Coração é terra que ninguém vê
44 É o fim!
Notas iniciais
“SAI DAQUI... VAI EMBORA... AGORA!!”, Os gritos de Tom ainda ecoavam em sua mente. Um rio de lágrimas escorriam pelo rosto, enquanto o sentimento esmagador de culpa e angústia lhe tomavam as forças.
Diana, a princesa amazona de Themyscira, sentiu-se quebrada. Ela se perguntava se tudo aquilo valera a pena. Se toda dor que sentia e – pior ainda – que causara, valeria a pena. Imaginava se estaria pronta para amar quem sempre amou, sobretudo, se ele – o homem que ele amava – estava pronto para amá-la.
Passando a mão pelos cabelos negros, de forma lenta, sem pressa, como se tentasse confortar a si mesma, Diana suspirou profundamente. Olhos inchados, bochechas vermelhas, nariz escorrendo e uma dor no peito que significava o ápice de sua aflição. Terminar com Thomas lhe doera como ela jamais pensou que doeria.
Ela o amava. Ele era um homem bom, que também a amava e estava disposto a viver esse amor. Mas ela não podia seguir com esse relacionamento. Não depois de tudo que Selina lhe dissera. Não sem esgotar sua última chance de ser feliz com o homem por quem seu coração batia mais forte.
O problema é que no fundo, ela estava com medo. Estar com Bruce era, no mínimo, frustrante. Como uma dança onde se dança dois passos para a frente e, em seguida, dois para trás, movendo-se sem sair do lugar. Quando ela pensava que estavam fazendo progressos, Bruce começava a agir para afastá-la. Doía sempre... muito!
Ela limpou com tristeza lágrimas que teimavam em escorrer pelo rosto. Talvez tivesse feito tudo errado. Agora não teria nem Tom, nem Bruce. Talvez ela estivesse imaginando que Bruce se importava... Talvez ela devesse ter continuado com Tom. Ela estava confusa e aflita. Queria fugir... queria desistir...
Mas amazonas não fogem de uma batalha, pensou consigo mesma. E esta era uma luta que ela precisava vencer. Diana não sabia se poderia sair vitoriosa, mas ela precisava tentar, só precisava de uma boa razão para continuar lutando.
Diana suspirou... Mais uma vez.
*** Washington/DC – Apartamento de Thomas Tresser – Noite anterior ***
Tom estava se preparando para ligar para Diana. Ele havia voltado de sua última missão e estava ansioso para vê-la. Ele estava verificando os encartes das opções para Lua de mel quando ouviu a campainha. Seu rosto ainda trazia um sorriso honesto, pensando em sugerir que fossem para Bali. Em sua mente, seria um lugar maravilhoso e traria doces lembranças a sua noiva de sua terra natal.
Ele franziu a testa ao ver Diana na porta. Ela estava vestindo um vestido floral simples, com um romântico cardigã sobreposto e sapatilhas nos pés. Parecia uma boneca, angelical e doce. Mas o sorriso que ele trazia no rosto logo se dissipou quando ele viu o rosto dela ostentar uma expressão de dor.
— Meu amor – Tom deu passagem a ela para entrar – Como você está? Pensei que só nos veríamos mais tarde! – Ele a beijou rapidamente nos lábios.
— Eu... Eu... precisava falar com você – Diana sorriu nervosamente.
— Bom... que tal ao invés de sairmos pra jantar, eu preparar algo pra nós? Assim podemos ficar juntos e aproveitar a noite com mais tranquilidade.
— Tom, eu... – Diana estava nervosa e cabisbaixa.
Tom começou a sentir-se angustiado. Por que ele estava de repente nervoso?
— Diana, o que aconteceu? Você não parece bem. Está tudo bem?
Diana não respondeu imediatamente. Em vez disso, ela olhava para o chão e apertava as mãos, unidas, como se estivesse em oração.
— Não, Tom... Não está... eu... quero dizer... eu... – Diana olhou para cima e encontrou os olhos castanhos de Tom. Ela tremia e não conseguia falar.
Havia um alerta na mente de Thomas Tresser quando ele perguntou: – Qual o problema, querida? Alguém machucou você? O que está havendo, Diana?
