Coração de loba
39 O último Adeus
Narrado por Renesmee
Acordei com vozes abafadas vindo da sala. Estiquei os braços, ainda sonolenta, e por um segundo me perguntei se tudo aquilo havia sido um delírio — a confusão, o imprinting, Jacob... Mas então senti o cheiro do café, o aroma forte e reconfortante invadindo o quarto, e soube que era real. Estava na casa dele.
Levantei devagar, a camisa de Jacob ainda em mim, longa demais no corpo, mas quente, acolhedora. Atravessei o corredor descalça, com os cabelos bagunçados, os olhos ainda inchados do choro da noite anterior.
Cheguei à sala e os vi.
Jacob estava encostado na bancada da cozinha, calça jeans escura, camisa azul dobrada até os cotovelos. Parecia ter saído de um catálogo de cowboys modernos. Ri por dentro. Maldito imprinting, pensei mais uma vez.
Bella estava sentada no sofá, algumas sacolas ao lado. Ao me ver, ela sorriu de um jeito contido.
— Oi, Nessie — disse suavemente. — Trouxe umas roupas. O Jacob pediu.
— Obrigada — murmurei, andando até eles.
Sentei no encosto do sofá, entre os dois. Fiz questão de ocupar o espaço entre eles. Havia algo naquela proximidade que me incomodava, mesmo que minha irmã não fizesse mais parte da vida amorosa de Jacob. Ainda assim... meu coração apertava. Mas disfarcei.
Jacob me estendeu uma caneca de café quente, o toque de seus dedos nos meus me fez estremecer. Ele sorriu, e aquele sorriso idiota fez meu estômago se contorcer. Desviei o olhar e encarei a televisão.
O noticiário estava no volume baixo, mas as imagens me fizeram congelar. Rostos conhecidos de vítimas. Manchetes alarmantes sobre ataques de gangues. E então... a foto dele.
Riley Biers.
A legenda dizia: “Corpo encontrado em estado avançado de decomposição. Presumido morto após confronto entre facções.”
Senti perder o chão.
Sentei no sofá, sem soltar a caneca. Minhas mãos tremiam. Bella veio para meu lado e me abraçou pelos ombros. Jacob sentou do outro lado, a mão grande cobrindo a minha.
— Ele... — minha voz falhou. — Ele morreu mesmo...
Meus olhos se encheram de lágrimas. Uma parte de mim ainda esperava uma explicação, uma volta improvável, um “não foi bem assim”. Mas ali estava. Real. Cruel. Irreversível.
Bella apertou minha mão.
Jacob não disse nada. Só ficou ali, forte e silencioso, sendo o pilar que eu precisava.
Enquanto as lágrimas escorriam silenciosas, percebi que a dor ainda estava lá. A dor pela morte de Riley, pela destruição de uma família, pelo fim do que eu conhecia. Mas não era a mesma. Ela já vinha misturada com outra coisa. Com a presença de Jacob. Com a certeza incômoda de que, de alguma forma, eu já não era mais só minha.
E naquele silêncio dolorido, entre duas mãos que seguravam a minha, as mágoas passadas deixaram de existir dando espaço para algo.novo que eu ainda não sabia como
O céu de Seattle chorava junto comigo nnaquele final de dia.
As nuvens pesadas cobriam o sol e um vento úmido e frio acariciava meu rosto quando Jacob parou a caminhonete diante do portão do cemitério. Ele não disse nada. Só pousou os olhos nos meus, apertou de leve meu joelho e murmurou:
— Vou esperar aqui fora.
Assenti. Não queria que ele entrasse. Aquele momento era meu e de Riley — ou, pelo menos, do que restava entre nós.
Desci com as pernas trêmulas, respirei fundo e caminhei para dentro do cemitério, onde o caixão já repousava diante da cova aberta. Era estranho. Doloroso. Mas… suportável. A dor estava ali, como uma sombra discreta no peito. Mas não me esmagava. Não era como antes. Como quando achei que o perderia e que nunca mais veria seu rosto. Agora era diferente. Mais resignado. Menos desesperador.
Assim que a mãe de Riley me viu, abriu os braços. Seus olhos vermelhos inchados transbordavam lágrimas que ela não se preocupava em conter. Corri para ela e nos abraçamos forte. Ambas choramos em silêncio, como se estivéssemos conversando através da dor.
