Coração é terra que ninguém vê
27 Decisões difíceis
*** Um ano após o incidente com Savage ***
Alfred abriu a porta da suíte master da mansão Wayne atravessando as suntuosas antessalas que precediam o quarto principal. Não havia necessidade de formalidades quando o mordomo anunciou sua entrada. Ele conduzia um daqueles carrinhos utilizados no serviço de quarto para o transporte de refeições. Bruce sentiu o aroma do café invadindo o canal olfativo quando a brisa da manhã levou o cheiro até o banheiro, onde ele fazia a barba.
Havia uma oferta de comida digna de príncipes à sua disposição, mas os humores de Bruce não iriam permitir que ele se deliciasse. Hoje não seria um bom dia. Definitivamente!
— Bom dia, mestre Bruce. – Alfred o saudou com a cortesia habitual – Devo dizer-lhe que Miss Diana pediu que o informasse que ela já está pronta. Ela o espera na biblioteca.
— Obrigada, Alfred. Diga-lhe que eu já vou descer. Não vou levar mais que dez minutos – Ele respondeu ainda trabalhando na barba.
Alfred se preparou para sair quando resolveu tomar o caminho de volta até o banheiro – Senhor, permita-me uma incursão sobre seus planos para o dia de hoje?! – Bruce não respondeu – Me sinto na obrigação de alertar-lhe que Miss Diana está muito feliz à sua espera. Desde que o senhor lhe disse que a levaria em um passeio, ela exibe um sorriso permanente. – Ele respirou fundo – Ela não deve ter dormido de ansiedade, já que eu a vi zanzando pela casa madrugada adentro.
Bruce olhou o relógio marcando 10h.
Alfred sabia o que estava fazendo. Se era dor que ele pretendia causar em Bruce, ele havia conseguido.
(...)
Diana não conseguia esconder a alegria que estava sentindo novamente. Nos últimos dois meses, apesar de morarem na mesma casa, ela e Bruce eram completos estranhos e ela mal conseguia vê-lo. Os problemas em Gotham causados por Harvey Dent (Duas-Caras) trouxeram a tona a fase mais tenebrosa que Diana já vira. Por duas semanas, TODOS os habitantes da mansão evitaram Bruce, permanecendo a maior parte do tempo em seus quartos se ele estivesse em casa. Bruce Wayne era praticamente um comensal da morte.
Ele havia adotado Dick há dois anos, um ano antes do acidente com Diana e as chamas. Dick Grayson era o integrante mais jovem de uma família de acrobatas de circo chamada "Os Graysons Voadores", assassinados a mando do gangster Anthony Zucco, que estava extorquindo dinheiro do proprietário do circo. Enquanto investigava o crime, Batman colocou Dick sob sua tutela, vindo a treiná-lo em várias artes marciais e técnicas de detetive. Em um ano ele se transformara no Robin.
Desde que Bruce a convidara para morar na mansão, há um ano, Diana teve a chance de conhecer Bruce de verdade. Ele havia dito que a amava e que iria dar a eles a chance de um relacionamento. Seu quarto na mansão fora preparado para recebê-la com os caprichos decorativos detalhados e pessoais demais para um hóspede temporário. Dias mais tarde Alfred confirmara que veio de Bruce a ordem de fazer com que seu quarto fosse preparado para ser permanentemente seu e não um quarto de hóspedes.
Ela esperou por ele por dias. Esperou pacientemente pelo dia em que a chance seria dada a ambos. No início, ela pensou que ele queria que ela se recuperasse completamente. Mas depois de dois meses, ela começou a duvidar que ele cumpriria a promessa. Vez ou outra eles trocavam beijos e carícias, mas Bruce parecia estar sempre se segurando, nunca estava com ela por inteiro.
Ela se sentia frustrada e infeliz. Sua vontade de ir embora só não era maior que seu amor por Bruce. Em um ano, ela chegou a fazer as malas várias vezes, mas Alfred e Dick sempre a impediam. Com o tempo, ela decidiu concentrar-se apenas no que lhe dava prazer: a biblioteca, a piscina, os cavalos, o jardim – que ela e Alfred amavam – a cozinha – onde o mordomo a ensinara seus truques e receitas – os jogos e filmes com Dick.
Em raras ocasiões, Bruce mostrou vestígios do amor que ele lhe confessara na caverna. E quando Dick foi ferido gravemente por Duas-Caras em uma de suas patrulhas, a distancia entre eles se intensificou.
