Ele... Morreu. Com um pouco mais de um ano. Foi um... Acidente.- Soltou um suspiro longo.

– Nossa, e-eu sinto muito.

Ela só balançou a cabeça, agora estava abatida. — Muito bem, JP. — Daniel bateu palmas. — Ela não gosta de falar sobre o nosso filho. Foi uma grande perda para nós.

– Eu não sabia! — Tentava se defender, mas Julie continuava triste e Daniel irritado. — Porque não me avisou?!

– Está tudo bem JP. Não precisa se desculpar. — Ela tentou sorrir, mas não conseguiu.

Daniel estava ao seu lado. Ele alisou seus cabelos negros, ela fechou os olhos com isso e ele beijou seu rosto. Julie sorriu fracamente. Daniel segurou seu rosto e a puxou, fazendo Julie se deitar sobre seu peito. Ela se aconchegou ali.

– Qual era o nome do filho de vocês?

Com essa pergunta, Daniel se soltou bruscamente de Julie. Se levantou. — Quer nos ver abatidos? É isso?!

– Cala a tua boca! A conversa ainda não chegou em você!

Daniel o empurrou, o rapaz bateu as costas no vidro, o quebrando. Julie implorava para os dois pararem, mas foi em vão. Começaram a bater boca e a trocar socos.

Ela se encolheu no cantinho do elevador. Já não dava mais para apartar. A briga estava ficando feia. Pareciam até rivais antigos. Os dois também estava estressados com aquela situação. Queriam sair do elevador tanto quanto Julie. E descontavam essa raiva na briga.

– Daniel, por favor! Larga ele! — Ela tentou mais uma vez. Viu Daniel subir em cima de JP. Ele puxava os cabelos do rapaz e batia a cabeça dele no chão.

Ela estava nervosa com tanta violência. Começou a chorar.

JP pegou um caco de vidro do espelho, que havia se quebrado, segurou firme com as mãos. Daniel não tinha notado. Já Julie sim. — NÃO! — Berrou, se levantando. — Solta esse vidro! — Pulou em cima de Daniel.

Fazendo o loiro soltar JP. — Por favor, não machuca ele não... — Disse Julie, abraçando forte Daniel. Sujando seu terno com lágrimas. Os dois viram o nervosismo de Juliana. — Larga esse vidro agora. Pelo amor de... — Voltou a chorar forte. Soluçava. Daniel a abraçou também. — Por favor não machuca o Daniel... Não machuca... Ele não pode se machucar assim... Não pode perder sangue. — Afundou seu rosto no peito dele. O loiro beijou seus cabelos, tentando acalma-lá. — Solta esse vidro JP, eu te imploro!

– Tá... Calma. Pronto, soltei. — Disse, também tenso. Não queria que Julie chorasse. — Ai que dor de cabeça... — Passou a mão pelo rosto.

– Sch Juh, tá tudo bem... — Daniel secou suas lágrimas. — Eu... Estou bem.

– Tem certeza? — O encarou. Levantando a manga do seu terno., olhava o seu braço. — Nenhuma hemorragia interna?

– Ainda se lembra disso? Pensei que tinha esquecido. — Sussurrou.

Ela tocou no seu rosto. — Nunca vou me esquecer disso. — Admitiu. Enquanto JP estava boiando. Ela se deitou no seu peito de novo. — Quero que saiba que eu me importo com você. Muito.

Se abraçaram. Nisso, as luzes verdes se apagaram e depois de alguns segundos, o elevador voltou a funcionar. Os três sorriram.



Notas finais
Gostaram? comentem!