Narrado por Renesmee


Estávamos todos reunidos perto das falésias, num círculo mal desenhado ao redor da fogueira apagada. O vento salgado do mar misturava-se ao cheiro amadeirado da floresta, e mesmo em suas formas humanas, os olhares da matilha eram afiados como os de um predador pronto para atacar.

Sam, sempre firme, tomou a palavra.

— Em cinco dias, os recém-criados chegam. Alice teve outra visão hoje. Eles vão entrar pela trilha norte da reserva. Vamos estar prontos — sua voz soava como uma ordem, e todos assentiram.

Eu cruzei os braços, desconfiada do rumo que aquela reunião tomaria.

— Nessie, você e Seth farão a cobertura de retaguarda. Fiquem atentos a qualquer movimento nas trilhas secundárias — ele disse, como se minha função já estivesse decidida.

Revirei os olhos, incapaz de me conter.

— Isso é brincadeira, Sam? Eu quero a frente. Eu quero a Victoria — cuspi seu nome como veneno. — Quero fazer com ela o mesmo que ela fez com o Riley.

Um silêncio desconfortável pairou no ar. Até Seth desviou o olhar. Jacob, ao meu lado, apertou a mandíbula.

Sam balançou a cabeça, impassível.

— Justamente por isso você não vai. Não pensa com a cabeça. Vai se expor. E Jacob vai estar de olho pra garantir que você siga o plano.

— Isso é ridículo! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Eu sou mais forte do que muitos aqui, e você me joga pra cobertura?

— Não é sobre força, é sobre controle — Sam respondeu, e foi como um tapa na cara.

Senti minha raiva crescer, fervendo sob a pele. Sem dizer mais nada, virei as costas e saí pisando firme entre os arbustos, a adrenalina ainda me impulsionando.

— Nessie! — ouvi Leah me chamando e senti seus passos me seguindo.

Continuei andando até me afastar do grupo, só parando quando senti que podia respirar sem explodir.

Leah encostou ao meu lado, com os braços cruzados.

— Você sabe que o Sam só quer proteger você, né?

— Eu não quero proteção. Eu quero justiça.

Ela soltou uma risada curta.

— Justiça e vingança às vezes andam juntas... e às vezes se confundem.

Suspirei, olhando para o céu que começava a mudar de cor. A guerra estava se aproximando, e eu sentia que, desta vez, não conseguiria ficar em segundo plano.

— Eu só... não sei quanto tempo mais consigo fingir que não me importo. Com tudo isso. Com Jacob. Com o que eu perdi.

Leah não respondeu de imediato. Apenas me acompanhou em silêncio, e de alguma forma, sua presença foi o suficiente para que eu não me sentisse tão sozinha naquela noite.

— Você teve sorte — disse Leah, depois que nos afastamos da clareira onde Sam dava ordens como se fosse o dono do mundo. — Sorte de ter tido um imprinting.

Eu ri, sarcástica.

— Sorte? Você chama de sorte ter uma ligação mística com o seu ex, que te largou e depois colocou um galho na sua cabeça com a sua própria irmã?

Ela riu também, balançando a cabeça.

— Tá, nesse ponto… você venceu.

Rimos juntas. Era bom rir um pouco, mesmo com o coração amassado e a raiva fervendo no peito.

— Mas falando sério, Renesmee… eu daria qualquer coisa pra ter uma impressão. Talvez assim eu apagasse o Sam da minha vida de vez.

— Você acha mesmo que o imprinting é uma libertação? — perguntei, parando de rir. — Porque pra mim parece mais uma prisão.

Leah me olhou por um tempo antes de responder.

— A impressão não é uma obrigação, Nessie. Ninguém é obrigado a nada. Você não deve nada ao Jacob. Só porque o imprinting existe, não quer dizer que você perdeu o direito de escolher.

— Mas ninguém nunca resistiu, Leah… nunca.