Até aquele dia... Em que ele a convidou para um passeio em Washington. E seu coração disparou de alegria novamente.
(...)
Clark vinha à Gotham uma vez por mês para visitá-la. Era um dia ou um fim se semana muito feliz. Ela sentia muita falta dele. Estava acostumada à sua presença constante em sua vida por quatro anos. Mas talvez não fosse por isso. Talvez a saudade do kryptoniano lhe doesse mais porque ela precisava dele agora que Bruce estava tão distante.
— Como estão as coisas com Bruce? – Clark sempre começava com a mesma pergunta.
— Nada mudou. Ele continua paranóico, solitário, infeliz e mau humorado – Ela ia sugerir que eles protocolassem as conversas porque a pergunta era sempre a mesma e a resposta também.
Kent balançou a cabeça em negação. Quando as coisas com ele parecem próximas de um caminho menos miserável, ele surta e volta à escuridão de costume. ‘Um passo pra frente e dois pra trás’, Kent pensou.
Eles conversavam sobre trivialidades, o novo emprego de Kal como jornalista no mesmo jornal de Lois. Como ele estava orgulhoso dela, que estava trilhando um caminho de sucesso e reconhecimento profissional.
Diana viu seus olhos brilharem com a menção à Lois. ‘Será que Bruce um dia vai ter orgulho de mim? Que vai falar sobre mim como os olhos brilhantes como estrelas?’, ela lamentou o sentimento um pouco invejoso de sua parte. Não que ela quisesse roubar Clark de Lois ou interferir num relacionamento feliz. Ela desejava para si e Bruce algo assim também.
(...)
Em meados de março – mês de aniversário da explosão que lhe causara lesões graves – Bruce começou a agir de forma diferente com ela. Estava longe de ser um comportamento romântico, mas pelo menos era amigável e agradável. Além da surpreendente presença dele na casa com maior frequência, interagindo com ela, Alfred e Dick, e passando mais tempo na casa, ao invés de ficar exclusivamente na caverna, usando um único cômodo da casa: seu quarto para dormir.
Ele parecia tranquilo e relaxado. Várias vezes na semana, acordava cedo para tomar café na cozinha com ela, Alfred e Dick. Eram momentos muito felizes entre eles. Bruce nem sabia que havia tanta alegria em sua casa. Ele estranhou um dia, quando decidiu acordar cedo para tomar café e não viu a mesa da luxuosa sala de jantar posta. Alfred jamais cometeria a ultrajante gafe de atrasar qualquer um de seus rigorosos horários. Foi quando ele ouviu o som de gargalhadas vindo da cozinha.
Dick e Diana estavam sentados em bancos elevados, em frente à bancada americana que lhes servira de mesa. Alfred estava na outra extremidade, de frente pra eles. Ele devia estar contando algum tipo de anedota, porque Dick e Diana não paravam de rir. Aquela cena causou um impacto que ele não esperava. A familiaridade entre eles era tanta que não era difícil deduzir que os laços afetivos eram profundos. Eram todos amigos, com Bruce como denominador comum, engajados na missão de não desistir dele, por mais doloroso que fosse.
Vê-los assim quase o fez desistir de seus planos, mas ele precisava ser forte. Então, era hora de pô-lo em prática:
— Diana, amanhã vamos à Washington?! – Ele disse e viu o sorriso nos lábios dela.
— O que vamos fazer, Bruce? – Ela disse timidamente.
— Vamos dar um passeio. Você quer? – Ele respondeu com um sorriso falso que ela estava empolgada demais para notar.
A franqueza da alegria da amazona não deixou dúvidas de que a resposta era sim. Mas também partira o coração dele.
(...)
Bruce sempre parecia atraí-la e afastá-la ao mesmo tempo. Ela passou um ano inteiro nesta dança com ele. Eles trabalharam bem juntos e eram amigos. Havia uma relação de confiança muito honesta entre ambos. Ela sabia que ele se preocupava demais com ela e tentava não transparecer. Mas Alfred sempre lhe dissera que ele se preocupava em dar tudo que ela precisasse, mas sem que ela soubesse que era ele quem cuidava dela.
Diana gostava de passar seu tempo com a família Morcego. Alfred era um reservatório amigo que ela amava. Dick a ensinou a jogar xadrez e flertava com ela como uma espécie de brincadeira entre eles. Ele ainda a ensinou a dirigir o Porsche de Bruce, que ficou irritado, é claro. Só Bárbara não parecia interessada em ser sua amiga. Dick dizia que ela tinha ciúmes de Diana, mas a princesa nunca tomou este caminho como verdadeiro.