— Obrigada por vir, querida — ela sussurrou, a voz embargada. — Sei que ele teria gostado de saber que você esteve aqui.
— Eu precisava vir — respondi, sentindo minha garganta fechar.
O pai de Riley se aproximou logo em seguida. Ele não chorava, mas seus olhos diziam tudo. Ele segurou minhas mãos com força, como se eu fosse a única ponte ainda viva entre eles e o filho que haviam perdido.
— Você sempre vai ser a lembrança mais bonita do Riley — disse ele com firmeza, e aquilo me desmontou de vez.
Assenti, sem conseguir dizer nada. Só apertei as mãos dele de volta.
Os amigos de Riley, Tony e Shawn, me abraçaram. Nayla veio logo depois, com os olhos inchados, e nos abraçamos por mais tempo. Ela sussurrou um pedido de desculpas pelo passado, e eu apenas balancei a cabeça. Não havia mágoa. Só saudade e despedida.
Quando não consegui mais permanecer ali, deixei o cemitério. A grama molhada sob meus pés e o cheiro de terra revirada me sufocavam.
E então o vi.
Jacob estava encostado na caminhonete, as mãos nos bolsos, a camisa alinhada colada ao peito largo, o cabelo desalinhado. Parecia uma pintura viva naquele cenário de tristeza. Só de vê-lo ali, esperando por mim, senti o mundo desacelerar.
Fui até ele em silêncio. Jacob ergueu o rosto, os olhos castanhos encontrando os meus com cuidado, como se procurassem rachaduras.
— Está bem? — ele perguntou, a voz suave.
Assenti. Ele entendeu que, mesmo que não estivesse tudo bem, era o suficiente por enquanto.
Sem pedir, ele abriu os braços, e eu me encaixei neles. Ali, debaixo do céu nublado, o lobo era meu abrigo. E por um instante, eu consegui respirar.
O caminho até Forks foi silencioso. A chuva fina borrava o vidro da caminhonete, e eu observava as gotas escorrerem, tentando não pensar no que tinha acabado de viver. Jacob dirigia tranquilo, respeitando meu silêncio, como sempre fazia.
Quando ele estacionou em frente à casa do meu avô, não desligou o motor.
— Chegamos — ele disse, com a voz baixa, quase gentil demais para o peso da situação.
Assenti, mas permaneci alguns segundos sentada ali, sem saber exatamente como agradecer. Finalmente, virei o rosto em direção a ele.
— Obrigada… por estar ao meu lado hoje.
Ele me olhou fundo, os olhos castanhos iluminados pela luz do poste da rua. Em silêncio, aproximou a mão do meu rosto e tocou meu queixo com a ponta dos dedos, erguendo meu olhar ao dele.
— Eu sempre vou estar ao seu lado, Nessie — disse, com uma firmeza que aqueceu meu peito.
Meu coração disparou. O toque dele, o tom de sua voz… tudo em Jacob me puxava como um ímã. Mas eu não podia. Ainda não. Forcei um sorriso, mesmo sentindo o caos dentro de mim, e desci da caminhonete.
Caminhei até a varanda, minhas mãos tremendo ao procurar a chave na bolsa. Finalmente abri a porta e entrei, fechando atrás de mim com um suspiro pesado. Encostei as costas nela e respirei fundo.
— Nessie? — Bella falou saindo da cozinha— Você tá bem?
— Oi, Bella...estou eu...eu só preciso ir pro meu quarto — respondi rapidamente.
— Tem certeza? Quer que eu leve algo pra você? — ela insistiu, parecia preocupada.
— Não, obrigada. Só preciso ficar sozinha .
Subi as escadas correndo, como se fugir de tudo fosse resolver o turbilhão dentro de mim. Ao entrar no quarto, joguei a bolsa no chão e sentei na cama. Olhei para a chuva batendo suave contra a janela.
Deixei meu corpo cair no colchão e encarei o teto. Meus dedos se fecharam nos lençóis, o cheiro dele ainda impregnado na minha pele, na minha mente, no meu coração.
Por quanto tempo eu ainda conseguiria resistir a Jacob Black?
Eu não sabia.
Mas parte de mim já sentia que a resposta era: não muito.
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