Narrado por Jacob


A clareira estava silenciosa, exceto pelo som das folhas balançando ao vento e o baque ocasional de corpos se chocando durante o treinamento. Jasper assumiu a liderança com precisão militar. Ele andava em círculos, a voz firme e controlada, explicando cada detalhe sobre os recém-criados.

— Eles são mais fortes que vampiros normais — explicou Jasper. — Guiados apenas pela sede e instinto. Não sentem dor, não recuam. E o mais importante... são desorganizados. É aí que está a vantagem de vocês.

Observei atentamente, mas meus olhos sempre acabavam desviando para ela. Nessie estava sentada no chão, encostada em uma árvore. Usava uma jaqueta de lã grossa, os braços cruzados sobre os joelhos. O olhar curioso se perdia entre os movimentos de Jasper e os combates simulados dos Cullen.

Seth, sempre entusiasmado, se aproximou dela em sua forma de lobo e se sentou ao lado. Vi quando ela estendeu a mão e afagou os pelos dele com um sorriso pequeno. Aquilo me incomodou mais do que deveria.

"Para de bancar o cãozinho ciumento", a voz mental de Leah soou com desdém em minha cabeça. Ela rosnou baixinho na minha direção. "Ela nem é sua."

Bufei e desviei o olhar. Não estava com cabeça pra discussão interna de matilha.

Os treinos continuaram por mais uma hora. Jasper fez questão de mostrar como se esquivar, atacar os pontos fracos e como trabalhar em dupla. Edward ficava ao fundo, trocando ideias com Sam e Emmett. Eu absorvia tudo, mas a tensão no ar era pesada demais.

Quando o treino terminou, Bella se aproximou de Edward, que falou algo em seu ouvido. Em seguida, ela se virou para Nessie e disse:

— Vamos para casa dos Cullen.

— Não. — A resposta de Nessie foi rápida e firme. — Quero ir para casa.

Bella cruzou os braços, claramente irritada.

— Edward não pode ir até a casa do Charlie. Você sabe disso. E você não pode ficar sozinha.

Emmett, como sempre intrometido, disse com um sorriso:

— Jake pode levar vocês. É só uma carona, ele não vai entrar.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Nessie resmungou:

— Claro, ótima ideia. Assim o Charlie pode dar um tiro na testa dele.

Todos os lobos, incluindo Sam e Quil, riram alto. Até Jasper sorriu de lado. Eu revirei os olhos, tentando manter a compostura, mas a provocação dela me atingiu como um soco.

Bella, por outro lado, não achou graça nenhuma.

— Isso não é engraçado, Renesmee!

— Relaxa, Cherrie — Ela ergueu as mãos, zombeteira. — É melhor ficarmos juntas, certo? Por segurança. Afinal... somos só duas humanas frágeis cercadas por vampiros e lobos.

Bella bufou, e eu desviei o olhar pra esconder meu riso.

Sim, aquilo ainda era só o começo.


Narrado por Renesmee


A bola quicou no chão e parou aos pés de Salem, que fingiu desinteresse antes de, com toda a dignidade felina do mundo, dar um bote preguiçoso e agarrá-la com as patas. Sorri, jogando novamente o brinquedo pela terceira vez, apenas para tentar espantar o tédio que parecia grudar na minha pele como um cobertor molhado.

Estava cansada.

Cansada de me esconder, de fingir que estava tudo sob controle, de esperar por notícias que nunca chegavam. Riley ainda estava desaparecido, Seattle parecia cada vez mais distante e inalcançável, e eu, a queridinha da confusão, agora era obrigada a suportar a companhia de uma meia irmã carente e de um ex-namorado que parecia ter virado sombra.

— Dane-se. — murmurei, levantando do colchão antigo que rangeu em protesto.

Peguei minhas botas, calcei-as com pressa, e vesti uma jaqueta qualquer por cima da camiseta. O ar dentro do quarto era sufocante. Precisei sair. Precisava pensar. Ou talvez só dirigir para lugar nenhum.

Destranquei a porta e desci os degraus, já com a chave da caminhonete na mão. Encontrei Bella sentada no sofá, uma bacia de pipoca equilibrada entre as pernas, assistindo alguma comédia romântica boba na TV.

— Onde você vai? — ela perguntou, franzindo a testa.

— Dar uma volta. — respondi, seca.

— Você não pode. — disse ela, levantando rapidamente e me seguindo.

Ignorei. Continuei andando até a caminhonete velha de Charlie estacionada na frente da casa. Abri a porta e entrei, ajustando o banco e colocando a chave na ignição.

Bella entrou no lado do passageiro antes que eu pudesse dar partida.

— O que você acha que tá fazendo? — perguntei, irritada, virando pra ela com um olhar fulminante.

— É perigoso lá fora — ela rebateu, a voz carregada de preocupação.

— E os seguranças? — provoquei, cruzando os braços.