Uma semana atrás, antes de Bruce convidá-la para ir à Washington, ela estava na batcaverna quando o batmóvel adentrou o recinto. Bruce e Dick estavam gravemente feridos.
— O que aconteceu? – Diana gritou, correndo para o carro para retirar Bruce e Dick.
— Alguns capangas de Harvey balearam Bruce, Di... A culpa foi minha. Eu tentei abater uns caras, pra mostrar a ele que eu podia, mas eu me pus na linha de frente e ele foi me salvar. – Dick estava aflito, quase em prantos.
— Calma, Dick, você também está ferido. Eu vou chamar Alfred e nós vamos cuidar de vocês dois. – Diana colocou Bruce na baia médica e chamou Alfred.
O mordomo estava cuidando de Dick, que havia levado uma surra, enquanto Diana removia as três balas que Bruce levara em locais não-fatais, limpando os ferimentos e o costurando depois.
— O que aconteceu? – Ele gemeu.
— Você levou três tiros e desmaiou... mas só depois de salvar o Dick – Diana suavemente disse a ele.
Bruce mudou de posição, fez uma careta e se sentou. "Já passei por coisa pior", Bruce sorriu para ela.
— De alguma forma isso não me surpreende – Ela balançou a cabeça e sorriu de volta.
Bruce olhou nos olhos dela e Diana começou a sentir calor na boca do estômago. Bruce se inclinou e apertou seus lábios contra os dela. Ela imediatamente devolveu o beijo e se perdeu em uma onda de paixão. O beijo se intensificou e Bruce puxou para mais perto enquanto ela passou os braços em volta do pescoço. Um gemido de dor de Bruce tirou Diana de seu mundo de prazer. Suas bochechas estavam avermelhadas quando ela olhou para ele.
— Eu sinto muito Bruce, eu não tive a intenção de te machucar. – Ela disse, envergonhada.
— Está tudo bem, Diana. Talvez quando eu estiver um pouco melhor as coisas fiquem melhores. – Ele passou a mão pelo seu rosto e lhe deu um beijo rápido.
(...)
Uma semana depois, Bruce levou-a para Washington. Eles fizeram compras nas lojas mais sofisticadas da cidade e almoçaram num pequeno bistrô francês bastante pitoresco. O coração de Diana galopava quando eles entraram em um apartamento lindamente decorado. Ela estava esperando que hoje talvez eles pudessem terminar o que começaram na semana passada. Os olhos dela brilhavam quando ela olhou para Bruce e sorriu.
— Você gostou do apartamento, princesa? – Bruce perguntou e abriu uma pasta que ele havia trazido com ele.
Diana olhou em volta entusiasmada. O apartamento estava decorado em tons pastéis suaves e brancos. Haviam grandes janelas e portas francesas que conduziam a uma varanda com vista para um lindo parque Central. O mobiliário parecia confortável e tinha linhas modernas bem definidas.
— É lindo, Bruce! – Ela respondeu.
— É seu! – Ele disse, entregando-lhe um conjunto de chaves.
— O quê?! – Diana gritou chocada.
Bruce entregou-lhe um envelope grande, que havia tirado da pasta.
— Eu criei uma identidade para você e coloquei a propriedade do apartamento em seu novo nome. Dentro deste envelope estão todos os detalhes de sua nova identidade e a escritura do apartamento. Eu também consegui um ótimo trabalho pra você aqui. – Ele disse, sem querer olhar nos olhos dela.
— Mas por que, Bruce? Eu não vejo razão para ter um apartamento! – Ela disse timidamente.
— Porque agora você terá um lugar só seu e não vai precisar de ninguém para abrigar você! – Ele tentou sorrir e falhou.
Diana sentiu um aperto na garganta quando ela disse ofegante: – Mas por que ficar em um apartamento aqui? Por que não em Gotham?
— Você sabe que eu não quero metas em minha cidade, Diana. E você vai gostar daqui. É melhor que Gotham com toda a sua escuridão. Gotham só vai fazer mal a você – Bruce tinha uma voz fria.
Diana sentiu o estômago embrulhar. Ela queria vomitar, correr, chorar... Bruce estava essencialmente a arrancando de sua vida, como uma erva daninha. Diana não conseguia esconder a dor que ela sentiu quando ela olhou para ele.
— Eu quase me esqueci, aqui tem um cartão de débito. Eu configurei uma conta para você no Banco da Capital, você pode retirar a quantia que precisar e meu gerente de negócios vai cuidar das suas contas, princesa. Eu não quero que se preocupe com nada.