— Não, Tom... eu estou bem. É sobre nós... sobre o casamento!
Tudo que Tom pode fazer foi uma careta, com incredulidade. Mas ainda sim, ele perguntou: – Vamos precisar adiar? Não tem problema, Di. Nós adiamos... o importante é estarmos juntos!
— Não vamos adiar, Tom... Nós... eu... eu não posso, Tom. Não posso me casar. Eu, simplesmente não posso.
Tomas engasgou. Ele levantou e foi até a varanda. Alguma coisa o impedia de respirar. Por mais que ele buscasse fôlego, o ar teimava em não preencher os pulmões. Havia um nó em sua garganta e por alguns momentos, sua mente vagou achando que tudo aquilo era um mal entendido. Então ele riu:
— Cancela? Por quê? O que diabos deu em você, Diana? Por quê?
— Eu não posso me casar com você porque eu não posso enganar meu coração – Diana vacilou, mas foi honesta.
— Então, você está me dizendo que me enganou este tempo todo. Que não me ama!
— Não, Tom. Eu não te enganei. Eu te amo... mas... Não é como deveria ser. Eu não posso condenar você a ter meu coração pela metade. Não é justo.
Tom congelou. Ele sentiu seu coração afundar: raiva, dor, decepção, frustração. Tudo de uma vez e, pior, amor. Ele odiava a mulher a sua frente, porque ele a amava demais. Diana mordeu os lábios. Normalmente, Tom iria sentir seu sangue fervendo de paixão e luxúria com a visão da mulher linda mordendo sedutoramente os lábios, mas esta noite, tudo que ele sentiu foi raiva e confusão.
— Tom... me desculpe.
— Diga a verdade, AGORA... EU QUERO OUVIR DA SUA BOCA! – Ele a segurou pelos braços, tentando controlar a fúria.
— Eu te amo, Tom. Eu não estou mentindo. Acredite em mim, por favor! – As lágrimas já escorriam pelo seu rosto – Mas eu percebi que esse amor não é um amor de marido e mulher, Tom. Eu imaginei que poderia ser. Que poderíamos ser felizes juntos, eu juro. Mas agora, eu não consigo mais ver um futuro feliz para nós, Tom. Eu não consigo!
— É isso mesmo, Diana? Ou é por causa dos seus amiguinhos? Me diga qual dos dois: Bruce Wayne ou o Superman como as revistas e jornais falam? Eu sou um idiota! – Tomas socou a parede com força.
— Não, Tom. Pare! – Ela tentou segurá-lo.
— NÃO TOQUE EM MIM! SAI DAQUI... VAI EMBORA... AGORA!
Embora Diana estivesse genuinamente arrependida da dor que causara a ele, ela agüentou sua fúria com valentia. No fundo, ela achava que merecia sua raiva, seus xingamentos, sua grosseria.
— Bom, agora você está livre, minha senhora. Pode voltar para o seu playboy... Ah, desculpe... eu esqueci... ele não quer você! Sinto muito!!
— Tom, para! O Bruce não tem nada a ver com isso. Por favor, para!
— SAIIIIIII AGORA! – Ele grita, furioso – Antes que eu faça algo estúpido, Diana. Por favor... – A voz estava fraca quando ele sentou no chão. – Por favor, vá, Diana. Eu estou cansado!
— Tom, me perdoe!
— Basta ir, Diana. Nunca mais volte!
Esmagado! Era assim que o coração de ambos estava. O dano fora feito de qualquer maneira e não havia nada que pudesse repará-lo. Talvez... um dia, o tempo fosse capaz de diminuir as rusgas e mágoas.
Diana abaixou a cabeça novamente. Em seguida, ela balançou a cabeça e foi até a varanda. Ela nem sequer se preocupou em usar a saída normal. Em vez disso, ela abriu as portas de vidro corrediças e voou para longe. Tom cerrou os maxilares. Ele estendeu a mão para um porta-retrato dos dois e jogou na parede. A audição meta de Diana captou o som dos estilhaços, mas ele não se importou nem um pouco.