Ela hesitou por um segundo, depois respondeu, sem olhar diretamente pra mim:

— Os lobos precisavam descansar. E os Cullen... foram caçar.

— Claro. Ótimo plano de segurança. — resmunguei, virando a chave.

O motor roncou e a caminhonete ganhou vida.

— Renesmee! — ela exclamou, quase saltando do banco. — Não podemos simplesmente sair assim!

— Eu posso. Você que escolheu vir. — soltei, pisando no acelerador.

A caminhonete arrancou pela estrada de cascalho, deixando para trás o chalé e todo o tédio e controle que ele representava.

Eu só queria respirar.

Nem que fosse em silêncio.

Nem que fosse com Bella ao meu lado, reclamando o caminho inteiro.


— Dirige com mais calma, Nessie! — Bella praticamente gritou enquanto eu manobrava a caminhonete velha de Charlie pela estrada de terra.

— Relaxa, Bella. Já acionou os seguranças ou tá esperando eu virar estatística? — provoquei, jogando um olhar de canto enquanto ela digitava furiosamente no celular.

— Você é insuportável! — ela bufou. — Mimada, arrogante, teimosa...

— Continua que tá ficando bonito — rebati, com um sorriso irônico.

Ela bufou outra vez, mas antes que conseguisse responder, PÁ!

O barulho seco e o tranco do carro nos fizeram gritar. A caminhonete deu uma guinada para o lado, e eu forcei o volante até conseguir parar. O carro rangeu, se arrastando até a beira da estrada antes de finalmente parar.

— Você tá de brincadeira comigo, né? — murmurei, saindo do carro e batendo a porta com força. — Isso é culpa sua!

Minha? Foi você quem pegou esse carro caindo aos pedaços! — Bella retrucou, também saindo e analisando o pneu destruído.

— Ótimo. Agora a gente tá no meio do nada, sem sinal, sem lobos, sem vampiros e com um pneu arrebentado e uma lunática querendo nos matar...Que aventura, hein? — cruzei os braços, encarando a floresta silenciosa ao redor.

— Eu conheço uma trilha que leva direto à estrada principal. A gente pode cortar caminho até algum local e pedir ajuda.

— Ah, claro! Porque se enfiar na floresta escura com a irmã esquisita e irritante é uma ideia maravilhosa. — Dei dois passos pra trás, erguendo as mãos. — Vai lá, morre sozinha, Bella.

— A única que vai morrer aqui é você, se continuar exposta no meio da estrada! — ela rebateu, já caminhando rumo à trilha entre as árvores.

Suspirei com força, cerrando os dentes. Tudo em mim gritava pra voltar, me trancar no quarto e esperar os lobos ou os Cullen. Mas alguma coisa dentro de mim — talvez o mesmo instinto que me fez sair de casa naquela noite — me empurrou para frente.

— Dane-se. — murmurei, marchando atrás dela com passos pesados. — Mas se um urso pular na gente, eu juro que te empurro na frente.

— Ótimo, assim eu não morro sozinha — ela respondeu sem olhar pra trás.

E lá fomos nós. Duas Swan mal-humoradas e sem noção, se metendo mata adentro, com o caos nos calcanhares.

— Isso aqui não tá certo… — murmurou Bella pela terceira vez, o rosto iluminado apenas pelo brilho fraco do céu encoberto que anunciava a chegada da noite.

Eu a ignorei, pisando firme sobre a terra molhada, os galhos estalando sob minhas botas.

— Sem sinal… — ela disse, balançando o celular no alto, como se isso fosse fazer alguma diferença. — Perfeito. Estamos no meio do nada, sem carro, sem segurança e com a senhorita teimosa querendo provar um ponto!

Revirei os olhos, irritada. Ela precisava mesmo falar?

— Você faz isso pra se vingar — ela disparou de repente, a voz carregada. — Porque não consegue seguir em frente. Porque ainda vive no passado.

Parei de andar. Aquilo foi um soco no estômago.

— Cala a boca — murmurei, sem me virar. Meu peito ardia.

— Você acha que todo mundo tem culpa porque a sua vida não saiu como você queria, não é? — ela continuou, a voz vindo mais próxima. — Mas talvez, só talvez, você seja parte do problema, Nessie!

Me virei com os olhos cheios de raiva.

— Você não sabe de nada!

— Sei o suficiente pra perceber que você prefere se enterrar em mágoas do que olhar ao redor e ver quem ainda tá aqui por você!

A discussão explodiu. Eu avancei primeiro, e logo estávamos rolando pela lama, como duas adolescentes em plena birra. Eu bati nela com os punhos, sem muita força, só pela raiva, pelo cansaço, por tudo.

— Você arruinou tudo! — gritei, sentindo lágrimas misturadas à chuva fina que começava a cair.

Bella me empurrou com força e inverteu a posição, ficando sobre mim.

— E você é uma ingrata mimada! — gritou de volta.

— Cale a boca! — urrei, tentando empurrá-la.

Mas então uma voz masculina cortou o ar, firme e fria:

— Que cena… tocante.

