Coração de loba
37 Loba
Narrado por Jacob
A floresta já estava tomada por uma penumbra fria quando Sam nos deu novas instruções. Dividiu a ronda noturna: Paul, Quil e Jared descansariam nas primeiras horas; o restante da matilha revezaria à noite. Eu, Embry, Leah e Jared seguiríamos agora, em nossa forma lupina, vasculhando a floresta ao redor da clareira onde planejaríamos combater os recém-criados.
— Fiquem atentos ao leste — Sam ordenou. — Ainda temos rastros frescos por ali.
Enquanto corríamos entre as árvores, conectados mentalmente, começamos a trocar ideias sobre a ameaça iminente. A tensão estava em cada galho que estalava sob nossas patas.
— Alguém mais tá com um pressentimento estranho? — Embry comentou, farejando o ar.
— Estranho é pouco, respondi. — Tem algo errado hoje.
De repente, a voz animada de Seth irrompeu na conexão mental:
— Encontrei um rastro! Ao norte, a pouco mais de um quilômetro! É recente!
— Seth, não era pra você estar em casa? — Leah rosnou. — Sam foi claro.
— Desde quando você se importa com o que Sam diz, maninha? — Seth rebateu, rindo mentalmente.
— Opa... — Embry fez uma careta mental. — Pegou pesado, Leah...
Ela respondeu com um rosnado surdo.
A conversa cessou quando captamos o cheiro inconfundível de Laurent. Nos espalhamos, cada um assumindo um flanco para cercar o sanguessuga. Eu corri com tudo, guiado pelo faro, mas, no último momento, o perdi entre as sombras e o mato alto. Rosnei de frustração.
— Merda! Ele sumiu!
— Não sumiu não! — Seth gritou. — Achei ele de novo! Está indo em direção ao sul!
Leah tentou conter o irmão:
— Seth, não enfrenta esse desgraçado sozinho! Espera por nós!
— Tarde demais! Já tô seguindo!
Corremos como se nossas vidas dependessem daquilo. E talvez dependessem mesmo.
Segundos depois, o cheiro de Laurent ficou mais forte... e então, algo me atingiu no estômago: o perfume de Renesmee.
— Não... não... o que ela está fazendo aqui? — murmurei, angustiado.
Seguimos o cheiro até encontrarmos uma cena que congelou até nossos instintos.
Laurent estava ali, diante de Bella e Renesmee. A garota estava de joelhos, mãos no chão, gritando como se o mundo tivesse acabado. O vampiro nos olhou por um segundo e correu, sumindo antes que alguém pudesse alcançá-lo.
Bella tentava se aproximar da irmã, mas eu senti que algo estava errado. Muito errado.
— A febre, disse Leah, parando ao meu lado. — A febre a atingiu...
Saltei de minha forma lupina, voltando ao corpo humano. Sem me importar com a dor do processo, me aproximei dela devagar, mãos erguidas.
— Renesmee... sou eu. Jacob. Eu vou te ajudar. Fica comigo, por favor...
Bella tentou tocá-la.
— Bella, não! — gritei.
Mas era tarde.
Renesmee se virou num movimento abrupto e a mão dela acertou Bella com força e Bella foi lançada para trás e caiu na lama.
— Merda! — corri para impedi-la de fazer mais.
Jared correu até Bella e a ajudou a se levantar, checando se ela estava bem.
— Seth! — gritei, os olhos ainda fixos em Renesmee. — Vai! Chama o Sam! Agora!
Ela tremia. O corpo inteiro dela parecia prestes a explodir. Os olhos estavam carregados de dor, medo e algo primal que começava a despertar de dentro.
Eu me ajoelhei à sua frente, mesmo com o risco de ser atacado de novo. Ela era minha Nessie. Minha vida.
— Eu tô aqui, tá me ouvindo? Não tá sozinha. Eu juro que não tá sozinha. Vou ficar com você. Sempre. Mesmo se o mundo inteiro desabe.
Ela respirava com dificuldade, a pele queimando, os músculos tremendo, e então, com um último grito de dor... o lobo dentro dela começou a emergir.
Narrado por Renesmee
A dor...