Diana olhou para o cartão Visa platinum que Bruce lhe entregou. ‘Diana Prince’ era o nome que constava no cartão. Nenhuma palavra saiu de sua boca e algumas lágrimas caíram sem que ela pudesse controlar.
– Diana, não chore. Eu só quero que você seja independente para viver no ‘mundo do homem’ e se torne parte dele. Isso vai ser bom pra você. – Ele parecia tentar convencer a si mesmo.
Esse discurso não a convencera. Tudo que ela sentiu é que, pra ele, o bom mesmo era empurrá-la pra fora de sua vida. A ilusão que ela tinha de que ele a amava desfez-se naquele instante. Ela tinha acreditado que ele gostava de tê-la na mansão e depois do beijo na semana passada, ela teve certeza que sim.
Ela se sentia como uma mulher estúpida e incompetente, abrigada pela bondade dos outros, incapaz de cuidar de si mesma. Ela não era independente como ele queria. Ele ainda estava fornecendo tudo para ela, mas agora que ela sabia que ele não a queria. Infelizmente, por causa de seu recente “despejo de casa”, ela não tinha outro lugar para ir e precisava engolir seu orgulho.
— Obrigado Bruce, pelo apartamento e pelo cartão. Quando eu devo me mudar? – Ela disse suavemente, quasesem conseguir falar por causa do aperto na garganta.
— Amanhã mesmo. Eu já providenciei que as roupas que compramos hoje sejam entregues aqui.
(...)
Eles deixaram o apartamento e seguiram para Gotham. Ela subiu para seu quarto após o seu regresso para a mansão e arrumou suas poucas posses. Alfred tinha obtido para ela algumas roupas essenciais e produtos de higiene pessoal. Ele também tinha lhe dado alguns romances de Jane Austen, que ela amava ler. Ela ouviu uma batida na porta. Alfred entrou quando ela disse para entrar.
— Miss Diana, você se juntará a nós para o jantar? – Alfred perguntou.
Diana virou-se para olhar para ele. Ele parecia ter uma expressão triste em seu rosto.
— Não Alfred, obrigada. Eu não sinto vontade de comer absolutamente nada – Ela respondeu, chorosa.
— Eu entendo. Mestre Bruce me disse que você estará deixando-nos amanhã. Devo dizer que estou muito triste em sabê-lo – Diana pensou ter ouvido um pouco de raiva em sua voz normalmente neutra.
Ela sentiu as lágrimas se formando no fundo dos olhos: – Sim, Alfred. Mas você pode me visitar, não é? – Ela disse com uma voz calma.
— De fato! Eu ainda tenho que terminar de ministrar-lhe minhas aulas de culinária.
Diana virou e sorriu para Alfred. Foi bom saber que algumas pessoas ainda a queriam por perto.
— Sim, você ainda não me mostrou como fazer cheesecake e eu preciso saber como fazer isso sozinha, agora que eu sou uma mulher independente. – Sua voz tornou-se mais dura com as últimas palavras. Lágrimas correram por seu rosto.
Alfred tomou sua mão: – Miss Diana, eu ... – Alfred parecia ter perdido as palavras.
Diana sentiu sua raiva crescente. Seu orgulho tinha sido gravemente ferido.
— Ele criou uma nova identidade para mim e me disse que eu deveria ser independente, mas eu não sei como isso é possível, dado o fato de que ele ainda está pagando por tudo. Alfred, eu não tenho dinheiro para pagar nada do que ele me deu. Realmente fere o meu orgulho saber que tenho que depender dele para me dar alguma coisa quando ele claramente não me quer por perto. – O volume de sua voz aumentou de forma constante enquanto ela falava.
Alfred sabia o motivo de seu Mestre Bruce ter feito isso e não incluía o fato dele não a querer e sim o contrário. Ele já se culpava pelo que acontecera com ela por causa de Savage e depois do espancamento de Dick, ele resolveu que a amava demais para deixá-la correr o perigo de ficar ao lado dele.
Alfred manteve suas opiniões para si mesmo e em vez disso, ofereceu ajuda: – Eu acho que posso ajudá-la com isso. Você poderá pagar Mestre Bruce em poucos meses.
— Alfred, isso seria ótimo – Diana exclamou, com um sorriso choroso.
— Eu tenho algumas ligações a fazer e em seguida, eu posso contar-lhe meu plano. – Alfred viu a satisfação no rosto de Diana.
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