Ambas congelamos.

Bella saiu de cima de mim, devagar, virando o rosto em direção à trilha à nossa esquerda. Seu corpo inteiro ficou tenso. A palidez tomou conta de seu rosto como uma onda.

— Não… — sussurrou ela, com a voz embargada. — Laurent…

Meu sangue gelou. Sentei-me lentamente, sentindo o corpo tremer, mas não de frio.

Diante de nós, parcialmente oculto pelas sombras, estava ele. O vampiro de olhos frios e sorriso calculado. Um fantasma do passado de Bella.

— Estavam com saudades? — ele disse, inclinando levemente a cabeça, como quem saboreia o medo.

Bella recuou um passo. Eu permaneci sentada, com o coração martelando no peito.

— Isso não pode estar acontecendo… — murmurei, finalmente sentindo medo de verdade.

Laurent deu um passo adiante, e a floresta ao redor pareceu encolher.


— Os Cullen e os lobos estão por perto — tentou avisar Bella, sua voz firme apesar do medo. — Você sabe que não pode fazer isso.


Laurent sorriu. — Eu sei. Mas não estou aqui para atacar… ainda. Só vim entregar um recado.


Ele ergueu uma mochila preta que estava pendurada em seu ombro. O zíper se abriu devagar, como se ele saboreasse a tensão no ar. Meu coração batia descompassado.


— Que recado? — Bella perguntou, trêmula.


Laurent riu baixinho. Um riso que parecia envenenado.


— Um adeus de Victoria... e uma prova.


Ele enfiou a mão dentro da mochila e tirou algo. Meu estômago se revirou quando vi o que era.


A cabeça de Riley.


Bella levou as mãos à boca, o horror estampado em seu rosto.


— O Riley, não… — sussurrei, mas minha própria voz soou como um grito rasgado pelo vento da floresta.


O mundo ao meu redor se tornou uma névoa indistinta. Meus olhos focavam naquela coisa grotesca que Laurent acabara de tirar da mochila — um amontoado de tecidos manchados de sangue, um pedaço de corrente quebrada, e... o anel. O anel que Riley nunca tirava do dedo.


Senti minhas pernas fraquejarem e o ar fugir do peito como se alguém tivesse socado meu estômago com toda a força. Caí de joelhos na lama, as mãos cravadas na terra molhada, tentando encontrar algo que me ancorasse à realidade. Mas não havia mais chão. Não havia mais sentido.

— O Riley não… não… — as palavras escapavam entre soluços, entre dentes cerrados. — Você tá mentindo… isso é mentira!

A dor era como fogo correndo sob minha pele.

Meu corpo não respondia, meus pulmões pareciam implodir, e minha garganta ardia com o grito que eu acabara de soltar — um grito que não era só de dor, era de negação, de perda, de um luto tão bruto que me tirava o fôlego.

— Riley... — sussurrei entre os dentes, o nome dele pesando como uma âncora no peito. — Não...

As imagens começaram a surgir como flashes violentos, me atropelando.

Riley sorrindo para mim na varanda da casa de Charlie.

Riley passando os dedos pelo meu cabelo e dizendo que eu era o caos mais bonito que ele já conhecera.

Riley me puxando pela cintura e sussurrando que me amava, mesmo quando tudo era proibido.

"Eu sou seu, Renesmee. Mesmo quando o mundo for contra nós."

A lembrança da voz dele me rasgou por dentro.

Caí de joelhos na lama, o corpo trêmulo, os olhos marejados fixos na prova suja e ensanguentada que Laurent ainda segurava — uma camisa. A dele. E o colar que eu havia dado no Natal.

— Não! — gritei de novo, minha voz ecoando na floresta, selvagem, animalesca.

— Riley, não faz isso comigo... — murmurei, enquanto as lágrimas caíam como chuva quente.

Bella ajoelhou-se ao meu lado, desesperada.

— Nessie! Calma, olha pra mim. Vai ficar tudo bem... — Ela tentou me abraçar, mas eu me desviei com um impulso que não parecia meu.

— Tá queimando... — sussurrei, as mãos pressionando o chão como se pudesse me firmar na terra. — Bella... tá queimando!

Ela arregalou os olhos.

— O quê?

Meu corpo começou a tremer, e não de frio. Era algo dentro de mim — um calor insuportável, como se os ossos estivessem sendo moldados novamente. Senti as veias pulsarem com fúria, como lava prestes a explodir.

Bella recuou um pouco, reconhecendo aquilo.

— Oh, meu Deus... — ela disse baixinho. — Não... Não pode ser...

— O que tá acontecendo comigo?! — gritei, meus dedos afundando na terra molhada. — Eu... eu não...

A dor aumentava, irradiando da minha espinha, das costelas, do crânio. Não era só luto — era transformação. Algo ancestral, bruto, selvagem. Algo que Leah e Seth haviam vivido, e agora parecia se manifestar em mim também.