Era mais do que física. Era uma força brutal, esmagadora, que me puxava para baixo, me despedaçando de dentro para fora. O mundo girava, e eu gritava, mas minha voz se perdia no vazio. A dor no peito não era apenas de febre — era luto, era desespero, era a certeza de que tudo o que eu mais amava havia me sido arrancado.
Primeiro minha mãe…
Depois Harry…
Agora Riley.
Riley, com aquele sorriso torto, aquele jeito sarcástico e protetor. Lembrei dele me abraçando no esconderijo, sussurrando que tudo ia ficar bem. Lembrei das vezes que ele me olhava como se eu fosse a única coisa boa naquele mundo podre.
“Eu te amo, Nessie.” Ele tinha dito. Ele jurou que voltaria.
Mas ele mentiu. Ou talvez não pôde cumprir.
— O Riley, não… — minha voz saiu engasgada, um sussurro entre soluços. — Não ele… não ele também…
Caí de joelhos, sem forças.
Minhas mãos tocaram o chão úmido, e de repente… queimou.
— Está queimando… — murmurei, arqueando as costas, tentando entender o que estava acontecendo. Uma febre violenta, algo que rasgava minha pele por dentro, como se cada osso estivesse se partindo e se reorganizando. Era insuportável.
Ouvi vozes ao longe… gritos.
Vi Bella tentar se aproximar.
Vi Jacob… ele estava ali.
Por quê ele? Por que justo ele ?
Ele também me deixou.
Eu o amei, e ele me abandonou.
Eu queria gritar isso, mas não conseguia. Tudo queimava, tudo ardia, tudo rodava.
Então aconteceu.
A floresta clareou de repente.
Mas não era a luz que mudava — era a forma como eu a via.
Meus olhos viam diferente, as cores mais nítidas, o mundo mais… vivo.
Olhei para baixo…
E não vi mãos.
Vi… patas.
Patas grandes, fortes, cobertas de pelo.
Meu coração — ou o que quer que fosse aquilo agora — disparou.
Tô sonhando… tô delirando… isso não é real.
Tentei correr, mas minhas patas tropeçaram umas nas outras. Caí de lado, a grama amassando sob meu corpo.
Foi então que ouvi.
Vozes.
Na minha mente.
Uma confusão de pensamentos, emoções, lembranças que não eram só minhas.
— Calma! — era Jacob?
— Ela precisa de espaço! — Leah?
— Ela me ouviu? Ela consegue nos ouvir? — Seth?
— Respira, Renesmee. Tá tudo bem. Você tá com a gente agora.
Minha mente era um turbilhão. Tudo em mim gritava para fugir.
— Você está bem, Nessie? — uma voz ecoou na minha cabeça.
Assustada, tentei identificar de onde vinha, mas não havia boca, nem som externo. Só aquela voz dentro de mim. E então outra surgiu, mais profunda e divertida:
— Ei, não vai cair de novo, hein?
A voz era de Paul. Eu o reconheceria em qualquer lugar. Logo vieram mais.
— Nossa mais nova integrante tem pernas ou não? — Embry riu.
— Deixa ela, gente — Sam disse, sua voz firme, mas acolhedora. — É a primeira vez.
— Primeira vez é assustador mesmo — comentou Quil. — Quando eu me transformei, quase arranquei a cabeça do Jared.
Eles riam. Eles... estavam dentro da minha cabeça.
Eu estava desnorteada, ainda tentando entender o que estava acontecendo. As vozes, as risadas... era tudo demais. Minha cabeça parecia girar, mas, de alguma forma, o calor que queimava minha pele antes começava a se dissipar. Era como se algo dentro de mim tivesse se rearranjado.
Eegui a cabeça e os olhos âmbar que sempre me perseguiam e que eu sabia de quem eram se fixaram nos meus.
Jacob.
Ele estava ali, parado, em sua forma de lobo — enorme, poderoso, calmo. Seus olhos me encararam com tanta intensidade que, por um instante, o mundo parou.
Tudo ao redor silenciou.
Não havia mais dor.
Não havia mais raiva.
Não havia mais Riley.
Apenas ele.
Jacob.