Ela respirou fundo.

— Porque no fundo, o imprinting revela algo que já está ali. Você sente, você quer, mas tá com medo de se render. E tudo bem. Só que... também não precisa ser agora. Faça ele esperar. Sofrer um pouco. — Ela me lançou um sorriso travesso. — Deixa ele provar do próprio veneno antes que você mesma não consiga resistir mais.

Mordi o lábio e soltei uma risada curta, gostando da ideia mais do que deveria.

— Isso seria cruel.

— Seria justo — ela corrigiu. — Ele que cavou o próprio buraco. Agora que se vire pra sair.

Nos olhamos e rimos juntas mais uma vez, como duas conspiradoras em meio à guerra. E pela primeira vez em dias, meu peito não estava tão pesado. Talvez eu não precisasse decidir tudo agora. Talvez... fosse a hora do Jacob sentir um pouquinho o que era viver com dúvidas no coração.


A fogueira já ardia quando me aproximei do círculo formado à beira do penhasco. Leah se afastou discretamente e foi se sentar ao lado da mãe, deixando espaço livre ao meu lado. Mal tive tempo de acomodar-me na pedra antes de sentir a presença ao meu lado.

Jacob.

Ele se sentou devagar, os ombros largos cobertos pela camisa de flanela dobrada nos cotovelos, os olhos castanhos encontrando os meus com ternura. Eu desviei o olhar, tentando controlar o rubor que ameaçava subir ao meu rosto.

—Então já começou minha vigilância, é isso? — perguntei num tom levemente ácido, cruzando os braços e encarando o fogo.

Ele riu baixo, aquele som grave que sempre me fazia sentir mais quente por dentro do que a própria fogueira.

— Não. Mas se fosse isso, eu estaria me voluntariando de novo e outra vez — disse com suavidade. — Não gosto de ver você frustrada, Ness. Eu só quero te proteger... mas também quero te dar o que você quer.

— É mesmo? — respondi, erguendo uma sobrancelha e o encarando de lado. — Porque não parece. Você e o Sam parecem mais preocupados em me manter à margem, como se eu fosse frágil.

Ele se virou um pouco, ficando de frente para mim, os olhos ainda presos aos meus.

— Não é isso. Eu sei o quanto você é forte. Mas eu também conheço sua dor. E não vou te lançar no meio do fogo só porque você quer se punir ou provar algo a alguém.

Minhas mãos apertaram o tecido da calça jeans. Ele sempre sabia onde apertar, como tocar justo nos pontos que eu tentava esconder de todo mundo. Suspirei.

— Eu não quero me punir — murmurei. — Eu quero justiça. Quero que Victoria sinta o que eu senti. O que o Riley sentiu.

Jacob tocou meu braço com delicadeza, subindo a mão até alcançar meu queixo. Seus dedos eram quentes, firmes e gentis, e quando me vi, já estava olhando direto para ele.

— E você vai ter sua chance — ele disse com um meio sorriso. — Mas não agora. Ainda não. Você é mais importante do que essa raiva, Nessie.

Senti meu coração acelerar e, apesar de mim mesma, corei. O toque dele, o tom da voz, os olhos... Tudo em Jacob me fazia querer me inclinar e esquecer que um dia lutei contra isso.

Mas eu não podia. Ainda não.

Virei o rosto bruscamente, livrando-me do toque dele antes que fosse tarde demais.

— Você fala como se soubesse o que é melhor pra mim o tempo todo.

— Talvez eu saiba — ele disse com um sorriso de canto, calmo, paciente. — Ou talvez eu só esteja tentando merecer a chance de caminhar ao seu lado... do jeito que for.

O silêncio se estendeu entre nós, com o crepitar da fogueira preenchendo o espaço. A verdade era que meu coração estava gritando. Mas minha razão ainda tentava segurar o corpo inteiro.

E eu odiava admitir que já estava perdendo essa luta.