*** Torre de vigilância – Um dia após o término ***
Diana se esforçou para manter sua expressão em branco quando seus olhos encontraram o de Bruce nos corredores do Sentinela. Seus pensamentos e sentimentos estavam em tumulto. As linhas entre realidade estavam turvas e as imagens de uma felicidade reproduzida em sua mente giravam em sua cabeça. Diana ainda estava lidando com a dor de cabeça e o coração partido, com o misto de alívio e frustração. Tantas coisas precisavam ser ditas entre ela e Bruce, mas as palavras lhe falharam. Havia tantas perguntas que precisavam ser feitas, que precisavam ser respondidas. Mas ela não conseguia falar. Ela não queria falar, porque ela nem sabia por onde começar. Ela estava com medo de pronunciar uma única palavra que pudesse quebrar aquele momento frágil, rasgando o coração de ambos, mantendo-os ainda mais distantes um do outro... Talvez, para sempre.
Diana sentia a dor de estar tão perto dele, mas ainda sim, assisti-lo ir embora, sem nunca dizer o que precisava ser dito. Sem saber o que poderia ter sido.
Ela não disse que cancelara o casamento... Não ainda. Não até ter certeza de que era o momento certo!
Ainda no corredor, Diana queria desviar o olhar, mas o olhar de Bruce permanecia a encará-la, por baixo das lentes opacas, com firmeza, investigando-a, sondando-a e ela sentiu a pontada de culpa e outras emoções que não podia definir a invadir-lhe o peito.
Mas algo a surpreendera naquele momento. Ele parecia disposto a mostrar-se para ela. Era uma leve sutileza na sua postura, semi-rígida. Ele estava permitindo que ela o enxergasse de verdade? Abrandando o auto-controle? Onde isso os levaria? Era uma mostra de que valeria a pena lutar por ele mais uma vez? Os olhos dela lhe perguntaram silenciosamente. Diana quase sorriu com a ironia. Apesar de tudo o que aconteceu, ela percebeu que o único que poderia consertar seu coração partido era a mesma pessoa que o tinha rasgado em pedaços.
Diana observou quando Bruce aproximou-se, elevando-se sobre ela, envolto em sua capa, com a mandíbula rígida mostrando a determinação teimosa de sua personalidade forte. Ele tentou decifrar a expressão de Diana, à procura de uma pista. Ela era geralmente fácil de se ler com seu belo rosto honesto e expressivo. Mas desta vez, suas feições permaneceram impassíveis, enquanto segurava seu olhar. Nenhum traço de mágoa ou raiva. Nenhum traço de felicidade também. Nada! Ele olhou para ela, mantendo seu silêncio, com medo de dizer qualquer coisa que pudesse afastá-la ainda mais dele. Tudo que ele queria era pedir a ela que não se casasse. Ele não iria suportar vê-la no altar com outro homem.
Bruce queria dizer a ela muitas coisas. Ele queria dizer a ela que depois de tudo, ele havia mudado. Que ainda é o Batman e sempre será, mas Bruce Wayne estava cansado de ser uma máscara e, se ela não se casasse, ele estaria disposto a mudar tudo. Que Bruce, o verdadeiro, era um amálgama em meio ao Playboy e o Morcego e por ela, estava disposto a ser Bruce, apenas Bruce.
Tudo que ele queria era abraçá-la e dizer que sentia muito. Pedir que ela não o deixasse, mas era difícil. Ele só conseguia olhar seus olhos tristes e confusos, em silêncio, nada mais.
Ele queria ter coragem de admitir para ela que estava arrependido de negar a ambos um pistão de felicidade que eles mereciam. Bruce queria desviar o olhar para esconder a culpa e dúvida, mas forçou-se a encontrar os olhos de Diana. Ele começou a ver sinais de mágoa e raiva dela, mas também de esperança e isso inflamou seu coração.
Bruce viu uma lágrima cintilante cair dos magníficos olhos da princesa. Ele abriu os braços, oferecendo-lhe um abraço, ainda em silêncio. Não havia lugar para as palavras.
— Eu só quero que você seja feliz, princesa. – Envolvendo os braços em volta dela, Bruce esfregou o queixo contra sua têmpora. – Talvez um dia, você possa me ajudar a encontrar uma maneira de você me perdoar por tudo!
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