Coração de loba
14 O Erro
Notas iniciais
Narrado por Jacob
Voltei pra oficina com os pensamentos bagunçados como a bancada onde deixei as ferramentas. Ainda ouvia a voz da Nessie ecoando na minha cabeça, doída, ferida. Ela tinha razão em se sentir assim. Mas... e se eu também tivesse?
Quando entrei na garagem, vi que a caminhonete vermelha ainda estava parada do lado de fora. Bella.
Ela estava sentada na beirada da calçada, com os olhos baixos e a expressão pesada. Levantou quando me viu.
— Eu já tava indo — ela disse, ajeitando a manga da blusa como se quisesse parecer menos desconfortável.
— Não precisa ir, Bells.
Ela me olhou com cautela.
— Jake, eu não quero atrapalhar. Eu vi o jeito como ela me olhou. A garota, a... Renesmee. E eu entendo. Eu não devia ter vindo.
— Não é só sobre ela. — falei, quase num impulso. — Eu tô no meio disso tudo também, sabe? Você voltou, e tudo parece como antes. Mas não é.
— Exato. Não é como antes — Bella disse, dando um passo mais próximo. — Você tem outra pessoa agora. E ela te ama. Eu não quero ser o motivo de algo acabar mal pra você.
— Você não é o motivo. — insisti, encarando os olhos castanhos que eu conhecia há tanto tempo. — Você foi minha melhor amiga. Ainda é. Eu não quero te perder, Bella.
Ela suspirou, desviando o olhar por um instante.
— Eu só acho que talvez eu deva manter distância. Deixar você viver sua vida com ela.
— E se eu não quiser isso?
Bella piscou, surpresa.
— E se eu ainda quiser você por perto? — continuei. — Eu sinto sua falta, Bells. De verdade. As coisas com a Nessie são incríveis, mas... com você é diferente. É outra parte de mim. Uma parte que eu não sei deixar pra trás.
Ela mordeu o lábio, claramente dividida.
— Jake...
— Me dá um tempo. Pra ajeitar isso — falei com sinceridade. — Mas não vai embora. Não desaparece.
Silêncio.
Então ela assentiu devagar.
— Tá. Mas… tudo bem.
Assenti também, mesmo com o peito apertado.
— Assim que eu terminar de arrumar as motos, quero que a gente teste juntos. Como nos velhos tempos.
Um sorriso apareceu no canto da boca dela. Pequeno. Nostálgico.
— Com você pilotando? Nem pensar.
Não vimos o tempo passar.
Bella desceu do carro em silêncio. A noite estava fria, mas não era isso que me fazia estremecer. Ela parou na varanda, me olhando de um jeito que não via há anos — um misto de cuidado, confusão... e saudade.
— Então nós vemos manhã? — ela perguntou, quase num sussurro.
Assenti, mas não me movi. Ficamos ali, parados, como se algo nos prendesse ao chão.
— Bella... — comecei, e a palavra saiu carregada demais. Talvez com lembranças que deveriam ter ficado enterradas.
— Você e a Nessie...conversaram?— ela quis saber.
— Ainda não — Respondi.
Ela assentiu devagar, e por um momento a olhando . Ela era Bella. A garota que um dia eu amei com tudo o que tinha.
— Você sempre foi intenso demais, Jacob... — ela disse, rindo sem humor. — Não mudou nada.
— Não. Talvez eu só tenha fingido bem.
O silêncio cresceu entre nós. Estávamos próximos. Perto demais.
E então aconteceu.
Não sei quem se aproximou primeiro. Talvez tenha sido instinto. Talvez tenha sido fraqueza. Mas nossos lábios se encontraram. E por um instante, o mundo calou. Era como voltar para um lugar conhecido. Um lugar onde, por mais que o tempo tivesse passado, o sentimento ainda existia, adormecido.
Quando nos afastamos, eu mantive minha testa colada à dela. Meu peito ardia em culpa e clareza.
— Isso está errado... — sussurrei. — Eu e a Nessie não terminamos.
Bella fechou os olhos, respirando fundo.
— Eu sei. E você vai fazer a coisa certa. Como sempre faz.
— Eu te amo, Bella — falei, a voz rouca, quase um pedido de desculpas.
Ela sorriu e olhou para a rua deserta antes de voltar os olhos para mim.
— Charlie não tá em casa. E pelo jeito… não vai chegar cedo.
Ela disse aquilo com naturalidade, mas sua voz carregava algo mais. Um convite velado. Um impulso contido que agora ganhava espaço.
Eu hesitei por um segundo. Só um segundo.
Ela abriu a porta e olhou por cima do ombro.
— Quer entrar?
Eu entrei.
A casa estava mergulhada em silêncio. Cada passo sobre o assoalho de madeira parecia mais alto do que deveria. Fechei a porta atrás de mim, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Bella se virou, me encarou… e me beijou.
Dessa vez, não houve tempo para pensar no certo ou errado. Não havia espaço para moral ou culpa. Só havia nós dois. O passado, o agora.
Beijá-la foi como abrir um baú enterrado há anos. E dentro dele, tudo ainda ardia.
As mãos dela encontraram meu rosto com familiaridade. As minhas deslizaram por sua cintura. E quando ela entrelaçou os dedos nos meus e me puxou em direção à escada, não resisti.
Subimos às pressas, tropeçando em memórias. O quarto era o mesmo. O perfume dela, também.
Entramos aos beijos, a porta se fechando atrás de nós como um selo.