Senti algo esquisito dentro de mim. Um puxão. Um laço invisível, profundo, instintivo, como se todas as partes quebradas de mim estivessem sendo costuradas de novo apenas com o olhar dele. Como se ele fosse o meu chão e o meu norte. Como se ele sempre tivesse sido meu.
Mas… eu o odiava, não odiava?
Ou achava que odiava.
Porque, naquele instante, não havia ódio. Havia… algo novo. Algo que me preenchia com uma calma absurda. Algo que me fazia querer correr até ele. Estar perto dele. Sentir seu cheiro. Sentir seu toque.
Meus batimentos diminuíram.
Minha mente, antes um redemoinho de dor, agora se aquietava.
— Jacob... — chamei, mas minha voz era só pensamento.
Ele deu um passo em minha direção. Tremi. O que era isso?
Me afastei, confusa. Mas o calor retornou, só que agora era diferente. Não queimava. Era reconfortante. A presença dele acalmava meu lobo.
Eu tinha patas. Eu tinha garras. Eu era uma loba.
E de alguma forma, Jacob era meu elo com a realidade.
O que está acontecendo comigo?
Olhei para ele, paralisada.
E, embora eu não compreendesse ainda, algo dentro de mim sussurrou:
Você pertence a ele. E ele a você.
Mas eu não estava pronta para entender isso. Ainda não.
Narrado por Jacob
A clareza do momento veio como uma brisa depois da tempestade. Renesmee estava ali, parada entre nós, com as patas trêmulas, os olhos arregalados — aqueles olhos castanhos que sempre me perseguiam nos sonhos —, ofegando. Mas o que me desarmou por completo foi o modo como ela me olhou. Como se tudo o que existisse no mundo estivesse concentrado em mim. Era como se o universo tivesse colapsado em um único instante e nos prendido ali.
— Não... — murmurei em minha mente, incapaz de esconder o que acabara de acontecer.
O silêncio foi preenchido pelas presenças dos outros. Paul, Embry, Quil, Sam... até Leah. Todos estavam ali, e todos haviam sentido.
—Ela teve um imprinting também.
As vozes invadiram minha mente como um trovão surpreso. A presença de Nessie em forma de loba, pequena e delicada, se misturava agora com as nossas. Ela podia nos ouvir. E nós podíamos ouvir o turbilhão de pensamentos e confusões dentro dela.
— O que... o que é isso? — a voz dela ecoou, ainda incerta, ainda assustada.
Eu me aproximei, me forçando a manter o controle, mesmo diante da avalanche de sentimentos que batia dentro de mim.
—Você teve um imprinting, minha voz soou em sua mente, firme, mas gentil. — Assim como eu tive por você.
Houve uma pausa, uma hesitação da parte dela. Então ela me olhou novamente e sussurrou:
— Você... também teve isso por mim?
- Sim, confirmei, e meu peito se apertou ao ver o modo como ela abaixou o focinho, como se estivesse tentando processar tudo de uma só vez.
— Chitzu! — Embry gritou em pensamento, rindo. — Ela é a menor loba que já vi! Alguém traz um lacinho rosa pra nossa nova mascote!
Uma onda de risadas atravessou a mente coletiva da matilha. Até Paul soltou um rosnado zombeteiro e Quil completou:
— Nunca vi uma lobinha tão... fofinha...
— Parem com isso, — Sam interveio, mas sua voz tinha um leve tom de diversão. — Jacob... você cuida dela agora. Nós vamos levar Bella de volta para casa.
Olhei para onde Bella estava. Ela ainda estava de olhos arregalados, o rosto pálido, mas sem dizer nada. Jared se aproximou e gentilmente a guiou para longe.
Fiquei ali, sozinho com Renesmee.
- Nessie, estou com você. E nada vai te machucar. Nunca mais.
Ela me olhou, seus olhos redondos e cheios de incerteza. Mas agora, o ódio... o medo... tudo aquilo que ela carregava havia sumido. E, pela primeira vez desde que tudo começou, ela estava em paz.
Mesmo que ainda não entendesse, mesmo que sua mente estivesse confusa...
O imprinting tinha feito seu trabalho.
E eu a protegeria com a minha vida.
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