Bella me empurrou levemente até que minhas costas encostaram na porta. Ela me beijava com fome e urgência, como se o tempo perdido finalmente tivesse cobrado seu preço. Suas mãos deslizaram pelo meu peito, e num movimento firme, ela puxou a barra da minha camisa.
— Tem certeza disso? — perguntei, com a respiração entrecortada, olhando bem dentro dos olhos dela.
Ela assentiu, sem hesitar.
— Tenho...
Deixei que ela tirasse minha camisa. O toque dela, o jeito como me olhava… era como eu sempre havia desejado, mas com toda a intensidade do agora. Em questões de segundos nossas roupas estavam pelo chão do quarto. Bella deitou na cama lentamente e nossos corpos se encaixaram naturalmente. As unhas dela cravaram em.minjas costas quando ela chegou ao ápice e em seguida eu também cheguei. Nossas bocas se encaixaram com a respiração pesada, corações acelerados, como se estivéssemos redescobrindo um ao outro depois de uma eternidade separados.
O mundo lá fora deixou de importar.
Ali, só existia ela.
E eu.
O quarto estava silencioso, exceto pelo som suave da nossa respiração ainda descompassada. Bella estava deitada ao meu lado, com a cabeça apoiada no meu peito, traçando círculos suaves com os dedos sobre minha pele.
Mas tudo o que eu sentia era um peso esmagador na consciência.
— Isso foi errado — sussurrei, quebrando o silêncio. Minha voz saiu rouca, carregada de culpa. — Eu... Bella, eu agi errado com você. E com Renesmee.
Ela ergueu o rosto para me encarar, seus olhos castanhos, cheios de sentimentos confusos.
— Jake... — começou, mas eu continuei.
— Eu não terminei com ela. Eu deveria ter esperado. Deveria ter sido honesto antes de fazer qualquer coisa com você.
Bella se sentou na cama, puxando o lençol até os ombros. Havia tristeza no olhar dela, mas também firmeza.
— Eu também errei, Jacob. Eu sei que vocês ainda estavam juntos e mesmo assim te beijei. Te trouxe até aqui. — Ela abaixou o olhar por um instante, depois voltou a encarar o meu. — Mas eu quis.
Suspirei, passando as mãos pelo rosto, sentindo o peso daquela noite.
— Eu te amo, Bella. Sempre te amei. Mas... preciso resolver isso com a Nessie. Ela merece a verdade.
Bella assentiu devagar, com os olhos marejados.
— Eu sei olha....não precisa se sentir preso a mim pelo que aconteceu hoje.
Me levantei, peguei minha camisa do chão e me vesti em silêncio. Antes de sair do quarto, olhei para ela uma última vez.
— Eu não sei o que vai acontecer... mas você merece mais do que ser um segredo.
Ela esboçou um sorriso .
— Eu sei que não serei.
Me aproximei e beijei sua testa.
E eu fui. Carregando o peso do que aconteceu... e a certeza de que minha próxima conversa com Renesmee não seria fácil.
Narrado por Renesmee
Eu estava nem casa sentada à mesa com Sue, segurando uma caneca de café quente entre as mãos. Ela sorria gentilmente, sempre tentando me fazer sentir confortável, como se soubesse o caos que estava dentro de mim.
Foi então que a porta se abriu. Jacob.
Meu coração deu um salto antes de se encolher de novo. Ele estava ali, parado, com aquele olhar que me dizia mais do que qualquer palavra poderia dizer. Sue o cumprimentou com um sorriso.
— Quer um café, Jacob?
— Não, obrigado. — A voz dele estava firme, mas tinha algo... algo quebrado. — Preciso falar com a Renesmee.
Assenti em silêncio, deixei a caneca na mesa e caminhei até ele. Sue nos observou com olhos preocupados, mas não disse nada. Saímos juntos, andando em silêncio até a praia.
O céu estava nublado, o vento gelado, como se o universo combinasse com o que eu estava prestes a ouvir.
— Você parece... diferente. — murmurei, finalmente quebrando o silêncio. — Não ligou, nem sequer enviou uma mensagem... nem sequer tentou me ver nessas últimas semanas.
Ele parou de andar. Ficamos ali, diante do mar revolto. Jacob respirou fundo e virou o rosto pra mim, mas não me encarou de verdade.
— Você me fez tão bem, Nessie. — disse, com a voz baixa. — Melhor do que eu jamais pensei que alguém poderia.
Meu coração apertou. Era isso. Eu sabia. Estava escrito no rosto dele.
— Vai terminar comigo, é isso? — perguntei, tentando manter a voz firme. Por dentro, tudo gritava.
Ele assentiu. Não disse nada. Apenas assentiu.
— Você merece alguém inteiro. Alguém que te ame do jeito certo.
— Já entendi tudo, Jacob. — falei entre os dentes, tentando conter as lágrimas que ardiam nos olhos. — Você não consegue nem me olhar.
Ele ainda não conseguia. Olhava o mar, olhava a areia... menos eu.
A raiva queimou em mim.
— Você transou com ela? — perguntei, seca. — Com a Bella?
O silêncio dele respondeu por si. Foi o bastante.
A dor virou fúria.
Levantei a mão e o estalo ecoou no ar quando minha palma encontrou o rosto dele. Ele não reagiu.
Tirei a pulseira que ele tinha me dado de aniversário, aquela que eu não tirava nem pra dormir, e joguei com força contra o peito dele.
— Isso é tudo o que sobrou de você pra mim.
Virei as costas e comecei a andar. Não olhei pra trás.
Eu não conseguiria.
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